segunda-feira, 13 de maio de 2013

Não cabe pesquisar: o rei está nu e pretende continuar assim


Matéria do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba: aumentam investimentos em ciência no Paraná. Aumentam muito, 82%. Legal, não é?

Mas, antes de comemorar, leia um trecho do texto:


Apesar do aumento no investimento na área, um desafio ainda é tornar as pesquisas realizadas nas universidades acessíveis à sociedade. Para o pró-reitor de pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Waldemiro Gremski, que integra o Conselho do Fundo Paraná, há uma cultura de isolamento entre o setor empresarial e as universidades. ‘Isso faz com que 90% das pesquisas terminem logo que são publicadas. Não se transformam em produto ou benefício para a comunidade’, diz.

Cabe perguntar: então, para quê? 

Não, não estou dizendo que é ruim investir em pesquisa. Pelo contrário, pelo menos se mostra valor pelo conhecimento, pela capacidade intelectual. Ótimo. Mas, um dos objetivos da pesquisa acadêmica é contribuir com a vida humana, com a sociedade e por aí vai. Por outro lado, claramente se tem resumido as ações de empreendimento a isso que o texto refere como “setor empresarial”. Nada se faz se este não se interessa, quando é o caso de algo que não trará lucro e aumento de capital. 

Se não se lucra, nada se faz. 

Então, além de perguntar para que se pesquisa se não se usa a pesquisa, devemos perguntar por que é que esse tal “setor empresarial”, que visa lucrar, é o encarregado de agir, de fazer as coisas. Ok, parece que é algo natural, mas não custa perguntar, ainda que a não se encontre resposta aceitável. Afinal, se o setor empresarial quer lucrar, não quer contribuir com a vida humana, com a sociedade etc. Quer lucrar e a contribuição social não parece ser mais que um ganho secundário. Está certo isso? 

Vamos pensar um pouco e fazer três perguntas:

1. É autêntico? 

Sim, se formos levar em conta a aceitação do fato. Todos pensam que cabe ao empresário fazer as obras e quando o governo faz, ainda as entrega de mão beijada para serem exploradas comercialmente pelo empresário. Como no caso do Maracanã. Mamata, véi. 

Não, se levarmos a sério a razão. Não é racional encarregar alguém de uma ação quando esse alguém tem prioritariamente o objetivo de extrair vantagens pessoais dessa ação. Em último caso, você pode usar uma pessoa como essa, não sempre. Problemas serão quase inevitáveis no quesito qualidade, pois para obter lucratividade o empresário terá que reduzir custos, sempre. E, em 99% dos casos, reduzir custos representa baixar o nível. 

2. Isso é bom?

Claro que não, no mínimo pelo motivo elencado no último parágrafo. 

Mas, como tudo tem dois lados, é bom, pois uma empresa é um conjunto de pessoas e, logo, se essas pessoas têm trabalho, não estão por aí olhando torto e com olhos cobiçosos para quem tem trabalho e dinheiro. Logo, o bom aí é relativo à prevenção de problemas, não um bem em si. 

3. É útil?

Depende de para quem e para quê. Deve-se levar em conta também o item “em que momento”. Se não há alternativa, algo, mesmo que mau e inautêntico, pode ser útil. Não há outra saída mesmo... 

No entanto, é mais útil que tudo se perguntar exatamente quem ganha e o que ganha com isso. E algo feito “nas coxas”, apenas para lucrar, pode ser útil num determinado momento e terrivelmente inútil, ou mais que isso, trágico, em outro. Um exemplo é direto e simples: quando Sergio Naia construiu o edifício Palace II, foi útil para aquelas famílias que compraram apartamentos. Depois, você sabe o que aconteceu. 

Este mundo é uma sala de espelhos. Se você quer entendê-lo, precisa ver invertido. 

Só não se desespere: não adianta e piora as coisas. Que tal, já que se investe tanto em pesquisa, fazer um estudo sobre isso. Ah, sei, isso não interessa ao mercado: o rei está nu e pretende continuar assim. Desse modo, você pode passar seu tempo imaginando uma nova roupa real a cada momento, como as pilhas-humanas de Matrix.

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