sexta-feira, 24 de maio de 2013

Aplausos para Joaquim Barbosa


Me dizem: o TSF é um circo, o Congresso idem, o Executivo está contratando palhaços a quilo e, que mais? No caso, o choque entre TSF e Congresso é compreensível, pois, além de interesses gerais e localizados, há uma total e absoluta confusão acerca do que seja não apenas a função dessas “casas”, mas mesmo do que seja o sentido da existência delas (Isso, na realidade, na prática, não no discurso ou na fantasia). 

Explico. Para nos conduzirmos na realidade, precisamos de certa razão, certa racionalidade. Digo certa, mas quanto mais pudermos contar com a racionalidade, principalmente nas instituições, melhor. Nossa sanidade agradece. 

Ora, a racionalidade tem um desvio, o racionalismo e muita gente confunde uma com o outro. Racionalismo é a caricatura da razão: um discurso feito para ocultar algo que, se surge, desarticula o discurso racionalista, mas articula o discurso racional. O racionalismo se constrói como ideologia, no sentido de ideologia como tentativa de ocultação do real. Assim, por exemplo, nossa democracia é liberal, o que significa que é meramente representativa, isto é, representantes eleitos falam em nome da multidão. Mas, na prática, essa conversa de representatividade é uma fala racionalista, pois oculta que os sujeitos eleitos não representam quase nada além de seus próprios interesses, que estão ligados a interesses de grupos que os sustentam e financiam. 

É possível dizer que há deputados que representam eleitores, mas, curiosamente, são aparentemente poucos e, mais curiosamente ainda, geralmente representam grupos bem delimitados e que se ligam a agremiações tradicionais, como as igrejas/templos e o exército/polícia. O Feliciano, que andou em foco, por exemplo, fala em nome de um grupo que aprova e apoia aquelas sandices que andou dizendo na Comissão dos Direitos Humanos. O Bolsonaro, lá do Rio, fala em nome de um grupo de pessoas que se identifica com o Estado policial, conservadores com baba no canto da boca e sangue nos olhos. Houve os sindicalistas, principalmente nos tempos do PT oposição, que se encaixavam nesses parâmetros. 

No entanto, no geral, os “representantes” são eleitos por serem charmosos, dizerem o que “o povo gosta” (o que é fácil, graças às eficientes pesquisas de opinião, que captam tendências de pensamentos e gostos), por prometerem vantagens nunca possíveis etc. Isso é normal numa sociedade midiatizada, não poderia ser diferente. E, eis um ponto que considero importante, aí está o racionalismo, ou seja, a razão usada como discurso de ocultação, o que significa que não é racional: os “representantes” não representam ninguém, pois a opinião pública (que é medida pelas pesquisas citadas) é, como diz um teórico português, uma entidade sem alma, que é facilmente conduzida. 

Uma característica da democracia liberal incentiva isso: ela é negativa, ou seja, promete um "não" em vez de um "sim", como fazia a democracia original, a ateniense. Veja: a ateniense era positiva, pois dizia: "SIM, participe! Venha à ágora!". A liberal diz: "Pode ficar tranquilo, NÃO vou deixar que ninguém interfira nos seus direitos individuais". Uma é positiva, incentiva a participação; a outra é negativa, a desestimula.

Em suma, como proceder numa situação como essa, com essas contradições praticamente insolúveis? Vomitando as contradições que nos são enfiadas goela abaixo, sob discurso racionalista. O Joaquim Barbosa (JB) tem, de alguma forma, feito isso. E irrita profundamente dois tipos de gente: os que sobrevivem da sustentação da mentira racionalista e, mais especificamente, os que sobrevivem das comissões e outras formas de vantagens do governo atual. 

Como falamos de circo, ora, digo que gosto de vê-lo pegando fogo, pois me parece o mais saudável nas atuais circunstâncias. Assim, gosto do que o JB tem feito. De certo modo, ainda que com instabilidades naturais, tem esquentado a chapa, o que faz com que esse pessoal que defende o status quo fundado na mentira racionalista tenha que dançar.  

Um dia, eu e outros cremos que o PT poderia ser o partido que sacudiria as instituições, abriria espaços para as contradições aparecerem. Ora, o PT não vai fazer isso. No poder, está mais próximo da ARENA do que do MDB, usando referência às siglas dos partidos no tempo da ditadura militar e não quer mexer no que está posto. Alguém tem que fazer isso. E o Joaquim Barbosa está, a seu modo, fazendo. Aplausos. 

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