sexta-feira, 5 de abril de 2013

Vândalos? Sei não... e a anomia, esqueceu?

Fato: ônibus incendiado dá IBOPE e quem o incendiou sabe disso

Queimaram um ônibus na Zona Sul de São Paulo, ontem, relatam as matérias jornalísticas. Leio, em um comentário, um sujeito dizer: “Tem que matar esses filhos da puta!”. Aí, eu me pergunto: por que queimaram o ônibus? Fico sabendo, no sítio jornalístico G1, que foi por conta de uma revolta contra a Polícia Militar, que matou um garoto na região numa de suas abordagens de rotina. Segundo o texto jornalístico, o incêndio foi um “ato” contra a ação dos policiais. Uma forma de manifestação, portanto. 

Baseado nesse fato, quero propor a você uma forma de compreender ações como essa, usualmente classificadas de vandalismo. Não condeno quem as chama desse modo, mas creio que há mais coisas aí do que supõe a vã filosofia de quem o faz. 


Violência como única forma de linguagem

Um dia, li uma entrevista de um sujeito, aquele que escreveu o livro “Cidade de Deus”, acho que Paulo Lins. Ele dizia que, dadas as circunstâncias, dado o modo com o qual as pessoas mais pobres são historicamente tratadas no Brasil, há muito poucos bandidos entre nós. E ele falava de bandidos pobres, não dos ricos que, curiosamente, são muito bem tratados, mas produzem um número incrivelmente considerável de contraventores e larápios, que se escondem sob o epíteto de “empresários” e vão a campo para tirar de mim, de você e de quem mais possam tudo o que puderem, sem oferecer nada ou quase nada em troca, o que caracteriza, é difícil negar, roubo. Exemplo: segundo a agência reguladora das telefônicas, uma empresa do setor andou derrubando as ligações para faturar na rediscagem. Isso não é roubar o cliente? Alguém foi preso por conta disso?  

Se os mais ricos têm se esmerado nas artes do crime, geralmente utilizando torções da lei para fazê-lo, há realmente poucos bandidos pobres e até mesmo poucos pobres e negros revoltados com o modo como seus bisavós, avós e pais foram tratados e, mais grave, com o modo como são tratados, eles mesmos. E se a polícia é a única porta-voz que a sociedade brasileira oferece a esse pessoal, isso significa que não há diálogo, apenas a linguagem da força e da violência. O engraçado é que há os que ficam indignados porque esse pessoal utiliza essa linguagem... Mas, há outra?


Prejuízos na balança

Os ônibus são dos poucos objetos importantes que os menos favorecidos economicamente têm próximos de si para uso nesses casos em que se sentem injustiçados e precisam dizer isso. E note-se que não costumam dirigir seu justificado ódio contra inocentes, salvo casos esporádicos. O pior é que se queimassem a si próprios, como já vimos alguns indianos fazer para protestar, certamente não mereceriam tanta cobertura midiática. Como dito, os ônibus são objetos midiaticamente importantes, ao menos quando acidentados ou queimados. Já a vida dessas pessoas... É como canta Mano Brown: “Minha vida não tem tanto valor, quanto seu celular, seu computador”. 

Proponho entender que é compreensível, ainda que não seja louvável, que aconteçam coisas como esses protestos com ônibus incendiados. E proponho mais: na maior parte dos casos, dizer o contrário é burrice ou moralismo e o moralismo, sendo uma concepção deturpada do que seja a moral, significa burrice do mesmo jeito. 

Alguém argumenta: “Mas, e os prejuízos para a empresa de ônibus, para a comunidade atendida pelo ônibus que foi reduzido a cinzas?” É verdade, há inegáveis prejuízos a todos e, por isso, disse acima que trata-se de algo lamentável. Mas, ponha os fatos na balança. O prejuízo do jovem que morreu, esse ninguém vai conseguir repor. E todos sabemos como a polícia age. Possivelmente o garoto morreu sem muita defesa e não é improvável que não estivesse armado e que não tenha reagido ao ataque policial. Seguindo a lei das probabilidades, deve ter sido executado, caracterizando mais um dos famosos “autos de resistência”, responsáveis pela péssima fama que a polícia brasileira tem no resto do mundo. 

Por tudo isso, o prejuízo do jovem é o potencial prejuízo de todos os jovens pobres da cidade de São Paulo, principalmente os da comunidade do Capão Redondo, local onde ocorreu o assassinato. Talvez o desespero em denunciar isso queimando um ônibus venha desse fato. Não é possível dizer com absoluta certeza, mas que é provável, ah, isso é. 


Vandalismo é outra coisa

E o(a) jornalista do sítio G1 chama os incendiários de vândalos. Essa designação vem da historiografia antiga, pois assim era chamado o povo que desceu da Escandinávia, ocupou a Espanha e desceu mais ainda para o norte da África, onde tomaram a grande Cartago, que já havia sido um pedregulho no sapato do império romano durante muito tempo, até que foi destruída e seu solo foi salgado, para que ali nada mais nascesse. Porém, os próprios romanos a reergueram e os vândalos ali se estabeleceram, depois de saquear Roma e destruir obras de arte, fato que levou os romanos e os povos modernos e contemporâneos a associar o termo “vândalo” ao povo ou indivíduo que depreda bens públicos, odeia e destrói obras de arte etc., sem que haja outra motivação a não ser o prazer da destruição. Embora nada garanta que não houvesse alguma motivação específica no povo vândalo da antiguidade. 

Se tomarmos em conta que o ato de incendiar o ônibus foi citado, pelo(a) próprio(a) jornalista como um “ato” de protesto “contra ação da Polícia Militar”, não cabe a designação de vândalos nesse caso. Segundo a própria matéria, os incendiários não fizeram o que fizeram motivados pelo simples prazer da destruição. Tinham outra motivação, bem articulada e racional, a de se manifestar, até porque sabem que é a praticamente a única forma de ter atenção do jornalismo, de transmitir a um grande número de pessoas uma denúncia contra a Polícia Militar paulistana que, como a carioca e outras, parece gostar de destruir pelo simples prazer de fazer isso. No caso, destruir vidas humanas. Nesse ângulo de percepção, a PM é que pode ser classificada como vândala, mas há quem a defenda. 

Tomando o que a própria matéria jornalística do G1 diz, não são vândalos, então, os incendiários. São cidadãos de uma sociedade de mídias, que entenderam isso e usam as mídias para expressão, criando fatos que as atrairão. Não parecem estúpidos: se mostram inteligentes, agem racionalmente e com coragem. O inimigo é forte e poderoso, mas eles o têm enfrentado com valentia e até mesmo algum método. Não têm nada a perder além da própria vida e a põem no pano verde. Não é qualquer um que faz isso. 


Anomia

Antes que você pense mal de mim, que me chame de apologista da arruaça, do vandalismo e da desordem, lhe pergunto: quando você se depara com uma ordem que considera injusta, que claramente opera contra você e não te oferece canais de argumentação e oposição, como deve agir? 

Pense nisso. Muitas vezes, as circunstâncias incentivam condutas não prescritas como ideais. É o caso das sociedades anômicas, como referido por Émile Durkheim, quando elaborou seu estudo sobre o suicídio. E a nossa sociedade tem se mostrado historicamente propensa a produzir anomias. 

Não defendo arruaça, não faço isso. Mas também não posso pactuar com a anomia. 


Mas, o que é anomia? 

Termo criado pelo formulador do conceito de Fato Social, Durkheim, no trabalho teórico em que aborda o suicídio, para designar uma conjuntura social na qual há incentivo para comportamentos não prescritos manifesta e oficialmente pela sociedade e suas autoridades. Na internet, a Wikipédia refere “(...) um estado de falta de objetivos e perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno”, fazendo menção ao “(...) brusco rompimento com valores tradicionais, fortemente ligados à concepção religiosa”. Esse, efetivamente é um bom exemplo de anomia, pois a eclosão de valores contraditórios em relação aos quais houve o rompimento e a ausência de novos valores que substituam a ordem anteriormente prescrita, pode caracterizar um estado de anomia. 

Depois de Durkheim, Robert Merton também tratou do tema. Ele se pôs a pensar sobre o porquê de ocorrer o tal estado anômico e propôs uma interessante explicação: a anomia ocorreria quando os membros de uma determinada sociedade ou grupo social não encontravam como realizar o que a própria sociedade espera deles, ou seja, alcançar determinados objetivos socioculturais claramente postos. Como não há meios para tal, o indivíduo ou grupo tem que derivar pelo caminho da ilegalidade, do crime, sendo isso objetivamente incentivado pela própria sociedade, direta ou indiretamente. 

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