terça-feira, 23 de abril de 2013

São Paulo, 3 de outubro de 1992


111 detentos assassinados a sangue frio pela Polícia Militar Paulistana. 

Abril de 2013. 23 assassinos são condenados a 156 anos de cadeia, cada um. No massacre, havia 68 soldados. Nenhum sequer se feriu. Atiraram em homens desarmados que, segundo testemunhas, já haviam se rendido, não resistiram, não os atacaram. Muitos haviam se escondido nas celas. 

Os assassinos alegam que cumpriam ordens, o que é uma informação seguramente verdadeira. 

O comandante da chacina, um tal coronel chamado Ubiratan, foi condenado a 632 anos de cadeia em 2001. No ano seguinte, foi homenageado por parte da população, que evidentemente o considerou um herói, com a eleição para deputado estadual. Em 2006 foi absolvido, após recurso. No mesmo ano, foi encontrado morto em seu apartamento, baleado. Na parede do edifício onde morava, a frase: “Aqui se faz, aqui se paga”. 

Resultado da história: o PCC é adubado com sangue, nasce e cresce forte. 

O ódio floresce, a violência é robusta e pornográfica, enriquecendo alguns canalhas e matando outros, além de um ou outro inocente. 

===============================

O massacre do Carandiru visto por dentro

Chacina alimentou facção

Por Luiz Mendes*

Estudantes de direito da Universidade de São Paulo (USP) instalaram na semana passada, em frente ao prédio da faculdade, no centro da capital, 111 cruzes para lembrar o número de presos mortos por policiais militares no Carandiru. 

Comecei a cumprir pena em 19 de julho de 1972. Lembro que, já naquela época, todas as vezes que os soldados da Polícia Militar invadiam a prisão, eles nos ameaçavam. Falavam que um dia viriam para matar, e depois riam debochados do arrepio que nos causavam. Engatilhavam armas em nossa cara e diziam que um dia apertariam o gatilho. Vivi com o pé deles em minha garganta até 5 de abril de 2004, quando fui solto.

Quando abandonavam a cadeia, lambíamos as feridas que eles haviam deixado. Várias vezes tive que ir à enfermaria para costurar cortes de pancadas. Não posso cortar careca porque minha cabeça parece o mapa do inferno de tantos cortes. Quebraram meu braço direito, batendo com uma barra de ferro. Hematomas a gente nem mostrava, era comum, quase todos tinham suas marcas.


Guerra

Era um dia comum de outubro de 1992. Eu estava na Penitenciária do Estado (hoje Penitenciária Feminina de Santana) distraído em meus afazeres e, de repente, escutei o som inconfundível de tiros. E foi crescendo. Muitos tiros, um tiroteio intenso. Parecia guerra, e não parava mais.

Liguei a TV e lá estava: policiais militares haviam invadido a Casa de Detenção que estava ali ao lado. E o tiroteio continuava, agora amplificado pelo som da televisão. Estremeci. Meu Deus! Os soldados estariam matando todo mundo lá dentro? Já havia o precedentes de outras ameaças – e assassinatos.

Em 1987, por exemplo, eles haviam invadido a Penitenciária do Estado e saíram matando pavilhões adentro. Ficamos correndo para todos os lados, como ratos, para nos esconder dos tiros. Pulei os que caíram em minha frente e me escondi em uma oficina junto com outros oito companheiros. Ao final, não fomos mortos por conta de um herói entre nós que se desnudou e, corajosamente, saiu se arrastando nu no chão como caranguejo, até os pés dos soldados. Nós o imitamos. Apanhamos como cães, mas continuamos vivos. 37 companheiros não tiveram a mesma sorte e foram mortos. Nenhum soldado foi processado por tantas mortes. Impunidade, até onde sei, gera continuidade.


Pilhas de corpos

Na Casa de Detenção, o tiroteio cessou e a televisão foi impedida de cobrir os acontecimentos. Mas, espertos, os repórteres encaminharam-se para o Instituto Médico Legal. Então mostraram aquelas cenas horríveis que todos acompanharam. Filas de corpos nus, um ao lado do outro, esburacados. Era uma tragédia. Logo os jornais já falavam em “massacre”. Foi ouvir aquilo e imaginei milhares de mortos, pela quantidade de tiros que ouvi.

Aquilo quebrou cada um de nós que estava preso. Foi aí que se consumou a ruptura que há muito vinha se configurando. Não dava para confiar no bom senso, na humanidade, no respeito à nossa condição de encarcerados, na justiça, nisso de cristianismo, nas pessoas de fora da prisão, nas autoridades e em nada ou ninguém mais. Eles nos queriam mortos. Imaginava que dali para frente seríamos assassinados como patos em parque de diversão.

Por conta da proximidade, alguns companheiros baleados foram, aos poucos, sendo trazidos para o hospital da Penitenciária. Cenas de horror eram narradas em primeira mão. Os soldados queriam matar mesmo e mataram quanto quiseram. Satisfizeram seus instintos bestiais e cumpriram suas ameaças. Alguns matavam ao pé do poço do elevador, depois jogavam os corpos para baixo. Outros matavam e mandavam outros presos carregar os cadáveres até o andar térreo da prisão. Muitos se salvaram lambuzando-se de sangue e se misturando a outros já mortos.

Desse inferno sem Dante restaram 111 presos mortos e centenas de feridos. Cegos pela nuvem de gazes que as bombas esparramaram na prisão, alguns perderam membros, outros foram baleados e morreram depois, em consequência. Nenhum policial ou guarda de presídio foi ferido.


O começo da facção

Para nós, presos, o erro foi confiar. Confiar nos funcionários e deixar que saíssem do pavilhão. Confiar na humanidade da sociedade, da justiça, do governo e até na PM. Sim, nós não acreditávamos que eles pudessem nos matar como ratos. Ainda os víamos humanos como nós. Dali para a frente, tudo se radicalizou. Apoiamos em peso a organização de nossas lideranças que nos prometiam união, justiça e proteção. Até quem era contra acabou por se tornar a favor e a facção proliferou. E, para todas as rebeliões que aconteceram dali por diante, tornou-se imprescindível ter reféns sob ameaça de morte. E muitos deles foram mortos realmente.

*É escritor. Autor de quatro livros, no primeiro deles, “Memórias de um sobrevivente”, discorre sobre os 31 anos em que passou preso. É ainda colunista da revista Trip e, no dia do Massacre do Carandiru, estava em um prédio vizinho, na Penitenciária do Estado.

http://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-massacre-visto-de-dentro-e-seus-frutos/

===============================

DIÁRIO DE UM DETENTO
Jocenir e Mano Brown

São Paulo, dia primeiro de outubro de 1992, oito horas da manhã. 
Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia. 
Você não sabe como é caminhar com a cabeça na mira de uma HK, 
Metralhadora alemã ou de Israel, estraçalha ladrão que nem papel. 
Na muralha, em pé, mais um cidadão José, servindo o Estado, 
Um PM bom, passa fome, metido a Charles Bronson 
Ele sabe o que eu desejo, sabe o que eu penso. 
O dia tá chuvoso, o clima tá tenso, vários tentaram fugir, eu também quero, 
Mas, de um a cem, a minha chance é zero.  
Será que Deus ouviu minha oração? Será que o juiz aceitou a apelação? 
Manda um recado lá pro meu irmão: se tiver usando droga tá ruim na minha mão 
Ele ainda tá com aquela mina? Pode crer, o moleque é gente fina. 
Tirei um dia a menos, ou um dia a mais, sei lá, tanto faz, os dias são iguais.  
Acendo um cigarro vejo o dia passar, mato o tempo pra ele não me matar.  
Homem é homem, mulher é mulher, estuprador é diferente, né? 
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés e sangra até morrer na rua 10
Cada detento uma mãe, uma crença, cada crime uma sentença. 
Cada sentença um motivo, uma história de lágrimas, sangue, vidas inglórias. 
Abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo, 
Misture bem essa química, pronto: eis um novo detento. 
Lamentos no corredor, na cela, no pátio, ao redor do campo, em todos os cantos. 
Mas eu conheço o sistema, meu irmão, aqui não tem santo.
Ra-ta-ta-tá, preciso evitar que um safado faça minha mãe chorar. 
Minha palavra de honra me protege, pra viver no país das calças bege.
Tique-taque, ainda é nove e quarenta, o relógio na cadeia anda em câmera lenta. 
Ra-ta-ta-tá, mais um metrô vai passar, com gente de bem, apressada, católica, 
Lendo jornal, satisfeita, hipócrita, com raiva por dentro, a caminho do centro. 
Olhando pra cá, curiosos é lógico. Não, não é não. Não é o zoológico. 
Minha vida não tanto valor quanto seu celular, seu computador.  
Hoje, tá difícil, não saiu o sol, hoje não tem visita, não tem futebol. 
Alguns companheiros têm a mente mais fraca, não suportam o tédio, arrumam quiaca. 
Graça a Deus e à Virgem Maria, faltam só um ano, três meses e uns dias. 
Tem uma cela lá em cima fechada, desde terça-feira ninguém abra pra nada. 
Só o cheiro de morte e Pinho Sol, um preso se enforcou com o lençol. 
Qual que foi? Quem sabe não conta, ia tirar mais uns seis de ponta a ponta. 
Nada deixe um homem mais doente do que o abandono dos parentes. 
Aí moleque, me diz, então, você quer o quê? A vaga tá lá esperando você. 
Pega todos os seus artigos importados, seu currículo no crime e limpa o rabo. 
A vida bandida é sem futuro, a sua cara fica branca deste lado do muro.  
Já ouviu falar de Lúcifer, que veio do inferno com moral um dia? 
No Carandiru não, ele é só mais um, comendo rango azedo, com pneumonia. 
Aqui tem mano de Osasco, do Jardim d'Abril, Parelheiros, Moji, Jardim Brasil,
Bela Vista, Jardim Ângela, Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis. 
Ladrão sangue bom tem moral na quebrada, mas pro Estado, é só mais um número, mais nada. 
Nove Pavilhões, sete mil homens, que custam trezentos reais por mês, cada. 
Na última visita, o neguinho veio aí, trouxe umas frutas, Marlboro, Free. 
Ligou que um pilantra lá da área voltou, com Kadett vermelho, placa de Salvador. 
Pagando de gatão, ele xinga, ele abusa, com uma 9 milímetros debaixo da blusa. 
Aí, neguinho vem cá, e os manos onde é que tá? Lembra desse cururu que tentou me matar? 
"Aquele puto é ganso, pilantra corno manso, ficava muito louco e deixava a mina só, 
A mina era virgem, ainda era menor, agora faz chupeta em troca de pó”. 
Esses papo me incomoda, se eu tô na rua é foda... 
"É, o mundo roda, ele pode vir pra cá ... ". 
Não, já, já, meu processo tá aí eu quero mudar, eu quero sair,  
Se eu trombo esse fulano, não tem pá, não tem pum, vou ter que assinar um 121.
Amanheceu com sol, dois de outubro, tudo funcionando, limpeza, jumbo.
De madrugada, eu senti um calafrio, não era do vento, não era do frio. 
Acerto de contas tem quase todo dia, vai ter outro logo mais, hum, eu sabia.
Lealdade é o que todo preso tenta, conseguir a paz de forma violenta. 
Se um salafrário sacanear alguém leva ponto na cara, igual Frankenstein. 
Fumaça na janela, tem fogo na cela, fodeu, foi além e se pã, tem refém. 
A maioria se deixou envolver por uns cinco ou seis que não têm nada a perder. 
Dois ladrões considerados passaram a discutir, mas não imaginavam o que estaria por vir. 
Traficantes, homicidas, estelionatários e uma maioria de moleque primário... 
Era a brecha que o sistema queria, avise o IML, chegou o grande dia. 
Depende do sim ou não de um só homem, que prefere ser neutro pelo telefone. 
Ra-ta-ta-tá, caviar e champanhe, Fleury foi almoçar, que se foda minha mãe. 
Cachorros assassinos, gás lacrimogêneo, quem mata mais ladrão, ganha medalha de prêmio. 
O ser humano é descartável no Brasil, com Modess usado, ou Bombril. 
Cadeia, guarda que o sistema não quis, esconde o que a novela não diz. 
Ra-ta-ta-tá, sangue jorra como água do ouvido, boca e nariz. 
O Senhor é meu pastor, perdoe o que seu filho fez, morreu de bruços no Salmo 23, 
Sem padre, sem repórter, sem arma, sem socorro, vai pegar HIV na boca do cachorro. 
Cadáveres no poço, no pátio interno, Adolf Hitler sorri no inferno. 
O Robocop do governo é frio, não sente pena, só ódio e ri como a hiena. 
Ra-ta-ta-tá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue. 
Mas quem vai acreditar no meu depoimento? Dia três de outubro, diário de um detento.

Nenhum comentário:

Postar um comentário