sexta-feira, 19 de abril de 2013

Palavras são palavras, nada mais que palavras (Valfrido Canavieira): sobre a matéria dos comissionados do Paraná


A primeira impressão que tive ao ler, de manhã cedo, a manchete do jornal Gazeta do Povo, aqui de Curitiba, foi: mas esses jornalistas tem uma forma muito enigmática de informar. Veja a manchete de primeira página, em destaque: “Número de servidores comissionados no governo do Paraná aumenta em 10%”. Leia, ainda, a chamada para a matéria: 
“Apesar de estar no limite de gastos permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal com a folha de pagamento, o governo do Paraná aumentou em 10% o número de comissionados no seu quadro – de 3.966, em 2012, saltou para 4.366. Já as despesas salariais com estes funcionários cresceram 15% no mesmo período – de R$ 16,2 milhões mensais para R$ 18,6 milhões. Desses novos servidores, 68 'migraram' da prefeitura de Curitiba, onde trabalharam durante a gestão Luciano Ducci”. 
Mas, ora, é uma forma pomposa e até mesmo um tanto afetado para dizer que o governador do Estado, que atende pelo nome político de Beto Richa, teve que conseguir uma boquinha para o pessoal de seu grupo político que foi expulso da prefeitura, depois de décadas lá, encastelado. O seu grupo, esclareça-se, é o mesmo de Lerner, Taniguchi etc. Ou seja, já estavam se sentindo donos do pedaço, mas tiveram as cabecinhas decapitadas pelo novo prefeito, Gustavo Fruet, e precisavam continuar com uma tetinha para mamar. A solução? Nomeia em cargo comissionado, ora! Mas, quem paga? Você, seu(sua) otário(a). 

A matéria, lá dentro, até que melhora, mas continua dando exemplo de como falar algo simples de forma complicada, se diria mesmo sofisticada – não confusa, esclareça-se. Tem até análise e box com informações sobre a investigação do Tribunal de Contas sobre as contratações, que o governo diz tratarem-se de “adequações funcionais e à criação de estruturas dentro do governo”. Metáforas, metáforas. 

Dizia Valfrido Canavieira, o prefeito mitológico da mitológica “Chico City”, um personagem e uma cidade que o humorista Chico Anísio inventou aí pelos anos 1970: “palavras são palavras, nada mais que palavras”. Pois é. Palavras servem para dizer algo, mas frequentemente servem mais apropriadamente para esconder algumas coisas ou para disfarçá-las, não raro com pompa. 

É por isso que, muitas vezes, prefiro assistir uma mesa redonda sobre futebol a uma entrevista ou depoimento político: na resenha esportiva, não raro os comentaristas abrem o verbo, falam o que pensam, chegam mesmo a ofender jogadores, técnicos e juízes com sua franqueza. Isso acontece, não sempre, mas já vi acontecer inúmeras vezes. Enfim, há os que falam o que deve ser dito, sem rodeios. Já matérias, entrevistas ou depoimentos de políticos são cheias de rodeios, meias-verdades, alusões não claras e por aí vai. Entrevistas com empresários vão no mesmo ritmo e rumo, às vezes com uma hipocrisia que chega a dar náuseas.  

Em tempo: Tanto o Richa como o Fruet (aos que não moram no Paraná, alerto: pronuncia-se Fruit, por incrível que possa parecer) são filhos de políticos tradicionais. José Richa foi eleito governador em 1982 e Maucício Fruet foi nomeado prefeito por Richa no ano seguinte. Recito estas informações de memória, portanto, se houver algum erro, que alguém me perdoe e corrija.  

Você pode ler a matéria citada no endereço http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/conteudo.phtml?id=1364640&tit=Numero-de-servidores-comissionados-no-governo-do-Parana-aumenta-em-10

Para ler a chamada de capa, pode acessar o sítio do jornal, mas acho que somente hoje. Amanhã não tem mais. 

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