segunda-feira, 1 de abril de 2013

Os 49 anos da “gloriosa”

Nove anos depois, continuamos "sem ressentimentos"
e há quem sinta saudades da "gloriosa"

Cabe lembrar que, hoje, no tradicional “dia da mentira”, a “gloriosa” completa 49 anos. Falo do golpe de Estado que ficou conhecido, durante a vigência de seus governos, como “Gloriosa Revolução Democrática de 31 de março de 1964”. Na prática, não houve qualquer mudança que justifique falar em revolução: foi mais, se levarmos em conta a realidade, uma contrarrevolução ou uma antirrevolução, conforme o ângulo que se escolha para defini-la, não teve nada de democrática, pois deu origem a uma cruel ditadura, e certamente foi bastante inglória para o Brasil. 

A “gloriosa” não passou da operacionalização de um movimento conspiratório da sempre canalha elite nacional, patrocinado pelas elites transnacionais, que distribuem esmolas entre as daqui, e pelo governo dos Estados Unidos da América, que se intitula democrático, mas se diverte espalhando governos corruptos e ditatoriais pelo mundo, como fez na América Latina nos anos 1960, com a sempre lamentável participação dos militares. Além disso, a data foi trocada, como vou esclarecer mais adiante. 

Os fardados entraram com a tropa de choque e com uma confiável equipe de ocupação, na sequência, que ficou acastelada no governo nacional por longos, escuros e tenebrosos 21 anos. E o pior de tudo, conforme lembrava o saudoso Océlio de Medeiros, não era exatamente o time que acampou no Planalto: o mais grave é que qualquer recruta ou agente policial ganhou uma força jamais vista, não exatamente para impor e manter a ordem para o bem comum, mas para impor e manter a ordem que conviesse a seus interesses pessoais. “O pior não era o general presidente, era o guarda da esquina”, dizia Océlio, que faleceu com mais de 90 anos e um curriculum de lutas contra a ditadura militar. 

Ele tinha, curiosamente, uma filha nascida exatamente no dia do golpe, logo está aniversariando hoje, fazendo também 49 anos. Certo dia, ele me testou dizendo: “Tenho uma filha que nasceu no mesmo dia da ‘gloriosa’”. Eu: “Primeiro de abril de 1964, então”. “Muito bem, você sabe que não foi no dia 31 de março coisa nenhuma. Eles só estabeleceram esse dia para fugir da associação com o dia da mentira”, ele me disse. 


A invasão da cultura de massa: sexo, drogas e rock’n’roll

A destruição causada pelo golpe foi de certo modo irrecuperável. A cultura que havia por aqui foi alijada para a chegada da cultura alienígena, como o divertido e rebelde rock’n’roll, que sempre levou a fama de revolucionário, mas nunca o foi, e todo o conjunto de outros produtos culturais definidos como “de massa”. 

Toda uma geração teve a cabeça esvaziada por essas baboseiras midiáticas e pode ser encaixada na definição “Geração AI-5”, cunhada por Luciano Martins, uma alusão ao Ato Institucional nº 5, que fechou o Congresso Nacional e instituiu oficialmente o terrorismo de Estado no Brasil. 

Segundo Luciano, duas das características dessa geração foram a incursão a uma mentalidade na qual as drogas eram o centro de sentido e a desarticulação do discurso, com a introdução de gírias relacionadas à experiência de uso dessas drogas, mesmo pelos que não as usavam. A gíria “é um barato”, por exemplo, não diz nada sobre o que pretende definir. Trata-se da comunicação difusa de uma experiência que tem raiz na sensação sem nominação que algo proporciona: tanto uma música, uma cópula ou uma ida até a casa de um parente ou amigo podem ser “um barato”. Qualquer coisa pode ser "um barato", simplesmente porque esse termo não diz nada na pretensão de dizer tudo. Sem o uso de termos e conceitos definidos, o pensamento se empobrece, desarticula-se o discurso e a subjetividade, morre toda e qualquer possibilidade de abordagem crítica da realidade: ninguém pode criticar algo que é vago como um “barato”, um “desbunde”, “massa” ou uma “bad trip”, outras gírias da época. 

Eu, que era criança na época, achava muito estranho tanto inglês nas rádios. Se eu tinha que cantar músicas em um idioma que não era o meu e que, por mais que estudasse, não dominava a contento, havia algo errado, pensava. Mas, logo vinha um colega me falar do Pink Floyd, do Led Zeppelin, dos Stones etc. e eu tinha que esquecer isso para seguir na corrente. Quando se é criança ou adolescente, a gente precisa ser aceito e, ao menos naquele tempo, isso significava não questionar nada acerca da ideologia jovem e questionar tudo acerca da mentalidade “careta” dos mais velhos. Isso gerou idiotas (como eu e outros tantos) que durante tanto tempo acreditaram que música animadinha e um estilo de vida rebelde podem ser revolucionários. 

Se não me engano, foi Rogério Duprat que definiu o Tropicalismo como “o AI-5 na música”. Num sentido mais amplo, toda a cultura roqueira foi, no Brasil, isso: a instituição do AI-5 na subjetividade, engendrada e patrocinada pelos golpistas de 1964. 

Se você destrói ou pelo menos avaria seriamente a estrutura cultural de uma determinada população, o domínio sobre esta fica muito mais fácil. 

Feliz dia da mentira e meus votos de incessantes sofrimentos e desgostos a todos os que tramaram o golpe e ainda estão vivos. Se fôssemos realmente um país sério, provavelmente vocês teriam sido fuzilados ou enforcados. 

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