quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cidadão Boilesen: o terrorismo de Estado da ditadura militar e seus empresários financiadores

Eis o cowboy dinamarquês que financiou o
Estado terrorista num momento de descontração

Leio que um documentário chamado “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski, fala sobre o envolvimento do empresariado nacional nos governos ditatoriais sob os quais cresci, ou seja, os que começaram com a “gloriosa”, em 1964, e se sucederam até 1985. O governo era, então, não um governo, mas uma tropa cujo comando era trocado como se troca o vigia de um quartel. 

O documentário é de 2009 e venceu o festival de documentários "É tudo verdade" naquele ano. 

Segundo Cauê Ameni, que escreveu o texto, “Cidadão Boilesen: a ditadura e os empresários” (link), publicado num endereço que compõe a rede Outras Palavras, o correto não é simplesmente falar em um mero envolvimento, mas o direto financiamento e mesmo participação física nos chamados aparelhos de repressão. Não era flerte, namoro ou rolo o que havia entre alguns grandes empresários e a ditadura sanguinária, era casamento de papel passado, com presença ativa na alcova, diga-se nas sessões de tortura. 


Os jovens corajosos que cutucaram a onça com vara curta

Alguns empresários de peso, alguns desses grandes empreendedores costumeiramente louvados nos quatro cantos do país como sustentáculos da pujante indústria nacional, patrocinaram não apenas o golpe de 1964, mas também a violenta repressão a todo e qualquer sinal de inteligência no Brasil dos anos 1960 e década seguinte. Pagaram a tortura e o assassinato de tantos que, com uma coragem invejável, resolveram enfrentar o mundo por um ideal que alimentavam.

Se o ideal era ou não do meu ou do seu agrado, não importa diante da valentia desse pessoal. Lutar contra a ditadura era como desafiar os donos do mundo e seus gorilas fardados, assassinos por gosto e prazer, e esse pessoal fez isso. Pagaram, muitos, com a vida, não antes de sofrer inomináveis torturas nos DOPSs, DPPSs, OBANs e DOI-CODIs. Aliás, o que se criou de sigla oficial para dar cobertura a bandos de torturadores e assassinos profissionais pagos pelo Estado (e por nobres empresários, agora sabemos bem) não está em qualquer gibi. 

Mas, cá para nós, não havia muito como ser diferente. Luís Travassos, uma das melhores e mais lúcidas cabeças do movimento estudantil de 1968, dizia em entrevista a um tabloide de esquerda, ainda nos anos 1970: “cutucar a onça com vara curta levou à repressão eficaz”, o que significa afirmar que ficou evidente que não havia como cutucar o Estado terrorista com o poder de fogo que aquele pessoal tinha. Comparando, foi como um bando de anões enfrentando com pedrinhas um gigante armado até os dentes. Travassos morreu num acidente de carro no Aterro do Flamengo, Rio, pouco tempo após seu retorno ao Brasil, após longo exílio. Estava no banco do carona, ao lado de Aloizio Mercadante, que dirigia o carro, mas sobreviveu, está vivo e bem empregado como ministro da Educação e, quem sabe, conselheiro de alguma estatal. 

Chamada para a exibição do filme em 2012

O príncipe dinamarquês levou bala

Henning Boilesen foi presidente do grupo Ultra, cujo maior expoente era a Ultragás, hoje Ultragaz. Um verdadeiro “príncipe dinamarquês” ao estilo Caco “Miguel Falabella” Antibes, nascido em Copenhagen no ano de 1916, o sujeito se radicou em São Paulo, onde foi justiçado por militantes políticos em 1971. Se o pessoal da direita (os empregadinhos dos Estados Unidos) tinha suas siglas oficiais, o pessoal que estava do outro lado (acusados de serviçais das “ideologias exóticas” cubanas e russas) também criava as suas: os caras que mataram Boilesen estavam filiados à ALN (Ação Libertadora Nacional) e ao MRT (Movimento Revolucionário Tiradentes).  Segundo os garotos que crivaram de balas o empresário financiador do terrorismo de Estado, o ato serviu de exemplo e ameaça a todos os que faziam o mesmo que Boilesen. 

O cara era tão enturmado com os gorilas da tortura que, segundo consta, importou uma máquina que dava choques e era acionada por um teclado. O nada simpático artefato foi inclusive apelidado de pianola Boilesen pelos gorilas. 

Interessante: Boilesen participou ativamente da fundação do CIEE (Centro de Integração Empresa Escola) e foi presidente do Rotary Club. 

Mais interessante ainda: segundo o texto de Cauê Ameni, o filme também cita empresários da construtora Camargo Correa e do jornal Folha de São Paulo como outros patrocinadores do terrorismo de Estado durante a ditadura militar brasileira. 

Pelo exposto, parece importante assistir o filme. 

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