quarta-feira, 10 de abril de 2013

Bomba! Bomba! Estão descobrindo a pólvora nos paraísos fiscais


Um escândalo que está sendo ignorado pelos colegas jornalistas brasileiros é o conhecido como Offshore Leaks, ou seja, traduzindo livremente, os "vazamentos de informações dos negócios nos paraísos fiscais". E um paraíso fiscal, um “tax haven” é aquele lugar no qual se praticam isenções fiscais para atrair o dinheiro daquele pessoal que não quer pagar impostos e, principalmente, aquele pessoal que ganha dinheiro com contravenções e crimes, pois a grana suja precisa ser lavada e ali começa o processo. Aqui do lado, temos o Uruguai, mas há outros paraísos mais conhecidos e prestigiados por aí, como as Ilhas Cayman 

Por que o escândalo, se todo mundo sabe que esses centros financeiros offshore existem? Deixo que Antônio Martins, do portal “Outras Palavras”, explique: 
Um operador anônimo, de uma instituição financeira que opera nas Ilhas Virgens britânicas, enviou a Gerard Ryle, diretor do Consórcio, um disco rígido de computador contendo 260 gigabytes de dados – 2,5 milhões de documentos, acumulados ao longo de trinta anos. Em volume, são 160 vezes mais dados que o material vazado, pelo Wikileaks, a partir do Departamento de Estado dos EUA. Por isso, o caso tornou-se internacionalmente conhecido como o “offshore leaks”. Uma equipe de 86 jornalistas, de 37 publicações (nenhuma brasileira…) analisou as informações e está produzindo as reportagens. É possível acompanhá-las, por exemplo, em seções especiais criadas no próprio site do ICIJ, mas também no Guardian, de Londres, e no Le Monde, de Paris.
Aí está a diferença. Há informações aparentemente quentíssimas que vazaram de dentro do esquema. Você acha tudo isso muito estranho? Eu também, mas coisas estranhas também podem acontecer. Vamos aproveitar a descoberta da pólvora para saber mais detalhes sobre como funciona o grande esquema dos milionários, que, pela ponta do iceberg, têm relações com o crime mais íntimas do que se poderia referir. Se a gente já supunha essas puladas de muro dos ricaços e suas grandes corporações, agora poderemos, quem sabe, não apenas ter certeza, mas saber dos detalhes pornográficos desse esquemão. 


Crime dentro da lei

Cá para nós, tudo isso cheia a uma tardia descoberta da pólvora, como se costuma dizer nas ruas. É claro que os ricos e suas empresas recorrem a paraísos fiscais, é óbvio que esses lugares oferecem a melhor e quase única possibilidade de lavagem eficaz do dinheiro das drogas, armas e outros negócios escusos. 

E, para concluir, é evidente que, com tudo isso, as chamadas “praças offshore” são a engrenagem mais importante do capitalismo financeiro. Disso tudo eu e a torcida do Flamengo já sabíamos e posso provar o que digo a quem ler minha dissertação de mestrado chamada “O charme do crime midiatizado: desconstruindo uma guerra a Beira-Mar”, cujo título é longo, como convém aos trabalhos acadêmicos, mas que trata basicamente do crime não organizado que a imprensa chama de organizado e do crime organizado que a imprensa ignora olimpicamente. Trocando em miúdos: dos bandidos pobres, completamente inofensivos a nível global, e dos bandidos ricos, os verdadeiros, predadores natos em todos os níveis. 
Em minha pesquisa, não tive como evitar concluir que o capitalismo contemporâneo se escora exatamente na contravenção e no crime. A diferença entre o criminoso pobre e o rico é que este age de acordo com a lei.


Londres capta, os EUA recolhem

Antonio Martins informa ainda que os depósitos feitos nos paraísos são volumosos e alcançam quase metade do PIB anual de todo o planeta. Segundo ele, algo entre 21 e 31 trilhões de dólares e, tudo indica, o fluxo flui entre essas ilhas da tranquilidade e Londres, centro das finanças mundiais, curiosamente capital do império dos “escudos vermelhos” (leia-se em alemão), os banqueiros que inventaram a paz europeia, financiaram a revolução russa e patrocinaram as duas grandes guerras do século XX. Além de Londres, é claro, está a gloriosa pátria da liberdade e do empreendedorismo, aquela da bandeira listrada e estrelada. Para ser mais preciso: Londres capta e os Estados Unidos recebem a maior parte do dinheiro. 

Em outro texto do mesmo portal, há uma entrevista com um sujeito chamado Nicholas Shaxon, que parece pesquisar o tema e escreveu o livro “Treasure Islands: Uncovering the Damage of Offshore Banking and Tax Havens”. Ali há a confirmação de que Londres está no centro do mundo financeiro offshore, que se dividiria em dois: 

1. Em três ilhas do litoral inglês Jersey, Guernsey e Man, fluindo para a África e a Ásia;

2. O das Ilhas Cayman e Bermudas, que flui para as Américas do Norte, Centro e Sul.



Lavando mais branco

Martins fala sobre o esquema de lavagem: 
É neste mundo de finanças ocultas e anonimatos, relata o ICIJ, que escondem e “lavam” (legalizam) seu dinheiro as grandes redes do crime organizado: máfias de distintas nacionalidades, políticos corruptos que se apropriam de recursos públicos, traficantes de seres humanos, beneficiários de caça proibida, escroques de todos os tipos. O esquema é conhecido. Quem precisa dar aparência de legalidade a uma soma obtida por meios ilícitos transfere-a para uma conta bancária offshore. Aproveita-se dos impostos muito baixos cobrados pelos “paraísos fiscais”. Mais tarde, reintroduz o dinheiro no país, na forma de crédito proveniente de uma instituição respeitável, com sede na Suíça, em Luxemburgo ou nas Ilhas Virgens. Quem irá investigar a origem primeira do dinheiro?
Além disso, é claro, fica mais uma descoberta óbvia: os bancos e as grandes corporações, as megaempresas, são parte fundamental e absolutamente atuante no esquema. Sem os bancos e as corporações, diz Shaxon, tudo isso seria impossível. Bidu! “Quase todas as instituições bancárias importantes, conta a reportagem do ICIJ, têm relações com a rede financeira das sombras. Por meio delas, tornam-se capazes de oferecer aos clientes premium a faculdade de ocultar dinheiro obtido legal ou ilegalmente – e de reintroduzi-lo no país, sempre que necessário”, explica Martins, adiantando que um banco bem conhecido dos paulistanos, pois patrocina a Orquestra Sinfônica de São Paulo, o Crédit Suisse, consta de um documento vazado como “o Santo Graal” da rede. Wall!, escreveria Paulo Francis. 

Sobre o Crédit Suisse, Martins conta que 
Os procedimentos que adota nas transferências de recursos são tão “eficientes” – admira-se um operador offshore – que autoridades policiais ou bancárias eventualmente interessadas em descobrir a identidade de um depositante irão “deparar-se com uma muralha blindada”… Mas não se trata de um exemplo isolado. Reportagens do Der Spiegel e do Le Monde estão revelando como instituições “respeitáveis” como o Deutsche Bank (alemão), Banque National de Paris e Paribas (franceses), IMG e Amro (holandeses) envolveram-se no esquema.
E mais: depois da crise de 2008 (crise para os incautos classes médias estadunidenses e para os Estados nacionais, essas instituições chamadas de obsoletas que, no entanto, bancaram, mais uma vez, o lucro dos milionários que fabricaram a crise exatamente para isso) os depósitos dos bancos nos offshores chegaram a dobrar. Se tomarmos essas cifras de 2005 a 2010, mais que dobraram. 


Barack Obama

Olha eles aí

Talvez algo muito importante de toda essa descoberta da pólvora seja realmente poder falar claramente que há um grupo fechado e muito pequeno que comanda as finanças e, logo, administra o planeta a seu bel prazer. Essas pessoas têm, segundo o texto, “enorme poder econômico e político”, intervêm nos Estados, via governos subservientes que elegem e, bem se pode imaginar, mesmo através de governos não tão vacas de presépio, mas que não têm como resistir. Se é que governos assim existem. Segundo Olavo de Carvalho, por exemplo, Obama (foto), o bambambam dos EUA, seria um mero empregado dos “escudos vermelhos”, do "Consórcio" ou mais precisamente da "Corporação" citada no livro de Nicholas Hagger. Pelo que temos assistido no Brasil, não sabemos se Lula e Dilma são subservientes por vínculo empregatício ou por fazerem parte dos governantes que não têm como resistir. Espero, sinceramente, que a segunda alternativa seja a correta: é menos vergonhoso. 

Para terminar, é claro que os veículos de comunicação, a genericamente chamada “mídia”, estão envolvidos até a raiz, até porque toda essa mídia está dominada mundialmente por um restrito número de donos, tão restrito que você conta com alguns dedos de uma das mãos. Mas, há um pessoal da imprensa internacional dando cobertura ao escândalo, como os já citados Der Spiegel, Le Monde e Guardian. Mas, cadê os brazucas? Não sabem ou não querem que saibamos dessa instigante e emocionante história escandalosa? Ah, os anunciantes... os anunciantes...

Nenhum comentário:

Postar um comentário