domingo, 3 de março de 2013

Ordem, progresso, burrice e o delírio coletivo


Estava me preparando para sair do Rio de Janeiro, onde estive visitando minha família na semana de carnaval, quando deparei com um brilhante texto de Guilherme Fiuza. O título: “Ordem, progresso e burrice”. Ele aborda a burrice que assola a sociedade brasileira. Burrice aguda, mas que caminha rápido para a cronicidade. É que depois da tragédia em Santa Maria (RS), a da tal boate, na qual duzentas pessoas morreram graças a outros tipos de burrice, se acirrou o ritmo de sandices do poder público e da imprensa em busca de uma certa ordem mecânica, de uma segurança inviolável e absolutamente fantasiosa.

Fiuza pontua que não se pode deixar mais acontecer a comemoração da passagem de ano em Copacabana, muito menos o carnaval. É que essas manifestações festivas são extremamente perigosas e o cronista se pergunta pelo plano de segurança para um corre-corre no réveillon e sugere o desfile de blocos em filas indianas, ordenadas e ordeiras como querem as autoridades e a gloriosa imprensa.

E mais: “Condomínios em prédios ricos do Rio de Janeiro estão instalando câmeras em suas fachadas para vigiar e punir moradores que atiram guimbas de cigarro pela janela. Chegou enfim o tempo em que os arroubos éticos consagram a ignorância”, lembra Fiuza. Essa história de proibir jogar coisas aqui e ali é realmente patética. Em Curitiba, onde moro, os digníssimos vereadores votaram uma lei municipal que pune com multa quem jogar uma guimba na rua. Até aí, até que é uma asnice leve, pois o argumento é que milhões de guimbas são atiradas nas ruas e entopem esgotos. A alegação é um tanto bizarra, fede como mais um golpe contra o cidadão, que está cercado de multas e mais multas (afinal este é o espírito liberal – insegurança, dinheiro circulando e Estado policial), mas, vá lá. O mais interessante é que o projeto original previa a instalação de lixeiras adequadas para o depósito das guimbas, o que seria feito pelas companhias de tabaco. O original, eu disso, pois o real não tem nada disso. Fumar em Curitiba, agora, só no banheiro dos fundos, oculto. E, para descartar a guimba, é melhor engoli-la. Isso, sem contar com o preço, graças à santa inquisidora World Health Organization, que comprou a patente da saúde e sabe o que é melhor para todos nós.

Tudo em nome da ordem e do progresso, é claro. É desse modo que os brasileiros entendem que é ser “primeiro mundo”? Quando os caipiras querem aparentar ser ordeiros e progressistas, dá nisso.

Cada vez piores

Não é possível atribuir essa burrice a alguma instituição ou pessoa. A verdade é que, tudo indica, vivemos um delírio coletivo e um dos componentes fundamentais desse delírio é acreditar que normas e regras, regulações e proibições, sanções e punições farão a vida melhor, evitando problemas e acidentes diversos.

Em parte, essa crença compõe a arrogância humana e a prova do que digo é que mal acontece algo com o que não concordamos e é quase irresistível a sentença: “Deveriam proibir isso”.

O grave é que estamos caindo na armadilha do idealismo, do racionalismo puro e da crença de que podemos atingir a perfeição. Na prática, porém, somos humanos e o idealismo não passa de uma defesa contra a percepção da fragilidade de nossa natureza.

Ao invés de aceitarmos nossa condição, ao invés de sabermos melhor o que somos para sermos melhores com o que somos e temos, preferimos fantasiar sermos potencialmente perfeitos, arquitetados à imagem e semelhança de algum ente perfeito, eterno e onipotente. Acabamos criando imagens de deuses e santos, acabamos criando máquinas que quase atingem a perfeição. E, ironicamente, acabamos tentando viver como elas. O resultado é que não melhoramos nada, muito pelo contrário. Ou, mais precisamente, melhoramos em conhecimentos técnicos, notadamente sobre certas funções de nosso corpo, mas estamos no fundo do poço em relação aos conhecimentos sobre nossa alma, que, afinal, vive em parceria com o corpo e, dizem, até mesmo tem enorme influência sobre ele.

Leia, abaixo, o texto de Fiuza, publicado no jornal O Globo do dia 16 de fevereiro.

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Ordem, progresso e burrice

Guilherme Fiuza

A praia de Copacabana deverá ser interditada no réveillon (o povo assistirá aos fogos pela TV). É o mínimo que se espera das autoridades, se elas mantiverem seu surto de ordem pós-Santa Maria. E as centenas de blocos carnavalescos que engessam as ruas terão que desfilar em fila indiana em 2014. É mais seguro.

Os homens da lei que chegaram a invadir festa de aniversário em barzinho, lacrando tudo (até o bolo com suas velas assassinas), não haverão de tolerar mais essas aglomerações bíblicas a céu aberto sem saída de emergência (para quem está no miolo da multidão). As paredes são os outros. Se a ordem é interditar primeiro e perguntar depois, é o caso de ir cancelando logo o réveillon e o carnaval - pelo menos na presente forma de ajuntamentos boçais em nome da paz e da alegria.

A ideia não é o controle total? Então onde está o plano de segurança para um corre-corre acidental numa dessas muvucas de milhares - ou milhões - de pessoas comprimidas e eventualmente alcoolizadas? A presidente Dilma foi muito clara, em um de seus comícios após o incêndio de Santa Maria: determinou aos prefeitos de todo o país que tragédias como aquela jamais se repitam em qualquer cidade brasileira. Pronto.

Nada como uma líder resoluta. A partir daí, cada xerife saiu com sua estrelinha disputando quem embargava mais, quem dava o maior show de interdições de boates, teatros, bares, quiosques e barracas.

Senhor pipoqueiro, onde está o seu alvará? Não tem? Carrocinha lacrada.

Ontem um bueiro entrou em ebulição na Avenida Rio Branco. É o enésimo bueiro na cidade do Rio de Janeiro a atentar contra a população, num histórico recente de explosões súbitas e violentas que já vez dezenas de vítimas. Onde está o plano de segurança contra o subsolo letal? O que deve ser interditado nesse caso? As ruas? Os pedestres? A Light?

O espetáculo dos surtos de ordem pública é patético. Depois da tragédia na boate Kiss, surgiu a proposta de uma medida provisória proibindo as comandas para o pagamento do consumo na saída em casas noturnas. É uma tese incrível: se você pagar um chope de cada vez ao garçom, nunca será refém de uma tragédia. Como se vê, a fronteira entre a civilidade e a estupidez nem sempre é perceptível.

Mas a reação da sociedade em defesa da segurança, da moral e dos bons costumes pode ir muito além disso.

Uma semana depois da tragédia em Santa Maria, a Polícia Federal acionou as polícias civis para uma grande operação na internet.

O objetivo era rastrear piadas que começaram a circular na rede sobre o incêndio. Autoridades policiais informaram que esse tipo de manifestação era crime, anunciando que iriam à caça de seus autores para prendê-los.

A sorte dos bravos investigadores é que demagogia moralista não dá cadeia no Brasil. Mesmo assim, por seus próprios critérios, esses caçadores de espíritos de porco poderiam estar presos: é deles, sem dúvida, a pior piada até agora sobre a tragédia.

Pobre sociedade progressista. Quanto mais se compraz com o espetáculo politicamente correto, mais emburrece.

Condomínios em prédios ricos do Rio de Janeiro estão instalando câmeras em suas fachadas para vigiar e punir moradores que atiram guimbas de cigarro pela janela. Chegou enfim o tempo em que os arroubos éticos consagram a ignorância.

A presidente da República ordena o fim das tragédias, determinando que autoridades locais e donos de boates tenham tolerância zero com as ilegalidades.

Em termos de obediência a regras, o exemplo mais eloquente do governo popular é a transformação de agências reguladoras - que criam e fiscalizam regras - em balcões de empregos e propinas, chefiadas por autoridades como Rosemary Noronha, a lobista afilhada de Dilma e Lula. Mas a presidente é mulher e chora - e isso basta à sociedade "progressista".

Agora o estado-maior novelesco já começa a ofensiva de marketing pelo "Papa brasileiro", para se juntar à mulher e ao operário no presépio populista.

Não tem jeito: é pão e circo (e reza para ele não pegar fogo).

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