quarta-feira, 27 de março de 2013

O tal pastor Feliciano está no picadeiro... Você também?


Esta sociedade parece um circo, penso. Mas, não vou entrar em considerações maldosas, não é o objetivo. Não quero definir quem é trapezista, domador ou palhaço. Também não quero botar fogo na lona e sair gargalhando. Só tenho o objetivo de mostrar a você que quase tudo o que acontece por aqui vira atração de picadeiro. E mais: você aplaude e pede bis, sem saber ao certo do que se trata.

Veja o caso do tal pastor que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o senhor Marcos Feliciano, deputado federal pelo estado de São Paulo. Foi nomeado para a função por seu partido, o Partido Social Cristão (PSC), que parece ter adquirido o privilégio de indicar o cabeça da tal comissão. 

Se você não sabe, não anda frequentando o circo, o que é improvável, explico: o tipo não vai muito com a cara dos gays e disse que os africanos são descendentes do demo. Bem, palhaçadas à parte, isso não faz dele o único vilão da história, pois que muitos pensam assim e, se tantos outros não o fazem, sentem as coisas desse modo, ou não chamariam os desafetos de “veados”, “bichas” etc. e não mandariam esses desafetos irem “tomar no cu”, além de tantas outras ofensas e piadinhas, mais corriqueiras do que beber Coca cola. Com relação aos negros, acontece quase a mesma coisa, ou até mais grave, pois as ofensas, pilhérias e humilhações são covardes ao ponto de marcar o sujeito no que ele tem de indissociável à sua vida: o seu corpo, a cor de seu corpo. Se você é um desses branquelos azedos (ou uma dessas) e nunca pensou, sinceramente, ainda que na intimidade de sua alma, que o negro é inferior, que tende para a vadiagem, que “quando não faz na entrada, faz na saída” etc., você deveria portar o adjetivo “Santo” ou “São”, antes do nome. 

Então, em primeiro lugar, cabe que pensemos no quanto esse pessoal assanhado em atirar pedras no tal pastor não deveria mirar na própria cabeça. Ele não passa de um digno representante da consciência predominante nesta sociedade brasileira acerca de homossexuais e afrodescendentes. Nada mais que isso. 


Atire a primeira pedra

Um amigo me diz que estou com a razão, mas que precisamos melhorar, “avançar na consciência da cidadania e aceitar melhor as diferenças”. Certo, certo. Só que na medida em que se levantam punhos contra o pastor não se está avançando em nada, muito pelo contrário: se está ocultando a própria estupidez, não combatendo-a. Há uma enorme, imensa, diferença entre esconder e combater algo. E o mais engraçado é que ao proceder de forma tão agressivamente estúpida, os manifestantes antiFeliciano estão lhe dando força. Afinal, que custa alguém dizer, com propriedade a esses bobos: quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra, frase atribuída a Cristo na defesa de uma adúltera, segundo me consta. Pior: se pode dizer: quem nunca chamou alguém de veado ou de neguinho que levante a voz contra o pastor. Não vai sobrar um manifestante. 

Outro conhecido argumenta: “Tá certo, mas não pode colocar um cara como esses logo na Comissão de Direitos Humanos!”. Aí é que me convenço que há mais palhaços do que imaginava neste circo. Os tais Direitos Humanos são claramente uma estratégia de controle e esvaziamento das diferenças humanas e, na prática, reconhecem o direito do ocidental, branco, macho e heterossexual (hoje se pode juntar “não fumante” e “ecologicamente correto”) se achar superior aos demais, tanto que é necessário instituir os tais “direitos” para que essa raça superior freie sua sanha e reconheça a existência dos pobres coitados que não lhe são semelhantes. Como lembra o mestre Mohammed ElHajji, esses tais direitos se fundam numa perspectiva individualista do direito, são autorreferentes e discriminatórios. Vêm da mesma raiz do “ama ao próximo como a ti mesmo”, frase cristã que significa, na prática, ame a si próprio no próximo, ou seja, no outro. 

Logo, não há direitos humanos na Declaração dos Direitos Humanos, idiota. Haverá na Câmara dos Deputados ou nas passeatas gays? 


Muita emoção

O fato é que neste circo há muitas atrações: “são muitas emoções”, diria o famoso e fanhoso Roberto Carlos, que só levanta da tumba nas noites de Natal. Todos se emocionam, ficam indignados, franzem os cenhos e defendem nobres causas, pois são cidadãos e democratas. Ninguém, no entanto, pensa, nem em si próprio (o que deveria ser crime inafiançável), nem na merda de sociedade que está ajudando a construir (ou destruir, sabe-se lá). 

O negócio é viver se emocionando, se indignando e se divertindo com isso. Diversão um tanto tosca, é verdade, mas já viu coisa mais tosca que circo?

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