terça-feira, 26 de março de 2013

Cuidado, os eleitores não vão ficar satisfeitos com esmolas por todo o tempo


O deputado Zeca Dirceu envia para mim, semanalmente, e-mails com informações sobre ações suas, ideias, opiniões etc. Não especificamente para mim, é claro. Apenas faço parte de sua lista de mailing, como tantos outros. Raramente abro os e-mails, mas, nesta terça, dia 26 de março, resolvi abrir. Tratava-se de um texto intitulado “A oposição, a mídia e o desespero”. Eu o leio e fico a pensar algumas coisas.

Em primeiro lugar, o menino, filho de José Dirceu, diz que os ataques da oposição e da imprensa acontecem porque a presidente vai bem e tem aprovação popular. E ele prevê mais ataques, pois a última pesquisa dá 58% de intenções de voto dos eleitores para a próxima eleição, que acontecerá no final de 2014. 
A crença do PT, que parece clara nas palavras de Zeca, é bastante semelhante à do empresário Silvio Santos, que quando lhe perguntaram sobre a baixa qualidade da programação de seu canal de televisão respondeu que apenas dá ao povo o que ele deseja. Ou seja, o que o governo tem oferecido é bom, mas não é o melhor. Este ele guarda para si e para os seus patrões. 
Zeca Dirceu é vice-líder do partido dito dos trabalhadores no Congresso Nacional. Deve ser um parlamentar experiente, portanto, e se escreveu o texto, ou o encomendou a alguém, deve tê-lo feito com algum objetivo, que certamente não foi informar ao seu eleitor que os ataques da oposição e da imprensa vão se acirrar, o que parece óbvio e o que acontecerá independente da aprovação da presidente. Para mim, o objetivo do texto é disfarçar o claro medo que os petistas têm de perder a eleição do próximo ano. Os caras estão grudados na teta e não admitem perdê-la. Até porque boa parte dos companheiros não sabe fazer outra coisa na vida além de militar e politicar. 

Se não for isso, por que tantas estultices no texto? Dirceuzinho diz que o PSDB e a grande mídia são catastrofistas e têm um namoro sério que se torna cada vez mais sério na medida em que “(...) o Governo bate constantemente recordes de aprovação, demonstrando a satisfação do povo brasileiro, que tem sua vida transformada a cada dia”. Engraçado é que Fernando Henrique Cardoso dizia coisa semelhante da oposição durante o seu governo e trágico é saber que o povo brasileiro está tendo a sua vida transformada a cada dia por conta do mergulho no consumo e de algumas esmolas, como a redução da conta de energia elétrica e de impostos sobre a cesta básica. 


Esmolas são até boas, mas são esmolas

Digo que são esmolas, mas não desmereço as medidas do governo. Apenas as coloco no seu devido lugar: são esmolas. Enquanto você paga menos dez reais na conta de luz ou menos cinco reais no arroz, alguns financistas, os verdadeiros governantes do Brasil, recebem cinco, dez milhões por dia. Esmolas é o que são, mas repito, não desmereço esmolas e outras doações semelhantes: graças a elas, muitos sobrevivem no cotidiano e, dada a miséria na qual grande parte da população brasileira viveu e ainda vive, migalhas dormidas do seu pão interessam muito, como poetava Cazuza no Baixo Leblon. Interessam, mas não se iluda: são esmolas. 

Na prática, o cenário catastrófico do país está pintado, mas não para já. Como os financistas não gostam de empresas nacionais, o governo não as protege, deixa-as soltas na selva na qual são indefesos angorás diante dos leões e tigres multinacionais. Resultado: o país não tem um plano que leve em conta investimentos produtivos, apenas adota medidas incentivadoras do consumo. Isso vai dar merda, pode ter certeza que vai. Mas Zeca Dirceu, a presidente e todo o PT acreditam que não. Provavelmente imaginam que se o Papa é argentino, com certeza Deus é brasileiro e vai resolver tudo a contento. Não é e se a coisa continuar desse jeito, em breve os petistas podem passar do paraíso das boas pesquisas ao apedrejamento nas ruas. 

Essa tal “satisfação do povo brasileiro” pode estar se dando no modelo de um conhecido meu: mantém a esposa satisfeita com agradinhos enquanto os melhores presentes, as boas trepadas e algumas belas joias, quem recebem são as amantes. A esposa não deixa de estar satisfeita, é claro, mas no dia em que a coisa virar, sai de baixo.


Investindo na qualidade meia-boca 

Zequinha lembra do PIG, mas esquece das boas relações que o seu partido tem com os grandes meios de comunicação de massa. E, cá para nós, há dois outros fatos também esquecidos: a imprensa não tem sido tão golpista assim em relação ao governo e este tem muitos rabos a serem puxados pela imprensa. A recente viagem da presidente, que gerou gastos astronômicos, foi citada levemente pela imprensa, levemente demais pela imprensa local, brasileira, diga-se de passagem. E fatos como o tal mensalão (é claro que existiu, mas não é “privilégio” dos petistas na aprovação da porca reforma da previdência, pois todos sabemos que FHC também tinha o mesmo esquema, o que o ajudou a ficar dois mandatos no poder), o sujeito com dólares escondidos na cueca, o escândalo da tal lobista amiga íntima de Lula etc. não foram simplesmente invenções da imprensa. Repito que esses escândalos foram tratados até com excessivo carinho pelos abutres do jornalismo. Isso me leva a crer que o namoro entre o PT e a mídia é mais sério do que o que une esta aos tucanos. Mas, no frigir dos ovos, não há mesmo grande diferença entre uns e outros. 

Dirceuzinho cita os já citados abonos na energia elétrica e na cesta básica e lembra da queda do desemprego. Bom, bom, muito bom. Além das referidas esmolas, há empregos, é claro, mas, é bom que se diga, 99% dos empregos são para funções de baixa qualificação, até porque, como dito, o país não tem investido em ciência e produção, ficando apenas no nível do consumo. Os empregos têm carteira assinada, o que é bom, mas são empregos desqualificados, ou seja, que não oferecem grandes perspectivas. Isso é bom, volto a dizer que sim, mas continua sendo algo no nível da esmola, não um efetivo investimento na melhoria da qualidade do trabalho e da vida da população. O governo do PT investiu, principalmente, no ensino também de mais baixo nível, o ensino não presencial que, novamente é preciso dizer, é bom, mas não é o melhor. É bom, mas é bom no estilo meia-boca, como se costuma dizer. 


É isso que o povo quer?

A crença do PT, que parece clara nas palavras de Zeca, é bastante semelhante à do empresário Silvio Santos, que quando lhe perguntaram sobre a baixa qualidade da programação de seu canal de televisão respondeu que apenas dá ao povo o que ele deseja. Ou seja, o que o governo tem oferecido é bom, mas não é o melhor. Este ele guarda para si e para os seus patrões. 

Esse esquema perverso é o que leva o filho de José Dirceu (o que, coitado, acabou segurando o B.O. no mensalão, enquanto Lula não sabia de nada, o santo) a dizer: “Podem falar o que quiserem, porque a Presidenta Dilma conta com o apoio popular”. Talvez o menino devesse assistir o filme “O homem que queria ser rei” para descobrir o que pode acontecer com quem engana dessa maneira um grande grupo de pessoas. O brasileiro pode ser cordial, mas não é burro o suficiente para ser enganado todo o tempo. E, ao contrário do que Zeca afirma, não conhece “a verdade”, mas apenas uma versão dela. E não gosta, como ninguém gosta, de ser feito de bobo. 

PS: E outra, Zeca Dirceu e demais companheiros: há mais de um ano para as eleições. Os quase 60% de intenções de voto podem se transformar em 50, 40, 30 ou 20 nesse tempo. Ainda é cedo e, caso se confirmem os outros concorrentes ao cargo, o bicho vai pegar. E não vai ser fácil: Aécio fica com a direita em peso, segundo se supõe, e mais alguns gatos pingados da dita esquerda; Marina pega os ecologistas e abocanha uma grande parte da esquerda urbana, que já anda virando o nariz para o PT há muito; Eduardo Campos traz uma parte do Nordeste, onde Lula e a presidente de plástico têm muitos votos. Se chegar mais alguém, sabe-se lá o que acontece. De todo modo, a briga vai ser feia e cada vez mais cresce a ala dos que têm clareza de que eleger outro governante não vai fazer a coisa melhorar. O que pretendem é, apenas, uma saudável alternância no poder. Já são onze anos, vamos para doze e, se o PT ganhar, com Dilma ou Lula, serão dezesseis ou mesmo vinte. É muito tempo. É preciso mudanças e a hora é de mudar é essa. Depois, pode ser tarde demais. 

3 comentários:

  1. Coitado, ninguém curte seu texto, ninguém comenta, acho que ninguém nem lê, nem sei porque li.

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  2. Se o autor fosse estúpido ou bajulador, faria sucesso. Como não é, aparecem comentários como o anterior... é a prova da sua qualidade

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