domingo, 3 de março de 2013

Cada vez mais iguais

O que as chamadas “minorias” ainda não entenderam é que, ao reconhecer suas diferenças o poder os está tornando cada vez mais iguais. Trata-se de algo óbvio, um fato, mas abusadamente sutil, que se articula na subjetividade política. No melhor modelo ideológico, o poder hegemônico inverte o foco e faz com que o sujeito se sinta identificado com ícones pré-formulados, que esgotam a potencial revolta, e os tome como referências pessoais, tornando-se passivos, o rebanho de que Nietzsche falava tanto.

A especificidade na subjetividade política pós-moderna é que o rebanho se divide por cores, tons, preferências diversas. Não é um rebanho uniforme, é colorido, barulhento, estiloso, se divide e subdivide. Tem idiossincrasias, quando não ditadas pela moda, rapidamente incorporadas a ela. É um rebanho midiático, midiatizado, no sentido que lhe dá um termo jurídico antigo, o de interditado para atos individuais de tomada de rumo em sua vida, utilizado para a suposta salvaguarda de um familiar que enlouquece e perde o controle. A pessoa midiatizada não decide, alguém o faz por ela.
"... basta uma observação mais sagaz para perceber que o problema não é que a ficção tenha obtido clara supremacia sobre a realidade. Isso é algo esperado. A questão é que uma ficção hegemônica se impôs com uma força nunca antes vista..."
Assim parece funcionar o sistema de articulação daquilo que Antonio Negri e Michael Hardt chamaram de Multidão, bem mais generoso do que o de rebanho utilizado acima. Para eles, a multidão é multifacetada, anárquica, mas, enquanto multidão em uma sociedade que gira em torno de mídias formativas e informativas, se expõe a que suas demandas fortaleçam mais ainda o poder do Império, o contraponto organizado da multidão, o poder central, também curiosamente multifacetado, ou aparentando estar, sem local específico, sem localização geográfica que o defina e abarque.

O Império suga sua força da multidão e foi a insatisfação desta com um modelo político rígido, burocrático e falsamente puritano que o gerou. O Império soube aproveitar e capitalizar a energia da multidão, canalizando-a para seus fins, através do controle das comunicações. A cultura de massa parece ter sido a máquina de guerra imperial, que, conforme alertava Edgar Morin, abandonou o controle dos corpos para conquistar o espírito. É através da cultura, cujo modelo ainda predominante é o da TV, aquela que te mente ao dizer que você a vê, pois o objetivo é o oposto e é ela que vê a você. Uma máquina guerreira suficientemente articulada e capaz de triturar culturas regionais e, é evidente, exterminar qualquer resquício de singularidade individual.

Tudo se dissolve

Nesse quadro, não apenas as ditas minorias, mas todo e qualquer cidadão ou cidadã pode ser considerado um bovino, parece claro. Só que as coisas não são tão simples assim. Pessoas são diferentes de animais, muito até, embora algumas se pareçam em demasia com eles. Para controlar pessoas, muitas pessoas, não é prudente usar meios físicos, forças de coerção diretamente corporais. Assim se controlam poucos, mas aproveitando a imaginação se controlam todos, ou quase, pensa o Império. Pensa e age assim e se você quiser se aproximar das entranhas imperiais, descubra com quem está o controle dos meios de massa, ditos erroneamente de comunicação.
"... somos iguais nas nossas diferenças, ou principalmente por conta delas, já que as exprimimos de forma igual..."
A questão do rebanho nietzscheano está na submissão objetiva, de carne e alma, a um poder que, se não precisa me matar, me engorda. O poder do fraco, que, na prática, não é poder nenhum.
A questão das minorias se coloca da seguinte forma: todos lutam pelo seu quinhão, por seus direitos, que, no fim das contas, acabam sendo direitos concedidos por um discurso liberal. Aliás, meio concedidos, meio conquistados, mas é difícil observar singularidades revolucionárias nas efetivas transformações da subjetividade pós-moderna. Não é que não existam, é que acabam tragadas pelo turbilhão que o poder imperial produz para manter-se em calmaria. Em outras palavras, são definidas e redefinidas, conceituadas e renomeadas, encaixotadas em caixões de vidro.

Não são heróis, são ídolos e a sua exposição pública dá ensejo a um inevitável simulacro, um pastiche que reproduz a coisa em forma de signo, mas que, no mesmo movimento, a faz desaparecer por detrás daquilo que a representa, o signo. O elemento que compõe e dá forma a uma hiper-realidade, no sentido em que Baudrillard um dia a descreveu, uma realidade mais real do que o real. Uma realidade na qual tudo se encaixa e não há surpresas além das esperadas, como num shopping center.

Diferenças, aliás, devem proporcionar surpresas, ou então não parecem muito com diferenças, parece claro. Isso precisa ser pensado para nos proporcionar a iniciativa de desmontar o discurso das diferenças na sociedade imperial.

As minorias foram convidadas a participar do jogo da maioria, querem ser incluídas, querem entrar no clube. Precisam saber que todo sócio deve ter determinado comportamento para ser aceito e um comportamento mais definido e rígido depois de aceito. Isso não significa austeridade ou puritanismo, pois o mundo pós-moderno consegue jogar na cara da multidão a verdade já enunciada por Nelson Rodrigues: toda pessoa devassa é uma casta nata e hereditária. Não significa andar de uniforme, também, muito pelo contrário. A uniformidade está na diversidade, mais um valor especular dos tempos imperiais.

Como profetizaram Marx e Engels, nunca a realidade se dissolveu com tanta facilidade no ar. Por isso, é difícil não concordar com Neil Gabler quando ele afirma que a vida é um filme (seu livro se chama “Vida, o filme”). Tanto é assim que Thomas Doherty demonstrou, num interessante estudo, como a indústria cinematográfica incentivou e definiu a formação da cultura jovem na metade do século passado. Assim como nesse caso, em tantos outros basta uma observação mais sagaz para perceber que o problema não é que a ficção tenha obtido clara supremacia sobre a realidade. Isso é algo esperado. A questão é que uma ficção hegemônica se impôs com uma força nunca antes vista.

Uma inexistência exposta

Trocando em centavos, é preciso dizer que, conforme nos tem mostrado a realidade, todos somos diferentes, mas “com alguma coisa em comum”, conforme uma das melhores peças publicitárias brasileiras, a do cigarro Free, que conseguiu alçar a marca aos píncaros do mercado há duas décadas. Isso significa que todos somos iguais nas nossas diferenças, ou principalmente por conta delas, já que as exprimimos de forma igual.

Como diz uma musiquinha de um canal infantil de uma TV a cabo, “todos somos necessários” para o poder (a mensagem da música, no entanto, é ecológica e também cidadã, fazendo uma suposta defesa da alteridade, da diversidade). E o fato de sermos necessários para o poder nos dá uma força que não estamos percebendo ter e, por isso, não estamos desenvolvendo. Força que está latente enquanto nos orientamos midiaticamente.

De certo modo, o que temos assistido é, dentro da perspectiva que apresentamos, o nascimento de mulheres que não passam de homens castrados, negros que são, na verdade, brancos de pele escura e pessoas que resumem todas as suas vidas como referência a uma prática sexual. Nesse sentido, se é verdade que o poder considerava essas pessoas como inferiores até bem pouco tempo, hoje simplesmente as ignora. Não são mais inferiores, inexistem exatamente em sua ampla exposição.

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