quarta-feira, 13 de março de 2013

A insegurança não vem de onde você pensa


Cuidado com eles. Geralmente, são mais
perigosos do que qualquer quadrilha de maltrapilhos.
 
Segurança. Pelo menos dois terços das matérias de jornais, rádios e telejornais tratam do tema. É uma obsessão a segurança. Mas, por quê? 

Em primeiro lugar, vivemos um tempo essencialmente inseguro. Não, não estou falando de assaltantes com lenços no rosto, capuzes, armas pesadas ou facas, espreitando nos becos. Nada de traficantes de crack ou pedófilos aliciando seus filhos. Isso pode ser um problema, mas, definitivamente, não é o maior problema de segurança, ou insegurança, que você tem, a não ser que você more numa comunidade pobre, num “slum”, que é como os gringos chamam nossas favelas. 

Mesmo sem dignidade, é preciso sorrir

Toda a nossa vida passou a ser absoluta e completamente insegura por diversos motivos, dentre os quais, em primeiro lugar, estão os econômicos. Começando pela Receita Federal, com sua taxação exorbitante, suas multas escorchantes, sua lógica fria que privilegia os grandes afortunados, deixando-os quase livres de taxações, mas tira de você o que você conseguiu poupar com muito esforço. 

A ameaça constante de perda do emprego também traz muita insegurança, fazendo com que você se submeta a todo o tipo de humilhação para manter o que te dá um pagamento em dinheiro, mas te tira a dignidade. Há ainda a incerteza de conseguir saldar as dívidas, cumprir os compromissos, sobreviver aos juros e às taxas bancárias. 

No emprego, há a concorrência, notadamente dos colegas, que não costumam ser solidários, ou o são apenas em casos excepcionais. Você precisa não apenas trabalhar como um louco (ou louca), mas ainda fazer tudo como o chefe manda, mesmo que o chefe seja um imbecil, o que não é raro, e cuidar para que os colegas não te deem rasteiras. Depois do expediente, é comum ter que sair com o pessoal do escritório, tomar umas e contar vantagens. E que ninguém te veja triste ou preocupado. A tônica é a confiança e a alegria constantes. Use fita adesiva para estampar um sorriso perene ou faça uma boa cirurgia plástica que aproxime a ponta dos lábios às orelhas. Sorria, sorria e sorria, mesmo que não haja nenhum motivo para isso. 

Você não sabe nada

Há também a insegurança instaurada pela transformação dos costumes, o que significa falar do declínio dos saberes tradicionais, aquilo que vovô, vovó, mamãe e papai ensinaram, e da instabilidade provocada por isso. Da mesma forma, a insegurança motivada pelos ataques constantes à integridade mental que os poderes constituídos operam cotidianamente, criando regras draconianas e leis dignas dos romances de Kafka. 

O Estado e as instituições públicas cada vez mais dizem a você que a sua capacidade de deliberação sobre o que é bom ou mau não é mais sua, mas deles, que sabem o que é melhor para você. Assim acontece com o uso do tabaco, as formas de relacionamento com seus filhos, a sexualidade, o entretenimento, as proibições inúmeras etc. O poder sabe o que você deve ingerir, como deve tratar o lixo, como deve lidar com o espaço público, como deve dirigir, o que e quando deve beber, como e quando se divertir, o que pensar e sentir etc. Você não sabe nada, mas toda a publicidade curte com a tua cara e diz que as escolhas são suas. 

Como se não bastasse, pior do que tudo são as contradições, as duplas mensagens, sempre presentes em quase tudo o que acontece no poder público e nas grandes corporações. Você acaba chegando à conclusão de que não dá para confiar no que ninguém fala. Haverá algo que gere mais insegurança do que isso? 

Não tema os maltrapilhos

E ainda tem, é claro, os assaltantes, traficantes de drogas e outros predadores menores, que não são o maior problema, como já disse, mas são inegavelmente um problema. No entanto, reafirmo, não te ameaçam tanto quanto o Estado (com suas polícias, incluindo a de saúde), os grandes empresários, banqueiros e parlamentares. Eu mesmo nunca fui assaltado por ninguém mais pobre que eu e, quantitativamente, salvo exceções muito especiais, o que os mais ricos te tiram é bem mais significativo do que qualquer pobre conseguirá, por mais esforços que faça. O mesmo se pode dizer estatisticamente, pois os aquinhoados costumam te tirar dinheiro todos os dias, enquanto os maltrapilhos só conseguirão fazer isso, no máximo, uma dezena de vezes em toda a tua vida. Logo, não é destes que vem a insegurança, não se iluda, é daqueles. 

Fala-se tanto de violência urbana, mas há muito não há um crescimento significativo dela. O que há, é um aumento da violência que o Estado e seus controladores, leia-se os políticos, banqueiros e megaempresários, operam contra nós, em parte para nos roubar, em parte para administrar nossa vida, em parte para nos deixar amedrontados o suficiente para temer reagir. E são esses mesmos sujeitos que precisam desviar a nossa atenção para que tenhamos bastante medo dos bandidos pobres, mas não percebamos que se a nossa vida é insegura ao extremo, não é por conta desses miseráveis.

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