quarta-feira, 27 de março de 2013

Telma, eu não sou gay, mas tenho a alma negra e pergunto: quem é mais reacionário, o pastor ou os que o querem calar no grito?

Um dos manifestantes no momento em
que se dirigia para o ato de protesto

Um dos amigos citados no texto anterior sobre o pastor da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara ficou indignado. Com o dedo em riste, disse que eu não entendo nada de nada, que ninguém entende o que escrevo e que não tenho propriedade para falar de assuntos de gays e negros, pois sou branco, heterossexual e reacionário, como o pastor. 

Bem, já me convenci que não consigo agradar nem a gregos, muito menos a troianos. Não busco concordâncias, embora confesse que já tentei consegui-las. No entanto, fracassei. Sou como um vascaíno no Maracanã em dia de Fla-Flu: vai apanhar de todo mundo, com certeza. Sempre apanho. O fato é que entendo que vivemos, praticamente todos, um grande delírio e nele está incluída a pendenga que envolve o pastor, gays, negros e os que não são nem uma coisa nem outra, mas querem comprovar que são cidadãos libertários e atuantes. Não passa de um delírio do tipo circense, repito. Coisas de uma sociedade midiatizada.


Telma, eu não sou gay

Ao amigo troiano e aos outros críticos gregos, deixo claro que não sou gay, nem jamais seria, pois considero uma pobreza de espírito ter uma opção sexual e sair por aí alardeando-a. Isso inclui, é claro, os machos que bebem cerveja e se reúnem com os coleguinhas para tecer comentários sobre as “gatas” que passam, ou, mais ridículo, para contar o que fizeram com “aquela vadia da fulana”. Não aprecio isso, por isso acho esses machos fálicos e os gays, que resumem sua identidade à adesão a uma prática sexual, criaturas pobres de espírito. 

Reitero: refiro-me especificamente aos “gays”, não aos homossexuais ou a todo aquele que adote práticas homossexuais. Não tenho nada a ver com o que você faz com o seu corpo, só não venha se exibir ou contar com detalhes o que faz. E também deixo claro que esses machos de quem falei são tão homossexuais como os homossexuais: não conquistam as “gatas” para o próprio prazer ou o prazer delas; o fazem claramente para seduzir seus pares machos. Não sabem o que é uma mulher, muitos nem sequer sabem que existe algo assim.

Logo, digo que até poderia ser homossexual, ou adotar práticas homossexuais se achasse outro homem atraente, coisa que nunca me ocorreu. Mas, jamais seria gay. Repito: é muita pobreza de espírito e aceitar um controle político ideologicamente sórdido. Odeio os controles políticos, ainda mais quando prometem liberação e prazer, mas promovem apenas coerção e dor, como no caso gay. Não gosto de ser enganado.


Negro é o lugar que ocupo

Mas, se deixo claro que não sou gay e também não sou homossexual praticante, o mesmo não posso dizer de ser negro. Minha pele é clara, mas tenho a alma mais negra do que o breu. Negro, para mim e para Joel Rufino dos Santos, é um lugar social e, assim sendo, hoje sei que ocupo a faixa social que nasceu povoada pelos negros de pele, os escravos e seus descendentes, mas que se transformou num território de identidade de malditos de todas as raças e etnias. 

Atenção: falo dos realmente malditos, não dessas figurinhas alegóricas que tentam ocupar esse espaço, sem saber como é difícil viver efetivamente nele, como todos os bonecos e bonecas contraculturais que já conheci. E mais: falo dos que têm a alma negra, não os de alma branca, inclusive negros de pele, como tantos que vejo por aí com cabeleiras afro e pinta de intelectuais, sempre em defesa do ideário liberal, ainda que neguem isso. 

E olha que passei boa parte da minha vida acreditando ser branco, iludido pela cor da pele refletida no espelho. Como fui tolo. 


Quem é mais reacionário?

Quanto a ser reacionário, não me interessa ocupar lugares predeterminados, muito menos surfar em marolas apinhadas de tolos que adotam ideias predefinidas. Nem sempre o que parece é e, no caso, como já afirmei, me parecem reacionários os manifestantes que querem, no grito, calar o tal pastor. Se têm bons argumentos, deveriam fazer isso no bom e velho debate. Se são bons os argumentos, são capazes de demolir as concepções também claramente pré-fabricadas do senhor Feliciano. Se não são, como parecem não ser, o jogo acaba zero a zero e todo mundo volta para casa de cabeça baixa. 

O fato é que os manifestantes parecem ser efetivamente tão ou mais reacionários que o pastor. E, assim, ninguém sai do lugar. 

O tal pastor Feliciano está no picadeiro... Você também?


Esta sociedade parece um circo, penso. Mas, não vou entrar em considerações maldosas, não é o objetivo. Não quero definir quem é trapezista, domador ou palhaço. Também não quero botar fogo na lona e sair gargalhando. Só tenho o objetivo de mostrar a você que quase tudo o que acontece por aqui vira atração de picadeiro. E mais: você aplaude e pede bis, sem saber ao certo do que se trata.

Veja o caso do tal pastor que preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o senhor Marcos Feliciano, deputado federal pelo estado de São Paulo. Foi nomeado para a função por seu partido, o Partido Social Cristão (PSC), que parece ter adquirido o privilégio de indicar o cabeça da tal comissão. 

Se você não sabe, não anda frequentando o circo, o que é improvável, explico: o tipo não vai muito com a cara dos gays e disse que os africanos são descendentes do demo. Bem, palhaçadas à parte, isso não faz dele o único vilão da história, pois que muitos pensam assim e, se tantos outros não o fazem, sentem as coisas desse modo, ou não chamariam os desafetos de “veados”, “bichas” etc. e não mandariam esses desafetos irem “tomar no cu”, além de tantas outras ofensas e piadinhas, mais corriqueiras do que beber Coca cola. Com relação aos negros, acontece quase a mesma coisa, ou até mais grave, pois as ofensas, pilhérias e humilhações são covardes ao ponto de marcar o sujeito no que ele tem de indissociável à sua vida: o seu corpo, a cor de seu corpo. Se você é um desses branquelos azedos (ou uma dessas) e nunca pensou, sinceramente, ainda que na intimidade de sua alma, que o negro é inferior, que tende para a vadiagem, que “quando não faz na entrada, faz na saída” etc., você deveria portar o adjetivo “Santo” ou “São”, antes do nome. 

Então, em primeiro lugar, cabe que pensemos no quanto esse pessoal assanhado em atirar pedras no tal pastor não deveria mirar na própria cabeça. Ele não passa de um digno representante da consciência predominante nesta sociedade brasileira acerca de homossexuais e afrodescendentes. Nada mais que isso. 


Atire a primeira pedra

Um amigo me diz que estou com a razão, mas que precisamos melhorar, “avançar na consciência da cidadania e aceitar melhor as diferenças”. Certo, certo. Só que na medida em que se levantam punhos contra o pastor não se está avançando em nada, muito pelo contrário: se está ocultando a própria estupidez, não combatendo-a. Há uma enorme, imensa, diferença entre esconder e combater algo. E o mais engraçado é que ao proceder de forma tão agressivamente estúpida, os manifestantes antiFeliciano estão lhe dando força. Afinal, que custa alguém dizer, com propriedade a esses bobos: quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra, frase atribuída a Cristo na defesa de uma adúltera, segundo me consta. Pior: se pode dizer: quem nunca chamou alguém de veado ou de neguinho que levante a voz contra o pastor. Não vai sobrar um manifestante. 

Outro conhecido argumenta: “Tá certo, mas não pode colocar um cara como esses logo na Comissão de Direitos Humanos!”. Aí é que me convenço que há mais palhaços do que imaginava neste circo. Os tais Direitos Humanos são claramente uma estratégia de controle e esvaziamento das diferenças humanas e, na prática, reconhecem o direito do ocidental, branco, macho e heterossexual (hoje se pode juntar “não fumante” e “ecologicamente correto”) se achar superior aos demais, tanto que é necessário instituir os tais “direitos” para que essa raça superior freie sua sanha e reconheça a existência dos pobres coitados que não lhe são semelhantes. Como lembra o mestre Mohammed ElHajji, esses tais direitos se fundam numa perspectiva individualista do direito, são autorreferentes e discriminatórios. Vêm da mesma raiz do “ama ao próximo como a ti mesmo”, frase cristã que significa, na prática, ame a si próprio no próximo, ou seja, no outro. 

Logo, não há direitos humanos na Declaração dos Direitos Humanos, idiota. Haverá na Câmara dos Deputados ou nas passeatas gays? 


Muita emoção

O fato é que neste circo há muitas atrações: “são muitas emoções”, diria o famoso e fanhoso Roberto Carlos, que só levanta da tumba nas noites de Natal. Todos se emocionam, ficam indignados, franzem os cenhos e defendem nobres causas, pois são cidadãos e democratas. Ninguém, no entanto, pensa, nem em si próprio (o que deveria ser crime inafiançável), nem na merda de sociedade que está ajudando a construir (ou destruir, sabe-se lá). 

O negócio é viver se emocionando, se indignando e se divertindo com isso. Diversão um tanto tosca, é verdade, mas já viu coisa mais tosca que circo?

terça-feira, 26 de março de 2013

Cuidado, os eleitores não vão ficar satisfeitos com esmolas por todo o tempo


O deputado Zeca Dirceu envia para mim, semanalmente, e-mails com informações sobre ações suas, ideias, opiniões etc. Não especificamente para mim, é claro. Apenas faço parte de sua lista de mailing, como tantos outros. Raramente abro os e-mails, mas, nesta terça, dia 26 de março, resolvi abrir. Tratava-se de um texto intitulado “A oposição, a mídia e o desespero”. Eu o leio e fico a pensar algumas coisas.

Em primeiro lugar, o menino, filho de José Dirceu, diz que os ataques da oposição e da imprensa acontecem porque a presidente vai bem e tem aprovação popular. E ele prevê mais ataques, pois a última pesquisa dá 58% de intenções de voto dos eleitores para a próxima eleição, que acontecerá no final de 2014. 
A crença do PT, que parece clara nas palavras de Zeca, é bastante semelhante à do empresário Silvio Santos, que quando lhe perguntaram sobre a baixa qualidade da programação de seu canal de televisão respondeu que apenas dá ao povo o que ele deseja. Ou seja, o que o governo tem oferecido é bom, mas não é o melhor. Este ele guarda para si e para os seus patrões. 
Zeca Dirceu é vice-líder do partido dito dos trabalhadores no Congresso Nacional. Deve ser um parlamentar experiente, portanto, e se escreveu o texto, ou o encomendou a alguém, deve tê-lo feito com algum objetivo, que certamente não foi informar ao seu eleitor que os ataques da oposição e da imprensa vão se acirrar, o que parece óbvio e o que acontecerá independente da aprovação da presidente. Para mim, o objetivo do texto é disfarçar o claro medo que os petistas têm de perder a eleição do próximo ano. Os caras estão grudados na teta e não admitem perdê-la. Até porque boa parte dos companheiros não sabe fazer outra coisa na vida além de militar e politicar. 

Se não for isso, por que tantas estultices no texto? Dirceuzinho diz que o PSDB e a grande mídia são catastrofistas e têm um namoro sério que se torna cada vez mais sério na medida em que “(...) o Governo bate constantemente recordes de aprovação, demonstrando a satisfação do povo brasileiro, que tem sua vida transformada a cada dia”. Engraçado é que Fernando Henrique Cardoso dizia coisa semelhante da oposição durante o seu governo e trágico é saber que o povo brasileiro está tendo a sua vida transformada a cada dia por conta do mergulho no consumo e de algumas esmolas, como a redução da conta de energia elétrica e de impostos sobre a cesta básica. 


Esmolas são até boas, mas são esmolas

Digo que são esmolas, mas não desmereço as medidas do governo. Apenas as coloco no seu devido lugar: são esmolas. Enquanto você paga menos dez reais na conta de luz ou menos cinco reais no arroz, alguns financistas, os verdadeiros governantes do Brasil, recebem cinco, dez milhões por dia. Esmolas é o que são, mas repito, não desmereço esmolas e outras doações semelhantes: graças a elas, muitos sobrevivem no cotidiano e, dada a miséria na qual grande parte da população brasileira viveu e ainda vive, migalhas dormidas do seu pão interessam muito, como poetava Cazuza no Baixo Leblon. Interessam, mas não se iluda: são esmolas. 

Na prática, o cenário catastrófico do país está pintado, mas não para já. Como os financistas não gostam de empresas nacionais, o governo não as protege, deixa-as soltas na selva na qual são indefesos angorás diante dos leões e tigres multinacionais. Resultado: o país não tem um plano que leve em conta investimentos produtivos, apenas adota medidas incentivadoras do consumo. Isso vai dar merda, pode ter certeza que vai. Mas Zeca Dirceu, a presidente e todo o PT acreditam que não. Provavelmente imaginam que se o Papa é argentino, com certeza Deus é brasileiro e vai resolver tudo a contento. Não é e se a coisa continuar desse jeito, em breve os petistas podem passar do paraíso das boas pesquisas ao apedrejamento nas ruas. 

Essa tal “satisfação do povo brasileiro” pode estar se dando no modelo de um conhecido meu: mantém a esposa satisfeita com agradinhos enquanto os melhores presentes, as boas trepadas e algumas belas joias, quem recebem são as amantes. A esposa não deixa de estar satisfeita, é claro, mas no dia em que a coisa virar, sai de baixo.


Investindo na qualidade meia-boca 

Zequinha lembra do PIG, mas esquece das boas relações que o seu partido tem com os grandes meios de comunicação de massa. E, cá para nós, há dois outros fatos também esquecidos: a imprensa não tem sido tão golpista assim em relação ao governo e este tem muitos rabos a serem puxados pela imprensa. A recente viagem da presidente, que gerou gastos astronômicos, foi citada levemente pela imprensa, levemente demais pela imprensa local, brasileira, diga-se de passagem. E fatos como o tal mensalão (é claro que existiu, mas não é “privilégio” dos petistas na aprovação da porca reforma da previdência, pois todos sabemos que FHC também tinha o mesmo esquema, o que o ajudou a ficar dois mandatos no poder), o sujeito com dólares escondidos na cueca, o escândalo da tal lobista amiga íntima de Lula etc. não foram simplesmente invenções da imprensa. Repito que esses escândalos foram tratados até com excessivo carinho pelos abutres do jornalismo. Isso me leva a crer que o namoro entre o PT e a mídia é mais sério do que o que une esta aos tucanos. Mas, no frigir dos ovos, não há mesmo grande diferença entre uns e outros. 

Dirceuzinho cita os já citados abonos na energia elétrica e na cesta básica e lembra da queda do desemprego. Bom, bom, muito bom. Além das referidas esmolas, há empregos, é claro, mas, é bom que se diga, 99% dos empregos são para funções de baixa qualificação, até porque, como dito, o país não tem investido em ciência e produção, ficando apenas no nível do consumo. Os empregos têm carteira assinada, o que é bom, mas são empregos desqualificados, ou seja, que não oferecem grandes perspectivas. Isso é bom, volto a dizer que sim, mas continua sendo algo no nível da esmola, não um efetivo investimento na melhoria da qualidade do trabalho e da vida da população. O governo do PT investiu, principalmente, no ensino também de mais baixo nível, o ensino não presencial que, novamente é preciso dizer, é bom, mas não é o melhor. É bom, mas é bom no estilo meia-boca, como se costuma dizer. 


É isso que o povo quer?

A crença do PT, que parece clara nas palavras de Zeca, é bastante semelhante à do empresário Silvio Santos, que quando lhe perguntaram sobre a baixa qualidade da programação de seu canal de televisão respondeu que apenas dá ao povo o que ele deseja. Ou seja, o que o governo tem oferecido é bom, mas não é o melhor. Este ele guarda para si e para os seus patrões. 

Esse esquema perverso é o que leva o filho de José Dirceu (o que, coitado, acabou segurando o B.O. no mensalão, enquanto Lula não sabia de nada, o santo) a dizer: “Podem falar o que quiserem, porque a Presidenta Dilma conta com o apoio popular”. Talvez o menino devesse assistir o filme “O homem que queria ser rei” para descobrir o que pode acontecer com quem engana dessa maneira um grande grupo de pessoas. O brasileiro pode ser cordial, mas não é burro o suficiente para ser enganado todo o tempo. E, ao contrário do que Zeca afirma, não conhece “a verdade”, mas apenas uma versão dela. E não gosta, como ninguém gosta, de ser feito de bobo. 

PS: E outra, Zeca Dirceu e demais companheiros: há mais de um ano para as eleições. Os quase 60% de intenções de voto podem se transformar em 50, 40, 30 ou 20 nesse tempo. Ainda é cedo e, caso se confirmem os outros concorrentes ao cargo, o bicho vai pegar. E não vai ser fácil: Aécio fica com a direita em peso, segundo se supõe, e mais alguns gatos pingados da dita esquerda; Marina pega os ecologistas e abocanha uma grande parte da esquerda urbana, que já anda virando o nariz para o PT há muito; Eduardo Campos traz uma parte do Nordeste, onde Lula e a presidente de plástico têm muitos votos. Se chegar mais alguém, sabe-se lá o que acontece. De todo modo, a briga vai ser feia e cada vez mais cresce a ala dos que têm clareza de que eleger outro governante não vai fazer a coisa melhorar. O que pretendem é, apenas, uma saudável alternância no poder. Já são onze anos, vamos para doze e, se o PT ganhar, com Dilma ou Lula, serão dezesseis ou mesmo vinte. É muito tempo. É preciso mudanças e a hora é de mudar é essa. Depois, pode ser tarde demais. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Você não é milionário? Então vai pagar caro por isso


O Brasil é engraçado. Há coisas que acontecem aqui que, sinceramente, só rindo, ou chorando, pois não dá para se afirmar com certeza se são cômicas ou trágicas. Bernardo Pilloto (http://www.bernardopilotto.com.br/2013/03/25/eles-reclamam-mas-nao-pagam-os-impostos/) aponta para uma delas: megaempresários e entidades de megaempresários reclamando dos impostos. Ora, mas eles são os que menos pagam! E não estou falando de donos de pequenas e médias empresas. Esses estão próximos do cidadão comum assalariado, que é quem deveria efetivamente reclamar. Próximos, eu disse, porque desgraçado que nem o assalariado, isso não há, principalmente nos últimos governos, que ironicamente foram do partido que sempre se enunciou “dos trabalhadores”. 

A farsa é tão bem montada que os ditos até instalam por aí uns placares cujos números correm incessante e rapidamente, os “impostômetros”. Farsa dos mega, farsa do governo, que apesar de ser do tal partido “dos trabalhadores”, não liga a mínima para os ditos, preferindo distribuir o que tira destes entre os astronomicamente ricos e os muito pobres. Se você é boia-fria ou dono de um empresão, tá feliz. Se tem carteira assinada, salário, férias e décimo-terceiro, tenho pena de você, tanto quanto tenho de mim. Trabalha quase meio ano só para pagar imposto. 

Bernardo Pilloto lembra que, fora a Receita Federal, que odeia a mim e a você, quer nos tirar o máximo e ainda jura que isso é legal, justo e equitativo, há os impostos sobre o consumo, que são os mais pernósticos, principalmente porque atingem em igual medida a todos, independente do poder aquisitivo. Seja rico ou seja pobre, o imposto sobre as mercadorias sempre vem, igual, igualzinho. Ao comprar arroz, feijão ou carne, paga o mesmo tanto o mendigo quanto o banqueiro. Há exceções em alguns produtos que o pobre não compraria nem se pudesse, como caviar, por exemplo, que não tem um sabor assim tão fácil de digerir por quem não o consome por ostentação. 

O arrocho direto no salário, executado pela Receita, ganhou impulso durante o governo FHC, dos tucanos, quando a tabela do Imposto de Renda foi descolada dos reajustes do salário mínimo. O PT, na época oposição, gritou, esperneou, apitou e xingou: votou contra no Congresso. Muito bem, era isso que se poderia esperar de um partido dos trabalhadores. Depois, não mais oposição, disse: esqueça o que eu fiz até hoje, quando era pobre e raivoso, uma oposição desprezível. Agora, fiquei rico, sou síndico do prédio e quem decide sou eu. Então, daqui para frente, nada vai ser diferente. 

Diz Pilloto: 
“Mas os governos de Lula e Dilma mantiveram e acentuaram esta política. Em 1996, a base de cálculo do IR era de R$900,00 mensais, o que equivalia a 8,3 salários mínimos (R$112,00 naquele ano). Hoje, a base de cálculo de R$1.499,15 mensais equivale a 2,77 salários mínimos. Ou seja, os aumentos do salário mínimo geram um aumento na arrecadação dos impostos para o governo federal”.
E o mesmo Pilloto lembra que o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), previsto constitucionalmente e defendido com unhas e dentes por FHC, nos tempos em que era senador, e pelos petistas, nos tempos em que eram oposição, continua inexistindo. Graças à aliança dos primos tucanos com os primos petistas, que se revelam, todos, cada vez mais farinha do mesmo saco. E os petelhos ainda vêm falar em “herança maldita”...

Em resumo: você é milionário? Parabéns! Não é? Pois vai pagar por isso. Quem atesta é o seu partido, caro trabalhador.

O lá e o cá

O Moitinha e o Lulinha. Quem diria, almas gêmeas

Em 1992, George Bush, o Moita pai, sorria de orelha a orelha. Era imbatível na eleição. Havia acabado com a Guerra Fria, se dizia, e tinha promovido uma guerra vitoriosa no Golfo.

O mais importante: o índice de aprovação era astronomicamente favorável ao Moitão. Estava em surpreendentes e pungentes 90%. Tudo ia bem e o céu estava permanentemente azul e, é claro, o sol brilhava no horizonte do partido.

Veio o pleito e Clinton levou.

Temos, no Brasil de hoje, uma presidente com índice de aprovação também alto, bem alto. Se não acabou com nenhuma guerra, há quem jure que está aproximando pobres e ricos, o que suaviza um conflito sempre presente na sociedade brasileira. Além de outras batalhas vencidas, é claro.
Vai de vento em popa, parece até imbatível, tamanha a confiança nas hostes do governo e nos simpatizantes.

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Rebeldia

Sobre a presidente e Bush pai, não é possível afirmar haver tantas semelhanças, mas também não temos, estruturalmente, diferenças notáveis. São duas realidades, bem distintas, mas com governos que se abraçam no objetivo final, na meta claramente posta: são balcões de negócios, como usualmente são os governos ocidentais.
Para ser mais preciso, é preciso dizer que servem aos mesmos senhores, como usualmente fazem os governos ocidentais. Uma diversidade que os separa é que o Moita pai é um sultão, enquanto a brasileira não está próxima de nada semelhante a isso. Parece mais uma adolescente que foi muito malcriada, muito rebelde, mas está, hoje, mais parecida com a mãe. Algo como uma roqueira que descobriu que o que funciona mesmo é cantar pagode. O hit “Como nossos pais”, do bom e fanhoso Belchior, poderia ser usado como hino do governo dos que jogavam pedras na vidraça, agora a protegem para contar o “vil metal”.

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Como nossos pais

E para você que conhece e tem saudades, ou para você que não conhece, segue link da música, com a letra, que reproduzo, abaixo, caso você não queira matar saudades ou conhecer a canção de Belchior, cantada com brilho pela espetacular Elis Regina. (link: http://letras.mus.br/elis-regina/45670/)

Não quero lhe falar, meu grande amor,
Das coisas que aprendi nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
e tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantada com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento o cheiro de nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva do meu coração...

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
que apesar de termos feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não
Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer que eu tô por fora
Ou então que eu tô inventando...

Mas é você que ama o passado e que não vê
É você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Tá em casa, guardado por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo o que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

quarta-feira, 13 de março de 2013

A insegurança não vem de onde você pensa


Cuidado com eles. Geralmente, são mais
perigosos do que qualquer quadrilha de maltrapilhos.
 
Segurança. Pelo menos dois terços das matérias de jornais, rádios e telejornais tratam do tema. É uma obsessão a segurança. Mas, por quê? 

Em primeiro lugar, vivemos um tempo essencialmente inseguro. Não, não estou falando de assaltantes com lenços no rosto, capuzes, armas pesadas ou facas, espreitando nos becos. Nada de traficantes de crack ou pedófilos aliciando seus filhos. Isso pode ser um problema, mas, definitivamente, não é o maior problema de segurança, ou insegurança, que você tem, a não ser que você more numa comunidade pobre, num “slum”, que é como os gringos chamam nossas favelas. 

Mesmo sem dignidade, é preciso sorrir

Toda a nossa vida passou a ser absoluta e completamente insegura por diversos motivos, dentre os quais, em primeiro lugar, estão os econômicos. Começando pela Receita Federal, com sua taxação exorbitante, suas multas escorchantes, sua lógica fria que privilegia os grandes afortunados, deixando-os quase livres de taxações, mas tira de você o que você conseguiu poupar com muito esforço. 

A ameaça constante de perda do emprego também traz muita insegurança, fazendo com que você se submeta a todo o tipo de humilhação para manter o que te dá um pagamento em dinheiro, mas te tira a dignidade. Há ainda a incerteza de conseguir saldar as dívidas, cumprir os compromissos, sobreviver aos juros e às taxas bancárias. 

No emprego, há a concorrência, notadamente dos colegas, que não costumam ser solidários, ou o são apenas em casos excepcionais. Você precisa não apenas trabalhar como um louco (ou louca), mas ainda fazer tudo como o chefe manda, mesmo que o chefe seja um imbecil, o que não é raro, e cuidar para que os colegas não te deem rasteiras. Depois do expediente, é comum ter que sair com o pessoal do escritório, tomar umas e contar vantagens. E que ninguém te veja triste ou preocupado. A tônica é a confiança e a alegria constantes. Use fita adesiva para estampar um sorriso perene ou faça uma boa cirurgia plástica que aproxime a ponta dos lábios às orelhas. Sorria, sorria e sorria, mesmo que não haja nenhum motivo para isso. 

Você não sabe nada

Há também a insegurança instaurada pela transformação dos costumes, o que significa falar do declínio dos saberes tradicionais, aquilo que vovô, vovó, mamãe e papai ensinaram, e da instabilidade provocada por isso. Da mesma forma, a insegurança motivada pelos ataques constantes à integridade mental que os poderes constituídos operam cotidianamente, criando regras draconianas e leis dignas dos romances de Kafka. 

O Estado e as instituições públicas cada vez mais dizem a você que a sua capacidade de deliberação sobre o que é bom ou mau não é mais sua, mas deles, que sabem o que é melhor para você. Assim acontece com o uso do tabaco, as formas de relacionamento com seus filhos, a sexualidade, o entretenimento, as proibições inúmeras etc. O poder sabe o que você deve ingerir, como deve tratar o lixo, como deve lidar com o espaço público, como deve dirigir, o que e quando deve beber, como e quando se divertir, o que pensar e sentir etc. Você não sabe nada, mas toda a publicidade curte com a tua cara e diz que as escolhas são suas. 

Como se não bastasse, pior do que tudo são as contradições, as duplas mensagens, sempre presentes em quase tudo o que acontece no poder público e nas grandes corporações. Você acaba chegando à conclusão de que não dá para confiar no que ninguém fala. Haverá algo que gere mais insegurança do que isso? 

Não tema os maltrapilhos

E ainda tem, é claro, os assaltantes, traficantes de drogas e outros predadores menores, que não são o maior problema, como já disse, mas são inegavelmente um problema. No entanto, reafirmo, não te ameaçam tanto quanto o Estado (com suas polícias, incluindo a de saúde), os grandes empresários, banqueiros e parlamentares. Eu mesmo nunca fui assaltado por ninguém mais pobre que eu e, quantitativamente, salvo exceções muito especiais, o que os mais ricos te tiram é bem mais significativo do que qualquer pobre conseguirá, por mais esforços que faça. O mesmo se pode dizer estatisticamente, pois os aquinhoados costumam te tirar dinheiro todos os dias, enquanto os maltrapilhos só conseguirão fazer isso, no máximo, uma dezena de vezes em toda a tua vida. Logo, não é destes que vem a insegurança, não se iluda, é daqueles. 

Fala-se tanto de violência urbana, mas há muito não há um crescimento significativo dela. O que há, é um aumento da violência que o Estado e seus controladores, leia-se os políticos, banqueiros e megaempresários, operam contra nós, em parte para nos roubar, em parte para administrar nossa vida, em parte para nos deixar amedrontados o suficiente para temer reagir. E são esses mesmos sujeitos que precisam desviar a nossa atenção para que tenhamos bastante medo dos bandidos pobres, mas não percebamos que se a nossa vida é insegura ao extremo, não é por conta desses miseráveis.

terça-feira, 12 de março de 2013

A relação do PT com o SUS comprova: a ditadura militar fez escola



Ali, olha ali, aqueles com a estrela vermelha
são meus pupilos. O barbudo é o melhor aluno

Não gosto de falar sem saber do que estou falando. Acho que ninguém gosta. E observando a proposta do governo de incentivar a associação do cidadão a planos de saúde parece inevitável querer saber mais. A princípio, parece estranho que um governo composto prioritariamente por pessoas de um partido que se intitulou “dos trabalhadores” venha com uma proposta dessas. Explico: se o governo federal está incentivando o “consumo” de planos de saúde, certamente confirma que já está abandonando o sistema público, o Sistema Único de Saúde (SUS), e avisa que pretende radicalizar esse abandono.

Ponto para aqueles que acusam o governo petista de querer privatizar a saúde.

Cabe ao governo da Sra. Dilma explicar essa história, mas o medo, quase certeza, é que toda e qualquer argumentação petista será tão artificial quanto a aparência da presidente, que mais parece a de uma boneca de plástico do que de uma pessoa de carne, tão postiço é seu sorriso. Isso sem falar no cabelo. A primeira presidente mulher do país parece mais uma peça publicitária do que gente.

Cada vez fica mais claro que o governo do PT atende a interesses que não são nem de longe os dos eleitores que o prestigiam há três pleitos. Ficou claríssimo na Reforma da Previdência, que Maria Lucia Fatorelli desconstrói (veja texto no link http://luizgeremias.blogspot.com.br/2012/09/seguridade-social-e-por-maria-lucia.html), e fica claro na forma como trata os banqueiros internacionais e os trabalhadores assalariados. Deveria salvaguardar estes da sanha daqueles, mas, incrivelmente, faz o oposto.

E, não se iluda, há bons indícios que está apostando nas empresas de saúde privadas simplesmente porque estas são excelentes financiadoras de campanhas politicas. O PT pegou o osso e quer roê-lo por pelo menos uns 30 anos, pode ter certeza. Trata-se de um partido político que não tem qualquer diferença em relação aos demais: as mesmas práticas, a mesma ideologia, os mesmos métodos, a mesma mentalidade caipira e predadora que caracteriza as elites nacionais.

Tudo indica que o trabalhador brasileiro elegeu um partido que julgava seu, até pelo nome, mas vai descobrindo que, na prática, escolheu foi um time de serviçais do alheio, prontos a vender suas antigas ideologias tão barato quanto se pode ver. E eu que ouvi, nos tempos de oposição, alguns de seus militantes afirmar que seus ideais valiam mais do que suas próprias vidas...

Como dito no início, não gosto de falar sem saber do que estou falando. No caso do SUS, o conheço suficientemente bem para saber que está mais abandonado do que nunca. Já no caso da proposta do governo, aguardo as explicações necessárias sobre mais essa notícia de ataque ao sistema de saúde brasileiro. Sim, porque ideia igual a essa só vi no tempo da ditadura militar, quando o governo autoritário também passava recursos da saúde pública para as empresas privadas, resumindo nessa ação os seus esforços pela melhoria das condições da saúde pública nacional. Parece que a ditadura fez escola, justamente no partido que mais radicalmente se opunha a ela.

Mas, cabe aguardar maiores informações da senhora presidente e de seu séquito. Senão, sou obrigado a acreditar que, no caso da saúde pública, a sabedoria popular, respaldada pela Física, tem razão: os opostos se atraem.

domingo, 3 de março de 2013

Ordem, progresso, burrice e o delírio coletivo


Estava me preparando para sair do Rio de Janeiro, onde estive visitando minha família na semana de carnaval, quando deparei com um brilhante texto de Guilherme Fiuza. O título: “Ordem, progresso e burrice”. Ele aborda a burrice que assola a sociedade brasileira. Burrice aguda, mas que caminha rápido para a cronicidade. É que depois da tragédia em Santa Maria (RS), a da tal boate, na qual duzentas pessoas morreram graças a outros tipos de burrice, se acirrou o ritmo de sandices do poder público e da imprensa em busca de uma certa ordem mecânica, de uma segurança inviolável e absolutamente fantasiosa.

Fiuza pontua que não se pode deixar mais acontecer a comemoração da passagem de ano em Copacabana, muito menos o carnaval. É que essas manifestações festivas são extremamente perigosas e o cronista se pergunta pelo plano de segurança para um corre-corre no réveillon e sugere o desfile de blocos em filas indianas, ordenadas e ordeiras como querem as autoridades e a gloriosa imprensa.

E mais: “Condomínios em prédios ricos do Rio de Janeiro estão instalando câmeras em suas fachadas para vigiar e punir moradores que atiram guimbas de cigarro pela janela. Chegou enfim o tempo em que os arroubos éticos consagram a ignorância”, lembra Fiuza. Essa história de proibir jogar coisas aqui e ali é realmente patética. Em Curitiba, onde moro, os digníssimos vereadores votaram uma lei municipal que pune com multa quem jogar uma guimba na rua. Até aí, até que é uma asnice leve, pois o argumento é que milhões de guimbas são atiradas nas ruas e entopem esgotos. A alegação é um tanto bizarra, fede como mais um golpe contra o cidadão, que está cercado de multas e mais multas (afinal este é o espírito liberal – insegurança, dinheiro circulando e Estado policial), mas, vá lá. O mais interessante é que o projeto original previa a instalação de lixeiras adequadas para o depósito das guimbas, o que seria feito pelas companhias de tabaco. O original, eu disso, pois o real não tem nada disso. Fumar em Curitiba, agora, só no banheiro dos fundos, oculto. E, para descartar a guimba, é melhor engoli-la. Isso, sem contar com o preço, graças à santa inquisidora World Health Organization, que comprou a patente da saúde e sabe o que é melhor para todos nós.

Tudo em nome da ordem e do progresso, é claro. É desse modo que os brasileiros entendem que é ser “primeiro mundo”? Quando os caipiras querem aparentar ser ordeiros e progressistas, dá nisso.

Cada vez piores

Não é possível atribuir essa burrice a alguma instituição ou pessoa. A verdade é que, tudo indica, vivemos um delírio coletivo e um dos componentes fundamentais desse delírio é acreditar que normas e regras, regulações e proibições, sanções e punições farão a vida melhor, evitando problemas e acidentes diversos.

Em parte, essa crença compõe a arrogância humana e a prova do que digo é que mal acontece algo com o que não concordamos e é quase irresistível a sentença: “Deveriam proibir isso”.

O grave é que estamos caindo na armadilha do idealismo, do racionalismo puro e da crença de que podemos atingir a perfeição. Na prática, porém, somos humanos e o idealismo não passa de uma defesa contra a percepção da fragilidade de nossa natureza.

Ao invés de aceitarmos nossa condição, ao invés de sabermos melhor o que somos para sermos melhores com o que somos e temos, preferimos fantasiar sermos potencialmente perfeitos, arquitetados à imagem e semelhança de algum ente perfeito, eterno e onipotente. Acabamos criando imagens de deuses e santos, acabamos criando máquinas que quase atingem a perfeição. E, ironicamente, acabamos tentando viver como elas. O resultado é que não melhoramos nada, muito pelo contrário. Ou, mais precisamente, melhoramos em conhecimentos técnicos, notadamente sobre certas funções de nosso corpo, mas estamos no fundo do poço em relação aos conhecimentos sobre nossa alma, que, afinal, vive em parceria com o corpo e, dizem, até mesmo tem enorme influência sobre ele.

Leia, abaixo, o texto de Fiuza, publicado no jornal O Globo do dia 16 de fevereiro.

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Ordem, progresso e burrice

Guilherme Fiuza

A praia de Copacabana deverá ser interditada no réveillon (o povo assistirá aos fogos pela TV). É o mínimo que se espera das autoridades, se elas mantiverem seu surto de ordem pós-Santa Maria. E as centenas de blocos carnavalescos que engessam as ruas terão que desfilar em fila indiana em 2014. É mais seguro.

Os homens da lei que chegaram a invadir festa de aniversário em barzinho, lacrando tudo (até o bolo com suas velas assassinas), não haverão de tolerar mais essas aglomerações bíblicas a céu aberto sem saída de emergência (para quem está no miolo da multidão). As paredes são os outros. Se a ordem é interditar primeiro e perguntar depois, é o caso de ir cancelando logo o réveillon e o carnaval - pelo menos na presente forma de ajuntamentos boçais em nome da paz e da alegria.

A ideia não é o controle total? Então onde está o plano de segurança para um corre-corre acidental numa dessas muvucas de milhares - ou milhões - de pessoas comprimidas e eventualmente alcoolizadas? A presidente Dilma foi muito clara, em um de seus comícios após o incêndio de Santa Maria: determinou aos prefeitos de todo o país que tragédias como aquela jamais se repitam em qualquer cidade brasileira. Pronto.

Nada como uma líder resoluta. A partir daí, cada xerife saiu com sua estrelinha disputando quem embargava mais, quem dava o maior show de interdições de boates, teatros, bares, quiosques e barracas.

Senhor pipoqueiro, onde está o seu alvará? Não tem? Carrocinha lacrada.

Ontem um bueiro entrou em ebulição na Avenida Rio Branco. É o enésimo bueiro na cidade do Rio de Janeiro a atentar contra a população, num histórico recente de explosões súbitas e violentas que já vez dezenas de vítimas. Onde está o plano de segurança contra o subsolo letal? O que deve ser interditado nesse caso? As ruas? Os pedestres? A Light?

O espetáculo dos surtos de ordem pública é patético. Depois da tragédia na boate Kiss, surgiu a proposta de uma medida provisória proibindo as comandas para o pagamento do consumo na saída em casas noturnas. É uma tese incrível: se você pagar um chope de cada vez ao garçom, nunca será refém de uma tragédia. Como se vê, a fronteira entre a civilidade e a estupidez nem sempre é perceptível.

Mas a reação da sociedade em defesa da segurança, da moral e dos bons costumes pode ir muito além disso.

Uma semana depois da tragédia em Santa Maria, a Polícia Federal acionou as polícias civis para uma grande operação na internet.

O objetivo era rastrear piadas que começaram a circular na rede sobre o incêndio. Autoridades policiais informaram que esse tipo de manifestação era crime, anunciando que iriam à caça de seus autores para prendê-los.

A sorte dos bravos investigadores é que demagogia moralista não dá cadeia no Brasil. Mesmo assim, por seus próprios critérios, esses caçadores de espíritos de porco poderiam estar presos: é deles, sem dúvida, a pior piada até agora sobre a tragédia.

Pobre sociedade progressista. Quanto mais se compraz com o espetáculo politicamente correto, mais emburrece.

Condomínios em prédios ricos do Rio de Janeiro estão instalando câmeras em suas fachadas para vigiar e punir moradores que atiram guimbas de cigarro pela janela. Chegou enfim o tempo em que os arroubos éticos consagram a ignorância.

A presidente da República ordena o fim das tragédias, determinando que autoridades locais e donos de boates tenham tolerância zero com as ilegalidades.

Em termos de obediência a regras, o exemplo mais eloquente do governo popular é a transformação de agências reguladoras - que criam e fiscalizam regras - em balcões de empregos e propinas, chefiadas por autoridades como Rosemary Noronha, a lobista afilhada de Dilma e Lula. Mas a presidente é mulher e chora - e isso basta à sociedade "progressista".

Agora o estado-maior novelesco já começa a ofensiva de marketing pelo "Papa brasileiro", para se juntar à mulher e ao operário no presépio populista.

Não tem jeito: é pão e circo (e reza para ele não pegar fogo).

Cada vez mais iguais

O que as chamadas “minorias” ainda não entenderam é que, ao reconhecer suas diferenças o poder os está tornando cada vez mais iguais. Trata-se de algo óbvio, um fato, mas abusadamente sutil, que se articula na subjetividade política. No melhor modelo ideológico, o poder hegemônico inverte o foco e faz com que o sujeito se sinta identificado com ícones pré-formulados, que esgotam a potencial revolta, e os tome como referências pessoais, tornando-se passivos, o rebanho de que Nietzsche falava tanto.

A especificidade na subjetividade política pós-moderna é que o rebanho se divide por cores, tons, preferências diversas. Não é um rebanho uniforme, é colorido, barulhento, estiloso, se divide e subdivide. Tem idiossincrasias, quando não ditadas pela moda, rapidamente incorporadas a ela. É um rebanho midiático, midiatizado, no sentido que lhe dá um termo jurídico antigo, o de interditado para atos individuais de tomada de rumo em sua vida, utilizado para a suposta salvaguarda de um familiar que enlouquece e perde o controle. A pessoa midiatizada não decide, alguém o faz por ela.
"... basta uma observação mais sagaz para perceber que o problema não é que a ficção tenha obtido clara supremacia sobre a realidade. Isso é algo esperado. A questão é que uma ficção hegemônica se impôs com uma força nunca antes vista..."
Assim parece funcionar o sistema de articulação daquilo que Antonio Negri e Michael Hardt chamaram de Multidão, bem mais generoso do que o de rebanho utilizado acima. Para eles, a multidão é multifacetada, anárquica, mas, enquanto multidão em uma sociedade que gira em torno de mídias formativas e informativas, se expõe a que suas demandas fortaleçam mais ainda o poder do Império, o contraponto organizado da multidão, o poder central, também curiosamente multifacetado, ou aparentando estar, sem local específico, sem localização geográfica que o defina e abarque.

O Império suga sua força da multidão e foi a insatisfação desta com um modelo político rígido, burocrático e falsamente puritano que o gerou. O Império soube aproveitar e capitalizar a energia da multidão, canalizando-a para seus fins, através do controle das comunicações. A cultura de massa parece ter sido a máquina de guerra imperial, que, conforme alertava Edgar Morin, abandonou o controle dos corpos para conquistar o espírito. É através da cultura, cujo modelo ainda predominante é o da TV, aquela que te mente ao dizer que você a vê, pois o objetivo é o oposto e é ela que vê a você. Uma máquina guerreira suficientemente articulada e capaz de triturar culturas regionais e, é evidente, exterminar qualquer resquício de singularidade individual.

Tudo se dissolve

Nesse quadro, não apenas as ditas minorias, mas todo e qualquer cidadão ou cidadã pode ser considerado um bovino, parece claro. Só que as coisas não são tão simples assim. Pessoas são diferentes de animais, muito até, embora algumas se pareçam em demasia com eles. Para controlar pessoas, muitas pessoas, não é prudente usar meios físicos, forças de coerção diretamente corporais. Assim se controlam poucos, mas aproveitando a imaginação se controlam todos, ou quase, pensa o Império. Pensa e age assim e se você quiser se aproximar das entranhas imperiais, descubra com quem está o controle dos meios de massa, ditos erroneamente de comunicação.
"... somos iguais nas nossas diferenças, ou principalmente por conta delas, já que as exprimimos de forma igual..."
A questão do rebanho nietzscheano está na submissão objetiva, de carne e alma, a um poder que, se não precisa me matar, me engorda. O poder do fraco, que, na prática, não é poder nenhum.
A questão das minorias se coloca da seguinte forma: todos lutam pelo seu quinhão, por seus direitos, que, no fim das contas, acabam sendo direitos concedidos por um discurso liberal. Aliás, meio concedidos, meio conquistados, mas é difícil observar singularidades revolucionárias nas efetivas transformações da subjetividade pós-moderna. Não é que não existam, é que acabam tragadas pelo turbilhão que o poder imperial produz para manter-se em calmaria. Em outras palavras, são definidas e redefinidas, conceituadas e renomeadas, encaixotadas em caixões de vidro.

Não são heróis, são ídolos e a sua exposição pública dá ensejo a um inevitável simulacro, um pastiche que reproduz a coisa em forma de signo, mas que, no mesmo movimento, a faz desaparecer por detrás daquilo que a representa, o signo. O elemento que compõe e dá forma a uma hiper-realidade, no sentido em que Baudrillard um dia a descreveu, uma realidade mais real do que o real. Uma realidade na qual tudo se encaixa e não há surpresas além das esperadas, como num shopping center.

Diferenças, aliás, devem proporcionar surpresas, ou então não parecem muito com diferenças, parece claro. Isso precisa ser pensado para nos proporcionar a iniciativa de desmontar o discurso das diferenças na sociedade imperial.

As minorias foram convidadas a participar do jogo da maioria, querem ser incluídas, querem entrar no clube. Precisam saber que todo sócio deve ter determinado comportamento para ser aceito e um comportamento mais definido e rígido depois de aceito. Isso não significa austeridade ou puritanismo, pois o mundo pós-moderno consegue jogar na cara da multidão a verdade já enunciada por Nelson Rodrigues: toda pessoa devassa é uma casta nata e hereditária. Não significa andar de uniforme, também, muito pelo contrário. A uniformidade está na diversidade, mais um valor especular dos tempos imperiais.

Como profetizaram Marx e Engels, nunca a realidade se dissolveu com tanta facilidade no ar. Por isso, é difícil não concordar com Neil Gabler quando ele afirma que a vida é um filme (seu livro se chama “Vida, o filme”). Tanto é assim que Thomas Doherty demonstrou, num interessante estudo, como a indústria cinematográfica incentivou e definiu a formação da cultura jovem na metade do século passado. Assim como nesse caso, em tantos outros basta uma observação mais sagaz para perceber que o problema não é que a ficção tenha obtido clara supremacia sobre a realidade. Isso é algo esperado. A questão é que uma ficção hegemônica se impôs com uma força nunca antes vista.

Uma inexistência exposta

Trocando em centavos, é preciso dizer que, conforme nos tem mostrado a realidade, todos somos diferentes, mas “com alguma coisa em comum”, conforme uma das melhores peças publicitárias brasileiras, a do cigarro Free, que conseguiu alçar a marca aos píncaros do mercado há duas décadas. Isso significa que todos somos iguais nas nossas diferenças, ou principalmente por conta delas, já que as exprimimos de forma igual.

Como diz uma musiquinha de um canal infantil de uma TV a cabo, “todos somos necessários” para o poder (a mensagem da música, no entanto, é ecológica e também cidadã, fazendo uma suposta defesa da alteridade, da diversidade). E o fato de sermos necessários para o poder nos dá uma força que não estamos percebendo ter e, por isso, não estamos desenvolvendo. Força que está latente enquanto nos orientamos midiaticamente.

De certo modo, o que temos assistido é, dentro da perspectiva que apresentamos, o nascimento de mulheres que não passam de homens castrados, negros que são, na verdade, brancos de pele escura e pessoas que resumem todas as suas vidas como referência a uma prática sexual. Nesse sentido, se é verdade que o poder considerava essas pessoas como inferiores até bem pouco tempo, hoje simplesmente as ignora. Não são mais inferiores, inexistem exatamente em sua ampla exposição.