domingo, 3 de fevereiro de 2013

Você já ouviu falar de Anaximandro de Mileto? Se não, eu lhe apresento agora


Já ouviu falar de um tal Anaximandro? Duvido. Mas, se isso aconteceu, provavelmente foi en passant, no meio do balaio de filósofos que traz a etiqueta “Pré-socráticos”. Como se essa Filosofia de que tanto se fala tivesse começado, de verdade, com Sócrates, que, aliás, nada escreveu. Mas, se, ao contrário da maioria, você conhece a história desse milesiano (1), com certeza é uma pessoa perspicaz.

Parece que esse quase desconhecido, nascido em Mileto, como Thales, aí por 610 a.C. e falecido em aproximadamente 546 a.C., é muito mais importante para a história da Filosofia e, desse modo, para o mundo ocidental, do que costumeiramente se costuma supor. Ganhou atenção de figuras-chave do pensamento, como Aristóteles, Hegel, Heidegger e Freud.

O fato é que Anaximandro é o segundo filósofo da cultura grega, citado pelos estudiosos dos filósofos antigos, chamados doxógrafos. Discípulo de Thales, criou um sistema metafísico, idealizando leis que regeriam a tudo e todos, propôs uma fascinante projeção imagética do espaço cósmico e, além disso, bolou uma explicação para a formação da vida na Terra que, até hoje, se apresenta como a base das teorias atuais.

Leia um dos fragmentos que deixou. Gerd Bornheim refere três (2):


De onde as coisas têm sua origem, lá elas devem também perecer, de acordo com a necessidade; pois devem pagar penas (umas às outras?) e ser julgadas por sua injustiça (ou atos injustos?), de acordo com a ordem do tempo (3).
Esse é dos mais antigos trechos escritos em prosa, introduziu a humanidade ao mundo da mais pura metafísica e é determinante subjetivamente durante toda a história ocidental. E, ora, o que é a Filosofia senão o sistema de pensamento que se desenvolveu predominantemente nesse campo aberto que é a metafísica? Fora isso, a Física, por um lado, e a religião, por outro. Eu lhe pergunto se essa tal metafísica não é o nome que se dá ao caminho de pensamento que se atirou para além da Física, sem recorrer a personagens mitológicos, moldando sua forma e firmando suas conexões ideativas através da razão, com suas articulações lógicas e formulações ponderadas.

Naquele momento tão distante no passado, a filosofia de Anaximandro foi uma novidade que fez com que seu autor, como bem afirma Nietzsche, desse um salto em relação a seu mestre, Thales.

Para compreender o alvorecer da filosofia, é preciso entender que se Thales propôs um elemento comum a tudo, um elemento físico a água. Anaximandro, por sua vez, deve ter pensado: como pode um elemento apenas representar a unidade de todos os outros elementos? Por mais que se admita que as coisas são úmidas enquanto vivas, passando a secar quando mortas, isso não pode significar que sejamos apenas água. Por mais que a terra pareça como que suspensa na água, isso ainda parece pouco para determinar que tudo venha dela, que ela seja o elemento primordial. E, assim, propôs um “não elemento” como unificador de toda a realidade, o ápeiron (4), que significa em tradução aproximada, o que não tem limite. Nós, os bois, crocodilos, pedras, árvores, nuvens e tudo aquilo que está neste mundo, incluindo a água e o ar, temos limites, podemos ser contidos, temos ou tomamos uma ou várias formas, morremos. O ápeiron não. Pela oposição, o genial milesiano demonstra a unidade do ser.

O conceito de ápeiron está definido sucintamente no dicionário de Antônio Houaiss: “(...) a realidade infinita, ilimitada, invisível e indeterminada que é a essência de todas as formas do universo, sendo concebida como o elemento primordial a partir do qual todos os seres foram gerados e para o qual retornam após a sua dissolução”.

O processo pode ser melhor apreendido relembrando os parágrafos iniciais do “Pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco. O pêndulo marca o tempo, completando uma rotação em 24 horas, exatamente o período da rotação da Terra em torno do sol. Há, porém, um ponto fixo, aquele no qual se fixa a amarra que sustenta o pêndulo. Esse ponto é o que não se move, que não participa do processo de tempo, que está fora dele, uma referência que evoca o ápeiron:

O Pêndulo dizia-me que, embora tudo se movesse, o globo, o sistema solar, as nebulosas, os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica, desde os éons primitivos à matéria mais viscosa, um único ponto permanecia, eixo, cavilha, engate ideal, deixando que o universo se movesse em torno dele. E eu participava agora daquela experiência suprema, eu que embora me movesse com tudo e com o todo, eu podia ver o “Quid”, o Não-Movente, a Rocha, a Garantia, a caligem luminosíssima que não é corpo, não tem figura forma peso quantidade ou qualidade, e não vê, não sente, não é apreendido pela sensibilidade, não é um lugar, nem um tempo ou um espaço, não é alma, inteligência, imaginação, opinião, número, ordem, medida, substância, eternidade, não é treva nem luz, não é erro nem verdade.
Thales, como veremos adiante, propôs a unidade como fundamento de tudo, como centro de tudo. Anaximandro propôs que a unidade não tem forma, não tem limites e a definição é interessante, pois tudo o que conhecemos materializado tem limites. Mesmo o ar pode ser capturado e delimitado num copo vazio ou num balão. O ápeiron, ao contrário, não pode ser capturado, nunca. Só resta, nessa perspectiva, abordá-lo pela imaginação, que, afinal, parece ser a principal linguagem de toda a metafísica. E, mais, não é possível pensar a imaginação filosófica como a pura inspiração da existência de uma unidade cósmica captável pela razão humana? É preciso pensar, porém, que, num certo sentido, a razão cria um modelo de unidade para, em seguida, decodificá-la. Pensar isso nos introduz no tema da especulação filosófica e especular, não esqueçamos, remete a “espelho”. 
O primeiro mapa que a história registra


O tema da unidade imaginada por Thales, quando postula que “tudo é um”, como Nietzsche bem pontua, foi desenvolvida mais proficuamente por Anaximandro. O “Um”, porém, não estaria no mundo, mas fora dele, gerando não apenas o mundo que eu e você conhecemos, mas diversos, segundo o discípulo de Thales. No entanto, antes de abordar esses inúmeros mundos gerados a partir do ápeiron, cabe referir outra passagem do “Pêndulo de Foucault”, de Eco, que nos remete ao tema da unidade. Ele fala da oportunidade de estar na presença do “Uno, do Ein Sof, o indizível”.

A referência ao Ein Sof (também conhecido como Ayn Sof) é providencial, pois, na Cabala, esse termo é empregado para designar o “infinito”, o que não tem fim. Fala-se de Deus, é certo, mas não o Deus que estamos acostumados a ouvir ser referido no cotidiano nas expressões “Deus te ajude”, “Ai, meu Deus” ou “Pelo amor de Deus”, muito menos “falar com Deus”. Trata-se de outra coisa, ninguém fala com o Ein Sof que é, como no texto de Eco, indizível, pois que Deus, para o judaísmo, não tem nome pronunciável, muito menos forma delimitável. O Ein Sof, assim como o ápeiron de Anaximandro, é ilimitado e é a origem de tudo o que existe. Cabe o registro que esse conceito cabalístico parece ter sido criado bem depois do ápeiron do filósofo milesiano, pois as referências que encontrei apontam para Azriel ben Menahem, que viveu nos séculos XII e XIII da era cristã, na cidade de Girona, localizada na Catalunha (Espanha), como o primeiro a usar o termo.

A noção de ápeiron se mostra pioneira e claramente importante para compreender o pensamento de nosso mundo, ou, mais precisamente, aquilo que costumamos chamar genericamente de “Ocidente”, o que significa falar numa linhagem de investigação filosófica de uma civilização específica. Cabe, nesse sentido, recuperar o pensamento dos chamados pré-socráticos para melhor entender o presente aonde chegamos.

Em outro texto (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2012/11/thales-o-primeiro-filosofo-e-tambem-o.html) já tratamos brevemente da vida e do pensamento de Thales e, agora, estamos falando de Anaximandro, esse grego, também de Mileto, discípulo do pioneiro Thales, que lançou as bases fundamentais que erguem e sustentam toda a estrutura filosófica que conhecemos no mundo ocidental. Cabe salientar que o fez com um nível de abstração admirável, aproveitando, parece certo, a tradição mítica, mas povoando o mundo não de deuses e sim de noções e conceitos. Era, para mim, aquele o exato momento em que se assistiu a expulsão dos deuses e se observou a edificação daquilo que se costuma, desde então, chamar de “o” humano. Somos todos, no plano subjetivo, filhos desse genial milesiano.

Mas, vamos voltar ao começo e falar um pouco mais de Thales, acrescentando ao texto anterior, a referência acerca do que esse sábio grego trouxe de fundamental para a filosofia: segundo Nietzsche, a própria noção do filosofar.


A aquática unidade do ser

Vale a pena conhecer ou relembrar o que diz Nietzsche logo no início do capítulo que dedica a Thales no seu “A filosofia na época trágica dos gregos”. Segundo ele, Thales dá início à novidade, a filosofia, quando projeta uma unidade para o ser. Ao sentenciar que a arché, a origem e o fundamento de tudo, seria um elemento físico fundamental, a água, ele, para Nietzsche, em primeiro lugar, tratava da origem das coisas, continuando a tradição mitológica e religiosa. Em segundo, tratava da origem das coisas sem recursos a mitos ou crenças místicas, logo rompia com a tradição supracitada. Em terceiro lugar, tratava da unidade do ser, trazendo a noção de que tudo é um. E foi por este terceiro motivo que, nas palavras de Nietzsche, se tornou o primeiro filósofo grego.

Tivesse Thales proposto que a terra se originaria da água, isso não passaria de uma mera hipótese física, diz Nietzsche. Mas, ao propor que tudo vem da água, sendo esta o elemento fundamental presente em todos os seres e em todas as substâncias e em todas as coisas, Thales vai mais além e formula a primeira proposição filosófica da história. Ao fazer isso, Thales decreta o fim do mito, ou sua expulsão da polis, mais precisamente da paidea, exatamente aquilo que Platão viria propor direta e francamente como um projeto fulcral de sua República, algo em torno de 200 anos depois.

Esse fato parece ter representado algo que, aparentemente, somente teria lugar na cultura grega, para a qual a natureza não passava de um disfarce, uma enganação engendrada por deuses que ali se ocultariam, e o homem era o centro de tudo, com sua imaginação e, a partir de Thales, predominantemente com a sua razão. É nesse sentido que podemos afirmar que os deuses, cantados em versos por Homero, deixaram o mundo para dar lugar ao que podemos chamar de a Era do Homem, que até hoje perdura. Foi na busca desse espírito, perdido no tempo da chamada Idade Média, que o Renascimento se estruturou e com esse mesmo espírito a modernidade floresceu, bem como sua suposta superação, a chamada pós-modernidade.

Mas é preciso lembrar, ainda, que não há apenas a razão a guiar Thales e todos os seus herdeiros, inclusive nós. A imaginação e a intuição compõem brilhantemente a investigação filosófica, conforme mostra Nietzsche, sugerindo que o pensamento dialético é para o filósofo o que o verso é para o poeta e mostra como isso aconteceu com Thales, que lançou mão de uma metáfora para “fixar sua maravilha, para petrificá-la”, referindo-se, parece claro, à compreensão maravilhosa que esse milesiano intuiu a partir da observação da integração de toda a realidade em um único princípio fundador e estruturante. Como ele mesmo escreveu: “Assim, Thales viu a unidade do ser e, quando quis comunicá-la, falou da água!”.

Assim, não foi exatamente a crença de Thales no elemento água como fundamento de tudo que fundou o ato de filosofar, mas a crença de que haveria um único fundamento para tudo. O fato de Thales ter intuído e enunciado esse princípio foi o ato fundador da filosofia do Ocidente.

Mas, e Anaximandro? Como já dito, foi discípulo de Thales, incorporou a proposição deste, mas foi muito além.


Solemn manners, pompous garments

Anaximandro foi descrito como um sujeito de boas e nobres maneiras, que se vestia como um rei e falava como um sábio. Solemn manners, pompous garments (maneiras solenes, vestimentas pomposas), costumava-se dizer para descrevê-lo. Entre seus doxógrafos estão Aristóteles, Diógenes Laertius e Apollodorus.

Foi o primeiro astrônomo especulativo e formulou um modelo astronômico e da formação da Terra, que são a base do que conhecemos e imaginamos até estes nossos dias. Segundo Anaximandro, a Terra teria forma cilíndrica, sendo a altura aproximadamente a terça parte da largura, e estaria suspensa no ar, sem qualquer base ou amarra. Haveria, ainda, as estrelas, a Lua e o Sol, sendo que aquelas estariam mais próximas da Terra que a Lua e o Sol. Além disso, ele propôs medidas de tamanho para os astros e de distância entre eles. Há quem diga que tomou essas medidas de um texto de Hesíodo, a Teogonia (pode ser conseguido em http://ebookbrowse.com/hesiodo-teogonia-a-origem-dos-deuses-pdf-d305100190). A luz do sol e o brilho das estrelas e da Lua, que Anaximandro já entendia depender da luz solar, chegariam até nós graças a furos no manto celeste.

Anaximandro levou para a Grécia o gnomon, uma tecnologia de medição do tempo avançadíssima para a época, desenvolvida na Babilônia, aparentemente não muito diferente do conhecido relógio de sol. Foi mais longe ainda e fundou uma colônia de emigrantes, de nome Apolônia, tendo se destacado na vida política como adepto da democracia. Seu sistema de interpretação da unidade do mundo foi muitas vezes entendido como um modelo de sociedade democrática, sendo a ágora um equivalente do ápeiron. De todo modo, como pondera Nietzsche, se pode ser verdade que os concidadãos de Anaximandro quisessem se livrar dele lhe enviando para o estrangeiro a fim de fundar a dita colônia, a verdade é que Eleia e Éfeso jamais se livraram dele, pois sua filosofia foi a base sobre a qual se ergueu o pensamento dos mais importantes filósofos dessas duas polis: Heráclito (5) (de Éfeso) e Parmênides (de Eleia). E, da mesma forma, me parece difícil negar a influência do ápeiron no desenvolvimento do “mundo das ideias” de Platão, embora o conceito deste tenha agregado a esse mundo ideal uma imobilidade e um alheamento que não estavam previstos na definição do ápeiron.


Os diversos mundos da realidade e a origem da vida

Anteriormente, citei a crença de Anaximandro de que o ápeiron geraria não apenas este nosso mundo que conhecemos, mas diversos e diversos outros, que coexistiriam. Essa é uma das postulações “anaximândricas” menos comentadas. Conta-se apenas que ele acreditava que convivíamos, nós, neste mundo, com outros mundos, diversos outros, um sem fim deles. Esses mundos, da mesma forma que o nosso, seriam criados e destruídos no ápeiron.

A noção de origem da vida na Terra que temos hoje foi herdada de Anaximandro. Ele imaginou que tudo começou quando uma bola de fogo envolveu a Terra e, ao se resfriar, formou uma espessa camada de umidade que cobriu a terra antes de que o sol a secasse e a transformasse em lama. Todos os animais, inclusive o humano, vieram daí. Os primeiros animais estariam recobertos por uma pele espinhosa, que servia basicamente para proteção. Há certo tom fantástico na explicação, pois Anaximandro imaginava que os humanos teriam saído, já adultos, de dentro dos peixes. Mas, também, esperar o quê? Vale reiterar que se trata de uma explicação que dispensa referências a deuses, titãs ou quaisquer outras figuras mitológicas, o que já era um diferencial importante naquele momento histórico. E o fato dos homens e mulheres nascerem adultos tem uma explicação puramente lógica e racional, bastante admirável para a época: se todos os seres vivos nascem já sabendo sobreviver sozinhos e os humanos não, parece lógico pensar que se os primeiros humanos tivessem nascido tão indefesos quanto nascemos, não teriam sobrevivido. Logo, tudo indica, para Anaximandro, que nasceram já prontos. Não sabemos, porém, como ele explicava o retrocesso ao estado indefeso de nascença que conhecemos.

São de Anaximandro também o primeiro texto escrito em prosa conhecido e o primeiro mapa.


O ápeiron e o inconsciente freudiano

Groddeck, seguidor de Freud,
escreveu o Livro d'Isso


Em determinado momento, Nietzsche pontua que a se ficar puramente com o conceito de ápeiron o resultado seria a queda no conceito platônico de motor eterno o que, aliás, parece ter acontecido, e, na sequência, à noção de Deus, com a filosofia patrística, herdeira direta dos gregos Platão e Aristóteles. Mas, o mesmo Nietzsche admite, a formulação do fragmento de Anaximandro nos faz perceber um mundo trágico e claramente pessimista, nos termos de Schopenhauer, que definia nosso mundo como um conflito entre demônios atormentadores e almas atormentadas, no mesmo espírito do fragmento conhecido de Anaximandro, com o “pagamento de penas, da expiação ou do julgamento perene, conforme o tempo”. Seu conceito de ápeiron é uma espécie de revolução no pensamento e o próprio termo usado é um neologismo criado para designar algo sem limites ou fronteiras, ilimitado, incapaz de se designar a partir de uma afirmação mas captável por uma negação, o “a” que se contrapõe a limite (ἀ- a-, "sem" e πεῖραρ peirar, "fim, limite").

Tudo que conhecemos tem algum tipo de limite ou fronteira. O ápeiron é a negação disso, uma região fora do tempo e do espaço, assim como o inconsciente freudiano, formulado dois mil anos após. Aproximadamente, se poderia dizer que o ápeiron se localiza entre a morte e o nascimento, estando ativo durante o outro período, do nascimento até a morte, conforme o fragmento de Anaximandro deixa claro. Como já dito, uma noção que somente viria a ganhar realce adequado no final do século XIX, com Freud. Trata-se de referências subjetivas bastante próximas. A diferença é de contexto, de momento histórico, de Zeitgeist, se poderia dizer. Anaximandro falava de uma cosmologia, do mundo como um todo em sua vastidão organizada, como era comum naquela época. Freud, vivente em outro tempo, cuja característica era a especificidade dos conceitos ditos científicos, cada vez mais setorizados e especializados, focou um mundo existente dentro de nós, que, apesar disso, não esteve nem está livre de uma cosmologia própria e abrangente, pois responsável pela forma como compreendemos tudo no mundo.

Na concepção de Freud, há uma espécie de ápeiron, mas que ganha o nome de inconsciente, inicialmente, e, num momento posterior, de “id”, ou “isso”, como sugere Bruno Bettelheim e Georg Groddeck, no seu “O livro d’Isso”. E perceba: o “isso”, parece claro, é aquilo que não tem como ser nomeado, assim como o ápeiron de Anaximandro. É, da mesma forma, o lugar, ou não-lugar, de onde tudo parte e para onde tudo volta, ganhando seu sentido na subjetividade humana. Assim como o ápeiron de Anaximandro, o “isso” é total e completamente indefinido, ilimitado, sem tempos, marcos ou mesmo memórias. Parece que Anaximandro e Freud concordavam em muitos pontos de vista, inclusive naquele que afirma que somente a indefinição pode ser o parâmetro que faz surgir as coisas definidas; somente o ilimitado, o sem tempo e sem espaço, pode dar sentido ao limitado.

Para Nietzsche, Anaximandro
deu um salto em relação a Thales
  

A fundação da metafísica

Uma forma de também compreender a contribuição de Anaximandro é pensar nele como o precursor da metafísica, pois sua formulação é a primeira a descrever um mundo diferente do diretamente observável, sem nele incluir deuses, demônios ou quaisquer personagens mitológicos. Thales idealizou e Anaximandro projetou a primeira construção metafísica.

O termo vem do grego antigo μετα [metà], que significa depois de, além de, unido a Φυσις [physis], termo que designa a física ou a natureza. A metafísica nasce como uma forma de estudar e descrever os fundamentos da existência, do ser, investigando a estrutura básica desses fundamentos, quais suas leis, causas e como principia tudo o que conhecemos. E, para mim, nasce claramente, ainda que de forma incipiente, com Anaximandro, pois que Thales não desenvolveu um sistema metafísico, quedando na proposição de uma abordagem física. Ele constrói uma estrutura que vai além e, tudo indica, construiu um sistema de explicação metafísica que nos ajuda, até hoje, a compreender e intuir o mundo que nos cerca.

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(1) Milesiano era todo aquele que nascia em Mileto, colônia grega situada na foz do rio Meandro, região que hoje está dentro dos limites territoriais da Turquia.

(2) As outras duas: “O ilimitado é eterno” e “O ilimitado é imortal e indissolúvel”.

(3) Os parênteses foram incluídos por conta de discordâncias nas traduções encontradas, que oferecem alternativas para os trechos apontados.

(4) O conceito de ápeiron está sucinta e satisfatoriamente definido no dicionário de Antônio Houaiss: “(...) a realidade infinita, ilimitada, invisível e indeterminada que é a essência de todas as formas do universo, sendo concebida como o elemento primordial a partir do qual todos os seres foram gerados e para o qual retornam após a sua dissolução”. O termo vem do grego ἄπειρον e é fruto da junção de “ἀ-“, a-, "sem" e “πεῖραρ”, peirar, "limite, fim".

(5) Ver texto de Renato Nunes Bittencourt (http://www.nea.uerj.br/nearco/arquivos/numero7/9.pdf), que faz uma interessantíssima reflexão sobre a noção de tempo em Anaximandro e em Heráclito, diferenciando a modo como o sistema de pensamento proposto por cada um desses filósofos encara a noção de tempo. Segundo o autor, Anaximandro entendia que haveria leis morais que se realizariam no tempo, enquanto Heráclito percebia a ação do tempo como a de uma criança, sem preceitos morais. Não se pode negar, porém, que tanto essa quanto outras noções de Heráclito é posterior são baseadas nas concepções de Anaximandro, inclusive sua conhecida proposição de que tudo no mundo é fruto de conflitos de opostos.

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