quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Tudo o que você queria saber sobre o TOD, mas não queria ouvir (se é que você sabe o que é TOD)


É curioso como praticamente tudo o que acontece conosco ganha, sempre, uma fala médica. Leio reportagem de jornal curitibano, a Gazeta do Povo, sobre um tal de TOD, iniciais que significam Transtorno Opositor Desafiador, veja só. A matéria parece ser, como tantas outras, apenas para divulgar mais um terror que deve impor medo e gerar procura a especialistas e consumo de medicamentos. É o jornalismo publicitário.

Segundo o texto do jornal, ter uma fase rebelde na vida é comum e não aceitar tudo o que nos é imposto chega a ser algo saudável e até mesmo inspirador de filmes e livros. O comportamento rebelde, ainda segundo a peça jornalística, é normal e conhecido como a “mania de ser do contra”, mas, quando tudo parece resolvido e esclarecido, eis que surge das sombras um problema psiquiátrico: o TOD.

O tal TOD parece ser um desvio de conduta, uma espécie de radical rebeldia infantil. A criança é respondona? É áspera no tratamento com irmãos ou mesmo com os pais? Tem hábito de quebrar coisas em casa? Mente? É agressiva? Então é mais uma vítima do TOD, o que significa dizer que é uma potencial vítima da medicina.

Quando eu era criança, conheci bastante gente com todos esses “sintomas”. No entanto, aquelas crianças eram chamadas de malcriadas ou mesmo de mimadas, nunca de portadoras de alguma sigla médica. O tratamento era, diziam, uma boa surra, castigos diversos etc. Isso mudou. A antiga criança malcriada agora sofre de um transtorno opositor desafiador e merece tratamento médico. Não apenas ele, mas toda a família, pois que essa é a indicação dos profissionais. A surra não custava nada aos pais. Já o tratamento médico...

Bem, devo admitir que o tratamento é bem mais indolor para a criança, o que já é alguma vantagem. As surras eram praticamente torturas cruéis e sempre me revoltaram, fossem aplicadas em mim ou em qualquer outra criança. Não que nunca tenha caído vítima da estupidez da palmada numa criança e devo dizer que é uma covardia inominável. Mas, uma coisa não justifica a outra e não parece ético ficar inventando siglas que, no frigir dos ovos, são apenas diagnósticos feitos para gerar novos tratamentos, novas especialidades, novos medicamentos, novos profissionais, novos nichos de mercado etc. Ah, é claro, para gerar novas necessidades e novos gastos para as famílias.

Isso quer dizer que, de certo modo, as torturas cruéis apenas mudaram de prática, estratégia e vítimas. Agora, são os pais que são martirizados, pois precisam conseguir dinheiro para pagar tantos tratamentos, medicamentos e profissionais dedicados a ver problemas no máximo de comportamentos possíveis. Não são surrados com varas de marmelo ou cintos de couro, mas têm a vida transformada num inferno no qual devem trabalhar sempre mais e mais, se sujeitar a praticamente tudo para não perder a fonte de rendimentos e, se possível, se tornar piores do que os que os torturam.

Mas, cuidado! Não dê ouvidos a mim ou a outros que criticam essas práticas médicas comerciais. A coisa é séria e os especialistas ouvidos pela reportagem alertam que o TOD pode se agravar e, na adolescência, transformar seu filho ou filha em um psicopata juvenil, desses que ficam tomando porres, cheirando cocaína, fumando crack e roubando coisas em casa para sustentar os caprichos e vícios (Ou seja: um aborrescente normal, desses que você vê diariamente em todos os cantos se achando muito rebeldes, mas não fazendo mais do que o esperado pela sociedade de consumo e, pior, achando que se divertem). Só não esqueça que tudo isso tudo é culpa sua, que não deu educação corretamente, tão ocupado(a) estava, trabalhando 18 horas por dia ou se divertindo muito para esquecer que odeia o trabalho e a si próprio(a) por se sujeitar a um(a) imbecil como aquele(a) que você chama de “chefe” (geralmente uma pessoa desqualificada posta nessa função para não atrapalhar o bom andamento do trabalho da linha de produção ou serviços, afinal, ser chefe é muito mais fácil do que produzir – basta comparar o capataz e o escravo).

A piada é que há, ainda, estatísticas e números: segundo a matéria, são 25% dos casos que evoluem para o adolescente rebelde beberrão e cheirador. Sorte sua se seu(sua) filho(a) estiver entre os 75% que escapam. Mas, não fique muito feliz. A arbitrariedade com que esses números são criados e divulgados é impressionante e não faz mais do que assustar ou tranquilizar. No fundo, essas estatísticas têm tanta base quando estudos que apontam os milhões que são perdidos (por quem?) graças à pirataria de CDs e DVDs.

Mas, espere. Se você se achava muito felizardo(a) por seu filho estar entre os tais 75% que escapam, ouça essa: “Mesmo que TOD não evolua para um transtorno de conduta, pode persistir após os 18 anos e causar problemas no dia a dia, já que em muitas situações o adulto se depara com a necessidade de obedecer ordens. ‘Isso pode causar problemas no emprego, por exemplo, já que a pessoa terá dificuldades de seguir as ordens de um chefe’”, afirma um médico ouvido pela reportagem (ou pela peça publicitária?). Alguém precisa explicar ao doutor que qualquer pessoa sã tem dificuldades em seguir ordens de idiotas como 75% dos chefes que encontramos em 75% das empresas, sejam públicas ou privadas.

E tudo isso só porque o(a) pirralho(a) anda muito respondão(respondona) e chamando a faxineira de todos os nomes que ele(a) ouviu você chamá-la na surdina. E o pior é que, segundo os especialistas, não adiantam mais as surras ou os castigos. Para eles, a criança não sabe o que faz, não entende o próprio comportamento, mas eles, os doutores, entendem e impõem 20 sessões de terapia familiar para resolver o caso, isso quando não prescrevem medicamentos. E, como há medicamentos em jogo, é claro que há uma “teoria” que fundamenta a prescrição dessas drogas.

Seu filhinho(a) é rebelde? É hora de consumir mais uma panaceia.

5 comentários:

  1. gente.... fiquei impressionada com tamanha propriedade em alguém discorrer com tanta ignorância sobre um tema..
    me desculpe...
    mas tu não tem noção do q é este transtorno... de como são as crianças com este transtorno ou para o q evoluem...
    tu não faz ideia da dificuldade de lidar com uma criança assim...
    ou melhor... da impossibilidade...
    do sofrimento da família...
    da angústia das pessoas ao redor... da escola...
    báh... antes de tu falar sobre algo... por favor... estude ... MAS ESTUDE antes... certamente este texto tu não teria escrito...

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    1. Cara, Christiane, leia o texto antes de falar algo. O texto não trata da TOD, mas de uma matéria jornalística sobre a TOD. Aliás, o importante é pensar nesses diagnósticos e é o que proponho. A matéria é comercial, tenta vender um tratamento que, evidentemente, tem custos para a família e, em alguns casos, para o Estado. Não é caso de medicalizar, entendeu, Chistiane? ESTUDE antes de se manifestar ou, pelo menos, leia o texto com atenção antes de se manifestar. De todo modo, isso acontece. A gente lê rápido, não sabe do que se trata direito e fala ou escreve asneiras. Já aconteceu comigo também, mas neste caso, reafirmo tudo o que está escrito. TOD é mais um diagnóstico médico para explorar o desespero de mães e pais. Assim como Síndrome do Pânico, em outro contexto, e tantos outros diagnósticos que são eminentemente comerciais. Abraços

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  2. Bom... então... conviva 1 mês com uma criança com este diagnóstico e depois venha me falar sobre "diagnóstico comercial" e "indústria de medicamentos" ... vou adorar..

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  3. Já convivi e convivo com casos bem piores, mas... isso não vem ao caso, autocomiseração não é algo bonito. Mas, entenda: uma coisa é a criança, outra o diagnóstico, em outras palavras, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Parece difícil entender isso, mas é possível, lhe garanto. Mas, cada um entende o que pode e o que quer e o pior cego, é o que não quer ver, diz o vulgo. A esse recurso que você usa na conversa, o Jean-Paul Sartre chamava, com propriedade de má-fé. Ora, por que má-fé? Por que você tem a chance de pensar com singularidade, de intervir de forma eficaz na realidade, mas se nega (no caso, pelo visto, segue o diagnóstico religiosamente), se nega, neste caso, a ver de forma diferente a questão, ato que pode ajudar a criança e a você própria, ou quem cuida dela. E justifica isso nos obstáculos da realidade, no "transtorno". Tô com mais pena da criança do que de você, minha cara. Meteram-lhe o rótulo e, pronto. Sem saída. Tudo por culpa da TOD, essa invenção do diabo... Mas, os artigos sobre essa tal TOD são terapêuticos: ajudam você e outros a pensar: mas, que azar o meu, logo meu filho (a) com esse "transtorno", que deve ter caído do céu, castigo divino, sabe-se lá, só para atazanar a pobre família, oh, como sou infeliz. Pobre criancinhas afiliadas ao TOD... Pelo jeito, estão condenadas. Mas, assim segue a vida.

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  4. Hoje, 2 de maio de 2013, publiquei matéria sobre a comercialização da medicina e do uso de fármacos. O texto está no endereço http://luizgeremias.blogspot.com.br/2013/05/a-industria-farmaceutica-precisa-que.html. Trata de forma panorâmica, de novas estratégias da indústria farmacêutica para engabelar você.

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