quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Sobre cirurgias plásticas, saúde, mercado e minha idiotice nata

Sou um inveterado crente na melhoria da vida, no engrandecimento humano. “Besteira, esse articulista certamente é um ingênuo, um tolo”, quem sabe você deve pensar. Concordo. Sou um iludido, um idiota nato e hereditário.

Veja que li o título de uma matéria da Folha de São Paulo: “Sociedade quer restringir prática da cirurgia plástica”. O que pensei? Que haveria na sociedade uma tendência a conscientizar determinadas pessoas que ficar fazendo cirurgias simplesmente por motivos estéticos não é uma boa ideia. E por que não é uma boa ideia? Em primeiro lugar, você se submeter sem uma necessidade imperativa a todo um processo de medicalização e de prática cirúrgica, com cortes profundos, exposição a agentes que podem causar infecções, antibióticos etc. não parece ser das melhores ideias. Em segundo, cabe pensar por que motivo tantas pessoas creem que a sua identidade está condicionada a predicados estéticos e tratam o corpo como se fosse um mero adorno do seu ego.

Tolo. Não era nada disso. A “sociedade” citada é a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a restrição da prática desse tipo de cirurgia diz respeito a uma iniciativa para que apenas médicos especialistas possam realizar esse tipo de procedimento. Em boa parte, é claro, isso parece ser mais uma iniciativa que visa uma reserva de mercado, mas o presidente da tal sociedade afirma que objetiva apenas aumentar a segurança do paciente. Como sou um bobo assumido, chego a pensar que isso pode ser verdade, mas há quem me diga que não passa de cortina de fumaça para ocultar o real objetivo mercadológico. E quem me diz isso parece ser bem mais esperto no assunto que eu.

A justificativa de segurança, porém, é bem fundamentada e lógica: "O especialista faz seis anos de faculdade, dois anos de pós ou residência em cirurgia-geral e mais três anos de pós em cirurgia plástica, totalizando 14.400 horas de treinamento. Ele faz uma prova oral e escrita e recebe o certificado. Um médico com esse treinamento tem mais chance de acertar do que um sem", diz o presidente da Sociedade citada. Espero que esteja falando com o coração, não pensando simplesmente em rechear seu próprio bolso e o de seus colegas. Essa obsessão por dinheiro me parece abjeta, mas tem sido a regra geral.

Há problemas claros a ser vistos, porém. O médico, principalmente o superespecializado, parece crer que lida com uma máquina, ou seja, que as pessoas que o procuram são aparelhos a ser consertados, como rádios, televisores ou carros usados. O médico, que deveria cuidar da saúde de seus clientes, não parece ter, salvo exceções, a prática de ajudá-los a promover a própria saúde, seja física ou mental. No caso que tratamos, deveria ajudar-lhes a pensar que apenas uma boa aparência não justifica um procedimento cirúrgico que, por mais simples que seja, tem riscos e pode gerar sequelas. Mas, não: o cliente quer e paga, ele faz. Não incentiva o paciente a pensar em si. Pelo contrário. Paciente que pensa tende a ficar menos doente e menos dependente do médico, e isso representa prejuízo. Há gente de branco que não pensa assim, mas conheci vários que agem desse modo. Olham o paciente e veem um cifrão.

Outro problema é a valorização extrema da especialização. Um especialista é um sujeito que enxerga o mundo por uma lente de alcance vertical profundo, mas horizontalmente limitado e crê, veja só, que o que vê através dessa lente não tem nada a ver com tudo o que está em volta, fora do alcance da lente. Ou seja, o foco do especialista é sua especialidade e só. O resto não existe ou pelo menos não deveria existir. Um mundo dominado por especialistas é como um quebra-cabeça sem ninguém para unir as partes.

De todo modo, devo dizer que ainda sonho com o advento de um tempo em que vamos nos preocupar mais com a saúde e com a efetiva qualidade de vida uns dos outros do que com o pensamento de quanto vamos poder lucrar explorando uns aos outros. Devo, também, dizer que cada vez mais me considero um idiota por sonhar com essa utopia.

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