quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Minha solidariedade aos mil jornalistas demitidos, mas...

Matéria publicada no sítio do Comunique-se (http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/9-contra-ataque/70513-mais-de-mil-jornalistas-foram-demitidos-nos-ultimos-doze-meses.html) dá conta de que mais de mil jornalistas foram demitidos em 2012. Alguém me diz que mil não é muito diante dos milhares que ainda estão empregados. Concordo, mas fico consternado com o destino dos colegas. Mas, digo, a perda se resume apenas aos vencimentos, pois o nível do trabalho que os jornalistas vêm realizando nos grandes veículos é baixo, muito baixo. Não necessariamente por responsabilidade deles, pois que foram educados e treinados para isso e encontram, nas redações, as condições apropriadas para a prática de um jornalismo de qualidade duvidosa que em nenhum momento pode ser entendido como “serviço público”.

Os jornalistas que conheci, quando jovem, eram grandes, tinham texto primoroso, como o de Nelson Rodrigues e Carlos Castelo Branco, além de ideias próprias e relativa liberdade para expô-las. A gente se comprazia de lê-los, pois nunca sabia direito o que iriam dizer nas colunas. Nelson Rodrigues, que confessava ter “o gosto obsoleto da ênfase, a tendência arcaica da inflexão heroica” e me surpreendia e surpreende até hoje pela paixão que recheava cada palavra, cada frase escrita. Carlos Castelo Branco, o Castelinho, que era mestre na estonteante arte de falar claramente nas ocultas entrelinhas. Na Folha, gostava de ler apenas os articulistas e havia o Jânio de Freitas, logo na página 5, se não me engano, que escrevia com fluência e parecia seguro do que pensava, dizia e escrevia. Havia, da mesma forma, o Alberto Dines dos bons tempos, isso sem falar no cômico Paulo Francis, que cunhou, nas primeiras linhas de uma crônica, uma frase que me pareceu lapidar para definir a condição política, social e cultural brasileira naquele momento: “O Brasil é uma republiqueta governada por um jeca”. E o jeca era Sarney, hoje senhor feudal do Senado Federal. De certo modo, temo que não tenhamos mudando tanto assim desde então.

Sim, havia os grandes jornalistas, que sabiam usar as palavras, mas também havia os menores e não tão habilidosos com seus textos, é claro. Esses, não posso dizer que conheci, pois se o fiz não lembro. Meu padrinho se chamava Walter Rizzo e era jornalista, colunista nos jornais O Dia, A Notícia e, mais tarde, no Jornal dos Sports, o jornal rosa. Tinha texto bom, lembro, mas era mais profissional do jornalismo do que um virtuose do texto. Dizia que não valia definitivamente a pena que eu fosse jornalista também. Alertava para os jogos de interesses internos da classe e deixava claro que se pagava mal, bem mal. Na certa, temia que eu me transformasse num desses medíocres que nem sequer assinam matérias. Creio que seu desejo era que eu me destacasse na vida, sendo útil para a sociedade, não que eu fosse mais um bosta como tantos que conhecia na sua profissão.

Creio que a falta de assinatura de matérias pode ser indício de que todos os textos jornalísticos tendem a ser iguais, sem personalização, industriais. Não apenas os textos, é claro, mas principalmente o espírito que os conduz. E os elogiosos predicados de objetividade e imparcialidade bem parecem ser usados como disfarce para que os fatos sejam analisados da forma mais subjetiva e parcial possível. O objetivo é transmitir as maiores tolices, as mais deslavadas mentiras, da forma mais convincente possível. Digo isso por uma questão lógica: somente aquele que se sabe subjetivo e parcial é honesto o suficiente para almejar certa isenção, objetividade e imparcialidade. Se o sujeito se olha no espelho e diz: eis, aí, alguém completamente imparcial e objetivo! É uma besta ou um patife. Em alguns casos, os dois. Aquele que pretende, ou diz pretender, enxergar o fato “como ele é” precisa de uma intervenção especializada: a de um psiquiatra ou da polícia.

Além da isenção, imparcialidade e objetividade já clássicos, há outros parâmetros aos quais o jornalista deve se enquadrar. Um deles é o modo de organizar as ideias, que pode ser conhecida como “pirâmide invertida”.

A inversão da pirâmide

A pirâmide invertida foi criada no início do século XX, segundo informações colhidas nas enciclopédias virtuais, por Carl Tiuí Hummenigge, um austríaco que tentava fornecer informações mais claras e objetivas para a população acerca do front da Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, mas a prática também é referida como já existente desde a metade do século XIX, quando do surgimento dos primeiros jornais diários de um centavo (one penny), no alvorecer da cultura de massa. Diferentemente do que ocorre em outros estilos literários, o jornalismo prioriza não exatamente o que é mais importante para entender um determinado fato, mas o que é primordial para entendê-lo, o básico, e o que possibilita uma noção rápida do que está acontecendo ou aconteceu recentemente. Em outros termos, se busca estritamente o que define o fato, que deve exposto logo no primeiro parágrafo do texto jornalístico e responder a seis questões básicas:

1. O que aconteceu;

2. Como aconteceu;

3. Por que aconteceu;

4. Onde aconteceu;

5. Quando aconteceu;

6. Com quem aconteceu.

Não necessariamente, é óbvio, o texto do jornalista precisa responder a essas perguntas na ordem exposta acima. O profissional tem liberdade para construir o texto como quiser, contanto que no primeiro parágrafo (também chamado lead, ou lide, em português) estejam as respostas para as seis perguntas. Do básico vai se indo para o mais elaborado e se faltar espaço na página do jornal, se faltar tempo no noticiário de rádio ou se faltar imagens no telejornal, o mais elaborado pode ser cortado e ninguém ficará sabendo dele. Como bem se pode ver, a estrutura da máquina informativa é, entre nós, feita para pessoas que precisam entender tudo muito rápido e de forma evidentemente objetiva e superficial, ou seja, pessoas inseridas na cultura de massa ou, como bem preferiam Adorno e Horkheimer, pessoas com a consciência fabricada numa espécie de linha de montagem cultural, a indústria cultural.

Na cultura de massa, parece claro que ninguém deve pensar. As pessoas parecem precisar, isso sim, saber de muitas coisas e vomitar o que sabem por aí, umas para as outras, como se costuma fazer numa mesa de bar depois do quinto copo. É aí que o jornalista ganha seu valor: é ele que seleciona o que as pessoas devem saber e do modo que devem, mastigando a informação até fazer dela uma massa facilmente deglutível. O termo massa, sob esse vértice, não remete a muitas pessoas, multidão, como muitos entendem. O termo tem sentido como cultura facilmente deglutível. O veículo de massa é como uma ave que, sabendo da debilidade de seus filhotes recém-nascidos, mastiga o alimento até transformá-lo em massa, para lhes facilitar a digestão. O problema começa quando a gente percebe que essa mamãe continua fazendo isso a vida toda, provavelmente com o intuito de que seus filhotes permaneçam sempre filhotes, involuídos e dependentes. Uma forma de castrá-los, diria um psicanalista, completando que, nessa compreensão, todo veículo de comunicação de massa é uma mãe fálica, com todas as implicações subjetivas que isso tem para o indivíduo que depende de uma mãe com essas características.

Antes do emprego, se perdeu a dignidade

Bem, mas, o fato é que mil jornalistas perderam o emprego no ano passado. Ruim, muito ruim. Pior, porém, pode ser pensar que eles tinham perdido algo mais importante antes, a dignidade. Já trabalhavam alienadamente, defendendo uma forma de pensar e agir que não deveria ser encarada sob o vértice da “liberdade de imprensa”, mas da “liberdade de empresa”, isto é, da liberdade da empresa jornalística dizer o que interessa a seus anunciantes, aliados e amigos. E dizer isso como se fosse a mais pura verdade. E, mais ainda, ocultando que o que faz é interpretar o fato, não descrevê-lo “como é”.

Assim, me consterno porque as pessoas que têm em bom apreço a própria dignidade têm onde se refugiar quando acontece alguma desgraça. Pode-se dizer que caem de pé e espero que a maioria dos colegas demitidos possa ter dito isso quando lhe passaram a perna. Uma parte deles, porém, não pôde. Em primeiro lugar, não pode cair de pé aquele que se curva em excesso e se posta em decúbito ventral diante do empregador e que enche o peito para dizer que trabalha com objetividade e imparcialidade quando não sabe bem do que se trata. Em segundo, na sociedade dos grandes comerciantes, das grandes corporações, dignidade é coisa que não se encontra, infelizmente, com facilidade. E isso não é totalmente responsabilidade dos trabalhadores, mas, principalmente, dos que promovem e patrocinam a indignidade.

Quero prestar minha solidariedade aos colegas que passaram pela experiência terrível da demissão nos últimos tempos. Repito que espero que a maioria tenha caído de pé, conforme explicado no parágrafo anterior, mas não tenho tanta esperança de que isso tenha acontecido. Como dizia Augusto dos Anjos, “(...) O homem que, nesta terra miserável,/mora entre feras sente inevitável/necessidade de também ser fera”.

Quero dizer que até mesmo por uma necessidade imperiosa e desesperada de sobrevivência, a maior parte de nós, em pelo menos um período da vida, acaba se identificando com a lama. Conhecendo um pouco a realidade das redações submetidas aos caprichos de certos empresários de “comunicação”, sabendo da vida insalubre que ali se vive, quem sabe os demitidos tenham algo a comemorar: talvez tenham saído do lodo e, quem sabe, essa seja a oportunidade de mudar o rumo da vida e ganhar dignidade, deixando de aceitar se submeter ao jornalismo que se pratica na dita grande imprensa.

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