quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Jornalista não é juiz, mas pensa que sim

Há certas grandes verdades que são ditas por pessoas que não deveriam dizê-las e que, ainda por cima, o fazem em situações em que acabarão por não ser levadas a sério. Ou seja, essas verdades claras e límpidas como a água de uma nascente na serra acabam por ser solapadas pela conjuntura e perdemos a chance de refletir mais seriamente sobre a seu respeito. Uma dessas verdades está contida na adequada, mas aparentemente inoportuna declaração de José Genoino, um dos figurões petistas que foi condenado pelo STF no recente julgamento do Mensalão. Ele disse: “Jornalista não é juiz”, em entrevista coletiva concedida no Congresso Nacional, em Brasília, quando tomava posse de vaga de deputado federal.

Ora, que os jornalistas, aliás, os veículos de comunicação têm vestido toga não há dúvida. No Rio de Janeiro, se em uma incursão do assassino BOPE a uma comunidade resulta na morte de um morador, a imprensa o condena postumamente com base no artigo 12, tráfico de drogas: um traficante foi morto, dizem, tratando-o deliberadamente como bandido. Se, porém, um empresário ou deputado está envolvido em algum tipo de crime, é suspeito, ou suposto, ou acusado de. Se, porém, houver interesse para carimbar a testa de alguém, a coisa muda. O governo FHC comprou votos para comprar a reeleição do sociólogo, ninguém falou muito sobre o assunto e sobrou para um deputado com o nome de Ronivon, apenas. No governo Lula, o caso do Mensalão, por sua vez, ganhou repercussão inaudita. Cheira a dois pesos, duas medidas.

O fato é que os jornalistas se creem com poderes de magistrado. Há dois ou três anos, tentaram condenar um deputado gaúcho porque ele, como relator de um inquérito que apurava o enriquecimento de um outro deputado, um que tinha um castelo, disse não ter encontrado indícios de que o colega teria enriquecido durante o mandato. “Ele já era rico, muito rico, antes disso”, me disse e também disse isso para os jornalistas dos jornalões. Disse, mas de nada adiantou. Os meninos e meninas da imprensa já traziam o script pronto da redação e queriam sangue. Se não o tirassem do deputado do castelo, que o tirassem do relator do inquérito. Foi o que começaram a fazer.

Depois de um bombardeio cerrado, o tal relator teve um rompante e, ao responder a uma ameaça de uma dessas juízas da imprensa, que o ameaçava arrogantemente com a condenação da opinião pública, disse que estava se lixando para a opinião pública. Foi apedrejado pelos juízes, promotores e verdugos do jornalismo que, é claro, não olharam o próprio umbigo e não puderam enxergar o óbvio: o sujeito disse o que disse numa situação de pressão absurda motivada pela crença da jornalista de ter o poder sobre a opinião pública. Para ela, tudo indica, a opinião pública é formada por um monte de muares sobre os quais ela tem enorme influência, como pastora.

Na verdade, quem se lixa para a opinião pública? Ela ou ele? No caso, obviamente, ela.

Genoino assume cargo no parlamento condenado a seis anos de cadeia pelo tal Mensalão. Pouco me importa, não fará grande diferença e suas práticas não diferem tanto assim das dos demais parlamentares, salvo um ou outro. Também não importa à imprensa e aos jornalistas, a não ser pelo fato de que atazaná-lo pode ser divertido para essas mentes sádicas e, é claro, principalmente renderá fatos sensacionais, como o da declaração que comentamos. E, com fatos desse tipo, o jornalista se sente poderoso, pois pode dizer à opinião pública (leia-se os muares) que está sendo atacado quando defende o direito de informação, que sua liberdade está sendo cerceada, que a imprensa é o principal bastião da democracia, o quarto poder, o que fiscaliza etc.

Em suma, Genoino talvez não devesse estar onde está, participou ativamente, tudo indica, de um esquema de corrupção e tudo o mais. No entanto, isso não impede que ouçamos as boas coisas que ele pode ter a dizer. Que os jornalistas se creem arrogantemente acima do bem e do mal, lá isso é verdade. Nisso, ele tem razão.

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