sábado, 19 de janeiro de 2013

Menos investimentos em segurança? Oba!


Passo os olhos pelas notícias e descubro que o Estado do Paraná investirá menos na tal “segurança pública” neste ano de 2013. O cidadão mediano considera isso um absurdo e já ouvi reclamações de alguns conhecidos. Para eles, há que se jogar bastante dinheiro pelo ralo da tal “segurança”, o que significa gastar bastante com a polícia, ou seja, em armamentos, carros, contratação de policiais e outras coisas relacionadas. Um desses conhecidos trabalha na área de segurança e certamente fica muito feliz com o governo investindo no bolso dele, mas e os outros? O que, na prática, ganham? Segurança, respondem.

A lógica dessa tal segurança é a seguinte: há bandidos, pessoas más que estão sempre de olho no que os outros têm. Tanto é assim que muitas vezes são chamados “amigos do alheio”. Os cidadãos, os bons, costumam ter coisas, muitas coisas, incluindo várias de valor. Temem a ação dos maus e, para se proteger deles se cercam de obstáculos defensivos diversos, como grades, cercas eletrificadas e lâminas altamente cortantes nos muros, além de fechaduras, cadeados e mais grades nas portas, portões e janelas. Ou seja, a ameaça está fora e as coisas valiosas estão dentro, uma forma de pensamento simplória, primitiva e perigosa, indicativa de uma forma mental de vida pobre, extremamente pobre, que separa em compartimentos estanques o bem e o mal .

O pior é que, mesmo com tantas dificuldades e obstáculos, há o meliante mau que consegue entrar na região das coisas boas e valiosas do cidadão bom. Nesse caso, dado o fracasso das defesas interpostas pelo cidadão, este aciona a polícia, com o intuito de reaver o que foi roubado e tomar providências em relação ao sujeito que praticou a subtração de bens, detendo-o simplesmente ou surrando-o ou matando-o, não importa. Como reaver o que foi roubado não costuma ser tarefa fácil , resta a convocação da polícia simplesmente como ato de cidadania, para reafirmá-la no que tem de crença nas instituições democráticas, e como sublimação do desejo de vingança. Soube de casos em que o cidadão lesado esqueceu suas lições de cidadania e pagou informalmente a policiais para que dessem uma surra ou mesmo exterminassem o ladrão que os atormentou. Entre esses casos, houve o de um alto executivo de uma emissora de televisão carioca, que foi assaltado em sua mansão e teve, menos de uma semana, o mórbido prazer de saber que aqueles sujeitos que cometeram o ato criminoso haviam sido fuzilados, sem dó nem piedade.


O braço do Leviatã

O exposto leva a pensar que a polícia é, essencialmente, o mais autêntico braço do Leviatã, modelo de Estado proposto por Thomas Hobbes, lá pelo século XVII e adotado pelos liberais, cuja ideologia é absolutamente hegemônica em nossos dias. Nessa ótica, o bom cidadão só é bom porque abdicou do direito de exercer toda e qualquer ação violenta contra o semelhante em prol do Leviatã. Este, através da polícia, tem essa missão, bastando haver motivo para isso. O bom cidadão não bate, não soca, não esfola, não esfaqueia, não atira, não fere, não mata. A polícia faz isso para ele, incluindo vigiar para que nada aconteça e, nesses casos, quanto mais eficiente e violenta a polícia for, mais se compreende que haverá desencorajamento para que haja pessoas a cometer atos lesivos à propriedade privada e à vida: é a lógica do reforço pelo prazer e da inibição pela dor, que toma o humano pelo seu lado mais rasteiro e animal. Por mais que essa lógica se mostre ineficaz, por mais que, claramente, produza resultados inversos aos esperados, ela continua, sempre, prestigiada. Deve haver algum motivo para isso.

Aí, você se pergunta: então, por onde anda a tal inteligência policial? Eu respondo que inteligência a polícia e seus policiais têm, até demais, mas ter inteligência não significa usá-la bem e em prol da vida e do bem comum. O psicopata, por exemplo, prima pela excelência de sua inteligência e ninguém poderá dizer que seus atos tragam alguma contribuição à qualidade de vida.

Um bom exemplo de inteligência que parece psicopática está nas estratégias incensadas hoje por especialistas em segurança pública (e o especialista é um sujeito de visão arguta para um pequeno grupo de coisas ou ideias, mas absoluta e totalmente cego para todo o resto). O chamado policiamento preventivo é a onda de frisson entre os interessados no ramo da segurança. Corresponde proximamente ao que o governo estadunidense pratica no mundo, invade regiões, mata quem quer e a gosto, intimida a população e planta, ali, um comando de ocupação, muitas vezes com objetivos colonizadores e, sempre econômicos. Qualquer semelhança com o Rio de Janeiro, seus morros e favelas com as tais UPPs não é mera coincidência.


Tiros pela culatra

A lógica da segurança, exposta há alguns parágrafos atrás, faz com que um conhecido meu, sujeito ácido e crítico, feche a cara: “quem acredita nisso é um imbecil, um idiota nato e hereditário” , diz. Segundo ele, tudo não passa de uma estratégia de mercado que depende da geração de mais e mais foras-da-lei, de forma a ocupar e justificar os policiais e os teóricos da área de segurança, efetivando a compra e contratação de armas e especialistas, mais policiais e mais aparato jurídico: “Um inferno, caro amigo, um inferno!”, afirma e explica: “Quanto mais se gera um aparelho repressor, mais se deverá gerar, inevitavelmente, mais e mais foras-da-lei. Não é a polícia que é criada para combatê-los, eles são criados para alimentá-la e para gerar mais lucratividade para o mercado de drogas e armas. Esse é o eixo que a inteligência policial parece não entender, ou evita entender”. Se entendesse, parece claro, perceberia que todo o aparato de segurança está superestimado e obeso e, simplesmente, tem que criar ações e mais ações para justificar sua existência, gerar mais e mais inimigos públicos para combater.

Irônico, ele argumenta que os armamentos comprados para equipar a polícia acabam, não raro, nas mãos de assaltantes e são usados não apenas contra a própria polícia, mas ainda contra nós, que não temos nada a ver com isso. Argumenta também que são comprados carros (aliás, viaturas), mas não há estrutura para mantê-los depois do primeiro ou segundo enguiço, o que significa que ficam imobilizados e apodrecendo nos pátios quarteis e delegacias. Os policiais contratados, segundo ele, muitas vezes se voltam contra nós e aderem a quadrilhas especializadas e que contam com informações privilegiadas sobre os esquemas de segurança, o que os torna bandidos privilegiados. Dá como exemplo as milícias nas favelas cariocas, “igualmente ruins ou mesmo piores que os traficantes pobres e sem formação policial – no mínimo, mais cruéis”, diz. E por aí vai.


Impunidade

Os cortes na segurança pública paranaense alcançam R$ 300 milhões que, graças a Deus, não serão usados para alimentar essa estrutura. Sorte a minha, sorte a sua, sorte nossa. Azar de outros, muitos, que vivem disso. Assista os segundo filme “Tropa de Elite” e vai ver que a coisa é maior do que você pensa (no primeiro você só vai se irritar). O dinheiro da droga circula livremente em todos os níveis, é um dos componentes mais importantes que corre pelas veias do capitalismo. Se é que se pode chamar essa barbárie de capitalismo.

Fico sabendo que os maiores cortes incidirão sobre sistemas de inteligência e equipamentos de segurança para os policiais. Isso é justamente o que o ex-secretário nacional da Segurança Pública, coronel da reserva paulista José Vicente da Silva, defende ser importante na prática policial e que não deve sofrer cortes ou reduções. Parece piada, mas não é. “Se não for para ser inteligente, para que serve a polícia? Para prender e matar, indiscriminadamente?”, alguém pode perguntar e ficar sem resposta. Aliás, como já sugeri há algum tempo, em outro texto (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2011/03/apelo-inteligencia.html), falta inteligência quando o assunto é “segurança pública”.

Perto de casa há um posto policial. Inútil. Já recorri aos PMs duas vezes e nada aconteceu. Vou fazer o quê? Leia, logo abaixo, o que aconteceu com um jornalista que fez matéria sobre “coisinhas erradas” que acontecem na polícia. Não vou cair nessa, nem sequer chegar perto de reclamar dos fardados. Eles andam armados, têm distintivo e, como dito, usam fardas, no caso da Polícia Militar (PM). Se você ainda não entendeu, isso significa que têm autorização oficial para usar as armas, inclusive contra você, se reclamar deles. E não venha me dizer que não podem fazer isso, pois sofrerão sanções, serão punidos etc. Se te dão um tiro, você morre, enquanto eles vão ser afastados e, na prática, ganhar um prêmio, pois passam a fazer serviços internos enquanto corre um inquérito que, segundo um policial, não dão em nada, quase nunca. Costumeiramente, uma advertência, uma suspensão. Depois de um tempo, quando ninguém mais se lembra (e em tempos de cultura de massa a memória é curta), tudo volta ao normal.

Não sei, não vi, não ouvi, não digo nada

Para ver como qualquer conversa relacionada à polícia é delicada basta saber o que aconteceu com um jornalista paranaense chamado Mauri König, que coordenou uma série de reportagens com o sugestivo título “Polícia Fora da Lei”, publicadas no jornal curitibano Gazeta do Povo. Ele denunciou supostos desvios do fundo rotativo da Polícia Civil paranaense e o uso irregular de viaturas policiais. Bem intencionado, pretendendo, com o nobre trabalho jornalístico, estar contribuindo com a melhoria da polícia e, é claro, com a qualidade de vida de seus concidadãos, o moço passou a ser ameaçado e não quis esperar para saber se as ameaças iriam às vias de fato: fugiu para o exterior, para bem longe, na atualização da velha e sábia máxima a qual dita que um covarde vivo vale mais que um herói morto.

Ressabiado com Beto Richa, ele deu entrevista no sítio Comunique-se (http://portal.comunique-se.com.br/index.php?utm_medium=email&utm_campaign=newsletter&utm_source=newsletter&option=com_acymailing&ctrl=url&urlid=3251&mailid=390&subid=96659) e disse que o governo do Paraná fez pouco caso das ameaças que recebeu e que ser ameaçado por policiais é bem pior que ser ameaçado por bandidos. Ora, isso é óbvio. Como disse anteriormente, policial tem arma, farda e distintivo e, até que se prove o contrário, pode usar a arma contra você, pois a farda e o distintivo assim permitem. Max Weber chama a isso de “violência consentida”.

König conta que só foram punidos os policiais que contribuíram com a reportagem e que não volta tão cedo ao Brasil.

A malandragem tem uma regra: não se meta no meu esquema que eu não me meto no seu. Se você se meter, assuma as consequências. O papo é reto e não faz curva: não sei de nada, não vi nada, não ouvi nada, não vou falar sobre isso. O silêncio é de ouro e se você for identificado como “fio desencapado”, “dedo de seta”, “fim de festa”, “língua de tamanduá” ou termo parecido, se prepare. Tudo isso quer dizer caguete e, você sabe o que acontece nesses casos. Principalmente se o caguetado for da dona justa.

Ssssssssssshhhhhhhhhhhhhhhhh


Que sociedade, cara pálida?

Se há gente boa, boníssima por trás de fardas e distintivos? É claro que sim, como em qualquer outro trabalho, ofício e profissão. O problema maior é que a instituição não corresponde ao que diz fazer. Vá na internet a qualquer página de qualquer polícia e verá que a definição da missão da instituição não mudará substancialmente.

Vejamos o caso da Polícia Civil de São Paulo, apenas como ilustração. Segundo o que consta em seu sítio (http://www2.policiacivil.sp.gov.br/x2016/modules/mastop_publish/?tac=Pol%EDcia_Civil), a missão dessa instituição é atuar na defesa da sociedade e na preservação da ordem pública e promover a proteção à sociedade e ao indivíduo, isso em linhas gerais, sem incluir todo o texto que, aliás, não é extenso, nem as demais informações sobre diretrizes, funcionamento, atuação etc. Certo, certíssimo. Como dizia um personagem do saudoso Chico Anísio, “palavras são palavras, nada mais que palavras”. Digo isso porque faltam algumas definições para que se possa entender exatamente o que quer dizer o sítio.

O que significa atuar na defesa da sociedade? A sociedade é um bloco, um monólito? Claro que não e falar na sociedade como um bloco significa ocultar diferenças, conflitos, divisões básicas. Se você quer defender a sociedade estará defendendo um grupo e atacando outro ou outros. Ao grupo que você defende se poderá dar o nome de “classe dominante”, por exemplo, como querem os marxistas, ou de “grupo hegemônico”, numa linha mais gramsciana. Mas, jamais, chame-o como quiser chamar, será “a” sociedade. Se a polícia não distingue isso, parece certo que age na proteção a esse grupo e, é claro, a um rol seleto de indivíduos, não ao indivíduo. Essa noção parece a mais importante e dispensa menções à ordem pública, por motivos óbvios, já que está bem claro que essa ordem é feita para servir a poucos.


Mesmo em más instituições, há boas pessoas

Na prática, como disse o delegado Hélio Luz, quando chefe da Polícia Civil no Rio, a polícia tem como missão conter a insatisfação de uma enorme camada da população com as injustiças, a pressão econômica e humana e, acima de tudo, a completa falta de solidariedade das camadas médias. Com essa função, não se pode prestigiar uma instituição, ainda mais quando não declara isso e vem com essa conversa de defender a sociedade e preservar a ordem pública.

Digo o oposto do que se diz por aí. Não digo que há maus elementos na polícia, pois isso é de uma obviedade que beira à estupidez, pois há maus elementos em toda e qualquer instituição. Pior ainda é acreditar que os maus elementos têm força suficiente para maldar os bons e que esse é o problema (trata-se da velha teoria da fruta podre, usada por Bush filho para explicar a ENRON, a empresa bandida).

Levando em conta que compreendo a instituição policial como degradada em sua raiz, como essencialmente defensora do poder econômico e político, logo a entendo como má. No entanto, percebo, com surpresa e satisfação, que, mesmo em uma organização como essa há excelentes pessoas, algumas das quais conheci. Não raro, oprimidas pela instituição e por seus colegas com suas “regras internas”.

Para mim, então, a instituição é má e o que a salva é a qualidade de várias pessoas que dela fazem parte.

Veja que matéria do jornal Gazeta do Povo, de Curitiba, intitulada “‘Lei da mordaça’ ainda vale para a Polícia Militar do Paraná” (http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1336859) mostra bem essa situação. Nela, se relata que se você faz parte da corporação deve ficar de bico fechado e não pode, em hipótese alguma, tecer críticas a nada que diga respeito à instituição. Alguns policiais que mantêm blogs e neles publicam textos críticos acerca de coisas relativas ao seu trabalho são punidos sumariamente.

Ratifico que conheci boas pessoas da Polícia Militar paranaense. Algumas, boníssimas. Não sei se os policiais blogueiros são boas pessoas como as que conheci, mas pelo exposto na matéria do jornal curitibano, parecem tentar ser, mas a instituição policial não é boa e os atrapalha o mais que pode.

O ex-secretário Nacional da Segurança Pública, coronel da reserva da PM paulista José Vicente da Silva, além de defender a instituição ainda diz que policial não pode fazer críticas “fora das normas da instituição”. Ora, ora, ora, Sr. coronel da reserva, pelo visto, então, nem a PM paranaense, nem a paulista, nem provavelmente qualquer outra, gosta muito de críticas. E criticar dentro das normas é muitas vezes impossível, pois não raro são as normas que precisam ser criticadas. Isso significa um "cala a boca, soldado".

Ora, se é o caso de seguir cegamente as normas, então seria melhor lobotomizar os policiais.

Alguém precisa contar ao comando da PM e ao coronel que a ditadura militar acabou há mais de 27 anos, como, aliás, bem lembra a matéria da Gazeta do Povo, que também refere os maus tratos a que são submetidos os jovens policiais militares.


Garantindo a ordem liberal

A sociedade liberal preza, acima de tudo, o poder policial. É ele, em todas suas formas, que garante a ordem injusta do mercado, custe o que custar. O Estado mínimo liberal é formado primordialmente pela polícia e sua função é primordialmente policial. Que os governantes não se metam nos negócios, apenas garantam, se necessário com o uso da força e da violência, que estes possam existir com suas regras, pautadas no faça o que digo, mas não o que faço e, é claro, no lema da Fábula da Colmeia, de Bernard Mandeville: vícios privados, benefícios públicos.

A mensagem é: posso roubar, matar, esfolar, mas dentro da lei, da lei feita para isso. A polícia defende essa lei, o que significa dizer que garante o direito de alguns de roubar e mesmo de matar outros. Isso é verdade, inclusive, para o tráfico de drogas e a polícia, ao reprimir cegamente os traficantes e usuários menores, cumprindo, aliás, as ordem de outra cega, esta assumida, a Justiça, acaba por servir aos grandes traficantes e aos banqueiros que circulam e lavam o dinheiro daqueles. Como sempre, me parece que a polícia está a serviço dos ricos, dos muito e muito ricos. É a ordem destes que se pretende manter.

Por conta dessa lógica, não dá para engolir a nobreza da instituição policial. Não em nossos dias. Em outros, quem sabe. Não sou preconceituoso, sou conceituoso e gostaria de acreditar na polícia. No entanto, desse jeito não é possível e cortes na verba da tal segurança são por mim comemorados.

Não quero ofender ninguém, não estou atacando a instituição. Proponho, como forma de salvá-la do total descrédito no qual vai afundando paulatinamente, uma séria reflexão sobre sua concepção e, consequentemente, acerca de sua práxis.

Para o deputado José Guimarães, o Estadão é a bruxa e Lula a fada


José Guimarães é deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT) do Ceará. Irmão de José Genoino, ex-guerrilheiro de esquerda, ex-presidente do partido, creio que ex-líder do PT e atualmente cumprindo mandato na Câmara Federal, apesar das contestações devido ao fato de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por participação no esquema de corrupção conhecido como “Mensalão”. Dizem as línguas viperinas que Guimarães não foi condenado a nada por conta de seu assessor, José Adalberto Vieira da Silva, não ter dado com a língua nos dentes acerca do caso em que se envolveu ao esconder US$ 100 mil na cueca quando tentava embarcar no aeroporto de Congonhas (SP). O então chefe de gabinete da presidência do Banco do Nordeste (BNB), Kennedy Moura, assinou o BO, assumindo não apenas ser dono da grana que levava nas partes íntimas, mas também de US$ 200 mil que Vieira da Silva levava em sua mala. Eu, de minha parte, jamais vi tanto dinheiro junto. Não tenho cueca suficiente para isso.

Guimarães reclamou, recentemente, que o Estadão publicou uma manchete que tenta “manchar” a imagem de Lula, o ex-presidente. Eis a manchete: “Procurador decide pedir investigação de acusações de Valério contra Lula”. Ora, objetivamente, a manchete não mancha imagem de ninguém. Mesmo que se considere a informação de que a Procuradoria Geral da República não confirme a informação, ou mesmo que a negue, conforme informa o sítio Comunique-se, não há mácula posta na manchete. Assim como perguntar não pode ofender, investigar também não deve, a não ser que se tenha culpa no cartório, como se diz.

Trata-se de uma interpretação do nobre deputado, chefe do assessor dos dólares na cueca, o mesmo deputado que tinha tanta influência no BNB a ponto de indicar Kennedy, que ficou com o mico preto na mão no caso, tudo indica, para acobertá-lo. O BNB, aliás, coleciona denúncias de propinas, favorecimentos, licitações fraudulentas etc., tudo, ou quase tudo, envolvendo Vossa Excelência. Ou seja, muitas máculas, muitas manchas na biografia política de José Guimarães.

Aí, um analista amigo meu disse que se juntamos uma coisa com a outra teremos uma excelente ilustração daquilo que Melanie Klein chamava “identificação projetiva”, notadamente nos quesitos “culpa” e “reparação maníaca”, componentes teóricos fundamentais na construção do conceito.

Ele explica que o conceito de identificação projetiva é muito útil para ajudar a entender como se estrutura a subjetividade de cada um de nós. É o mecanismo básico para isso e funciona, aproximadamente, do modo que vou descrever adiante. Me desculpe apenas, caso não consiga entender. O tema não é simples o suficiente para ser esgotado em algumas linhas.


A identificação projetiva

Quando em tenra idade, a pessoa, para manter baixo o nível de angústia de sua mente, isto é, para não experimentar uma sensação desagradável e desprazerosa dentro de si, cinde os sentimentos bons e maus em grupos estanques e elege coisas e pessoas de seu ambiente para depositar esses sentimentos. Como se pode esperar, os sentimentos maus são projetados com maior frequência, pelo simples motivo que elevam o nível de angústia, o que significa dizer que são projetados para preservar os bons sentimentos, que ficam relacionados à própria pessoa ou, no máximo, a coisas e pessoas próximas, ou, mais precisamente, partes dessas pessoas, já que se trata de um mecanismo muito primitivo e não há percepção de pessoas inteiras nesse momento da vida. Os bons sentimentos precisam ser preservados do contágio com os maus para garantir que mantenham baixo o nível de angústia no chamado aparelho mental. Se há acúmulo de angústia, de privação e de ódio, há desprazer, se há baixa angústia, satisfação e afeto amoroso, há prazer.

Esse mecanismo, como bem se pode notar, é a base da estruturação do primitivo pensamento maniqueísta, no qual há essa divisão estanque entre bem e mal e isso é flagrante nas histórias infantis, com suas fadas e bruxas, que não são mais do que representantes desses sentimentos maus e bons.

Trata-se de uma estratégia mental que se fundamenta na fuga desesperada de um intenso sentimento de culpa e, para essa fuga, utiliza o mecanismo da idealização. Isso ocorre, principalmente, quando a criança vai estruturando seu aparelho psíquico e vai começando a descobrir que as pessoas não são apenas pedaços, como antes compreendia (que o seio não é um pedaço solto no mundo, mas pertence ou está ligado a um corpo, a uma pessoa inteira).

Essa percepção ou descoberta, que abre espaço para o desenvolvimento do que Wilfred Bion, um discípulo de Melanie Klein que seguiu uma trilha própria e profícua, chama de “pensamento”, faz com que a criança experimente grande culpa pelos sentimentos negativos que projetou, simplesmente porque vai entendendo que projetou sentimentos bons e maus no mesmo objeto, que não conseguia ver como integrado anteriormente. Assim, o risco de destruir a pessoa que recebeu a carga de sentimentos negativos e que também guarda os positivos, faz com que se experimente um grande sentimento de culpa que, quanto maior for, gerará uma situação defensiva que Melanie Klein chamava de “defesa maníaca”, ou seja, a idealização da pessoa atacada, que passa a ser vista como onipotente e extremamente forte, além de, é claro, imaculada em sua bondade, pois os sentimentos positivos, bons, são idealizados como imensamente fortes e capazes de “blindar” a pessoa e salvá-la dos malefícios dos sentimentos negativos. Isso é necessário pois estes são também idealizados e somente um amor beatífico, absoluta e completamente indestrutível, pode combater um ódio tão poderoso e grandioso.

Quando nos períodos mais primitivos da vida, na predominância completa da divisão entre bem e mal, esse mecanismo, com sua culpa e reparação maníaca, é mais atuante, pois não há ainda como pensá-lo, ou seja, mantém sua força para além da capacidade de uma criança lidar com ela. A partir de um determinado momento da vida, quando o pensamento se estabelece e é possível integrar os sentimentos bons e maus em uma só pessoa, sem que seja preciso experimentar uma culpa intensa e imensa e sem que seja necessário proceder a uma idealização extrema. Entra-se numa fase estruturante que Klein compreende como depressiva e que representa o ingresso numa ordem pautada pela capacidade de se complexificar a estrutura mental. Nesse momento, a culpa pode ser melhor compreendida e em lugar dos mecanismos maníacos de idealização chega a capacidade de reparação, que permite a experiência do amor, do enriquecimento com a diferença e a gratidão pelas coisas boas que outra pessoa nos faz experimentar.

Em resumo resumidíssimo, sem entrar em detalhes, eis, aqui, uma breve exposição do que seja o mecanismo da identificação projetiva, que nos acompanha por toda a vida.


Quase uma confissão de culpa

Voltando ao deputado que defende Lula da maldade insana do Estadão, maldade essa que aparentemente não está patente na manchete citada, é possível perceber sinais claros de que a identificação projetiva está em plena ação no caso, exibindo suas particularidades mais primitivas e infantis. Parece claro que o nobre deputado não é daqueles que se pode garantir ter uma vida pública imaculada e ilibada. E digo isso, a partir das denúncias e dos indícios que encontramos ao pesquisar a vida no nobre cearense, não posso dizer que tudo seja verdade, mas afirmo que não é possível ter garantias de que Guimarães esteja acima de qualquer suspeita, muito pelo contrário.

Aí, mais uma vez, um analista amigo meu (com crédito para Belchior, que começa uma de suas músicas, creio que se chama “Medo de avião” com essa frase), diz que é possível entender que o deputado baiano faz, para bom entendedor, quase uma confissão de suas mazelas.

Se o Estadão apenas diz que o Ministério Público vai investigar Lula, então não há motivos para aflições, objetivamente. Isso parece claro e cristalino. Os indícios vão surgindo a partir da interpretação da manchete como um ataque letal, o que parece uma óbvia manifestação de que o deputado está, como diz o analista, deixando de ver o que acontece efetivamente na realidade e está “colocando suas fantasias para substituir isso” e idealizando o poder da manchete, o poder do Estadão e, provavelmente, o poder destrutivo de seus prováveis atos espúrios, denunciados e comentados na imprensa e nos meios políticos, o que o lança numa torrente de culpa, num mar de angústias. Assim, precisa fazer de Lula uma figura imaculada, cuja imagem não pode ser manchada por nada, nem mesmo por uma manchete despretensiosa como a referida, que não acusa Lula de participação em nenhum ato ilícito, apenas afirma que o MP pensa em investigar se não há mesmo essa participação.

Se há interesse do Estadão em condenar Lula, isso é outra coisa. Provavelmente há, como há em boa parte de nós, que não temos como engolir a inocência do experiente político no caso. Se José Dirceu foi condenado, se José Genoino foi condenado, como Lula, o chefão, não sabia de nada, de nadinha? Todos sabemos o quanto Lula é blindado no PT. Todos sabemos da idealização de sua pessoa para todo e qualquer militante desse partido. Essa história não é nova. Todos sabemos que, se houve efetivamente o tal mensalão, conforme o STF nos quis fazer crer, é praticamente impossível que Lula não soubesse de nada. Mas, afirmar que somente porque publica uma manchete na qual diz que vai haver investigação sobre o ex-presidente o Estadão está lhe “manchando a imagem” já parece ser um caso patológico que, como disse o analista amigo meu, parece mais uma confissão de culpa. Guimarães teme, se angustia, fantasia que sua própria maldade é a responsável pela fragilidade do líder do PT e precisa idealizar este, enxergá-lo quase como uma virgem imaculada, numa clara manifestação de recurso a uma reparação maníaca. O Estadão é a bruxa, Lula a fada.

Alguém precisa indicar um analista ao deputado José Guimarães. O caso parece grave.

Ato da reitoria da UFPR é manifesto de ataque à democracia


Registre-se que a atitude da reitoria da UFPR de obrigar os sindicalistas do SINDITEST a retornar aos seus horários de trabalho na instituição é, pela lógica mais simples, um ataque a todos os servidores da instituição, um chute no fígado da democracia, que depende dessas pessoas para se manifestar em sua forma mais plena.

O sindicalista eleito precisa militar, precisa ter tempo para estar ao lado de seus colegas nas lutas por melhorias de condições de trabalho e nas salariais. Ao obrigar o sindicalista a cumprir o horário integral como funcionário, a instituição está claramente o impedindo de exercer o mandato para o qual foi eleito.

É uma atitude antidemocrática no sentido mais pungente que esse regime de organização política tem, o de incentivo à participação do cidadão no processo de governança. A reitoria da UFPR está claramente declarando que não simpatiza com os princípios democráticos, pelo menos se entendermos a democracia nos seus fundamentos. Provavelmente, prefere a esquálida ordem política denominada democracia liberal, que não incentiva à participação, mas ao contrário, afasta o cidadão, resumindo a sua influência e sua força política ao ato de votar e de consumir.

Ao adotar essa medida, ao por em ato sua mentalidade antidemocrática, a reitoria declama um manifesto de ódio e repúdio à cidadania, aos direitos de seus servidores e, como já frisado, à ordem democrática.

Curioso que essas coisas aconteçam dentro de um Estado controlado por um governo que nasceu “dos trabalhadores”.

E que céu

Foto tirada no alvorecer do dia 5 de janeiro, em Curitiba

A lua

Foto tirada em 17 de janeiro, com uma câmera dita semiprofissional, sem tripé, mas com um bom zoom

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Unificar eleições é golpe

Esses amigos da Dilma têm cada ideia...
 Leio no sítio de Bernardo Pilotto (http://www.bernardopilotto.com.br/2013/01/05/eleicoes-unificadas-quanta-bobagem/) que o senador Romero Jucá (PMDB/RR) propõe Projeto de Emenda Constitucional de número 71 do ano de 2012 (PEC 71/12) com a proposta de unificar as eleições em todos os níveis, isso a partir de 2022. Isso significa que você elegerá vereadores, prefeitos, deputados estaduais, deputados federais, senadores, governadores e presidente num só dia, num só voto, de embolada. O Sr. Jucá defende que essa história de fazer eleição de dois em dois anos onera os cofres públicos, no que concorda outro senador, o Renan Calheiros (PMDB/AL), que tem outra PEC tramitando com o mesmo objetivo.

É provável que Jucá e Calheiros estejam entendendo que as eleições de dois em dois anos acabam politizando demais as conversas e desejam que eu, você e a torcida do Flamengo discutam mais futebol e novela do que política. Se fossem gregos e tivessem vivido há uns dois mil e tantos anos, certamente estariam propondo a construção de um grande estádio no lugar da ágora, ou, tomando o mundo de hoje, de uma rede de bares ou de uma grande televisão coletiva. Em vez de horário eleitoral gratuito, mais chopinho, telenovela e futebol. A ágora, a democracia, atrapalha, eles pensam.

Vou ser claro: o que esses senadores, sujeitos que foram eleitos pela população para representá-la politicamente, estão demonstrando querer é afastar essa tal população dos designíos da democracia, isto é, gostaram de ser eleitos, mas não querem que os eleitores se metam muito na vida política deles. Em suma, mostram que objetivam representar a si próprios, apenas, e aos que financiam seus luxos, é claro.

Mas, têm lábia e justificam a proposta com o sofisma de que com menos eleições, sobraria dinheiro para construir hospitais e escolas, para pagar melhor os servidores, os aposentados e, por que não dizer, também os deputados e senadores, que, coitados, não conseguem viver com tão pouco e têm que aceitar presentes de empresários para pagar as contas, sustentar assessores e amantes, além de financiar as campanhas. Depois, dizem por aí que são corruptos, mas como serem diferentes?

Talvez você não saiba, ou não lembre, mas lá pelos idos da década de 1970, durante a ditadura militar, as eleições aconteciam de quatro em quatro anos, como querem Jucá e Calheiros. Uma das lutas que mobilizou a opinião pública foi a de fatiar as eleições, para que pudesse haver mais debates políticos. É possível que muitos políticos da época tenham apoiado a proposta de olho em maiores gastos com eleições, pensando em lucrar de alguma forma, mas muitos de nós que nos engajamos na luta tínhamos em mente uma maior politização da sociedade brasileira. Isso foi conseguido, não resta dúvida, por mais que tenhamos críticas pontuais a fazer ao processo eleitoral aqui e ali, por mais que estejamos insatisfeitos com este ou aquele parlamentar e por mais que o governo que se elegeu jurando estar do lado dos trabalhadores e contra as elites tenha mudado de lado.

Bernardo Pilotto sugere o seguinte: em vez de ficarmos com essa conversa mole de economizar com campanhas e debates políticos, vamos pensar em mudanças mais efetivas e que rompam com os ditames do poder econômico, absoluta e completamente hegemônico nestes dias. Nesse sentido, ele propõe:

1. repensar o financiamento de campanhas, impondo limites para gastos, de modo a haver maior igualdade no processo eleitoral, obtendo maior importância para o conteúdo das propostas e menos investimentos em mentiras embrulhadas em belos pacotes discursivos, visuais e auditivos, notadamente na campanha televisiva, na qual os efeitos especiais superam os projetos políticos em beleza e influência na decisão do voto;

2. uma nova distribuição do tempo de campanha na TV: segundo Pilotto, hoje, 2/3 do tempo é distribuído segundo a presença dos partidos na Câmara Federal e apenas 1/3 é distribuído igualitariamente entre os candidatos – ele propõe a inversão disso;

3. usar mais os mecanismos democráticos de plebiscitos e referendos para temas que merecem amplo debate e participação da população para avalizar uma decisão parlamentar e/ou governamental – cabe lembrar que a famigerada e porca reforma da previdência, promovida pelo Partido dos Trabalhadores, que serviu para satisfazer banqueiros credores do Brasil e atrasar a vida de milhões de brasileiros, provavelmente teria merecido um bom e esclarecedor debate e não teria sido tão fácil ao governo esparro do Syndicate (aquele abordado por Nicholas Hagger em seu bom livro), aprová-la no Congresso, ainda que com a prestimosa ajuda dos parlamentares que estavam no bolso do Mensalão.

Em suma, unificar as eleições, fazer você esperar quatro anos para escolher desde o vereador até o Presidente da República é golpe, pura armação. Significa encolher a sua participação no processo político, dificultá-la. Abra o olho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Jornalista não é juiz, mas pensa que sim

Há certas grandes verdades que são ditas por pessoas que não deveriam dizê-las e que, ainda por cima, o fazem em situações em que acabarão por não ser levadas a sério. Ou seja, essas verdades claras e límpidas como a água de uma nascente na serra acabam por ser solapadas pela conjuntura e perdemos a chance de refletir mais seriamente sobre a seu respeito. Uma dessas verdades está contida na adequada, mas aparentemente inoportuna declaração de José Genoino, um dos figurões petistas que foi condenado pelo STF no recente julgamento do Mensalão. Ele disse: “Jornalista não é juiz”, em entrevista coletiva concedida no Congresso Nacional, em Brasília, quando tomava posse de vaga de deputado federal.

Ora, que os jornalistas, aliás, os veículos de comunicação têm vestido toga não há dúvida. No Rio de Janeiro, se em uma incursão do assassino BOPE a uma comunidade resulta na morte de um morador, a imprensa o condena postumamente com base no artigo 12, tráfico de drogas: um traficante foi morto, dizem, tratando-o deliberadamente como bandido. Se, porém, um empresário ou deputado está envolvido em algum tipo de crime, é suspeito, ou suposto, ou acusado de. Se, porém, houver interesse para carimbar a testa de alguém, a coisa muda. O governo FHC comprou votos para comprar a reeleição do sociólogo, ninguém falou muito sobre o assunto e sobrou para um deputado com o nome de Ronivon, apenas. No governo Lula, o caso do Mensalão, por sua vez, ganhou repercussão inaudita. Cheira a dois pesos, duas medidas.

O fato é que os jornalistas se creem com poderes de magistrado. Há dois ou três anos, tentaram condenar um deputado gaúcho porque ele, como relator de um inquérito que apurava o enriquecimento de um outro deputado, um que tinha um castelo, disse não ter encontrado indícios de que o colega teria enriquecido durante o mandato. “Ele já era rico, muito rico, antes disso”, me disse e também disse isso para os jornalistas dos jornalões. Disse, mas de nada adiantou. Os meninos e meninas da imprensa já traziam o script pronto da redação e queriam sangue. Se não o tirassem do deputado do castelo, que o tirassem do relator do inquérito. Foi o que começaram a fazer.

Depois de um bombardeio cerrado, o tal relator teve um rompante e, ao responder a uma ameaça de uma dessas juízas da imprensa, que o ameaçava arrogantemente com a condenação da opinião pública, disse que estava se lixando para a opinião pública. Foi apedrejado pelos juízes, promotores e verdugos do jornalismo que, é claro, não olharam o próprio umbigo e não puderam enxergar o óbvio: o sujeito disse o que disse numa situação de pressão absurda motivada pela crença da jornalista de ter o poder sobre a opinião pública. Para ela, tudo indica, a opinião pública é formada por um monte de muares sobre os quais ela tem enorme influência, como pastora.

Na verdade, quem se lixa para a opinião pública? Ela ou ele? No caso, obviamente, ela.

Genoino assume cargo no parlamento condenado a seis anos de cadeia pelo tal Mensalão. Pouco me importa, não fará grande diferença e suas práticas não diferem tanto assim das dos demais parlamentares, salvo um ou outro. Também não importa à imprensa e aos jornalistas, a não ser pelo fato de que atazaná-lo pode ser divertido para essas mentes sádicas e, é claro, principalmente renderá fatos sensacionais, como o da declaração que comentamos. E, com fatos desse tipo, o jornalista se sente poderoso, pois pode dizer à opinião pública (leia-se os muares) que está sendo atacado quando defende o direito de informação, que sua liberdade está sendo cerceada, que a imprensa é o principal bastião da democracia, o quarto poder, o que fiscaliza etc.

Em suma, Genoino talvez não devesse estar onde está, participou ativamente, tudo indica, de um esquema de corrupção e tudo o mais. No entanto, isso não impede que ouçamos as boas coisas que ele pode ter a dizer. Que os jornalistas se creem arrogantemente acima do bem e do mal, lá isso é verdade. Nisso, ele tem razão.

Minha solidariedade aos mil jornalistas demitidos, mas...

Matéria publicada no sítio do Comunique-se (http://portal.comunique-se.com.br/index.php/editorias/9-contra-ataque/70513-mais-de-mil-jornalistas-foram-demitidos-nos-ultimos-doze-meses.html) dá conta de que mais de mil jornalistas foram demitidos em 2012. Alguém me diz que mil não é muito diante dos milhares que ainda estão empregados. Concordo, mas fico consternado com o destino dos colegas. Mas, digo, a perda se resume apenas aos vencimentos, pois o nível do trabalho que os jornalistas vêm realizando nos grandes veículos é baixo, muito baixo. Não necessariamente por responsabilidade deles, pois que foram educados e treinados para isso e encontram, nas redações, as condições apropriadas para a prática de um jornalismo de qualidade duvidosa que em nenhum momento pode ser entendido como “serviço público”.

Os jornalistas que conheci, quando jovem, eram grandes, tinham texto primoroso, como o de Nelson Rodrigues e Carlos Castelo Branco, além de ideias próprias e relativa liberdade para expô-las. A gente se comprazia de lê-los, pois nunca sabia direito o que iriam dizer nas colunas. Nelson Rodrigues, que confessava ter “o gosto obsoleto da ênfase, a tendência arcaica da inflexão heroica” e me surpreendia e surpreende até hoje pela paixão que recheava cada palavra, cada frase escrita. Carlos Castelo Branco, o Castelinho, que era mestre na estonteante arte de falar claramente nas ocultas entrelinhas. Na Folha, gostava de ler apenas os articulistas e havia o Jânio de Freitas, logo na página 5, se não me engano, que escrevia com fluência e parecia seguro do que pensava, dizia e escrevia. Havia, da mesma forma, o Alberto Dines dos bons tempos, isso sem falar no cômico Paulo Francis, que cunhou, nas primeiras linhas de uma crônica, uma frase que me pareceu lapidar para definir a condição política, social e cultural brasileira naquele momento: “O Brasil é uma republiqueta governada por um jeca”. E o jeca era Sarney, hoje senhor feudal do Senado Federal. De certo modo, temo que não tenhamos mudando tanto assim desde então.

Sim, havia os grandes jornalistas, que sabiam usar as palavras, mas também havia os menores e não tão habilidosos com seus textos, é claro. Esses, não posso dizer que conheci, pois se o fiz não lembro. Meu padrinho se chamava Walter Rizzo e era jornalista, colunista nos jornais O Dia, A Notícia e, mais tarde, no Jornal dos Sports, o jornal rosa. Tinha texto bom, lembro, mas era mais profissional do jornalismo do que um virtuose do texto. Dizia que não valia definitivamente a pena que eu fosse jornalista também. Alertava para os jogos de interesses internos da classe e deixava claro que se pagava mal, bem mal. Na certa, temia que eu me transformasse num desses medíocres que nem sequer assinam matérias. Creio que seu desejo era que eu me destacasse na vida, sendo útil para a sociedade, não que eu fosse mais um bosta como tantos que conhecia na sua profissão.

Creio que a falta de assinatura de matérias pode ser indício de que todos os textos jornalísticos tendem a ser iguais, sem personalização, industriais. Não apenas os textos, é claro, mas principalmente o espírito que os conduz. E os elogiosos predicados de objetividade e imparcialidade bem parecem ser usados como disfarce para que os fatos sejam analisados da forma mais subjetiva e parcial possível. O objetivo é transmitir as maiores tolices, as mais deslavadas mentiras, da forma mais convincente possível. Digo isso por uma questão lógica: somente aquele que se sabe subjetivo e parcial é honesto o suficiente para almejar certa isenção, objetividade e imparcialidade. Se o sujeito se olha no espelho e diz: eis, aí, alguém completamente imparcial e objetivo! É uma besta ou um patife. Em alguns casos, os dois. Aquele que pretende, ou diz pretender, enxergar o fato “como ele é” precisa de uma intervenção especializada: a de um psiquiatra ou da polícia.

Além da isenção, imparcialidade e objetividade já clássicos, há outros parâmetros aos quais o jornalista deve se enquadrar. Um deles é o modo de organizar as ideias, que pode ser conhecida como “pirâmide invertida”.

A inversão da pirâmide

A pirâmide invertida foi criada no início do século XX, segundo informações colhidas nas enciclopédias virtuais, por Carl Tiuí Hummenigge, um austríaco que tentava fornecer informações mais claras e objetivas para a população acerca do front da Primeira Guerra Mundial, ocorrida entre 1914 e 1918, mas a prática também é referida como já existente desde a metade do século XIX, quando do surgimento dos primeiros jornais diários de um centavo (one penny), no alvorecer da cultura de massa. Diferentemente do que ocorre em outros estilos literários, o jornalismo prioriza não exatamente o que é mais importante para entender um determinado fato, mas o que é primordial para entendê-lo, o básico, e o que possibilita uma noção rápida do que está acontecendo ou aconteceu recentemente. Em outros termos, se busca estritamente o que define o fato, que deve exposto logo no primeiro parágrafo do texto jornalístico e responder a seis questões básicas:

1. O que aconteceu;

2. Como aconteceu;

3. Por que aconteceu;

4. Onde aconteceu;

5. Quando aconteceu;

6. Com quem aconteceu.

Não necessariamente, é óbvio, o texto do jornalista precisa responder a essas perguntas na ordem exposta acima. O profissional tem liberdade para construir o texto como quiser, contanto que no primeiro parágrafo (também chamado lead, ou lide, em português) estejam as respostas para as seis perguntas. Do básico vai se indo para o mais elaborado e se faltar espaço na página do jornal, se faltar tempo no noticiário de rádio ou se faltar imagens no telejornal, o mais elaborado pode ser cortado e ninguém ficará sabendo dele. Como bem se pode ver, a estrutura da máquina informativa é, entre nós, feita para pessoas que precisam entender tudo muito rápido e de forma evidentemente objetiva e superficial, ou seja, pessoas inseridas na cultura de massa ou, como bem preferiam Adorno e Horkheimer, pessoas com a consciência fabricada numa espécie de linha de montagem cultural, a indústria cultural.

Na cultura de massa, parece claro que ninguém deve pensar. As pessoas parecem precisar, isso sim, saber de muitas coisas e vomitar o que sabem por aí, umas para as outras, como se costuma fazer numa mesa de bar depois do quinto copo. É aí que o jornalista ganha seu valor: é ele que seleciona o que as pessoas devem saber e do modo que devem, mastigando a informação até fazer dela uma massa facilmente deglutível. O termo massa, sob esse vértice, não remete a muitas pessoas, multidão, como muitos entendem. O termo tem sentido como cultura facilmente deglutível. O veículo de massa é como uma ave que, sabendo da debilidade de seus filhotes recém-nascidos, mastiga o alimento até transformá-lo em massa, para lhes facilitar a digestão. O problema começa quando a gente percebe que essa mamãe continua fazendo isso a vida toda, provavelmente com o intuito de que seus filhotes permaneçam sempre filhotes, involuídos e dependentes. Uma forma de castrá-los, diria um psicanalista, completando que, nessa compreensão, todo veículo de comunicação de massa é uma mãe fálica, com todas as implicações subjetivas que isso tem para o indivíduo que depende de uma mãe com essas características.

Antes do emprego, se perdeu a dignidade

Bem, mas, o fato é que mil jornalistas perderam o emprego no ano passado. Ruim, muito ruim. Pior, porém, pode ser pensar que eles tinham perdido algo mais importante antes, a dignidade. Já trabalhavam alienadamente, defendendo uma forma de pensar e agir que não deveria ser encarada sob o vértice da “liberdade de imprensa”, mas da “liberdade de empresa”, isto é, da liberdade da empresa jornalística dizer o que interessa a seus anunciantes, aliados e amigos. E dizer isso como se fosse a mais pura verdade. E, mais ainda, ocultando que o que faz é interpretar o fato, não descrevê-lo “como é”.

Assim, me consterno porque as pessoas que têm em bom apreço a própria dignidade têm onde se refugiar quando acontece alguma desgraça. Pode-se dizer que caem de pé e espero que a maioria dos colegas demitidos possa ter dito isso quando lhe passaram a perna. Uma parte deles, porém, não pôde. Em primeiro lugar, não pode cair de pé aquele que se curva em excesso e se posta em decúbito ventral diante do empregador e que enche o peito para dizer que trabalha com objetividade e imparcialidade quando não sabe bem do que se trata. Em segundo, na sociedade dos grandes comerciantes, das grandes corporações, dignidade é coisa que não se encontra, infelizmente, com facilidade. E isso não é totalmente responsabilidade dos trabalhadores, mas, principalmente, dos que promovem e patrocinam a indignidade.

Quero prestar minha solidariedade aos colegas que passaram pela experiência terrível da demissão nos últimos tempos. Repito que espero que a maioria tenha caído de pé, conforme explicado no parágrafo anterior, mas não tenho tanta esperança de que isso tenha acontecido. Como dizia Augusto dos Anjos, “(...) O homem que, nesta terra miserável,/mora entre feras sente inevitável/necessidade de também ser fera”.

Quero dizer que até mesmo por uma necessidade imperiosa e desesperada de sobrevivência, a maior parte de nós, em pelo menos um período da vida, acaba se identificando com a lama. Conhecendo um pouco a realidade das redações submetidas aos caprichos de certos empresários de “comunicação”, sabendo da vida insalubre que ali se vive, quem sabe os demitidos tenham algo a comemorar: talvez tenham saído do lodo e, quem sabe, essa seja a oportunidade de mudar o rumo da vida e ganhar dignidade, deixando de aceitar se submeter ao jornalismo que se pratica na dita grande imprensa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Tudo o que você queria saber sobre o TOD, mas não queria ouvir (se é que você sabe o que é TOD)


É curioso como praticamente tudo o que acontece conosco ganha, sempre, uma fala médica. Leio reportagem de jornal curitibano, a Gazeta do Povo, sobre um tal de TOD, iniciais que significam Transtorno Opositor Desafiador, veja só. A matéria parece ser, como tantas outras, apenas para divulgar mais um terror que deve impor medo e gerar procura a especialistas e consumo de medicamentos. É o jornalismo publicitário.

Segundo o texto do jornal, ter uma fase rebelde na vida é comum e não aceitar tudo o que nos é imposto chega a ser algo saudável e até mesmo inspirador de filmes e livros. O comportamento rebelde, ainda segundo a peça jornalística, é normal e conhecido como a “mania de ser do contra”, mas, quando tudo parece resolvido e esclarecido, eis que surge das sombras um problema psiquiátrico: o TOD.

O tal TOD parece ser um desvio de conduta, uma espécie de radical rebeldia infantil. A criança é respondona? É áspera no tratamento com irmãos ou mesmo com os pais? Tem hábito de quebrar coisas em casa? Mente? É agressiva? Então é mais uma vítima do TOD, o que significa dizer que é uma potencial vítima da medicina.

Quando eu era criança, conheci bastante gente com todos esses “sintomas”. No entanto, aquelas crianças eram chamadas de malcriadas ou mesmo de mimadas, nunca de portadoras de alguma sigla médica. O tratamento era, diziam, uma boa surra, castigos diversos etc. Isso mudou. A antiga criança malcriada agora sofre de um transtorno opositor desafiador e merece tratamento médico. Não apenas ele, mas toda a família, pois que essa é a indicação dos profissionais. A surra não custava nada aos pais. Já o tratamento médico...

Bem, devo admitir que o tratamento é bem mais indolor para a criança, o que já é alguma vantagem. As surras eram praticamente torturas cruéis e sempre me revoltaram, fossem aplicadas em mim ou em qualquer outra criança. Não que nunca tenha caído vítima da estupidez da palmada numa criança e devo dizer que é uma covardia inominável. Mas, uma coisa não justifica a outra e não parece ético ficar inventando siglas que, no frigir dos ovos, são apenas diagnósticos feitos para gerar novos tratamentos, novas especialidades, novos medicamentos, novos profissionais, novos nichos de mercado etc. Ah, é claro, para gerar novas necessidades e novos gastos para as famílias.

Isso quer dizer que, de certo modo, as torturas cruéis apenas mudaram de prática, estratégia e vítimas. Agora, são os pais que são martirizados, pois precisam conseguir dinheiro para pagar tantos tratamentos, medicamentos e profissionais dedicados a ver problemas no máximo de comportamentos possíveis. Não são surrados com varas de marmelo ou cintos de couro, mas têm a vida transformada num inferno no qual devem trabalhar sempre mais e mais, se sujeitar a praticamente tudo para não perder a fonte de rendimentos e, se possível, se tornar piores do que os que os torturam.

Mas, cuidado! Não dê ouvidos a mim ou a outros que criticam essas práticas médicas comerciais. A coisa é séria e os especialistas ouvidos pela reportagem alertam que o TOD pode se agravar e, na adolescência, transformar seu filho ou filha em um psicopata juvenil, desses que ficam tomando porres, cheirando cocaína, fumando crack e roubando coisas em casa para sustentar os caprichos e vícios (Ou seja: um aborrescente normal, desses que você vê diariamente em todos os cantos se achando muito rebeldes, mas não fazendo mais do que o esperado pela sociedade de consumo e, pior, achando que se divertem). Só não esqueça que tudo isso tudo é culpa sua, que não deu educação corretamente, tão ocupado(a) estava, trabalhando 18 horas por dia ou se divertindo muito para esquecer que odeia o trabalho e a si próprio(a) por se sujeitar a um(a) imbecil como aquele(a) que você chama de “chefe” (geralmente uma pessoa desqualificada posta nessa função para não atrapalhar o bom andamento do trabalho da linha de produção ou serviços, afinal, ser chefe é muito mais fácil do que produzir – basta comparar o capataz e o escravo).

A piada é que há, ainda, estatísticas e números: segundo a matéria, são 25% dos casos que evoluem para o adolescente rebelde beberrão e cheirador. Sorte sua se seu(sua) filho(a) estiver entre os 75% que escapam. Mas, não fique muito feliz. A arbitrariedade com que esses números são criados e divulgados é impressionante e não faz mais do que assustar ou tranquilizar. No fundo, essas estatísticas têm tanta base quando estudos que apontam os milhões que são perdidos (por quem?) graças à pirataria de CDs e DVDs.

Mas, espere. Se você se achava muito felizardo(a) por seu filho estar entre os tais 75% que escapam, ouça essa: “Mesmo que TOD não evolua para um transtorno de conduta, pode persistir após os 18 anos e causar problemas no dia a dia, já que em muitas situações o adulto se depara com a necessidade de obedecer ordens. ‘Isso pode causar problemas no emprego, por exemplo, já que a pessoa terá dificuldades de seguir as ordens de um chefe’”, afirma um médico ouvido pela reportagem (ou pela peça publicitária?). Alguém precisa explicar ao doutor que qualquer pessoa sã tem dificuldades em seguir ordens de idiotas como 75% dos chefes que encontramos em 75% das empresas, sejam públicas ou privadas.

E tudo isso só porque o(a) pirralho(a) anda muito respondão(respondona) e chamando a faxineira de todos os nomes que ele(a) ouviu você chamá-la na surdina. E o pior é que, segundo os especialistas, não adiantam mais as surras ou os castigos. Para eles, a criança não sabe o que faz, não entende o próprio comportamento, mas eles, os doutores, entendem e impõem 20 sessões de terapia familiar para resolver o caso, isso quando não prescrevem medicamentos. E, como há medicamentos em jogo, é claro que há uma “teoria” que fundamenta a prescrição dessas drogas.

Seu filhinho(a) é rebelde? É hora de consumir mais uma panaceia.

Sobre cirurgias plásticas, saúde, mercado e minha idiotice nata

Sou um inveterado crente na melhoria da vida, no engrandecimento humano. “Besteira, esse articulista certamente é um ingênuo, um tolo”, quem sabe você deve pensar. Concordo. Sou um iludido, um idiota nato e hereditário.

Veja que li o título de uma matéria da Folha de São Paulo: “Sociedade quer restringir prática da cirurgia plástica”. O que pensei? Que haveria na sociedade uma tendência a conscientizar determinadas pessoas que ficar fazendo cirurgias simplesmente por motivos estéticos não é uma boa ideia. E por que não é uma boa ideia? Em primeiro lugar, você se submeter sem uma necessidade imperativa a todo um processo de medicalização e de prática cirúrgica, com cortes profundos, exposição a agentes que podem causar infecções, antibióticos etc. não parece ser das melhores ideias. Em segundo, cabe pensar por que motivo tantas pessoas creem que a sua identidade está condicionada a predicados estéticos e tratam o corpo como se fosse um mero adorno do seu ego.

Tolo. Não era nada disso. A “sociedade” citada é a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica e a restrição da prática desse tipo de cirurgia diz respeito a uma iniciativa para que apenas médicos especialistas possam realizar esse tipo de procedimento. Em boa parte, é claro, isso parece ser mais uma iniciativa que visa uma reserva de mercado, mas o presidente da tal sociedade afirma que objetiva apenas aumentar a segurança do paciente. Como sou um bobo assumido, chego a pensar que isso pode ser verdade, mas há quem me diga que não passa de cortina de fumaça para ocultar o real objetivo mercadológico. E quem me diz isso parece ser bem mais esperto no assunto que eu.

A justificativa de segurança, porém, é bem fundamentada e lógica: "O especialista faz seis anos de faculdade, dois anos de pós ou residência em cirurgia-geral e mais três anos de pós em cirurgia plástica, totalizando 14.400 horas de treinamento. Ele faz uma prova oral e escrita e recebe o certificado. Um médico com esse treinamento tem mais chance de acertar do que um sem", diz o presidente da Sociedade citada. Espero que esteja falando com o coração, não pensando simplesmente em rechear seu próprio bolso e o de seus colegas. Essa obsessão por dinheiro me parece abjeta, mas tem sido a regra geral.

Há problemas claros a ser vistos, porém. O médico, principalmente o superespecializado, parece crer que lida com uma máquina, ou seja, que as pessoas que o procuram são aparelhos a ser consertados, como rádios, televisores ou carros usados. O médico, que deveria cuidar da saúde de seus clientes, não parece ter, salvo exceções, a prática de ajudá-los a promover a própria saúde, seja física ou mental. No caso que tratamos, deveria ajudar-lhes a pensar que apenas uma boa aparência não justifica um procedimento cirúrgico que, por mais simples que seja, tem riscos e pode gerar sequelas. Mas, não: o cliente quer e paga, ele faz. Não incentiva o paciente a pensar em si. Pelo contrário. Paciente que pensa tende a ficar menos doente e menos dependente do médico, e isso representa prejuízo. Há gente de branco que não pensa assim, mas conheci vários que agem desse modo. Olham o paciente e veem um cifrão.

Outro problema é a valorização extrema da especialização. Um especialista é um sujeito que enxerga o mundo por uma lente de alcance vertical profundo, mas horizontalmente limitado e crê, veja só, que o que vê através dessa lente não tem nada a ver com tudo o que está em volta, fora do alcance da lente. Ou seja, o foco do especialista é sua especialidade e só. O resto não existe ou pelo menos não deveria existir. Um mundo dominado por especialistas é como um quebra-cabeça sem ninguém para unir as partes.

De todo modo, devo dizer que ainda sonho com o advento de um tempo em que vamos nos preocupar mais com a saúde e com a efetiva qualidade de vida uns dos outros do que com o pensamento de quanto vamos poder lucrar explorando uns aos outros. Devo, também, dizer que cada vez mais me considero um idiota por sonhar com essa utopia.