domingo, 18 de novembro de 2012

Thales, o primeiro filósofo e também o primeiro dos sete sábios gregos


Uma representação dos chamados "Sete Sábios da Grécia"
 Thales foi um sujeito nascido em Mileto, colônia grega na chamada Ásia Menor, mais precisamente na atual Turquia, mais precisamente ainda na foz do Rio Meandro. Foi comerciante, engenheiro, físico, astrônomo, filósofo, sábio e sabe-se lá o que mais. Costumeiramente, seu nome é lembrado como o mais antigo pioneiro da história da Filosofia e da Ciência, pois teria abandonado as explicações mitológicas predominantes em seu tempo para propor que se pensasse a realidade e a origem de tudo a partir de elementos físicos, no caso a água, que seria a substância original de tudo o que existe.

Mas, não se resumiu a essa façanha a vida de Thales, embora Aristóteles a considere a mais importante, por inaugurar, segundo ele, o início da abordagem da realidade através disso que chamamos “Razão”, a boa e velha racionalidade, para a qual os tempos pós-modernos torcem o nariz. No entanto, se considerarmos a razão como um eficiente veículo de compreensão do mundo – o que comprovam todos os avanços técnicos e tecnológicos e, por que não citar, o discurso publicitário, que, com base em planejamentos racionalíssimos, cada vez mais domina o real, transmutando-o numa espécie de hiper-real à Baudrillard – a “invenção” de Thales está cada vez mais ativa e presente.
  Ele teria escrito três obras estudando os corpos celestes, embora nem todos os pesquisadores tenham convicção em atestar a existência desses escritos que, segundo consta, não teriam sobrevivido nem ao tempo de Aristóteles. A constelação Ursa Menor parece ter sido “descoberta” por ele, que teria dado especial ênfase a esse conjunto de estrelas nos seus tratados, indicando-o como referência segura para os navegantes.

Tudo indica que Thales tinha, aliás, bastante intimidade com o céu. E quando digo isso, é claro, não estou falando figurativamente de Deus, deuses, santos ou outras figuras mitológicas. Thales estudava o céu cientificamente, ou seja, considerando os seus elementos como corpos físicos, não como entidades supra-humanas. E, por conta disso, conseguia sucesso na previsão de fenômenos como eclipses e era bastante eficiente na detecção de condições climáticas. Tanto é assim que ficou famoso por uma previsão de eclipse solar, que teria assombrado os exércitos Lídios e Medas a ponto de influenciar seus comandantes rumo a um acordo de paz. E também ficou famoso por prever uma excelente colheita de azeitonas e, algum tempo antes da concretização da previsão, por ter espertamente alugado todos os equipamentos necessários para a colheita e o processamento das azeitonas. Quando o tempo da colheita chegou, ele faturou um bom dinheiro, pode ter certeza. Muitos o referem como um “comerciante rico”.

Ele teria, de forma espantosa, ensinado a como desviar o curso do Rio Halys, para que o exército do rei lídio Croesus o pudesse transpor com segurança. Isso, segundo se diz, teria acontecido aí pelo ano 547 a.C., pouco tempo antes de sua morte, que teria acontecido exatamente por essa época, provavelmente um anos depois. Há controvérsias, mas o registro do fato existe.

São muitas as façanhas atribuídas a Thales, mas também são muitas as dúvidas acerca de se todas as coisas que se julgam ter sido feitas por ele teriam realmente acontecido por conta de sua habilidade. As fontes antigas, como o primeiro livro de História do mundo, escrito por Heródoto, lhe incensam com habilidades tantas que os contemporâneos chegam a duvidar de tanta sabedoria. Na Astronomia, a fonte mais citada é um tratado de história dessa disciplina escrito por Eudemus de Rhodes, que viveu centenas de anos depois de Thales, tendo sido contemporâneo de Aristóteles, mais exatamente seu aluno. Aristóteles, aliás, foi quem lhe batizou como o “primeiro filósofo”, mas em Platão há referências a Thales, mas sem citar o seu nome, inclusive e história do sujeito que olhava o céu e caiu num poço, atribuída historicamente ao milesiano mais famoso, que é considerado o primeiro dos sete sábios gregos da antiguidade, junto a Pittacus, Bias, Solon, Chilon, Cleobulus e Myson, isso tendo sido o próprio Platão que escalou o time.

Talvez o item mais contestado dos atribuídos a Thales seja o de que ele haveria dito que “todas as coisas estão cheias de deuses”. Efetivamente, cabe duvidar que um filósofo tão comprometido com a materialidade de suas hipóteses tenha dito isso, mas há a notícia de que Thales teria considerado que o imã atrai o ferro por ter uma alma e não é raro lhe atribuir a crença de que todas as coisas possuiriam alma e que o fato de possuí-la é o que garantiria a possibilidade de movimento á matéria. Tudo aquilo que não tivesse alma, permaneceria imóvel. De todo modo, ele ter falado de imãs com alma não permite que alguém invente que ele via deuses em tudo. Logo Thales, que parece ter rompido com eles e com toda a mitologia homérica. Como nada restou de seus supostos escritos, nem mesmo sabemos se existiram, é provável que não saibamos, jamais, se ele disse isso ou não.

De todo modo, é útil lembrar que a cultura grega era letrada, mas dependia essencialmente das transmissões orais e, como sempre, havia muito falatório e muitos boatos. Não era raro um ou outro atribuir poderes descomunais a personagens como Thales ou, como sabemos, Pitágoras. Também não eram inusuais as difamações e deturpações. Uma delas, já citada, foi engendrada por Platão e tem como personagem, justamente, o heróico Thales, que teria caído num poço por olhar demais para as estrelas, conforme dito antes.

Algo que parece incontestável é o fato de que Thales teria formulado pelo menos cinco teoremas geométricos, sendo que há dois desses teoremas que recebem o seu nome: o primeiro, aquele que reza que qualquer triângulo inscrito nos parâmetros de um semicírculo é retângulo; o segundo, afirma que se duas retas transversais cortarem duas ou mais retas paralelas, serão proporcionais as medidas dos segmentos delimitados pelas transversais. Esse teorema, conta-se, foi o utilizado quando Thales formulou uma técnica capaz de medir com exatidão considerável a altura de uma pirâmide egípcia. Aliás, outro fato que não tem sido contestado na vida de Thales é que foi no Egito que adquiriu informações preciosas e um consistente conhecimento matemático. O Egito era o lugar mítico da ciência Matemática; a todo aquele que apresentasse conhecimentos matemáticos se atribuía uma demorada estadia naquelas plagas. No caso de Thales, parece que ele visitou o Egito com interesses comerciais e, é claro, também com o intuito de aprender matemática. Mais tarde, Pitágoras também andou por lá, é claro, além de tantos outros.

A questão da água é citada por Aristóteles, então merece maior consideração. O que não fica claro e, provavelmente, nunca ficará, é se Thales considerava a água como elemento primário original e único, componente de tudo, ou se a entendia como o caldo no qual tudo nascia. Em um sítio na internet (link), há uma interessante explicação do dilema usando água fervendo. O vapor e os resíduos salinos não passariam de diferentes manifestações de um mesmo elemento, a água, ou seriam elementos independentes que surgiriam a partir da água?

Há quem diga que Thales entendia o mundo como um disco que boiava, é claro, n’água. Ele morava a beira-mar, conforme se sabe, e viajava de navio, estava bem familiarizado com o elemento água, parece certo e os terremotos faziam, muitas vezes, a terra parecer cruelmente líquida. Mas, se você procurar bem, vai achar que há quem tente provar que o milesiano cria viver numa esfera, ou seja, acreditava, ou deduzia, que o mundo seria esférico e que, provavelmente, a água o compunha como elemento fundamental. Sendo verdade, é preciso louvar sua perspicácia e pioneirismo. A Igreja Católica descobriu isso bem mais recentemente. E, possivelmente, exista quem nem desconfia disso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário