sábado, 24 de novembro de 2012

Quem dá o direito ao homem de humilhar a mulher? Adivinhe!


Me deparo com texto com o seguinte título: “De onde vem o direito do homem de humilhar a mulher?” Está publicado e disponível em http://br.mulher.yahoo.com/blogs/preliminares/onde-vem-o-direito-homem-humilhar-mulher-191206981.html e é de autoria de Carol Patrocínio, jornalista que mantém um blog chamado “Preliminares”, no Yahoo. Quero dizer que nada tenho contra o blog e nem contra Patrocínio, apenas achei interessante a questão que, como tudo indica, já está respondida desde que formulada e, observando o texto, respondida sobejamente, embora tenha ficado com a impressão de que a autora não a decifrou.

Imediatamente, meditei: “direito” de humilhar alguém, na prática, ninguém tem, embora se compreendermos que a violência contém, aparentemente sempre, uma humilhação, há quem tenha esse direito. É claro que falo do Estado e suas instituições, notadamente a polícia, que o faz constantemente. A essa violência e consequente humilhação, costumamos chamar de “legítima” e o tema foi bem tratado por Max Weber, mas, bem antes, foi formulada, fundamentada e justificada por Thomas Hobbes. A sociedade (incluindo, por suposição, aquele que sofre a agressão/humilhação) é quem legitima a violência estatal e policial. Segundo a lógica hobbesiana, abrimos mão de nossa liberdade e, da mesma forma, de nossa integridade, para que possamos conviver pacificamente em sociedade.

No caso, não falamos de uma legitimidade outorgada pela sociedade ao Estado, embora a História registre acontecimentos e casos nos quais tenha havido o que se pode considerar uma violência e uma humilhação oficial, como em processos judiciais, nos quais a mulher foi claramente tida e compreendida como mero objeto de uso e satisfação do homem, praticamente sem vida própria que não a de ser boa esposa e mãe. Nada contra ser esposa e mãe, muito menos contra ser boa nisso tudo, mas parece ser um tanto violento e humilhante determinar, numa sociedade de base liberal, tão estreitamente o papel a ser desempenhado por alguém. Nesse sentido, é possível perceber uma qualidade na proposta capitalista/liberal: há muitas potencialidades em cada um de nós que não precisam ser obturadas por um modelo estrito e estreito, como o que orienta o saber tradicional, latu sensu.

Se falamos de uma humilhação que não está no rol das legitimidades que a sociedade civil confere a determinadas lógicas e determinadas ações estatais, a primeira coisa a pensar é que falamos de um direito subjetivo, assumido pelo sujeito que humilha, aceito por quem é humilhado e estruturado por quem dá direito ao primeiro de humilhar o segundo. E é preciso considerar que pode haver quem, fora da díade humilhador/humilhado, tenha o poder de conferir esse direito, mas será sempre necessário considerar que, sendo subjetivo, esse direito se manifeste, via de regra, no interior da relação que une quem humilha e quem é humilhado.

Tomando a plateia que legitima a humilhação, temos um bom exemplo de quem, estando fora, confere legitimidade ao ato e mesmo, muitas vezes, o demanda. No entanto, se a plateia confere esse “direito” a quem se arvora a humilhar, vibrando ou lamentando, não há como não pensar que o humilhado também o confere no momento em que se sente humilhado. Não houvesse alguém que se sentisse humilhado, a pergunta seria nula e não haveria por que falar sobre isso. Nesse sentido, não há ninguém fora desse jogo agressivo que, sendo um jogo, tem suas regras partilhadas e aceitas comumente, ainda que a contragosto de uma ou outra subjetividade individual. Há casos, porém, em que a manifestação de repúdio a uma regra pode indicar a mais plena e apaixonada adesão a ela. Isso acontece com mais frequência do que se pode imaginar.

Resposta dada

Mas, voltando ao início deste texto, cabe pensar o que indica a pergunta “de onde vem o direito do homem de humilhar a mulher?”, feita por uma mulher? Trata-se de caso em que é preciso reconhecer que a resposta vem embutida. Se a moça faz a pergunta é porque está reconhecendo e validando, a priori, a afirmação de que um homem tem direito de humilhar uma mulher. Isso, ela não parece disposta a discutir, mas sim tudo indica que está empenhada em saber quem valida esse direito.

Para responder a essa questão, muitos defendem que as mulheres se preocupam em demasia com a opinião masculina, simplesmente porque são castradas, não têm o pênis, essas coisas que parecem tolas à primeira vista. É claro que tudo indica ser uma forma falocêntrica de interpretar o feminino, mas não está distante de fatos culturais marcantes no imaginário e na vida cotidiana. O fato é que para inúmeras mulheres, mais importante do que a imagem no espelho é o que diz o homem. Isso é, já a princípio, um problema, pois o que o homem olha não é geralmente o que a mulher gostaria ou o que supõe.

Há quem diga, da mesma forma, que, de fato, o que importa não é o olhar do homem em si, mas o fato do olhar do homem não estar voltado para outra mulher. Segundo essa tese, o homem só seria importante quando há uma disputa entre fêmeas, como uma espécie de troféu. Não é possível generalizar isso para todas as mulheres, como sempre. Generalizações são burras e imprecisas, mas que esse fato parece muitas vezes claramente constatado, ah, isso parece.

A humilhação

Rapidamente, resumo o caso que motivou o texto feminista. Um sujeito que escreve num blog chamado “Papo de homem” teve um caso com uma mulher que publicava comentários no citado blog. Logo depois da primeira vez em que se encontraram, o sujeito resolveu dizer para os amiguinhos que a tal era gorda, como se isso fosse um crime capital. Isso, num reservado do blog, sugestivamente chamado “cabana”, local virtual no qual os meninos provavelmente se masturbam em conjunto e ficam olhando o pinto um do outro para ver qual é o maior e o mais bonitinho – virtualmente, é claro.

O mané ficou saindo com a mulher e, depois, ia para a cabaninha fazer mexericos com os outros machinhos. Em outras circunstâncias, diríamos que esse tipo de fuxico é coisa de mulher ou, suprema ofensa para os “cabaneiros”, alguém diria que é “coisa de veado”. Em outras circunstâncias, eu disse, porque nestas, não se diria isso, simplesmente porque os moços poderiam confundir isso com uma ofensa ou até mesmo uma humilhação.

Segundo as informações divulgadas por Patrocínio (e ela publica o print screen de uma conversa na “cabana”), o Don Juan acusava a mulher de ser gorda e dizia ter nojo de fazer sexo com ela. Tudo isso chegou aos olhos e ouvidos da tal e você bem pode imaginar o quiproquó que deu: de tentativa de suicídio à cirurgia de estômago. Caberia investigar como isso chegou ao conhecimento da menina supostamente gorda.

Esse aviso deveria estar na entrada (virtual) da cabana dos meninos?

Decifrando o código

Aí, começa o teatro. O script vai de justificativas relacionadas ao direito de engordar ao tesão por pessoas gordas, da relatividade da beleza à importância da aparência nas fantasias sexuais etc. Incluindo, ainda, a suposição de que o tal gostava da moça, mas tinha vergonha dela ser gordinha. Patrocínio critica o fato do menininho falar da vida sexual dele, pois assim agindo está expondo outra pessoa. No caso, além dos sentimentos, isso fere os direitos individuais, ela deveria completar, no melhor espírito liberal.

A blogueira afirma, ainda, que luta diariamente para que as mulheres “se entendam, se aceitem e tenham uma vida sexual completa e prazerosa respeitando quem são”. Engraçado. Houve um tempo em que esse negócio de vida sexual completa e prazerosa era coisa que dizia respeito apenas a cada um, ou cada uma, e ao parceiro e parceiro que compartilhava a alcova naquele determinado momento. Essas coisas não precisavam, muito menos deviam, ser expostas em blogs, na TV, no rádio ou nem mesmo em salas de estar. No máximo, eram temas de conversas reservadas, pois que, como dizia Nelson Rodrigues, com razão, se conhecêssemos a vida sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria na rua. No dia em que vierem dizer que estão lutando pela minha vida sexual, francamente, dispensarei, no ato, os esforços do nobre lutador. Da minha vida sexual, cuido eu. E faço isso porque me entendo, me aceito e tenho uma vida sexual completa e prazerosa, respeitando quem sou, é claro.

Patrocínio fica muito preocupada porque comentários como os da “cabana” influenciam a “nossa” vida (ela certamente quer dizer a dela e da moça taxada de gorda), além das matérias que falam das atrizes prontas para o verão, das fotos de celulite nas bundas e do tempo desperdiçado em academias e em mesas de cirurgia plástica (ela não diz que é perda de tempo, quem diz sou eu). Isso sem mencionar a fome que se passa comendo que nem passarinho. Ora, em vez que questionar sobre que forma pobre de vida impõe essas esquisitices a ela e a outras, Patrocínio a justifica se preocupando em como satisfazer a si própria e às coleguinhas nesse quadro triste de se ver e viver. E brada, indignada:

Chega! Você não tem que estar dentro de padrão nenhum. Você não tem que ouvir o que caras estúpidos dizem sobre seu corpo. Você tem que se amar mais e lembrar que o mundo tem muita gente babaca tentando acabar com sua felicidade. E você também não tem que acabar com a felicidade de ninguém, lembre-se disso.

Sei...

Para decifrar o código, basta pôr tudo no espelho: você não deve estar em padrão nenhum, a não ser o padrão que dita que você não deve estar em qualquer padrão, enquanto te enquadra em um. Você não deve ouvir o que os idiotas falam sobre você e seu corpo, mas deve reagir, de forma “feminística”, quando eles falam sobre isso. Você deve se amar, mas não deve abrir mão de lutar contra o que os outros dizem de você, talvez por conta de uma luta santa contra todos os babacas do mundo que querem acabar com a sua felicidade, sabe-se lá por que motivo ou, talvez, simplesmente porque você é mulher e gorda. Você também não deve acabar com a felicidade de ninguém, certo, mas isso vale mesmo que saibamos que a felicidade dos mocinhos da cabana seja falar mal das mocinhas gordas? Sinceramente, tudo isso é muito confuso.

O jogo é para todos

Ao final, Patrocínio revela que, apesar de falar mal e de chamar a tal amante de gorda, o menininho da cabana teria revelado que ela fez o “melhor boquete do mundo”. Uau! Não seria preciso teorizar nada, mas a blogueira cisma de fazer isso, conseguindo um exemplar do que chamamos, genericamente, de filosofia de botequim. Não vale a pena nem citar o que foi escrito. Coisas de botequim devem ficar no botequim.

Bem, para completar, ainda fica uma menção ao feminismo que, segundo a autora do texto, não é uma forma de pisar nos homens. Ora, mas é claro que não! Feminismo foi uma estratégia de controle e promoção de uma nova ordem econômica e subjetiva que obteve sucesso, serviu para jogar a mulher no mercado de trabalho, criando um novo público para “taxar”, abalar a estrutura da família moderna, aquela do poder paterno (e, também, materno, mas com outra configuração), abrindo caminho para uma sociedade baseada no consumismo obsessivo e, é óbvio, quebrar a espinha da sociedade moderna racional, facilitando o acesso ao mundo das emoções baratas e do espetáculo. Não que tudo isso seja ruim em si, ou mesmo bom em si. Simplesmente, trata-se da estratégia do poder hegemônico de uma era, que tem consequências no cotidiano, ainda mais se entramos no jogo e começamos a pensar como se esse jogo fosse a única possibilidade.

Parece difícil negar que, nesse caso em questão, mas também em outros, quem parece dar o direito ao homem de humilhar a mulher é, como dito, a mulher que se sente humilhada, incluindo, nesse caso, não apenas a tal que foi chamada de gorda, mas também Patrocínio e tantas outras. Elas estão no jogo, se movem em campo com muita intimidade e jogam, como os meninos da cabana, para a torcida. E não se iluda: humilhações são, muitas vezes, bem vindas. Senão, sobre o que escreveria a blogueira Patrocínio? Como poderiam ela e suas leitoras “se entenderem, se aceitarem e ter uma vida sexual completa e prazerosa, respeitando quem são”? Elas precisam deles e eles precisam delas nesse jogo no qual tudo sempre parece fruto de estratégias predeterminadas. Para pensar sobre essa brincadeirinha de crianças, Deleuze nos fornece algum material no seu livro “Diferença e repetição”. Mas, Patrocínio não entenderá o que se fala. Seria preciso começar a pensar, mas isso, não há dúvida, dói um bocado no início.

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