domingo, 21 de outubro de 2012

Só os deuses são melancólicos incuráveis


Ando pela rua e nada me anima. Olha em volta e tudo me parece desanimador. Estou deprimido, é claro, por isso qualquer coisa que tente me proporcionar alegria morre de inanição. Nesses momentos, creio ser interessante e útil pensar sobre a distância que existe entre o meu lado de dentro e tudo o que está fora de mim, ou seja, o que posso chamar de meu e as coisas que não são minhas, não posso identificar como parte de mim.

Trabalho com a noção de “dentro” e “fora” tentando uma divisão didática que me indique parâmetros para pensar uma divisão básica de nossa existência: existem, subjetivamente, coisas que identifico como minhas ou como parte de mim – meus pensamentos, por exemplo – e coisas que apenas observo existirem, mas não fazem parte daquilo que chamo “minha pessoa”.

No dia de hoje, posso chamar de meus os pensamentos melancólicos, posso chamar de minha a tristeza e o desencanto. Fora de mim, estão as pessoas que não são o que chamo de eu e uma infinidade de coisas. Logo, o que posso chamar de “meu” remete a uma limitada gama de objetos abstratos e, é claro, ao meu corpo, que, na verdade, não é meu, pois me hospeda. Mais precisamente, o corpo pertence ao planeta, à natureza, a Maia, a Deus, aos cosmos ou a quem ou o que quer que seja e representa a totalidade das coisas nas quais estou incluído eu. Se houver efetivamente um Deus, imaginado de acordo com a nossa imagem e semelhança, ele chama ao todo de “eu” (e nós, eu e você, somos partes desse “eu”, é bom lembrar). Mesmo que entendamos que somos feitos à imagem e semelhança dele, isso não muda muita coisa, neste caso, pois simplesmente teremos que aceitar que para podermos entender o que é Deus, teremos que imaginá-lo à nossa imagem e semelhança. Se um boi for imaginar o seu Deus, certamente este será um boi, já dizia, sensatamente, Xenófanes (ver http://luizgeremias.blogspot.com.br/2011/03/fala-xenofanes.html).

O caso é que meus pensamentos são tristes, hoje. Mas, são meus esses pensamentos e nada têm a ver com o que me circunda na rua. No entanto, talvez exatamente por serem meus, eles contaminam tudo a minha volta, como se tudo fosse meu. De certo modo, o que é meu, meus pensamentos, emoções, sentimentos etc. funcionam como uma lente com a qual enxergo e, é claro, interpreto tudo. Se essa lente está turva, como no caso de um quadro depressivo como o meu, tudo estará turvo. Quando me recupero e mudo o meu humor, tudo clareia. Como Deus, acabo, eu, você e tantos outros, chamando tudo de nosso.

Sendo breve, a melhor forma de combater o ânimo melancólico é saber disso, pensar nisso. Por mais que você se sinta triste, abatido ou abatida, lembre-se que as coisas em volta não estão desse modo e que, se você permitir, essas coisas podem lhe tirar do poço. Ou, no mínimo, ajudar você a sair dele. Isso, é claro, se você souber, com certeza, que não é Deus. Não sabendo disso, nada adianta. Nada irá lhe tirar do poço, pois ele é seu, você o fez à sua imagem e semelhança e acredita tanto nele que nele caiu.

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