quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Existe democracia midiática? É claro que sim



Sorrisos democráticos

Em pesquisa na internet, deparo com uma expressão pitoresca: “democracia midiática”. Democracia, como eu e você sabemos, é um sistema político baseado na participação do maior número de pessoas no processo decisório. Nasceu em Atenas, na antiga Grécia das polis e não tinha, na época, a estrutura representativa que tem hoje, nas democracias liberais: eram os próprios cidadãos, ou quem podia ser considerado cidadão, que se reuniam na Ágora, uma ampla praça, e debatiam as questões importantes para a coletividade, decidindo, por votação, o que fazer. Nunca é demais lembrar que Benjamin Constant de Rebecque, um teórico que gostava de pensar sobre a tal democracia, diferenciou a ateniense da liberal de forma clara e engenhosa: a democracia ateniense é positiva, pois se funda no incentivo do Estado a que os cidadãos participem ativamente do processo decisório; a liberal é negativa, pois simplesmente busca garantir que o Estado não se meta na vida privada dos cidadãos, garantindo o que os liberais chamam de “direitos individuais”.

Mas, e midiático, o que significa? Claro que falamos de algo relacionado ao que chamamos de “mídia”, ou seja, o conjunto dos meios de comunicação, notadamente os de grande difusão, conhecidos como “de massa”, o que significa dizer que não apenas atingem grande número de pessoas, como tratam suas informações de determinado modo: priorizam o enfoque espetacular, tratam de forma superficial toda e qualquer notícia, partem de um emissor para milhares ou milhões de receptores e, não há como negar, buscam produzir reações emocionais, nunca racionais. Acima de tudo, pelas características levantadas, não incentivam os receptores à participação política, muito pelo contrário.
O Estado deve garantir os direitos individuais e não se meter na nossa vida

Parece claro que falar em democracia midiática pode parecer absurdo, pode cheirar a juntar dois termos ou conceitos que não podem ser unidos sem que haja anulação de um ou de outro. Se há democracia, não pode haver a mídia tratando seus conteúdos como mera mercadoria de consumo descartável e se há mídia, agindo dessa maneira, não há democracia. Isso pode parecer cristalino e justo para alguns, no entanto, se admitirmos a noção de Benjamin Constant de Rebecque, já citada, teremos que considerar que a democracia midiática é possível, existe e é praticada nas democracias liberais.

A sociedade liberal foca sua atenção nos direitos individuais, substâncias intocáveis e inabaláveis que compõem e definem o cidadão nessa ordem social. O Estado não pode intervir nesse campo, em hipótese alguma, sob pena de se caracterizar como autoritário, digno da mais asquerosa ditadura – e se há algo que o liberal odeia é essa tal ditadura estatal. A iniciativa privada, porém, parece ter esse acesso liberado, pois se julga que assim o cidadão consente em condições normais, quando não há cerceamento de seu pensamento, de suas aspirações e, fundamentalmente, de suas ações. O público, quando se mete demais na nossa vida, seria nocivo; já o privado, caso permitamos que meta o nariz nos nossos negócios, é bem-vindo e benéfico, pois constitui uma relação social dinâmica, entre pares independentes e autônomos, que dá força, movimento e vigor à sociedade.

Esqueça a razão e se divirta muito

O que o liberal não diz é que a intervenção do privado pode ser tão ou mais nociva, ainda mais em um tempo no qual estamos diante de técnicas de persuasão jamais imaginadas na história humana. Simplesmente, a sociedade liberal toma como alvo a referência racional que fundamentou os avanços sociopolíticos dos últimos séculos, para negá-la e romper com ela, estabelecendo outra, a emocional, fundada no imperativo da satisfação dos desejos e aspirações individuais. Assim, o cidadão perde uma de suas mais importantes defesas contra o poder discricionário: o pensamento e a argumentação racional.

Desse modo, o império do espetáculo, fundado no emocional, ganha espaço irrestrito. Usa de racionalidade para elaborar suas estratégias, que justamente incentivam a pessoa comum a abandonar a chatice das reflexões e atos racionais, como se dissesse: não fique aí se amofinando, deixe que alguém cuide do que é importante em sua vida, porque, na verdade, o que é importante mesmo é que você se divirta bastante.

As coisas chatas, quando são públicas, devem ser delegadas aos tecnopolíticos, ou seja, aos políticos não políticos, os políticos que “apenas” administram segundo o bom senso e levam em conta os avanços técnicos e tecnológicos à disposição. Quando se relacionam a questões privadas, devem ser delegadas a especialistas, aos quais deve ser creditada a confiança que conferimos a quem sabe o que faz, a quem sabe o que é melhor para nós. A certificação para essas qualidades, diz o liberal, é dada pelo mercado: contratar uma empresa de sucesso ou um profissional bem sucedido, muito requisitados e, consequentemente, valorizados, é garantia de qualidade, bom atendimento e satisfação.

Mais iguais, menos iguais e as ideias iceberg

Para o liberal, o poder público deve cuidar essencialmente da segurança de seu patrimônio e da manutenção das regras de mercado para todos, o que, ao contrário do que diz o liberal, garante a desigualdade perante a lei, não a igualdade. O poder privado, poder essencialmente econômico, deve ter, ao contrário do público, livre acesso à sua vida, o máximo possível, pois é nessas relações privadas que se dá o progresso individual e coletivo, é nelas que se molda a lógica que governa a sociedade, que se formulam as leis do mercado. O dinamismo proposto pelo liberal se funda nessa relação entre iguais que se completam gerando situações que demandam novas relações e dependências e assim por diante. Só não se sabe direito onde é possível achar iguais para travar essas relações. Na maior parte das vezes, os mais iguais exercem considerável pressão sobre os menos iguais.

A democracia midiática não é certamente a democracia positiva dos atenienses. Não convida o cidadão a participar das decisões coletivas, ou melhor, o convida, mas sem que pense, pois a ordem lógica está dada a priori e o que resta fazer é discordar ou concordar com ela. E se essa ordem vem posta racionalmente, vem com a força que impõe a concordância, no caso das pessoas sãs, ou permite a discordância, mas apenas por parte de insanos. Em outras palavras, não há saída e não há efetivamente participação do cidadão, a não ser a de assinar em baixo de ideias pré-fabricadas que são erguidas sobre verdades apriorísticas mantidas sob ocultamento constante, como os icebergs dos quais só se vê uma pequena parte boiando acima do mar.

Divirta-se mais!

A lógica negativa da democracia liberal propõe a você que não se preocupe, que deixe o que banco, a operadora de telefonia, a empresa de limpeza, de seguros etc. pensem por você, ajam por você. Enquanto isso, você pode se dedicar a coisas divertidas, ao lazer, aos hobbies, a assistir TV e por aí vai. Em outras palavras, deixe as coisas sérias com as empresas enquanto você se dedica apenas à diversão. O problema dessa lógica é que sem acesso às coisas sérias, sem participação na resolução delas, você se priva de governar a sua própria vida, ou, nos casos mais graves, chega mesmo a não aprender sequer como resolver os problemas mais simples e corriqueiros do cotidiano. É por isso que se pode dizer que vivemos numa democracia midiática.

Midiatizar, originalmente, tem o mesmo sentido de “retirar o poder de”, “falar por”, isto é, midiatizar alguém é lhe tirar o governo dos próprios pensamentos e atos, como algumas famílias fazem com seus membros que apresentam transtornos de comportamento e que, por isso, põem em risco a própria vida, a vida de outrem ou o patrimônio familiar.

Pior que a impotência politica é a solidão

Assim, não vejo porque não dizer que a democracia midiática existe, embora não seja democrática nos moldes atenienses, e se funda na impotência daqueles que atinge. Um sujeito potente, dono do seu nariz, que pensa e age de modo racional, é um empecilho para a democracia midiática de raiz liberal. Se você é uma pessoa assim, se demonstra autonomia de pensamento e de decisão, é um perigo e a sanção que o sistema e a sociedade lhe impõem é a solidão. E, para o liberal, pior que a morte é estar sozinho. Sem o espelho do olhar do outro, sem o consentimento ou a reprovação pública, o liberal está vazio, não sabe quem é ou o que faz no mundo. Assim, aceita se transformar num impotente político. Dos males, o menor, pensa.

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