sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Legalismo, a outra face do oportunismo


Eu, como você, tenho a oportunidade de lidar com inúmeros típicos cidadãos amantes da lei, obsessivamente ordeiros e conscientes de suas obrigações, deveres e direitos. Isso, na conversa, é claro. Na prática, as coisas não funcionam bem assim, muito pelo contrário. Chamo genericamente essas pessoas de “legalistas”, uma espécie de praga que se estende a aparentemente todos os recantos do planeta ou mesmo do Universo. O mais preocupante é que a quantidade de legalistas por metro quadrado é assustadora por aí.

Quero dizer que compreendo o legalista como um malandro essencial, uma praga. Vive apontando caminhos ditados pela letra fria da lei, mas, via de regra, não os segue e, se puder, permite e mesmo incentiva que seus entes queridos também não o façam. A lei, na verdade, parece ter essa função, tanto que é corrente no meio político a expressão: aos amigos tudo; aos inimigos o rigor da lei.

No serviço público, pululam os legalistas. Aliás, a situação peculiar de um órgão público é favorável à disseminação dessa patologia de caráter. Dizia um cartaz numa sala na qual trabalhei: a empresa privada faz o que a lei não proíbe; a pública faz apenas o que a lei determina. Num ambiente desses, é claro que os legalistas se multiplicam. Trata-se, em alguns casos e em algumas situações, de questão de sobrevivência.


Olhe o dicionário. Legalismo significa, originalmente, fidelidade à coroa. Hoje em dia, é fidelidade ao regime legal, ao governo constituído, condição de quem respeita minuciosamente a lei. Ora, ora, ora. Literalmente, o legalista é fiel à coroa, à realeza, ao poder, ao tirano. Está sempre do lado de quem manda, custe o que custar, doa o que doer. Mas, pasme, não é incomum que o legalista se arvore em discursos libertários, afirmando que a lei é democrática, pois atinge a todos. No entanto, ele bem sabe que toda lei tem exceções, sempre há quem fique fora de suas garras. Por isso e apenas por isso é legalista, ou seja, é fiel à coroa, defensor do governo constituído. Um típico capacho.

A lei é dura, não admite qualquer mudança, não avança nem progride, é estática, água parada. Já o legalista é extremamente, exageradamente, dúctil. Talvez, por esse defeito na sua natureza, é que se agarre desesperadamente à lei. Os opostos se atraem, dita o vulgo e a eletrostática.

Olhe o título. Se você é um legalista, se você defende a lei acima de todas as coisas, se ao primeiro problema diz logo que deviam fazer uma lei proibindo isso, cuidado, você é um oportunista. Você sempre se dá bem, tira proveito das circunstâncias mais adversas, sempre de olho no umbigo dos seus interesses mais mesquinhos. Por isso mesmo é legalista. Espera, sempre, que a lei esteja do seu lado. O mais cruel é que, geralmente, ela não estará. A não ser que ela tenha sido feita para você ou que você mesmo faça sua própria lei. No primeiro caso, você é um monarca, um caudilho, um megaempresário e seu sobrenome é Rockfeller ou Rothschild. No segundo, você é simplesmente um psicopata.

Ah, mas se você não é um legalista, cuidado. Se um desses malandros disser que quer te defender, que está do teu lado e que a lei é para todos, democraticamente, não se iluda. Ele está simplesmente defendendo o próprio rabo e, se for preciso, porá o teu na mira da lei.

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