quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ecologia sem revolução cultural é fantasia, diz antropólogo


Obra de Hélio Nomura 
Há um interessante debate nascendo. Finalmente está se falando seriamente das questões ambientais, não necessariamente com aquele discurso babão que caracterizou e caracteriza os chamados “ecochatos” (aquele tipo de gente que oculta suas dificuldades pessoais e seus compromissos poluentes sob a bandeira de luta ecológica e repete, dia após dia, a cantilena da preservação ambiental, quando, na verdade, não consegue preservar sequer o bom senso e despoluir a própria consciência). Em entrevista concedida a Júlia Magalhães, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro bota o dedo na ferida dos já citados chatos ecológicos e vai mais fundo, apontando o polegar acusador para o chamado “capitalismo verde”, que fala muito de meio ambiente, com o objetivo de fazer uma boa imagem para a plateia, mas que, na prática, quer que as árvores, passarinhos, tartarugas, baleias e, principalmente, os humanos, se lixem. O importante para o empresário dessa facção é, como sempre, lucrar. E só.

Segundo Viveiros de Castro, “(...) as corporações não são capazes de ir além do “capitalismo verde”, fingindo responsabilidade social e ambiental”. E é verdade. Você já imaginou como se conjuga lucro e preservação ambiental numa sociedade na qual o capitalismo é essencialmente selvagem, não dando sequer espaço de pensamento ou respiração para quem dela participa? É possível que o empresário até seja bem intencionado, consciente etc., mas, na prática, no cotidiano neurótico proporcionado pelos pesadelos com a concorrência e pela necessidade de conquistar metas cada vez mais exigentes, torna-se um predador nato. Além do mais, uma sociedade dita de consumo não pode, em hipótese nenhuma, preservar algo: tudo tem que cair no liquidificador das compras e vendas desenfreadas, com a circulação predominante de produtos belos, inúteis e, não raro, nocivos à saúde e à vida. Vamos falar de ecologia nesse ambiente? Me poupe.


A questão é mais profunda, da mesma forma, do que pensam os governantes de plantão. O pessoal do PT, que ocupa há dez anos o poder, fala de redistribuição de renda, fica soltando fogos porque os mais pobres estão podendo consumir. Ora, que asneira. Essa gente não pensa que, com a pobreza cultural do país, a qualidade do consumo também será pobre, ruim, predadora e cada vez mais emburrecedora. Viveiros de Castro fala disso e argumenta: “Não adianta redistribuir renda (ou melhor, aumentar a quantidade de migalhas que caem da mesa cada vez mais farta dos ricos) apenas para comprar televisão e ficar vendo o BBB e porcarias do mesmo quilate, se não redistribuímos cultura, educação, ciência e sabedoria; se não damos ao povo condições de criar cultura em lugar de apenas consumir aquela produzida ‘para’ ele”. Pois é. Melhora o nível econômico, mas piora cada vez mais o nível espiritual. Tem-se mais dinheiro no bolso e menos riqueza na alma. E os que subiram na escala social não o fizeram na escala humana.

O diagnóstico do antropólogo é cruel, mas adequado. Ele afirma perceber a sociedade brasileira midiatizada, o que significa dizer que outros pensam e sentem por ela: a mídia, no caso, que transmite valores particulares como se fossem coletivos, exaltando aspectos fúteis em detrimento de coisas importantes que têm sido deixadas de lado, esquecidas, como a questão educacional e a relação com a natureza. Fica-se soltando fogos por conta de Copa do Mundo, Olimpíadas ou mesmo pelo alto nível de consumo (geralmente acompanhado de inadimplência), mas o que vale mesmo, um bom nível cultural, com a consequente boa qualidade de vida, não merece qualquer menção. A ironia é que o PT, que sempre teve um bom discurso quando era oposição, virou situação e, como o inimigo FHC, que disse, um dia, “esqueçam o que escrevi”, diz, agora: “esqueçam o que dissemos quando estávamos fora do poder”. Péssimo exemplo, companheiros.

Viveiros de Castro bate firme, talvez para acordar a companheirada petista: “Enquanto acharmos que melhorar a vida das pessoas é dar-lhes mais dinheiro para comprarem uma televisão, em vez de melhorar o saneamento, o abastecimento de água, a saúde e a educação fundamental, não vai dar. Você ouve o governo falando que a solução é consumir mais, mas não vê qualquer ênfase nesses aspectos literalmente fundamentais da vida humana nas condições dominantes no presente século”. Talvez seja inútil, talvez a companheirada saiba disso, pelo menos intua algo em relação a isso, mas está ocupada em manter a própria ignorância intocada, quem sabe para não sofrer tanto com as asneiras que está fazendo.

Não dá para competir

Se os companheiros pensarem um pouco, apenas um pouquinho, vão entender que, por mais que se relativizem as críticas muitas vezes pouco inteligentes que se faça ao Capitalismo, por mais que se proponha que trata-se do melhor sistema, ou do menos pior, já que as experiências socialistas parecem ter dado mais maus do que bons exemplos, fica difícil, muito difícil, acreditar que é possível conjugá-lo com ecologia. Segundo o antropólogo, “A ideia de crescimento negativo, ou de objeção ao crescimento, a ética da suficiência são contraditórias com a lógica do capital. O capitalismo depende do crescimento contínuo. A ideia de manutenção de um determinado patamar de equilíbrio na relação de troca energética com a natureza não cabe na matriz econômica do capitalismo”. Gostaria, sinceramente, de pensar diferente, de que alguém me dissesse algo que me fizesse crer nessa conjugação. No entanto, não vejo como isso acontecer e o problema é que, se as ameaças alarmistas estiverem 10% certas, vamos passar por maus bocados num futuro não muito distante.

O problema é que não adianta você ficar preocupado em fechar a torneira enquanto escova os dentes, evitar jogar papel na rua ou preservar tartarugas ou baleias. Todo e qualquer esforço das pessoas físicas é mínimo diante do prejuízo que vem sendo historicamente causado pelas pessoas jurídicas, leia-se Estados e corporações. Você preserva um litro d’água enquanto a SANEPAR (a empresa de saneamento do Paraná) polui um rio inteiro, só para usar um exemplo próximo e recente. Você tenta ter uma alimentação saudável, enquanto as empresas envenenam verduras e animais com produtos químicos diversos, verdadeiras armas de destruição em massa. Não dá para competir.

A entrevista está publicada no endereço http://www.outraspalavras.net/2012/09/20/outros-valores-alem-do-frenesi-de-consumo/ e traz bem mais do que está dito aqui. Talvez as mais duras palavras do antropólogo sejam dirigidas ao que ele chama de “elites políticas e intelectuais” brasileiras. Graças a elas, o Brasil pode ter perdido a chance de pensar soluções e projetos próprios para enfrentar a realidade. Em vez disso, essas tais elites preferiram os caminhos já prontos, como se o fato de ter uma economia periférica também reduzisse o brasileiro a um ser humano periférico.

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