segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um governo covarde


Os servidores públicos estão em greve. Não todos, claro, mas muitos deles, principalmente os que recebem menos, como é o caso dos do Ministério da Saúde. E o governo do Partido dos Trabalhadores, o PT, diz que vai cortar o ponto dos grevistas. Bonito, para não dizer o contrário.

O governo do Partido dos Trabalhadores, depois de dez anos de mandatos, tem decepcionado os seus próprios trabalhadores, embora haja muita gente satisfeita e com razão de estar. Afinal, o governo tem dado aumentos pontuais, gordos e diferenciados para algumas categorias e extinguiu a data base do funcionalismo para poder distribuir benesses sem precisar estendê-las a todos. Agora, felizes mesmo estão os banqueiros, grandes empresários e especuladores, parasitas que entendem que o Estado é o hospedeiro ideal.

Essa subserviência fica clara quando se percebe que a taxação de impostos recai com todo o peso sobre as camadas médias da população, enquanto o “andar de cima” surfa sobre abatimentos e deduções e a Receita Federal faz vista grossa e cobra o mesmo percentual para medianos e ricos. Ora, isso é covardia
Mas, falando do funcionalismo, o fato é desde muito que os cargos de nível superior são privilegiados e os de nível intermediário são esquecidos. Pior: como no tempo de FHC, se priorizam as chamadas “carreiras de Estado”, que não passam, via de regra, das funções de controle e repressão: polícia e receita, principalmente. O “libertário” governo dos trabalhadores se transforma cada vez mais em uma chefatura, numa delegacia. Relembrando e invertendo um dos slogans da eleição de Lula, é possível dizer que “o medo venceu a esperança”.

Mui amigo esse governo, se diria em outros tempos. Ainda mais que parece copiar o que havia de pior no governo tucano, que contava com Bresser Pereira, que odeia profundamente os servidores, e José Serra, responsável pelo atraso do pagamento dos servidores em 1995 e que, ao ser perguntado se atrasar pagamento não seria algo desumano, pois prejudicava quem tinha contas a pagar, dívidas etc., declarou à Folha de São Paulo que pagamento de servidor não é questão de humanidade, mas de disponibilidade de caixa. Deve, certamente, pensar o mesmo de qualquer outro trabalhador. E quis ser presidente, mesmo assim. Agora quer ser prefeito de São Paulo. Quem o conhece diz que é um poço de veneno. Aparenta ser. Os paulistanos que se cuidem. Mas, não sei qual a melhor alternativa.

O mais interessante, porém, é que, segundo informações que obtive num sindicato, há aproximadamente sessenta mil cargos comissionados no governo da primeira “presidenta” da história do Brasil. É um número mais que respeitável, é assombroso. A estratégia parece clara e corresponde a quebrar a espinha da corporação de servidores públicos. Se são realizados concursos, contratados servidores, forma-se o corpo, a corporação, que tem força própria. Com os comissionados, que não por acaso são chamados “de confiança”, se enfraquece esse corpo, se lhe retira a força e lhe submete ao que o governo bem entender. No caso de uma greve, com tantos “confiados” do governo, sempre haverá quem trabalhe, ou tente.

Não consigo deixar de afirmar que o governo do PT é covarde. Nunca tive expectativas excessivas em relação a Lula, pois pesquisei praticamente tudo o que foi publicado na imprensa internacional sobre a eleição do petista mor. A imprensa nacional não dava conta de noticiar a realidade do país naquela época, pois sempre anda comprometida com o poder e não podia divulgar exatamente o tamanho da tragédia que resultou do governo tucano e pefelista de FHC. O fato é que o quadro era tão grave que o Financial Times, a gazeta bíblica neoliberal, dizia que o jogo estava acabado para o Brasil. Logo, sob essa conjuntura, não havia como nutrir expectativas muito otimistas em relação ao governo de Lula. Acabaria sendo um governo subserviente ao capital, exatamente como tem sido.

Essa subserviência fica clara quando se percebe que a taxação de impostos recai com todo o peso sobre as camadas médias da população, enquanto o “andar de cima” surfa sobre abatimentos e deduções e a Receita Federal faz vista grossa e cobra o mesmo percentual para medianos e ricos. Ora, isso é covardia. Não há distribuição de renda, pois se tira de quem não tem muito para dar para quem não tem nada. Mais proveitoso seria tirar de quem tem muito, mas, aparentemente, isso o governo não faz, provavelmente por covardia.

A mesma coisa se vê, desde 2003, em relação às finanças internacionais. Enquanto, internamente, o bicho pega e as greves começam a contagiar muitos que ganham pouco, o governo brasileiro envia dinheiro para safar a cara dos responsáveis pela crise europeia, como esse pessoal precisasse de mais recursos além dos que já foram embolsados exatamente antes e durante a crise. É claro que entendemos que há vetores específicos nas questões financeiras internacionais, mas parece óbvio que é uma covardia deixar o funcionalismo, pelo menos o do Ministério da Saúde, que conheço bem, recebendo migalhas que não são suficientes para sustentar uma família mediana, enquanto os criminosos que se alimentam de crises têm tratamento privilegiado com a ajuda do governo do PT. Para mim, isso é covardia.

Esse governo de dez anos é melhor do que o anterior, dos tucanos, que ficou oito no poder – ou menos pior, conforme o ângulo. No entanto, deixa uma dívida substancial com a sociedade que o elegeu, exatamente por ser covarde. Covardia que também ficou exposta no patético apelo do então presidente para que todos continuassem a consumir, quando da crise estadunidense do final da década passada. O governo do PT mostrou e tem mostrado que não é mais governo dos trabalhadores ou da população brasileira: é o governo dos banqueiros, das grandes empresas e dos consumidores. Não sei se por má-fé. Aposto mais na covardia.

Para terminar, um contraponto. Há muitas coisas positivas no governo do PT, é claro. Mas, na essência, até agora, a diferença com o governo tucano não vai tão longe quanto deveria, embora seja bem mais confiável. Falta distribuir renda e não é isso que vem sendo feito com coragem. Mas, ainda há tempo.

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