segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre a TV que não assisto

Fico sabendo que uma ex-leitora de teleprompter (TP) da Globo está com programa novo. Nele, tudo indica, são debatidos temas gerais e genéricos, provavelmente com o vácuo de sentido e inteligência que tem povoado o jornalismo das grandes empresas e, em especial, da empresa que confecciona os textos os quais a senhora apresentadora lia no telejornal, no passado, e agora lê no novo programa. Falo da senhora Fátima Bernardes.

Raramente assisti o citado telejornal no qual a senhora Bernardes, junto a seu marido, cujo nome me escapa, leram os TPs da emissora, franzindo a testa e oferecendo ao público sorrisos amigáveis, conforme o texto do TP. Também se não me falha a memória, parecem ter escrito até mesmo um livro falando sobre a experiência de fazer o dito programa de TV. Talvez tenham tirado de algum TP o conteúdo do livro, não é absurdo afirmar. Esse pessoal se acostumou tanto a ser boneco de ventríloquo que nunca se pode confiar que pense por si próprio. Embora isso não seja uma verdade absoluta, tudo indica que pode ocorrer, ou deve ocorrer.


Não assisti ao programa e me parece claro que jamais o assistirei. Aliás, não assisto televisão, a não ser um ou outro programa infantil, o que faço para fazer companhia para minha amada filha, ou um ou outro filme, que assisto junto à minha amada esposa. Logo, a senhora Bernardes, que não me conhece e, certamente, não se importa nem um pouco que eu nunca a veja na sua “nova casa” (conforme li ter ela nomeado o novo estúdio), pode ficar com seu programa que eu não me importo e nem quero saber sobre o que trata. Só tenho a pedir que ninguém me convide para assisti-lo.

Nada tenho contra a jornalista, mas também não consigo ter nada a favor.

É a TV que te vê

Se você costuma dizer que assiste a televisão, se você diz que vê TV, está invertendo toda a lógica que governa o mundo contemporâneo. Não é você que vê a TV e sim é a TV que lhe vê, sem qualquer dúvida. Você pode ter certeza disso na medida em que, inegavelmente, sofre inequívoca influência de tudo que a tal “telinha” exibe. Se fosse você a parte ativa da história, não ficaria tão passivo (ou passiva) diante das imagens que são transmitidas ininterruptamente, sem tréguas, em ritmo alucinante. O resultado dessa passividade fica ilustrado pela pouca criatividade dos pensamentos e atos de todo pessoa que passa horas diante da televisão.

É mara

Certa vez, fui fazer uma matéria na cidade da Lapa, aqui no Paraná. Era sobre um evento artístico da rede pública de educação do estado e havia inúmeras crianças e adolescentes participando. Estava eu de câmera e bloquinho, fotografando e anotando, quando vejo um grupo de 10 ou 15 meninos ou meninas fantasiados. Vou até eles e reparo que, todo o tempo, eles falam que uma coisa é “mara”, que tal pessoa é “mara”, que tal situação é “mara”. Penso: deve ser uma gíria local, provavelmente, e bem estranha. Ledo engano. Era, na verdade, uma expressão de um personagem de telenovela, que todos repetiam sem parar. Como eu não vejo novela, achei que a bizarra expressão era da tal cidade. Que tolo sou.

Lembrando dessa expressão, lembro do saudoso Ítalo Rossi, um ator de talento que a televisão tentou transformar em uma caricatura por diversas vezes. Foi dele o bordão “é mara”, quando interpretou um personagem numa telenovela, em 2008. Digo que a TV tentou transformá-lo numa caricatura, pois, por diversas vezes, segundo informações que colhi, seus papéis exaltaram excessivamente os trejeitos homossexuais. Eu o vi nas ruas, em palcos e em telas diversas vezes. Era mais ator do que homossexual, mas a TV parecia querê-lo desmunhecando em vez de representando.

Assim é a TV, assim é a cultura do espetáculo. Você não é nada a não ser uma personagem caricatural, sempre. Se não for assim, não tem espaço, ninguém te vê. Mas, quem quer ser visto desse modo? Todos, é claro.

O que não pensamos é que somos personagens de uma história na qual somente conseguimos o papel de protagonistas em nossa fantasia. O inconsciente freudiano parece ter saltado das profundezas da alma, para habitar o espaço vago que há entre nós. E esse espaço, parece claro, está midiatizado. Você sabe o que significa isso?

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