sexta-feira, 27 de julho de 2012

O poder dos medíocres

O mundo é dos medíocres, alguém me disse uma vez. O pior é que, enxergando a realidade com um mínimo de preconceito, essa afirmação não está distante da verdade.

Somos praticamente todos, hoje, medíocres. Isso significa dizer que nos orientamos pela média, pelo padrão de comportamentos gerais ou, mais especificamente, pelo padrão de pensamentos e sentimentos da maioria. A mídia, também conhecida como “media”, um termo da língua inglesa, uniformiza valores, e até mesmo desejos, incluindo as sensações e sonhos, algo que, em princípio, deveria ser absolutamente subjetivo e variável. Mas, parece óbvio, não é (*).

O medíocre diz: “eu gosto disso” ou “eu odeio aquilo” com tanta convicção que parece claro que acredita piamente no que diz, principalmente no “eu”. O medíocre cultua o eu acima de todas as coisas e o que vê no espelho não é algo compreensível ou explicável pela catóptrica (na física, ramo da ótica que toma como objeto a reflexão dos raios luminosos nos espelhos – do grego katoptriké, referente aos espelhos), mas sim, curiosamente, pela psicologia (ramo do conhecimento dedicado ao estudo dos fatos psíquicos, tanto no que diz respeito à consciência quanto ao comportamento).

Mas, por que é assim?


Em primeiro lugar, o mediano crê em tudo o que vê e a famosa prova de São Tomé não tem valor nesse caso, pois basta lhe mostrar uma reprodução ou encenação que ele acredita, ainda que seja absoluta e completamente inverossímil. De certo modo, o medíocre não costuma saber diferenciar a sua imagem de si próprio, muito menos realidade de ficção. Você desafia: dê-me uma prova de que os homens não têm caráter; ele, ou ela, responde falando de um personagem da telenovela. Você pede um exemplo de violência; o exemplo dado vem de um telejornal. Você pede uma análise de uma partida de futebol; ele repete, ipsis litteris, o que o comentarista da TV disse ontem à noite no “show do intervalo”.

O medíocre moderno, aliás, é total e completamente midiatizado, o que importa dizer que se assemelha àquelas pessoas cujas famílias creem impossibilitados de gerir a própria vida e as interditam, ou seja, lhes tiram a responsabilidade pelos próprios atos. A diferença fundamental é que o medíocre acredita que manda em si próprio, embora apenas obedeça ordens transmitidas ou pelo grupo que o cerca – muitas vezes chamado de “galera” ou “turma” e formado por uma horda de medíocres atestados – ou pelos veículos de informação.

Não se iluda. Não é tão fácil evitar o contágio. Eles estão em todo canto. Cuidado que a mediocridade se transmite mais que gripe e não há vacina nem camisinha que evite. O pior é que mata; pior ainda: mata em vida.

A internet é um bom terreno para observar essa numerosa espécie. O Facebook, por exemplo. Nem todos os que têm “conta” no Facebook são medíocres e nem todos os medíocres têm “conta” no Facebook, mas basta acessar essa tal rede social para encontrar inúmeros espécimes. Dizem por aí que se você tem “conta” no Facebook, ou já é um ou está fazendo pós-graduação no assunto. O mesmo se diz se você é assíduo frequentador dos “barzinhos” e “baladas”, ou, prova máxima, se passar horas diante da TV. Mas, que importa? Se eu fosse você, não me preocuparia se alguém lhe chamar de medíocre. Como dito, o mundo é seu. Aproveite, você tem poder. Mas só se outros medíocres afirmarem isso, lembre-se.

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(*) Há um movimento britânico chamado “Brandalism” (brand/marca + vandalismo), que reúne 26 artistas e tem como alvo a publicidade midiática que, segundo seus integrantes, não oferece opção às suas vítimas (que somos nós) muito embora diga que o faça, e, pior, manipula nossos desejos e necessidades em prol de interesses comerciais. Em outros termos, fabrica medíocres, pessoas sem qualidades, beócios, excelentes consumidores fúteis de produtos inúteis.

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