terça-feira, 5 de junho de 2012

Você ronca? Procure um oncologista, já!

Quando eu era estudante de psicologia, alguém comentou comigo que os “americanos” (leia-se estadunidenses) adoravam fazer pesquisas as mais diversas e que eu poderia me preparar para, durante minha vida profissional, ficar sabendo das conclusões mais esdrúxulas vindas dessas pesquisas. Segundo minha fonte, tudo indicava que, na falta do que fazer, os estadunidenses tinham a vida estabilizada e ficavam inventando modas e cruzando informações como a vida das formigas e o uso da calça jeans ou a tecnologia dos aviões supersônicos e a vida privada das mulheres desquitadas. Bem, é claro que há exagero nisso, mas nem tanto.
A última que fiquei sabendo é bisonha e está publicada no sítio da BBC no Brasil. Segundo pesquisa realizada por cientistas, o ronco é causador de câncer. Isso mesmo, você não leu errado. Para os cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison, se és um roncador convicto, podes procurar um oncologista, e rápido: tens cinco vezes mais chances de morrer dessa doença do que todos os outros mortais que não roncam. Cinco vezes! Alguém me sussurra que isso deve ser castigo, pois o roncador incomoda quem dorme a seu lado. Castigo, não: é praga.

Mas, você fica se perguntando, por que é que os cientistas relacionaram ronco e câncer?


É que o pessoal da Universidade de Wisconsin-Madison explica que a correlação tem sentido graças ao fato de que o suprimento inadequado de oxigênio leva a um crescimento acelerado de tumores, pois quando falta oxigênio, o organismo é estimulado a fazer crescer os vasos sanguíneos que nutrem os tumores. Sei lá, quem sabe... A pergunta que se pode fazer é se não é necessário haver um tumor para que isso ocorra. Se não houver, os vasos vão nutrir o quê? Peço desculpas aos cientistas por minha ignorância.

O fato é que mais de 1,5 mil pacientes participaram de um estudo que durou nada menos que 22 anos e focava o que os cientistas chamam de DROS (Distúrbios Respiratórios Obstrutivos do Sono) e, informa a matéria da BBC, “a forma mais comum de DROS é a apneia obstrutiva do sono, na qual a respiração é bloqueada deixando a pessoa sem ar”. O interessante é que o ronco não surge, assim, do nada, mas está associado a outros problemas na saúde, como diabetes, derrames, hipertensão e, é claro, obesidade. A coisa não parece tão simples, não é somente roncar e, pum, criar um câncer. É necessária uma gestação que inclui algumas doenças anteriores, ou não?

Obesidade é um desses males, veja. Isso me faz pensar: pobre da pessoa gorda, recentemente tem sido apontada como necessariamente insalubre e, mais grave: agora, além de inconvenientemente roncadora, ainda vai dar despesas à família ou ao sistema de saúde por conta do câncer que um dia terá. Conheço um gordo que me confidenciou o seguinte: “Se eu for levar em conta todos os males a que dizem que estou sujeito e se levar em conta o custo que esses males darão à sociedade e à minha família, deveria me matar o quanto antes. Gordos são tidos como um estorvo para todos”. Coitado. Houve o tempo em que se quase ninguém queria de bom grado amar um gordo (a não ser outro gordo), pelo menos se costumava considerá-lo um sujeito com pinta de feliz, animado, cheio de espírito (ainda mais quando o caso era uma boa refeição). Isso acabou. Feliz, ao que tudo indica, é o magro, que come pouco, dá menos despesas a quem o alimenta e ainda não manifestará nenhum câncer inesperado e caro, como todo câncer parece ser.

Mas, nem tudo é tão grave como parece. O teor terrorífico da matéria é característico do jornalismo contemporâneo. Lá no final, no espaço geralmente destinado ao famoso e pouco ouvido “outro lado” da notícia, há uma ponderação importante. O estudo foi apresentado na conferência internacional da American Thoracic Society, realizada em San Francisco, e será publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, mas não do jeito que os jornalistas da BBC publicaram. Na apresentação científica e no texto a ser publicado, outros fatores – idade, sexo, índice de massa corporal e fumo – são acrescentados como possíveis intervenientes na relação ronco/câncer. Ainda bem.

De todo modo, os cientistas que realizaram o experimento levam bastante a sério o casamento entre ronco e câncer. Segundo Javier Nieto, coordenador do trabalho, "A consistência dos indícios dos experimentos com animais e deste novo estudo epidemiológico em humanos é muito convincente". O negócio é saber se é realmente possível confiar na pesquisa e investir no diagnóstico e tratamento de DROS para prevenir e, no caso da doença instalada, aumentar a sobrevida do paciente com câncer.

O que me salva, no caso, é que, embora minha mulher diga que algumas vezes ronquei, não foram tantas assim e não foram roncos muito altos (se ela disse isso para me agradar, não sei). Isso significa que posso estar salvo de quimioterapias e outros tratamentos terríveis, além das dores e dissabores da doença. Somado a isso, sou alérgico a tudo e a nada, mas alérgico, o que um homeopata me disse ser um ótimo indício de que não morrerei de qualquer neoplasia. Tomara.

Agora, examinando minha memória, lembro de um sujeito que roncava tão alto, mas tão alto, que me chamou bastante a atenção. Fomos, um grupo de pessoas, passar um ou dois dias numa cidade chamada São Pedro da Serra, no interior do Estado do Rio de Janeiro, ali perto de Friburgo, próximo de Muri, depois da aconchegante cidade de Lumiar. Isso foi em 1985, com certeza, e havia no grupo um roncador daqueles que não roncava, trovejava. Eu e outra pessoa, um rolo meu, na época, ficamos acampados na sala da casa, enquanto dois outros casais ocupavam o quarto. Nós, na sala, tivemos muita dificuldade para dormir, pois parecia que havia um trator ligado no quarto, ou um avião a jato, sei lá. Só fiquei imaginando como dormia quem estava do lado de tão potente e estrondoso roncador. Sei quem é o sujeito e pode ter certeza de que vou ficar sabendo se ele morrer de câncer. Se isso acontecer, por favor, desconsidere todo o meu tom crítico neste texto.



PS: O diabo me sopra que, no passado, falar em “cientistas” significava falar em respeitáveis donos da verdade. Hoje, no entanto, ainda mais quando falamos de pesquisas como esta que estamos comentando, diz ele, os imaginamos tomando cerveja enquanto fazem experimentos e dando gargalhadas quando imaginam nossa cara ao ler sobre o resultado dessas pesquisas. Pode ser, se é o diabo quem diz... Tudo indica que ele conhece bem essas coisas.

Um comentário:

  1. Não meu amor, não falei apenas pra te agradar. Não tenho esse hábito. Vc dorme quietinho e quentinho. Te amo!

    ResponderExcluir