domingo, 17 de junho de 2012

Saúde é tudo por dinheiro?


Acesso um portal de saúde do governo federal e me surpreendo: ali, tudo gira em torno de números, cifras, estatísticas. Não há praticamente nenhuma informação sobre saúde que não tenha um número a antecipando ou sucedendo, geralmente números que remetem a valores monetários. “3,5 milhões para os estados”, “R$ 70 milhões para unidades do SUS”, “Ministério da Saúde libera R$ 213 bilhões”, “Remédios de graça” e por aí segue o cortejo. Isso é saudável?

Tudo por dinheiro: esse deveria ser o slogan de campanha da esmagadora maioria dos candidatos que concorrem a cargos públicos, mas não só deles. Os chamados agentes de saúde, médicos e afins, parecem também viver obcecados pelos cifrões. O problema é que enquanto os políticos apanham de todo lado por conta disso, os saudáveis agentes de saúde, ganham medalhas. Mas, não estou afirmando aqui que os profissionais de saúde sejam venais. Alguns podem ser, mas, com certeza, não todos. O que digo é que esse pessoal tem dado tanta importância a medir saúde por gastos e/ou investimentos que, quem sabe, possivelmente, se deveria incluir pelo menos um ano letivo só de matemática financeira nos cursos ditos biomédicos.

Não gosto disso, definitivamente. Quando Dostoievski esteve na França, na segunda metade do século XIX, observou que, para a burguesia parisiense, possuir dinheiro seria a mais elevada virtude humana. Quando leio matérias de saúde que medem esta pelo valor financeiro gasto ou investido, tenho vontade de dizer o mesmo dos agentes de saúde. E, aliás, talvez isso não seja insensato, pois boa parte deles defende com unhas e dentes os valores burgueses e conheci até mesmo alguns que defendiam a esterilização em massa como solução para a pobreza brasileira. Casos como esses costumam ser identificados com o fascismo ou o nazismo, mas creio, sinceramente, que são piores.

O mais recente absurdo que me chegou foi um tal levantamento governamental que dizia que os gastos com doenças relacionadas ao tabaco alcançavam cifras astronômicas. Isso foi o suficiente para um amigo que trabalha na saúde dizer, indignado, que os fumantes deveriam custear os próprios tratamentos. O que ele não pensou, o que ele não notou, é que o uso do cigarro industrializado foi incentivado ostensiva e ferozmente até bem pouco tempo atrás. Isso ele não vê, pois só pensa em saúde, ainda que custe a liberdade e a dignidade, e em dinheiro

Um pouco da história dos atuais fumantes

As marcas e logomarcas de cigarros estavam em todos os cantos, até mesmo em eventos desportivos e festas infantis. Fui, quando jovenzinho, num aniversário de um coleguinha cujo pai era aficionado por corridas de automóveis e, como o herói nacional da vez se chamava Emerson Fittipaldi, que disputava provas na chamada Fórmula Um, lá estava, no bolo, sobre a mesa, nas paredes etc., imagens e reproduções da “baratinha” (era assim que muitos chamavam os carros de corrida antigamente) dirigida por Fittipaldi. Era um carro com motor “lótus”, lataria preta e a indefectível logomarca de um cigarro, o John Player Special, que, aliás, também foi o carro usado por Ayrton Senna no início de sua carreira. Imagine a associação que nós, menininhos e menininhas na época, fazíamos entre cigarros e o heroísmo desportivo.

Não é preciso dizer que mal esperávamos ter lá uns treze ou quatorze anos para fumar o supostamente delicioso John Player Special. Felizmente ou infelizmente, esse cigarro era importado e, logo, muito caro. Mas, havia o cigarro da aventura, o Hollywood, o do homem que sabe o que quer, o Minister, o da preferência nacional, o Continental, etc.

Não é o caso de justificar o hábito de fumar em boa parte das pessoas com mais de 30 ou 40 anos, mas é o caso de entender que a cultura, leia-se cultura midiática, ofereceu a essas pessoas uma referência fundamental para a formação da subjetividade. Isso sem falar no prazer que muitos sentem em fumar tabaco, hábito existente desde tempos imemoriais. Essas pessoas, além de outras, merecem, segundo o ultrajado agente de saúde, ser castigadas, punidas, simplesmente porque fumam e custam muito aos cofres do governo. Ora, mas para que existem os cofres do governo?

E cabe perguntar ainda se o referido agente é muito saudável com essa mentalidade financeira fascistóide.

No mesmo tempo em que li sobre os astronômicos gastos com doenças relacionadas ao tabaco, também li que o cidadão brasileiro trabalha cinco meses no ano somente para pagar impostos. Principalmente o assalariado, é claro, que é inapelavelmente taxado na fonte. Ora, se o cidadão paga tantos impostos, claramente abusivos (se você ganha algo em torno de dois mil reais, brutos, já está pagando impostos, o que é, francamente, absurdo) pelo menos os adoecidos pelo tabaco sabem que parte dos recursos arrecadados pelo fisco e demais órgãos governamentais estão sendo gastos com eles. Se a onda é pensar financeiramente, então a afirmação é válida e sadia. E os senhores e senhoras da saúde que não torçam o nariz e olhem mais para as pessoas e menos para os próprios bolsos ou para o cofre público.

Há dias, os médicos se mobilizaram nacionalmente porque o governo ameaçou mexer-lhes no bolso. É curioso, pois, em uma epidemia, no Rio de Janeiro, já vi médico se ultrajar por ser convocado para ir aos subúrbios nas comunidades com surtos de dengue e assisti um deles se recusar a ir a um local de risco, pois isso lhe tomaria tempo de consultório, além de lhe expor à doença. Não duvido que o mesmo médico estivesse na rua, agora, indignado, defendendo a merreca que ganha para ficar menos de quatro horas no serviço, geralmente uma ou, no máximo duas, quando deveria ficar quatro. Não vou afirmar que todos os médicos não cumprem nem as míseras quatro horas de seus contratos de trabalho, mas esse, com certeza, não cumpria quando o conheci. E, por que somente quatro horas? E por que nem mesmo as quatro horas? Num posto no qual trabalhei, soube haver um que atendia 20 pessoas em, no máximo, uma hora. O que fazia? Provavelmente, benzia os pacientes.

Epidemia? Não obrigado. Mexeu no bolso, tô dentro, mobilizado, nas ruas, indignado, a todo vapor em defesa da cidadania.

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PS: Antes que algum médico indignado me xingue, digo que há exceções, ou, com mais benevolência, digo que esses maus exemplos são exceções – não foi o que vi durante meus trinta anos de saúde, mas, posso ter estado míope todo esse tempo. Houve exceções, é claro, mas minha memória diz que bons exemplos foram poucos.


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