quinta-feira, 7 de junho de 2012

O jornalismo que aplaude o traje do rei

Christian Andersen
Está certo que os veículos de comunicação falam para um público amplo, que precisam adequar a linguagem para que todos entendam suas mensagens, simplificar os termos com frases simples, ideias claras e diretas etc. Bem, isso tudo é verdade e é bem útil para boa parte da população, que pode, assim, ter acesso às informações veiculadas. Aplausos para os jornalistas.

O que não é preciso, porém, é achatar as ideias como é usual acontecer na mesma imprensa. Não é adequado transmitir informações simplificadas ao extremo, recortar o sentido das ações e pensamentos (quando se trata de entrevistas ou declarações) a ponto de deturpá-lo, divulgar sempre apenas uma versão do fato (o outro lado, quando aparece, é com timidez, quase escondidinho, no último parágrafo, geralmente nas linhas finais deste), ignorando que tudo na vida admite pelo menos duas versões (pelo menos, pois se duzentas pessoas presenciaram um acontecimento, há, no mínimo, duzentas versões).

Procedendo dessa forma, o jornalista claramente presta um mau serviço ao público ao qual se destina e ao qual deve a importância de seus serviços, se é que são importantes ou poderiam ser. Deve entender que dizer algo de forma simples não significa, necessariamente, simplificar a complexidade de todo e qualquer acontecimento, suas motivações, seu enquadramento político, a conjuntura histórica em que acontece, os personagens envolvidos etc.

Mais grave ainda é que a simplificação não objetiva, exatamente, que o público entenda melhor, serve para transmitir uma interpretação que oculta ideias prontas, supostamente consensuais ou consensuais, unanimidades. Se considerarmos a burrice nata e hereditária que envolve toda unanimidade, como dizia Nelson Rodrigues, que era jornalista, mas não um “idiota da objetividade”, por que não pensar que uma parte das mídias jornalísticas tem tratado o público como essencialmente estúpido? O que me impede de supor que condena as pessoas a uma opinião geralmente simplificada (até mesmo simplória) e, consequentemente, deturpada?

Lembro da transcrição de uma conferência de Julio Cortazar, um escritor argentino que muito admiro, na qual ele se posicionava radicalmente contra a simplificação da transmissão de cultura para aquilo que, na época, se chamava “as classes populares”. Cortazar dizia que era um desrespeito ao público, uma afronta à inteligência das pessoas e que, no fim das contas, era uma iniciativa que partia do preconceito de que as pessoas eram, por natureza, limitadas intelectualmente, simplórias, estúpidas. Ele dizia isso com relação à cultura, mas esse é o mesmo espírito que anima o jornalismo que percebemos nos veículos jornalísticos de grande circulação. Que são de grande circulação, não propriamente pela qualidade, mas pela capacidade de distribuição e alcance, é bom lembrar, o que conseguem, no caso das TVs, por concessão governamental.

Certa vez, assisti a uma palestra de um sujeito que trabalhava numa emissora de jornalismo televisivo, dessas que não agradam a gregos e troianos, mas a quem anuncia nos melhores horários, ou, eventualmente, aos governantes de plantão. Dessas especializadas no assunto, que transmitem notícias o dia todo, repetindo as mesmas matérias em intervalos, com os mesmos pontos de vista, acrescentando geralmente banalidades aos fatos, repetidamente tratados com uma simplicidade que não se justifica pela facilitação da decodificação da mensagem, mas pela transmissão de interpretações pré-fabricadas da notícia, tentando esgotar, pelo tamanho da burrice unânime, toda a inteligência do mundo. O sujeito trabalhava nisso, fazia isso, e, no final da palestra, disse, com o peito estufado, que tinha muito orgulho de trabalhar na empresa, do trabalho que fazia, do jornalismo de qualidade que praticava.

Saí pensando que se alguém lhe jogasse, naquele exato momento, uma sela e um arreio, o tipo sairia escoiceando feliz. Não parecia um canalha, acreditava do que dizia. Na história de Christian Andersen*, certamente aplaudiria, comovido, a beleza do traje do rei.

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* “A roupa nova do rei”, no qual um menino aponta a nudez real.





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