domingo, 24 de junho de 2012

Esses articulistas e as torções e distorções da realidade


Leio texto de Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo, no qual o articulista afirma que “Dezenas de bilhões são gastos apenas para cobrir os rombos deixados pela aposentadoria dos funcionários públicos, muito maior do que a dos aposentados normais”.

Coisa engraçada: ele sabe que a aposentadoria dos servidores é maior, muito maior, segundo o redator, mas não sabe, ou não quer saber, que a aposentadoria dos “normais”, segundo suas palavras, é irrisória, geralmente muito menor do que as necessidades dos que a recebem. É o exemplo típico de enxergar apenas um lado, o que se quer, de observar apenas o lado visível da lua. Pela lógica expressa pelo Sr. Dimenstein, a lua é um disco pintado no céu.

Passados alguns minutos depois de escrever os parágrafos acima, recebo telefonema de uma aposentada, que, no meio da conversa, comenta que pagou previdência para dez salários mínimos e recebe apenas o relativo a três. Seguindo a lógica do Sr. Dimenstein, tudo bem, resignemo-nos. As coisas têm que ser assim, não se fala nisso e o problema são os servidores públicos que recebem mais.

O jornalista precisa saber que nivelar por baixo é fácil, mas não é a melhor coisa a fazer.

Ele também não sabe que a perda que o governo do Partido dos Trabalhadores impõe ao servidor aposentado é considerável.

Investindo contra a inteligência

Na mesma Folha, o editorial “Menor e melhor” mostra um exemplo de dito não dito, também uma patologia relacionada ao que se pode chamar de miopia empírica, aquela que respeita os pressupostos ideológicos de quem escreve o texto, mas descarta e desconsidera a realidade, tentando fazer desta uma sucursal de sua percepção de mundo, quando o contrário seria mais indicado. Em casos como o do editorial, o editorialista deixa ideias soltas, como se o leitor já soubesse bem do que se fala. Perigoso isso, pois geralmente as ideias vagas são interpretadas com base em preconceitos, ou melhor, em pré-conceitos, ideias prévias a qualquer verificação empírica.

O editorial diz: “Salários competitivos e remuneração por mérito são essenciais para um Estado eficiente. Mas, sem uma regra que imponha limites ao inchaço de despesas de custeio, ele degenera numa máquina dilapidadora dos recursos que deveriam sustentar o investimento”. Bem lógico, não? O que não está dito, é que ainda que se considere que salários competitivos e remuneração por mérito sejam essenciais, por mais que se considere que limites são sempre importantes, não se esclarece de que “investimento” se fala. Assim é fácil dizer qualquer coisa. Investimento em quê? Fica o mistério e a sensação de que, se não se disse, foi porque não se queria mesmo dizer, possivelmente, quem sabe, porque o termo “investimento” foi posto ali com o objetivo de referir algo nobre, útil e desejável, que os salários dos servidores públicos (tema do editorial) estariam dilapidando.

Será verdade? A mim, parece mais que se fala de um outro investimento, em outro sentido e contra a minha e a sua inteligência.

Um casal incestuoso

Há quem possa dizer que a situação é inversa. Não sei o porquê, mas quem costuma usualmente ter esse esquecimento são duas categorias de humanos: o empresário e o político, esse casal incestuoso em relação aos cofres públicos, que são recheados com cinco meses de impostos anuais de cada trabalhador assalariado. Isso significa dizer que o meu dinheiro e o seu.

Há quem possa dizer, assim, que quem dilapida não são os trabalhadores. Parece sensato dizer que esse casal, chegado a práticas de molhação de mão, dinheiro na cueca e outros expedientes pornográficos que enchem os bolsos, na verdade, da mídia, a categoria de empresariado que sobrevive regiamente com o expediente de exibir à sociedade o que há de pior nela, transformando essa tragédia em show.

Menor compreensão, melhor dominação?

Como bem se pode ver, por estes exemplos e inúmeros outros, tudo é facilmente torcível e distorcível com certa habilidade estilística. Abra o olho, pois se os exemplos acima postos não atingem diretamente nossa vida cotidiana, fazem parte de um ideário que tem influenciado o e, muitas vezes, empobrecido o que temos de mais precioso: nossa capacidade de entendimento da realidade.

E olha que só estou falando do que li hoje, 22 de junho de 2012. Não estou falando do lido todos os dias, quando as torções e distorções são as mesmas ou ainda mais pernósticas. É a aposta no quanto menor a compreensão, melhor a dominação.

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