segunda-feira, 4 de junho de 2012

Enquanto você curte e compartilha, há quem fature com isso



Até mesmo Karl Marx, mais uns milhares
de marxistas, estão no capitalistíssimo FB.
Há lugar para todos no circo do capital.
 Em março de 2009 descobri que existia um tal Facebook (FB), um sistema de relacionamentos virtuais que se assemelhava ao Orkut (que ainda era a moda na época no campo das tais “redes sociais virtuais”) e que havia sido criado, ESPECIFICAMENTE, para colher informações pessoais dos seus integrantes e revendê-las a empresas. Isso dito numa matéria jornalística, claramente.
A mecânica é simples: você se associa ao FB, expõe seus gostos, seus carinhos, memórias, parentes, amigos, preferências políticas, desportivas etc. e tudo isso será usado contra você, ou seja, será usado por empresários para melhor lhe iludir, isto é, para associar seus afetos, sentimentos e emoções a produtos, que, obviamente, não lhe darão nada a não ser gastos
Na mesma matéria, havia uma breve discussão sobre o caráter democrático de redes como o FB, com o questionamento acerca de se havia ou não espaço para críticas e debates no seio dessa rede. Lembro bem que, ao ser ouvido um bambambã do FB, o sujeito foi claro e disse, sem tirar nem pôr, que não interessava à empresa o que os seus clientes falavam, o importante seria que falassem, que se expressassem, exatamente porque, segundo a matéria, o objetivo não era ouvir reclamações ou dar espaço a um alto nível de confronto de ideias: o objetivo seria faturar, apenas isso, com a venda das informações para empresas. Certamente, pensei, o tal Zuckberg e cia sempre que se barbeiam, pela manhã, devem encher o banheiro de serragem. É muita cara de pau.
  
A mecânica é simples: você se associa ao FB, expõe seus gostos, seus carinhos, memórias, parentes, amigos, preferências políticas, desportivas etc. e tudo isso será usado contra você, ou seja, será usado por empresários para melhor lhe iludir, isto é, para associar seus afetos, sentimentos e emoções a produtos, que, obviamente, não lhe darão nada a não ser gastos. Bem, não é muito diferente do que toda e qualquer empresa faz, mas não é toda e qualquer empresa que te incentiva a se expor do jeito que o FB te incentiva, muito menos não é qualquer uma que tem acesso a fotografias e mensagens afetuosas do jeito que o FB tem.

Em outros tempos, a gente poderia (ou deveria) dizer: mas que falta de ética, que imoralidade! E poderia perguntar: mas, onde está a decência e o caráter dessa gente? Bem, isso, em outros tempos, nos tempos caretas. Agora, nos tempos pós-modernos, quando vale tudo e mais um pouco e a regra é se dar bem passando sempre por cima de alguém, isso é normalíssimo. Sem pudores desnecessários, o senhor Zuck e sua turma, incluindo os progressistas empresários do Google, que faz o mesmo que o FB, com até maior abrangência, vão embolsando seus milhõezinhos.

Eu, de minha parte, como qualquer um pode comprovar, tenho minha continha no FB. Quem sabe, você mesmo chegou até este texto pelo link que lá publiquei, veja só, pois, na verdade, mantenho o vínculo com a empresa do Zuck somente para divulgar o que escrevo neste blog e, vez por outra, comentar algo. Afinal não sou tão preconceituoso a ponto de discriminar quem quer me iludir e usa as informações que posto contra mim (perdão, chefões do FB, mas não consigo entender essa prática como favorável a minha digníssima pessoa). Como dito acima, se a regra é faturar em cima do semelhante, ou aceito os que fazem isso ou provavelmente só me relacionarei comigo (até porque não tenho outra escolha) e com minha mulher (que só fatura meu amor e retribui com mais amor), até porque mesmo meus filhos estão, ainda, numa fase em que precisam faturar em cima de mim, sob pena de não conseguirem viabilizar suas vidinhas.

Publico, abaixo, texto da Carta Maior sobre o tema, que você pode ler aqui mesmo ou acessar no link http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20184.


PS: Se você chegou a este texto via FB e ficou pensando, "mas como é democrático, como é tolerante esse FB! Permite publicar até mesmo textos que o criticam abertamente!!!", não se iluda. Como dito no texto, até mesmo a divergência é útil para Zuck e seus parceiros. Afinal, o importante na pós-modernidade é que você divirja, contanto que o faça dentro do jogo. O importante é jogar e não importa se você diverge, pois na ótica desses caras, ser diferente é escolher preto em vez de azul, escutar sertanejo em vez de mpb ou se vestir de punk em vez de careca nazista (e vice-versa e vice-versa e vice-versa). Essas diferenças, na verdade não são diferenças: são semelhanças, pois todos divergem aceitando as mesmas regras. 

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Como nossos dados pessoais enriquecem gigantes digitais


Carta Maior

Qual é o terceiro país do mundo em população e o que mais espia seus cidadãos? A resposta cabe em um território virtual: Facebook. Com seus 900 milhões de usuários registrados, se o Facebook fosse um país seria o terceiro do mundo, logo depois da China (1,34 bilhões) e da Índia (1.17 bilhões de habitantes). Esta demografia virtual faz do Facebook um território de participação voluntária no qual os usuários entregam sua intimidade com toda inocência sem ter plena consciência do quanto estão se expondo nem do gigantesco capital que os usuários estão aportando à empresa fundada por Marc Zuckerberg.

Criado há apenas oito anos, o Facebook tem um valor estimado em Bolsa de 104 bilhões de dólares. É maior que a Amazon (98 bilhões), vale quase três vezes mais que a Ford Motors (38 bilhões de dólares), mas menos que o Google (203 bilhões) e a Apple (495 bilhões).

Do mesmo modo que Google e outros gigantes da rede, Facebook deixou de ser a simpática “startup”, criada no campus de Harvard. É um predador de dados, um aspirador universal de publicidade, um autêntico serviço de inteligência que se serve de cada informação deixada pelos usuários para fazer dinheiro com ela.

Todas as cifras relacionadas ao Facebook são imperiais: com 169 milhões de usuários, os Estados Unidos contam com o maior número de membros. Em segundo lugar vem a Índia com 51 milhões, o Brasil com 45 milhões e o México com 20. Mais de 300 milhões de fotos são publicadas a cada dia no Facebook e cerca de 500 milhões de pessoas acessam a rede social utilizando dispositivos móveis. No entanto, o qualificativo de “rede social” está longe de coincidir com a realidade. Como observa Archippe Yepmou, presidente da associação Internet sem fronteiras (ISF) (www.internetsansfrontieres.com), o valor do Facebook na bolsa “repousa no abuso de nosso direito ao controle de nossos dados pessoais”.

O peso do Facebook é proporcional ao grau de intimidade que revelamos com nossas conexões. Facebook e Google se apoiam quase no mesmo modelo econômico: quanto mais se sabe sobre os gostos e inclinações dos usuários, mais dinheiro pode-se fazer com esses dados sem que o usuário tenha dado sua permissão para tanto. É neste contexto que a associação Internet sem Fronteiras propõe a criação de um e-sindicato, com o objetivo de defender os direitos dos usuários do Facebook e de outros mastodontes digitais que espiam cada um de nossos clics para convertê-los em ouro.

Antonin Moulart, membro da associação, diz que “a ideia de um sindicato eletrônico aponta para o estabelecimento de uma relação de força com a empresa do senhor Zuckerberg para que ele entenda que temos direito a decidir sobre nossas informações pessoais”. O paradoxo Facebook é imenso: tornou-se uma ferramenta de intercâmbio com alcance planetário, mas sua aparente inocência atrai adeptos que prestam voluntariamente a uma violação impensável de sua vida privada.

Archippe Yepmou revela, por exemplo, que “nossas agendas são scaneadas pelo Facebooh através do nosso telefone celular e de nosso correio eletrônico. A empresa procede também a uma identificação biométrica que permite ao Facebook reconhecer logos e rostos das fotos sem que o contribuinte tenha dado sua autorização explícita para isso. A ideia do e-sindicato quer impor um mediador entre as pessoas e esse roubo da intimidade. A solução mais simples seria não se inscrever no Facebook, mas sua necessidade, real ou imaginária, já é um fato consumado. Neste sentido, a associação Internet sem Fronteiras reconhece que “a posição monopólica do Facebook fez da empresa um espaço de socialização obrigatório para toda ou uma parte da população”. Ingressamos neste espaço virtual-social como ovelhas pacíficas enquanto o lobo estava à espreita.

Reparar o erro requer uma consciência universal do valor estratégico e comercial de nossos dados pessoais assim como de nosso direito de nos opor a que sejam comercializados. Mas essa consciência está longe, muito longe de ter sido formada. A capitalização dos dados pessoais está perfeitamente quantificada no valor do Facebook. Não são suas máquinas ou seu programa a fonte de sua riqueza, mas sim nossa intimidade. O ingresso do Facebook na bolsa inaugura outra fase perigosa: “o modelo econômico da empresa baseado na exploração comercial da vida privada vai empurrar o Facebook em outra direção ainda mais intrusiva e ameaçadora da liberdade”, diz a ISF. O Facebook é um autêntico estômago de dados cujo destino, em grande parte, desconhecemos.

O contra-poder frente o Facebook e outros sugadores de dados planetários existe: é, por enquanto, tímido, mas real. Eletronic Frontier Foundation, Internet sem Fronteiras, a muito oficial CNIL (Comissão Nacional de Informática e Liberdades, da França), o Controlador Europeu de Proteção de Dados (CEPD), o Europa versus Facebook, são alguns dos organismos oficiais ou não governamentais que discutem a maneira de construir um muro legal entre os cidadãos e empresas como Facebook ou Google, que lucram com nossa vida. Serão necessários, porém, muitos anos para que os usuários passem à ação e tomem consciência dos níveis de exposição a que estão submetidos quando, sem nenhuma garantia de privacidade, sobem uma foto, manifestam um gosto musical ou a preferência por uma ou outra marca.

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