domingo, 17 de junho de 2012

Diploma não é importante, só o mercado



Sorria, o mercado está de olho em você
  Leio texto de uma designer chamada Lígia Fascioni (link no final deste texto). A moça tem experiência no ramo, tudo indica, e começa a discorrer suas ideias chamando a atenção de que “estava ministrando aulas em um MBA quando...”. Trata-se, é claro, de uma daquelas “profissionais bem sucedidas” que o mercado procura e os empresários requerem para alavancar suas vendas. O texto é intitulado “Diploma pra quê?” e nele a experiente e bem sucedida profissional relativiza o valor dos diplomas e certificados. Para ela, “O mercado remunera melhor quem consegue gerar mais valor, tendo ou não uma pilha de certificados”.

Concordo com a articulista, não é a quantidade de diplomas ou certificados que vai fazer alguém ganhar fortunas, como ela mesma diz. Também assino embaixo da afirmação de que se depender de bolsas de estudos, ninguém consegue lá muita coisa e, mais que tudo, há que congratular a senhora Fascioni por ensinar aos incautos que não adianta fazer um curso, conseguir o diploma e depois emoldurá-lo ou jogá-lo numa gaveta, sem utilizar e desenvolver o que foi aprendido. Tudo isso é perfeito, exato, definitivo. O problema é que a amplitude do tema não se resume a isso.

Logo no terceiro parágrafo, Fascioni mostra ser arguta ao afirmar que “O problema é que algumas pessoas costumam levar ao pé da letra aquelas manchetes escandalosas publicadas nas capas de revistas de negócios dizendo que um curso de MBA pode aumentar seu salário em muitos porcento”. Ora, isso é verdade. Mas, o que a brilhante profissional parece ignorar, por não ver ou não saber, ou não querer ver nem saber, é que aquelas manchetes escandalosas são promovidas por empresas que têm, geralmente, uma identidade corporativa que é gestada, criada e desenvolvida por profissionais competentes como ela. O que significa necessariamente dizer que essas pessoas que se envolvem com esse tipo de trabalho são cúmplices nas manchetes escandalosas e na ação de iludir os bobos que creem que um diploma, seja de MBA ou de qualquer outro curso, vai lhes render muita grana. E as manchetes escandalosas prometem isso mesmo, não falam que é preciso fazer mais, simplesmente porque querem nos ludibriar, focando o nosso lado infantil, o que acredita em mágicas e contos de fadas. São peças de propaganda, como quaisquer outras e o que pretendem é vender, como todas as outras. E nem sempre a ética é considerada nessa pretensão.

Se fazer um curso de MBA não promove automaticamente o profissional, como a própria senhora Fascione diz, isso não impede que gente do mesmo ramo dela, com a mesma formação e experiência, com a mesma ética (ou falta dela, em alguns casos), repita isso incessantemente, buscando, não há dúvida, iludir, literalmente enganar. Resultado: ela e seus pares têm razão no que dizem, mas a conjuntura na qual têm razão é, em boa parte, fomentada por eles e pelos seus clientes e patrões. A ação é simples e consiste basicamente em produzir o efeito para depois, brilhantemente, apontá-lo, ocultando as principais causas, é claro, por ignorância ou má-fé. Mas, sempre é preciso considerar, em primeiro lugar, a inocência.

Mas, não é à toa que se diz que as iniciativas de marketing servem para seduzir e é menos à toa ainda que seduzir significa “induzir ao mal ou a erro por meio de artifícios, de desencaminhar ou desonrar valendo-se de encantos e promessas”. Num sentido mais amplo, seduzir é levar para um caminho, como se só houvesse um caminho.

Só vale se o mercado abençoar

Outro tópico interessante do texto da senhora designer é que, graças às ilusões patrocinadas por seus prováveis clientes e/ou patrões, “(...) o que se vê por aí é uma legião de pós-graduados subempregados e reclamando da vida”. Isso é verdadeiro apenas em parte, pois, parece que me dando razão no que afirmo nos parágrafos anteriores, ela torce a realidade a seu gosto e esquece que, no mundo capitalista, é impossível que todos tenham sucesso, pois, simplesmente, o sistema do capital, na sua fluência, exige que os funis do mercado sejam bem apertados e que somente alguns sejam bem empregados, principalmente nos arraiais de terceiro mundo, como o nosso. Os outros, a senhora Fascione bem sabe e, se não sabe não é difícil que deduza, devem ficar a ver navios, subempregados, ajudando a sustentar, com suas infelicidades e seus recursos empregados em formações infindáveis, a felicidade, o prestígio e os vencimentos dos bem sucedidos. É a velha e gasta divisão metafísica do mundo que os estadunidenses adoram fazer, há os winners e os loosers, o mundo se divide assim. Fukuyama falou de tymus. É, deve ser a quantidade disso que faz um vencedor.

Essa lógica se aproxima do que os marxistas chamavam de “exército industrial de reserva” e está mais próxima ainda do que os neoliberais chamam de “desemprego estrutural”. Em outros termos, os subempregados garantem que os empregados estão sempre sob ameaça e que, no dia seguinte, poderão ser subempregados também. E mais, sob um ponto de vista subjetivo, levando em conta o caráter sempre especular da subjetividade, os subempregados fazem com que os empregados se sintam bem, muito bem, pois podem comparar sua felicidade com a infelicidade dos subempregados que reclamam da vida. Só não gostam que esses coitados fiquem reclamando perto deles, pois do fundo de suas almas, se eleva a voz: cuidado, ele pode ser você, amanhã.

Mas o texto não é mal escrito e nem a designer que o escreveu é neófita no assunto, muito pelo contrário. Ela vai mais longe e explica que as manchetes escandalosas, na verdade, não são mentirosas (dá para imaginar, então, que não são completamente mentirosas, só um pouquinho, pois, como Fascione, ela própria, diz não se podem levar “ao pé da letra“). Explica que “se você tem vários diplomas, teve acesso a vários conjuntos de informações específicas. Isso aumenta muito as suas chances de recombiná-las e criar algo que, de fato, tenha valor para o mercado”. Ótimo, parece claro, mas, por que sempre o mercado? Será que é possível definir antes o que é essa tal entidade ubíqua?

O mercado, tudo indica, é um Deus mais poderoso do que o próprio Deus, pois intervém a seu bel prazer em tudo na vida. Nesse sentido, há uma identidade entre o texto comentado e os textos e discursos dos neoliberais. Só falta a designer dizer que esse tal mercado é formado pelo conjunto de consumidores, sem distinção, democraticamente, regulado pela oferta e pela procura. O problema maior nisso tudo é a razão cínica que orienta esse pensamento que a Sra. Fascione e tantos outros adotam como se fosse um dogma inquestionável. Não é, e não traz assim tantos proveitos nem aos designers nem a qualquer outro profissional.

O Deus da bestialidade

Eu, de minha parte, não me enquadro no tipo descrito por Fascione. Não coleciono diplomas. No entanto, sou um estudioso nato, desses que lê praticamente tudo o que me cai na mão. E, por isso, tenho compreendido que, ao menos no Brasil, sou um aqueles espécimes relegados ao ostracismo e, obviamente, à extinção breve. Simplesmente não quero ser útil ao mercado, sou crítico, me recuso a servir a canalhas e tenho clareza de que o mercado tem comando, não é uma entidade abstrata e democrática, formada pelo conjunto de consumidores. De jeito nenhum. Como definiu uma personagem do romance Arlequim, de Morris West, o tal mercado é uma quadrilha, ou, mais precisamente, comandado por uma. Mesmo que você não sirva diretamente ao chefão do bando, estando nele, está sendo útil. E com a concentração econômica e política promovida durante as últimas três décadas, muito poucos controlam a grande divindade pagã que chamam pomposamente de “mercado” e definem como toda poderosa.

Fica a questão do porquê da ideologia do mercado consumidor cair como luva sobre nós. Talvez a resposta mais plausível siga o caminho dado pelo poeta Ferreira Gullar, quando em uma entrevista para o canal Brasil, há uns dois ou três anos, disse que o triunfo do capitalismo se dá pelo motivo de que ele desperta, recicla e usa como combustível o que temos de pior. Não nos eleva, nos afunda na lama da bestialidade.

Fico com pena do meu filho, que já está se formando e já percebe que está diante de exigências intoleráveis, como a de ser dócil, aceitar repetir ideias prontas, fazer parte do rebanho e, acima de tudo, não ser crítico, pois todo e qualquer chefe de quadrilha odeia visões críticas, quer apenas que os cordeiros façam o que manda, mesmo que fazer isso lhes leve à degola. A mensagem é que o mundo é do rebanho e que só mugindo e remoendo desejos inconfessáveis, mas mantendo uma única fidelidade, o mercado, é possível sobreviver e, seguindo as normas do mercado, evoluir nos caminhos indicados pelo mercado. É um círculo fechado: para entrar, entregue sua alma; para sair, descarregue os bolsos. Aí, você volta. Sempre volta.

O texto de Lígia Fascione pode ser acessado em http://needesign.com/diploma-pra-que/#more-13380

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