segunda-feira, 25 de junho de 2012

Esses poetas...


Fernando Pessoa

Não Digas Nada!

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender —
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


In "Cancioneiro"

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Jorge Luis Borges

Nostalgia do Presente

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.


In "A Cifra" - Tradução de Fernando Pinto do Amaral


O Presente não Existe

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.


In Ensaio: “O Tempo”


Um Autor Deve Intervir o Menos Possível na Elaboração da sua Obra

Penso que um autor deve intervir o menos possível na elaboração da sua obra. Deve procurar ser um amanuense do Espírito ou da Musa (ambas as palavras são sinónimas), e não das suas opiniões, que são o que de mais superficial nele existe. Assim o entendeu Rudyard Kipling, o mais ilustre dos escritores comprometidos. A um escritor, disse-nos, é-lhe dado inventar uma fábula, não a moralidade dessa fábula.

In "Nova Antologia Pessoal"


Elegia da Lembrança Impossível

O que não daria eu pela memória
De uma rua de terra com baixos taipais
E de um alto ginete enchendo a alba
(Com o poncho grande e coçado)
Num dos dias da planície,
Num dia sem data.
O que não daria eu pela memória
Da minha mãe a olhar a manhã
Na fazenda de Santa Irene,
Sem saber que o seu nome ia ser Borges.
O que não daria eu pela memória
De ter lutado em Cepeda
E de ter visto Estanislao del Campo
Saudando a primeira bala
Com a alegria da coragem.
O que não daria eu pela memória
Dos barcos de Hengisto,
Zarpando do areal da Dinamarca
Para devastar uma ilha
Que ainda não era a Inglaterra.
O que não daria eu pela memória
(Tive-a e já a perdi)
De uma tela de ouro de Turner,
Tão vasta como a música.
O que não daria eu pela memória
De ter sido um ouvinte daquele Sócrates
Que, na tarde da cicuta,
Examinou serenamente o problema
Da imortalidade,
Alternando os mitos e as razões
Enquanto a morte azul ia subindo
Dos seus pés já tão frios.
O que não daria eu pela memória
De que tu me dissesses que me amavas
E de não ter dormido até à aurora,
Dissoluto e feliz.


In "A Moeda de Ferro"


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Florbela Espanca (frases)


"A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente."


"É pensando nos homens que eu perdoo aos tigres as garras que dilaceram."


"A ironia é a expressão mais perfeita do pensamento."


"Tão pobres somos que as mesmas palavras nos servem para exprimir a mentira e a verdade."


"A vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão; é preciso a gente olhá-la de frente com coragem e pensar, mas sem desfalecimentos, que a nossa hora há-de vir, que a gente há-de ter um dia em que há-de poder dormir, e não ouvir, não ver, não compreender nada."


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Rainer Maria Rilke

A Canção do Idiota

Não me incomodam. Deixam-me ir.
Dizem que não pode acontecer nada.
Ainda bem.
Não pode acontecer nada. Tudo chega e gira
sempre em torno do Espírito Santo,
em torno de determinado espírito (tu sabes) —
que bem.

Não, realmente não deve pensar-se que haja
qualquer perigo nisso.
Sim, há o sangue.
O sangue é o mais pesado. O sangue é pesado.
Por vezes penso que não posso mais —
(Ainda bem.)

Ah, que linda bola;
vermelha e redonda como um Em-toda-a-parte.
Ainda bem que a criastes.
Ela vem quando se chama?

De que estranha maneira tudo se comporta,
apressa-se a juntar-se, separa-se nadando:
amigável, um pouco vago.
Ainda bem.

In "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

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Júlio Cortázar

O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.


Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


Tradução de Fernando de Castro Ferro

domingo, 24 de junho de 2012

Esses articulistas e as torções e distorções da realidade


Leio texto de Gilberto Dimenstein na Folha de São Paulo, no qual o articulista afirma que “Dezenas de bilhões são gastos apenas para cobrir os rombos deixados pela aposentadoria dos funcionários públicos, muito maior do que a dos aposentados normais”.

Coisa engraçada: ele sabe que a aposentadoria dos servidores é maior, muito maior, segundo o redator, mas não sabe, ou não quer saber, que a aposentadoria dos “normais”, segundo suas palavras, é irrisória, geralmente muito menor do que as necessidades dos que a recebem. É o exemplo típico de enxergar apenas um lado, o que se quer, de observar apenas o lado visível da lua. Pela lógica expressa pelo Sr. Dimenstein, a lua é um disco pintado no céu.

Passados alguns minutos depois de escrever os parágrafos acima, recebo telefonema de uma aposentada, que, no meio da conversa, comenta que pagou previdência para dez salários mínimos e recebe apenas o relativo a três. Seguindo a lógica do Sr. Dimenstein, tudo bem, resignemo-nos. As coisas têm que ser assim, não se fala nisso e o problema são os servidores públicos que recebem mais.

O jornalista precisa saber que nivelar por baixo é fácil, mas não é a melhor coisa a fazer.

Ele também não sabe que a perda que o governo do Partido dos Trabalhadores impõe ao servidor aposentado é considerável.

Investindo contra a inteligência

Na mesma Folha, o editorial “Menor e melhor” mostra um exemplo de dito não dito, também uma patologia relacionada ao que se pode chamar de miopia empírica, aquela que respeita os pressupostos ideológicos de quem escreve o texto, mas descarta e desconsidera a realidade, tentando fazer desta uma sucursal de sua percepção de mundo, quando o contrário seria mais indicado. Em casos como o do editorial, o editorialista deixa ideias soltas, como se o leitor já soubesse bem do que se fala. Perigoso isso, pois geralmente as ideias vagas são interpretadas com base em preconceitos, ou melhor, em pré-conceitos, ideias prévias a qualquer verificação empírica.

O editorial diz: “Salários competitivos e remuneração por mérito são essenciais para um Estado eficiente. Mas, sem uma regra que imponha limites ao inchaço de despesas de custeio, ele degenera numa máquina dilapidadora dos recursos que deveriam sustentar o investimento”. Bem lógico, não? O que não está dito, é que ainda que se considere que salários competitivos e remuneração por mérito sejam essenciais, por mais que se considere que limites são sempre importantes, não se esclarece de que “investimento” se fala. Assim é fácil dizer qualquer coisa. Investimento em quê? Fica o mistério e a sensação de que, se não se disse, foi porque não se queria mesmo dizer, possivelmente, quem sabe, porque o termo “investimento” foi posto ali com o objetivo de referir algo nobre, útil e desejável, que os salários dos servidores públicos (tema do editorial) estariam dilapidando.

Será verdade? A mim, parece mais que se fala de um outro investimento, em outro sentido e contra a minha e a sua inteligência.

Um casal incestuoso

Há quem possa dizer que a situação é inversa. Não sei o porquê, mas quem costuma usualmente ter esse esquecimento são duas categorias de humanos: o empresário e o político, esse casal incestuoso em relação aos cofres públicos, que são recheados com cinco meses de impostos anuais de cada trabalhador assalariado. Isso significa dizer que o meu dinheiro e o seu.

Há quem possa dizer, assim, que quem dilapida não são os trabalhadores. Parece sensato dizer que esse casal, chegado a práticas de molhação de mão, dinheiro na cueca e outros expedientes pornográficos que enchem os bolsos, na verdade, da mídia, a categoria de empresariado que sobrevive regiamente com o expediente de exibir à sociedade o que há de pior nela, transformando essa tragédia em show.

Menor compreensão, melhor dominação?

Como bem se pode ver, por estes exemplos e inúmeros outros, tudo é facilmente torcível e distorcível com certa habilidade estilística. Abra o olho, pois se os exemplos acima postos não atingem diretamente nossa vida cotidiana, fazem parte de um ideário que tem influenciado o e, muitas vezes, empobrecido o que temos de mais precioso: nossa capacidade de entendimento da realidade.

E olha que só estou falando do que li hoje, 22 de junho de 2012. Não estou falando do lido todos os dias, quando as torções e distorções são as mesmas ou ainda mais pernósticas. É a aposta no quanto menor a compreensão, melhor a dominação.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Mais uma denúncia de fraudes nas pesquisas de medicamentos


Matéria publicada na Folha de São Paulo registra a provável existência de manipulações visando alavancar as vendas medicamentos nas pesquisas que deveriam servir para avaliar a segurança de uso dos produtos. Segundo a matéria, um artigo publicado no "British Medical Journal", um ex-funcionário de um grande laboratório expõe a farsa e a ilustra com informações relativas a análises pós-venda de alguns remédios contra diabetes tipo 2. Essas análises são muito importantes, pois avaliam os efeitos colaterais e a relação custo-benefício da droga.

Não é raro que os próprios laboratórios que produzem e vendem os medicamentos sejam os patrocinadores das pesquisas, o que significa que resultados favoráveis são selecionados ou mesmo planejados para elevar o moral do produto. Não é à toa que os departamentos de marketing das empresas acompanham as pesquisas. Os “doutores”, por sua vez, são seduzidos: "Levávamos [médicos] para os melhores hotéis e restaurantes durante as reuniões. Depois, atuavam como 'embaixadores', dando conferências, ensinando médicos e falando com a mídia sobre os benefícios da droga", diz o artigo do ex-funcionário, que se manteve num seguro anonimato, afinal, deve saber bem com quem está lidando. Gente (ou deveria dizer “animais”? Não, talvez seja ofender os bichos) que falsifica pesquisas de medicamentos é capaz de tudo.

Alguns laboratórios citados na matéria, entre eles o Sanofi, se defenderam e negam fazer isso. Outro, Novo Nordisk, também se pronunciou e disse que suas pesquisas estão "100% alinhadas" com as regras das agências regulatórias de cada país.

E agora? Você confia em quem?


domingo, 17 de junho de 2012

Diploma não é importante, só o mercado



Sorria, o mercado está de olho em você
  Leio texto de uma designer chamada Lígia Fascioni (link no final deste texto). A moça tem experiência no ramo, tudo indica, e começa a discorrer suas ideias chamando a atenção de que “estava ministrando aulas em um MBA quando...”. Trata-se, é claro, de uma daquelas “profissionais bem sucedidas” que o mercado procura e os empresários requerem para alavancar suas vendas. O texto é intitulado “Diploma pra quê?” e nele a experiente e bem sucedida profissional relativiza o valor dos diplomas e certificados. Para ela, “O mercado remunera melhor quem consegue gerar mais valor, tendo ou não uma pilha de certificados”.

Concordo com a articulista, não é a quantidade de diplomas ou certificados que vai fazer alguém ganhar fortunas, como ela mesma diz. Também assino embaixo da afirmação de que se depender de bolsas de estudos, ninguém consegue lá muita coisa e, mais que tudo, há que congratular a senhora Fascioni por ensinar aos incautos que não adianta fazer um curso, conseguir o diploma e depois emoldurá-lo ou jogá-lo numa gaveta, sem utilizar e desenvolver o que foi aprendido. Tudo isso é perfeito, exato, definitivo. O problema é que a amplitude do tema não se resume a isso.

Logo no terceiro parágrafo, Fascioni mostra ser arguta ao afirmar que “O problema é que algumas pessoas costumam levar ao pé da letra aquelas manchetes escandalosas publicadas nas capas de revistas de negócios dizendo que um curso de MBA pode aumentar seu salário em muitos porcento”. Ora, isso é verdade. Mas, o que a brilhante profissional parece ignorar, por não ver ou não saber, ou não querer ver nem saber, é que aquelas manchetes escandalosas são promovidas por empresas que têm, geralmente, uma identidade corporativa que é gestada, criada e desenvolvida por profissionais competentes como ela. O que significa necessariamente dizer que essas pessoas que se envolvem com esse tipo de trabalho são cúmplices nas manchetes escandalosas e na ação de iludir os bobos que creem que um diploma, seja de MBA ou de qualquer outro curso, vai lhes render muita grana. E as manchetes escandalosas prometem isso mesmo, não falam que é preciso fazer mais, simplesmente porque querem nos ludibriar, focando o nosso lado infantil, o que acredita em mágicas e contos de fadas. São peças de propaganda, como quaisquer outras e o que pretendem é vender, como todas as outras. E nem sempre a ética é considerada nessa pretensão.

Se fazer um curso de MBA não promove automaticamente o profissional, como a própria senhora Fascione diz, isso não impede que gente do mesmo ramo dela, com a mesma formação e experiência, com a mesma ética (ou falta dela, em alguns casos), repita isso incessantemente, buscando, não há dúvida, iludir, literalmente enganar. Resultado: ela e seus pares têm razão no que dizem, mas a conjuntura na qual têm razão é, em boa parte, fomentada por eles e pelos seus clientes e patrões. A ação é simples e consiste basicamente em produzir o efeito para depois, brilhantemente, apontá-lo, ocultando as principais causas, é claro, por ignorância ou má-fé. Mas, sempre é preciso considerar, em primeiro lugar, a inocência.

Mas, não é à toa que se diz que as iniciativas de marketing servem para seduzir e é menos à toa ainda que seduzir significa “induzir ao mal ou a erro por meio de artifícios, de desencaminhar ou desonrar valendo-se de encantos e promessas”. Num sentido mais amplo, seduzir é levar para um caminho, como se só houvesse um caminho.

Só vale se o mercado abençoar

Outro tópico interessante do texto da senhora designer é que, graças às ilusões patrocinadas por seus prováveis clientes e/ou patrões, “(...) o que se vê por aí é uma legião de pós-graduados subempregados e reclamando da vida”. Isso é verdadeiro apenas em parte, pois, parece que me dando razão no que afirmo nos parágrafos anteriores, ela torce a realidade a seu gosto e esquece que, no mundo capitalista, é impossível que todos tenham sucesso, pois, simplesmente, o sistema do capital, na sua fluência, exige que os funis do mercado sejam bem apertados e que somente alguns sejam bem empregados, principalmente nos arraiais de terceiro mundo, como o nosso. Os outros, a senhora Fascione bem sabe e, se não sabe não é difícil que deduza, devem ficar a ver navios, subempregados, ajudando a sustentar, com suas infelicidades e seus recursos empregados em formações infindáveis, a felicidade, o prestígio e os vencimentos dos bem sucedidos. É a velha e gasta divisão metafísica do mundo que os estadunidenses adoram fazer, há os winners e os loosers, o mundo se divide assim. Fukuyama falou de tymus. É, deve ser a quantidade disso que faz um vencedor.

Essa lógica se aproxima do que os marxistas chamavam de “exército industrial de reserva” e está mais próxima ainda do que os neoliberais chamam de “desemprego estrutural”. Em outros termos, os subempregados garantem que os empregados estão sempre sob ameaça e que, no dia seguinte, poderão ser subempregados também. E mais, sob um ponto de vista subjetivo, levando em conta o caráter sempre especular da subjetividade, os subempregados fazem com que os empregados se sintam bem, muito bem, pois podem comparar sua felicidade com a infelicidade dos subempregados que reclamam da vida. Só não gostam que esses coitados fiquem reclamando perto deles, pois do fundo de suas almas, se eleva a voz: cuidado, ele pode ser você, amanhã.

Mas o texto não é mal escrito e nem a designer que o escreveu é neófita no assunto, muito pelo contrário. Ela vai mais longe e explica que as manchetes escandalosas, na verdade, não são mentirosas (dá para imaginar, então, que não são completamente mentirosas, só um pouquinho, pois, como Fascione, ela própria, diz não se podem levar “ao pé da letra“). Explica que “se você tem vários diplomas, teve acesso a vários conjuntos de informações específicas. Isso aumenta muito as suas chances de recombiná-las e criar algo que, de fato, tenha valor para o mercado”. Ótimo, parece claro, mas, por que sempre o mercado? Será que é possível definir antes o que é essa tal entidade ubíqua?

O mercado, tudo indica, é um Deus mais poderoso do que o próprio Deus, pois intervém a seu bel prazer em tudo na vida. Nesse sentido, há uma identidade entre o texto comentado e os textos e discursos dos neoliberais. Só falta a designer dizer que esse tal mercado é formado pelo conjunto de consumidores, sem distinção, democraticamente, regulado pela oferta e pela procura. O problema maior nisso tudo é a razão cínica que orienta esse pensamento que a Sra. Fascione e tantos outros adotam como se fosse um dogma inquestionável. Não é, e não traz assim tantos proveitos nem aos designers nem a qualquer outro profissional.

O Deus da bestialidade

Eu, de minha parte, não me enquadro no tipo descrito por Fascione. Não coleciono diplomas. No entanto, sou um estudioso nato, desses que lê praticamente tudo o que me cai na mão. E, por isso, tenho compreendido que, ao menos no Brasil, sou um aqueles espécimes relegados ao ostracismo e, obviamente, à extinção breve. Simplesmente não quero ser útil ao mercado, sou crítico, me recuso a servir a canalhas e tenho clareza de que o mercado tem comando, não é uma entidade abstrata e democrática, formada pelo conjunto de consumidores. De jeito nenhum. Como definiu uma personagem do romance Arlequim, de Morris West, o tal mercado é uma quadrilha, ou, mais precisamente, comandado por uma. Mesmo que você não sirva diretamente ao chefão do bando, estando nele, está sendo útil. E com a concentração econômica e política promovida durante as últimas três décadas, muito poucos controlam a grande divindade pagã que chamam pomposamente de “mercado” e definem como toda poderosa.

Fica a questão do porquê da ideologia do mercado consumidor cair como luva sobre nós. Talvez a resposta mais plausível siga o caminho dado pelo poeta Ferreira Gullar, quando em uma entrevista para o canal Brasil, há uns dois ou três anos, disse que o triunfo do capitalismo se dá pelo motivo de que ele desperta, recicla e usa como combustível o que temos de pior. Não nos eleva, nos afunda na lama da bestialidade.

Fico com pena do meu filho, que já está se formando e já percebe que está diante de exigências intoleráveis, como a de ser dócil, aceitar repetir ideias prontas, fazer parte do rebanho e, acima de tudo, não ser crítico, pois todo e qualquer chefe de quadrilha odeia visões críticas, quer apenas que os cordeiros façam o que manda, mesmo que fazer isso lhes leve à degola. A mensagem é que o mundo é do rebanho e que só mugindo e remoendo desejos inconfessáveis, mas mantendo uma única fidelidade, o mercado, é possível sobreviver e, seguindo as normas do mercado, evoluir nos caminhos indicados pelo mercado. É um círculo fechado: para entrar, entregue sua alma; para sair, descarregue os bolsos. Aí, você volta. Sempre volta.

O texto de Lígia Fascione pode ser acessado em http://needesign.com/diploma-pra-que/#more-13380

Saúde é tudo por dinheiro?


Acesso um portal de saúde do governo federal e me surpreendo: ali, tudo gira em torno de números, cifras, estatísticas. Não há praticamente nenhuma informação sobre saúde que não tenha um número a antecipando ou sucedendo, geralmente números que remetem a valores monetários. “3,5 milhões para os estados”, “R$ 70 milhões para unidades do SUS”, “Ministério da Saúde libera R$ 213 bilhões”, “Remédios de graça” e por aí segue o cortejo. Isso é saudável?

Tudo por dinheiro: esse deveria ser o slogan de campanha da esmagadora maioria dos candidatos que concorrem a cargos públicos, mas não só deles. Os chamados agentes de saúde, médicos e afins, parecem também viver obcecados pelos cifrões. O problema é que enquanto os políticos apanham de todo lado por conta disso, os saudáveis agentes de saúde, ganham medalhas. Mas, não estou afirmando aqui que os profissionais de saúde sejam venais. Alguns podem ser, mas, com certeza, não todos. O que digo é que esse pessoal tem dado tanta importância a medir saúde por gastos e/ou investimentos que, quem sabe, possivelmente, se deveria incluir pelo menos um ano letivo só de matemática financeira nos cursos ditos biomédicos.

Não gosto disso, definitivamente. Quando Dostoievski esteve na França, na segunda metade do século XIX, observou que, para a burguesia parisiense, possuir dinheiro seria a mais elevada virtude humana. Quando leio matérias de saúde que medem esta pelo valor financeiro gasto ou investido, tenho vontade de dizer o mesmo dos agentes de saúde. E, aliás, talvez isso não seja insensato, pois boa parte deles defende com unhas e dentes os valores burgueses e conheci até mesmo alguns que defendiam a esterilização em massa como solução para a pobreza brasileira. Casos como esses costumam ser identificados com o fascismo ou o nazismo, mas creio, sinceramente, que são piores.

O mais recente absurdo que me chegou foi um tal levantamento governamental que dizia que os gastos com doenças relacionadas ao tabaco alcançavam cifras astronômicas. Isso foi o suficiente para um amigo que trabalha na saúde dizer, indignado, que os fumantes deveriam custear os próprios tratamentos. O que ele não pensou, o que ele não notou, é que o uso do cigarro industrializado foi incentivado ostensiva e ferozmente até bem pouco tempo atrás. Isso ele não vê, pois só pensa em saúde, ainda que custe a liberdade e a dignidade, e em dinheiro

Um pouco da história dos atuais fumantes

As marcas e logomarcas de cigarros estavam em todos os cantos, até mesmo em eventos desportivos e festas infantis. Fui, quando jovenzinho, num aniversário de um coleguinha cujo pai era aficionado por corridas de automóveis e, como o herói nacional da vez se chamava Emerson Fittipaldi, que disputava provas na chamada Fórmula Um, lá estava, no bolo, sobre a mesa, nas paredes etc., imagens e reproduções da “baratinha” (era assim que muitos chamavam os carros de corrida antigamente) dirigida por Fittipaldi. Era um carro com motor “lótus”, lataria preta e a indefectível logomarca de um cigarro, o John Player Special, que, aliás, também foi o carro usado por Ayrton Senna no início de sua carreira. Imagine a associação que nós, menininhos e menininhas na época, fazíamos entre cigarros e o heroísmo desportivo.

Não é preciso dizer que mal esperávamos ter lá uns treze ou quatorze anos para fumar o supostamente delicioso John Player Special. Felizmente ou infelizmente, esse cigarro era importado e, logo, muito caro. Mas, havia o cigarro da aventura, o Hollywood, o do homem que sabe o que quer, o Minister, o da preferência nacional, o Continental, etc.

Não é o caso de justificar o hábito de fumar em boa parte das pessoas com mais de 30 ou 40 anos, mas é o caso de entender que a cultura, leia-se cultura midiática, ofereceu a essas pessoas uma referência fundamental para a formação da subjetividade. Isso sem falar no prazer que muitos sentem em fumar tabaco, hábito existente desde tempos imemoriais. Essas pessoas, além de outras, merecem, segundo o ultrajado agente de saúde, ser castigadas, punidas, simplesmente porque fumam e custam muito aos cofres do governo. Ora, mas para que existem os cofres do governo?

E cabe perguntar ainda se o referido agente é muito saudável com essa mentalidade financeira fascistóide.

No mesmo tempo em que li sobre os astronômicos gastos com doenças relacionadas ao tabaco, também li que o cidadão brasileiro trabalha cinco meses no ano somente para pagar impostos. Principalmente o assalariado, é claro, que é inapelavelmente taxado na fonte. Ora, se o cidadão paga tantos impostos, claramente abusivos (se você ganha algo em torno de dois mil reais, brutos, já está pagando impostos, o que é, francamente, absurdo) pelo menos os adoecidos pelo tabaco sabem que parte dos recursos arrecadados pelo fisco e demais órgãos governamentais estão sendo gastos com eles. Se a onda é pensar financeiramente, então a afirmação é válida e sadia. E os senhores e senhoras da saúde que não torçam o nariz e olhem mais para as pessoas e menos para os próprios bolsos ou para o cofre público.

Há dias, os médicos se mobilizaram nacionalmente porque o governo ameaçou mexer-lhes no bolso. É curioso, pois, em uma epidemia, no Rio de Janeiro, já vi médico se ultrajar por ser convocado para ir aos subúrbios nas comunidades com surtos de dengue e assisti um deles se recusar a ir a um local de risco, pois isso lhe tomaria tempo de consultório, além de lhe expor à doença. Não duvido que o mesmo médico estivesse na rua, agora, indignado, defendendo a merreca que ganha para ficar menos de quatro horas no serviço, geralmente uma ou, no máximo duas, quando deveria ficar quatro. Não vou afirmar que todos os médicos não cumprem nem as míseras quatro horas de seus contratos de trabalho, mas esse, com certeza, não cumpria quando o conheci. E, por que somente quatro horas? E por que nem mesmo as quatro horas? Num posto no qual trabalhei, soube haver um que atendia 20 pessoas em, no máximo, uma hora. O que fazia? Provavelmente, benzia os pacientes.

Epidemia? Não obrigado. Mexeu no bolso, tô dentro, mobilizado, nas ruas, indignado, a todo vapor em defesa da cidadania.

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PS: Antes que algum médico indignado me xingue, digo que há exceções, ou, com mais benevolência, digo que esses maus exemplos são exceções – não foi o que vi durante meus trinta anos de saúde, mas, posso ter estado míope todo esse tempo. Houve exceções, é claro, mas minha memória diz que bons exemplos foram poucos.


quinta-feira, 14 de junho de 2012

Você está sempre certo? Parabéns, você é um tolo


Embora a iniciativa de considerar apenas uma versão de um fato ou de uma informação já tenha se tornado um hábito corriqueiro, tenho que dizer que se trata de uma grande tolice. Há que se pensar que inúmeras vezes fazemos exatamente isso e, geralmente, levamos em conta aquela versão que achamos favorável a nós. Isso não é assim tão bom, mas, não é de todo mau.

Se agirmos assim em circunstâncias em que dependemos de aprovação e prestígio, como numa situação profissional em uma empresa ou não, tudo bem, ou quase. Estamos no jogo, dançamos conforme a música, e a regra, por mais que se negue, é essa. Não é uma atitude nada elogiável, mas, fazer o quê? Na selva do mercado de trabalho, “colaborador” que pensa duas vezes acaba pisoteado pela manada. Nesses casos, fazer parte do rebanho é uma atitude da mais legítima defesa. Por mais feio que isso seja, garante salário no final do mês e, fazendo as encenações certas, além de contar com a simpatia do chefe, pode render até mesmo uma bela promoção. No mundo corporativo, ética cai bem no discurso; na prática, pode atrapalhar, dependendo do caso. Isso também se aplica a cargos políticos.

Entretanto, se essa malandragem se torna hábito em nossa vida, o caso é grave, triste, lamentável. É quando se pode dizer que estamos literalmente enganando a nós mesmos. Isso, em questões que dizem respeito diretamente a nós, quando estamos sozinhos, dialogando apenas conosco ou com pessoas que nos acompanham no dia-a-dia, em situações em que está em jogo nosso desenvolvimento pessoal ou de relações que nos dizem respeito imediato. Nesses casos, não há desculpa: torcemos a realidade ou a reduzimos a um quadro que cabe em nossos interesses imediatos, mas não em nosso objetivo de maturidade, crescimento ou fortalecimento – se tivermos esse objetivo, é claro.

Ficando com apenas uma versão, apenas uma opinião, não se aprende muito, senão nada: não se pensa, não se reflete, não se pondera acerca da complexidade do mundo que nos cerca, muito menos acerca de nossa realidade pessoal, interior. Fica-se, sempre, na mesma. Segue-se o fluxo e se aceita a existência de ideias prontas, pré-formuladas, metafísicas, que, em vez de nos servirem para decodificar a realidade, impõem seus sentidos sobre nós e torcem nossa compreensão dessa mesma realidade. Isso significa dizer que alguém pensa por nós e, consequentemente, determina nossas ações. E há quem fique feliz com isso.
Basta olhar um adulto, ou mesmo um jovem, infantilizado. Como a criança, ele costuma não saber de nada, mas acredita piamente que sabe tudo, absolutamente tudo. Mas, diferentemente da criança, o encanto da descoberta está perdido para ele, embora busque isso todo o tempo. Enquanto a criança costuma se deslumbrar e aprender que há algo diferente do que pensava antes, o adulto infantilizado vive numa perpétua simulação de deslumbramento, não raro regada a álcool e outras drogas
A intenção usual de boa parte de nós tem sido evitar qualquer tipo de diferença, divergência, problema ou discussão, o que significa que se tem evitado o pensamento, ou seja, se evita o exercício do conflito de ideias, a contradição, que é a única situação que gera força suficiente para promover aquilo que chamamos de amadurecimento, crescimento, evolução, desenvolvimento ou fortalecimento. O mais engraçado é que todo mundo fala em diferença, no diferente, em aceitar ou discutir as diferenças. Todo mundo fala, mas quase ninguém faz isso e, na prática, se pensa sempre igual e só se aceita quem é tão diferente que se assemelha a nós, por oposição especular, confirmando que estamos certos. E, pode ter certeza, que quando estamos certos, quando acertamos, nada aprendemos.

Acontece que, em nossa contemporaneidade, a prática tem sido a do desmerecimento da maturidade em favor de uma infantilidade esdrúxula e fora de época. Inúmeras vezes, ouvi dizer que é preciso viver intensamente a criancice e que ser adulto é ruim, careta. A regra é ser jovem, ter a graça da criança. Isso é muito bom, quando se é criança. Quando não se é criança, não tem nenhuma graça.

Basta olhar um adulto, ou mesmo um jovem, infantilizado. Como a criança, ele costuma não saber de nada, mas acredita piamente que sabe tudo, absolutamente tudo. Mas, diferentemente da criança, o encanto da descoberta está perdido para ele, embora busque isso todo o tempo. Enquanto a criança costuma se deslumbrar com as descobertas e aprender que há algo diferente do que pensava antes, o adulto infantilizado vive numa perpétua simulação de deslumbramento, não raro regada a álcool e outras drogas. A criança se deslumbra e, inevitavelmente, sofre com a queda de seus castelos de areia, que pareciam tão sólidos, embora a alegria da descoberta consiga equilibrar o desconforto. O adulto criançola não sofre, é só alegria, ainda que sua alegria não convença, e usa a suposta descoberta para erguer mais castelos de areia, frágeis como os outros que já erguera. A diferença básica é de adequação no tempo: a criança está no tempo certo; o infantilóide passou do tempo. A criança está amadurecendo, o adulto infantil apodreceu antes de amadurecer.


Tudo tem, pelo menos, dois lados

Recentemente, há uma ou duas semanas, li matéria em jornal sobre os dois lados do estresse. Ao ver a manchete, fiquei feliz, pois pensei que, finalmente, se falaria da complexidade da realidade, se tocaria nos pontos positivos de algo que somente tem sido tratado como algo negativo, no caso o estresse. Me decepcionei um pouco ao ler a matéria, pois o título não era muito representativo do conteúdo. Tratava-se de mais uma matéria cheia de especialistas, que mais falavam dos problemas do estresse do que da utilidade que essa tal disfunção traz para quem a experimenta. Aparentemente, mais queriam mostrar que sabem sobre o assunto do que efetivamente aprofundá-lo, o que é comum no mundo dos especialistas. Mas, tudo bem, pelo menos se falava, ainda que superficialmente, do outro lado de alguma coisa. E isso é tão raro no jornalismo como o sol em Curitiba – a tal ponto que chego a dizer que o sol aparece mais no céu da capital paranaense do que o contraditório na imprensa.

O fato é que o estresse é fundamental para que a pessoa aja com presteza. Não garante bons pensamentos ou ações, é evidente, mas atiça o pensar e empurra para a ação, para a tentativa de resolver uma situação tensa, para a qual é preciso energia e concentração. O mesmo ocorre com a angústia. Tive um mestre que dizia ser a angústia um arauto, isto é, a angústia avisa que há uma ameaça à organização de nossa identidade, nosso “eu”, nosso ego. Assim, lembrava ele, a sensação de angústia é um excelente momento para rever conceitos, para repensar na fragilidade de nossa organização egóica, de nossos conceitos já conhecidos. Em outros termos, a angústia antecipa a crise e todos sabemos, ou deveríamos saber, que o melhor momento para fortalecimento é o momento crítico. Nele, temos contato íntimo conosco e podemos visualizar, ou sentir, o quanto podemos ir adiante em nossa maturação.
Se só o democrático pode falar, se só o que concorda com o democrata pode falar, então a democracia está contra o debate de ideias, logo é uma ditadura, ainda que disfarçada
É preciso exercitar o pensamento, observando o lado negativo de toda positividade e o positivo da negatividade. Por exemplo, democracia é bom? Tá, tá certo. Mas a forma como se tem perseguido obsessivamente o desenvolvimento democrático é ruim, bem ruim. É preciso observar que há perversões inúmeras em tudo o que tocamos e o tal espírito democrático não escapa fácil. Mas, tudo indica, ninguém quer pensar nisso e ainda concorda com a famosa frase de Winston Churchill: “Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. Bem, se Churchill era um democrata, então é preciso urgentemente observar o outro lado dessa tal democracia. E, cá para nós, somente assim ela pode ser fortalecida. Do contrário... é ditadura, como, aliás, tem se mostrado, pelo menos aqui, no Brasil. Aí, para defender a pobre e santa madame democracia, é costume pôr a polícia na rua ou criar tantas leis quantas são as estrelas do céu. E os democratas se sentem muito à vontade para calar a boca de todo e qualquer cidadão que expresse suas opiniões ditas antidemocráticas por eles. Se só o democrático pode falar, se só o que concorda com o democrata pode falar, então a democracia está contra o debate de ideias, logo é uma ditadura, ainda que disfarçada.

Aliás, no fim das contas, quem manda é sempre quem pode (democraticamente, repito) e para você ter voz, só mesmo fazendo o que Assis Chateaubriand aconselhava a seus repórteres: “Quer expressar sua opinião? Compre um jornal”. E eu digo: quer ter voz? Seja um democrata e tape a boca de todos os que não são.

Para reflexão do assunto “democracia”, ver texto “Hegel, Lacan e Deleuze: Razão, Não-todo e Aion, na defesa do Socialismo” (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2012/04/hegel-lacan-e-deleuze-razao-nao-todo-e.html)

 

Retomando o outro lado do preconceito, com a prestimosa ajuda do diabo

Sócrates tinha o seu demônio, que lhe insuflava o pensamento. Eu, também tenho o meu demônio e ele se expressou recentemente, tendo seus comentários sido registrados em uma publicação neste blog “O diabo adverte: há muito boas intenções na saúde pública...” (http://luizgeremias.blogspot.com.br/2012/05/o-diabo-adverte-ha-muito-boas-intencoes.html). No texto, ele me dizia que ter preconceitos tem seu lado bom, muito bom, aliás, contrariamente ao que crê o senso comum, que é cheio de preconceitos, mas torce o nariz quando se fala do assunto.

Dizia ele:

“Estou embatucado com uma ideia. É o tal do ‘enfrentamento ao preconceito’ do qual esses intelectuaizinhos pequeno-burgueses tanto falam. Uma coisa é o conceito, que serve para pensar, não é? Outra coisa, o preconceito, que vem antes do pensamento como o próprio nome permite dizer: pré-conceito. Mas, veja, caro mortal, que o conceito nasce necessariamente de um preconceito, a não ser que seja gerado espontaneamente, por luz divina, o que é improvável, pois tudo aqui aparece em um processo, geralmente num conflito de teses”.

“Todo mundo te diz: diga não ao preconceito, não tenha preconceito, denuncie o preconceito, como se ter preconceitos fosse crime hediondo. Mas, ora, se você simplesmente disser não ao preconceito, como chegar ao conceito? Você tira degraus da escada e não pode mais subir nela, não é verdade?”.

“Dizem: não tenha preconceito! E, no mesmo movimento, matam o conceito. E pior: quando dizem para denunciar, assustam você, que passa a examinar sua consciência e sua inconsciência, vasculhando tudo para rasgar e queimar tudo o que pareça preconceito. Mas, como você julga isso? Com outro preconceito, o de que os conceitos nascem assim, por geração espontânea, da mesma forma que os carneiros nascem de camisas suadas cobertas por farinha. Absurdo e estúpido. Trata-se de um atentado à inteligência, um ataque frontal à capacidade humana de pensar!”.

“Pense da seguinte forma: o conceito nasce de um trabalho de parto no qual o preconceito tem papel fundamental. É verdade que se você fica no preconceito, você comete um aborto, mata o conceito antes que esteja maturado para vir á luz, não é? Mas, se você evitar pensar algo, porque é um criminoso preconceito, não chega nem ao básico, nem à concepção. Aí, pode ter certeza de que é um irremediável imbecil completo, pois os meio imbecis pelo menos têm lá seus preconceitos. Pior: o sujeito é um imbecil mais que completo, pois ainda por cima é burro, já que para não ter preconceitos se pendura um imenso e daninho preconceito. Não há salvação desse jeito”.

Eu, de minha parte, acho que o diabo tem total e absoluta razão nesse assunto, embora haja imprecisões na sua fala, o que é perdoável. Acho, por exemplo, que ficar no preconceito não é exatamente um aborto, mas uma anticoncepção, e entendo que dizer não ao preconceito é que é um aborto, algo ignominioso, por todo o exposto. Mas, salvo essas pequenas correções, o restante é impecável.

Diga sim a todo e qualquer conceito, ainda que seja um “pré-conceito”. Só não fique nisso, evolua, busque o conhecimento. Dói um pouco, mas menos do que a estagnação do rebanho, que proporciona um sofrimento lento e cruel. E, curiosamente, o rebanho tem negado, diariamente, todo e qualquer preconceito, por isso nunca chega ao conceito.

Diga não ao preconceito e você estará dizendo sim ao que você nega, e, pior, idolatrará a ignorância.

Não foi o diabo que disse, mas tenho certeza que assinaria em baixo do que vou dizer a você: Pense. Pare de seguir o rebanho em todos os momentos de sua vida. Só o siga quando necessário, quando for proveitoso para você.
 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Deficiências, por Mário Quintana


"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.


"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois: "Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O jornalismo que aplaude o traje do rei

Christian Andersen
Está certo que os veículos de comunicação falam para um público amplo, que precisam adequar a linguagem para que todos entendam suas mensagens, simplificar os termos com frases simples, ideias claras e diretas etc. Bem, isso tudo é verdade e é bem útil para boa parte da população, que pode, assim, ter acesso às informações veiculadas. Aplausos para os jornalistas.

O que não é preciso, porém, é achatar as ideias como é usual acontecer na mesma imprensa. Não é adequado transmitir informações simplificadas ao extremo, recortar o sentido das ações e pensamentos (quando se trata de entrevistas ou declarações) a ponto de deturpá-lo, divulgar sempre apenas uma versão do fato (o outro lado, quando aparece, é com timidez, quase escondidinho, no último parágrafo, geralmente nas linhas finais deste), ignorando que tudo na vida admite pelo menos duas versões (pelo menos, pois se duzentas pessoas presenciaram um acontecimento, há, no mínimo, duzentas versões).

Procedendo dessa forma, o jornalista claramente presta um mau serviço ao público ao qual se destina e ao qual deve a importância de seus serviços, se é que são importantes ou poderiam ser. Deve entender que dizer algo de forma simples não significa, necessariamente, simplificar a complexidade de todo e qualquer acontecimento, suas motivações, seu enquadramento político, a conjuntura histórica em que acontece, os personagens envolvidos etc.

Mais grave ainda é que a simplificação não objetiva, exatamente, que o público entenda melhor, serve para transmitir uma interpretação que oculta ideias prontas, supostamente consensuais ou consensuais, unanimidades. Se considerarmos a burrice nata e hereditária que envolve toda unanimidade, como dizia Nelson Rodrigues, que era jornalista, mas não um “idiota da objetividade”, por que não pensar que uma parte das mídias jornalísticas tem tratado o público como essencialmente estúpido? O que me impede de supor que condena as pessoas a uma opinião geralmente simplificada (até mesmo simplória) e, consequentemente, deturpada?

Lembro da transcrição de uma conferência de Julio Cortazar, um escritor argentino que muito admiro, na qual ele se posicionava radicalmente contra a simplificação da transmissão de cultura para aquilo que, na época, se chamava “as classes populares”. Cortazar dizia que era um desrespeito ao público, uma afronta à inteligência das pessoas e que, no fim das contas, era uma iniciativa que partia do preconceito de que as pessoas eram, por natureza, limitadas intelectualmente, simplórias, estúpidas. Ele dizia isso com relação à cultura, mas esse é o mesmo espírito que anima o jornalismo que percebemos nos veículos jornalísticos de grande circulação. Que são de grande circulação, não propriamente pela qualidade, mas pela capacidade de distribuição e alcance, é bom lembrar, o que conseguem, no caso das TVs, por concessão governamental.

Certa vez, assisti a uma palestra de um sujeito que trabalhava numa emissora de jornalismo televisivo, dessas que não agradam a gregos e troianos, mas a quem anuncia nos melhores horários, ou, eventualmente, aos governantes de plantão. Dessas especializadas no assunto, que transmitem notícias o dia todo, repetindo as mesmas matérias em intervalos, com os mesmos pontos de vista, acrescentando geralmente banalidades aos fatos, repetidamente tratados com uma simplicidade que não se justifica pela facilitação da decodificação da mensagem, mas pela transmissão de interpretações pré-fabricadas da notícia, tentando esgotar, pelo tamanho da burrice unânime, toda a inteligência do mundo. O sujeito trabalhava nisso, fazia isso, e, no final da palestra, disse, com o peito estufado, que tinha muito orgulho de trabalhar na empresa, do trabalho que fazia, do jornalismo de qualidade que praticava.

Saí pensando que se alguém lhe jogasse, naquele exato momento, uma sela e um arreio, o tipo sairia escoiceando feliz. Não parecia um canalha, acreditava do que dizia. Na história de Christian Andersen*, certamente aplaudiria, comovido, a beleza do traje do rei.

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* “A roupa nova do rei”, no qual um menino aponta a nudez real.





terça-feira, 5 de junho de 2012

Você ronca? Procure um oncologista, já!

Quando eu era estudante de psicologia, alguém comentou comigo que os “americanos” (leia-se estadunidenses) adoravam fazer pesquisas as mais diversas e que eu poderia me preparar para, durante minha vida profissional, ficar sabendo das conclusões mais esdrúxulas vindas dessas pesquisas. Segundo minha fonte, tudo indicava que, na falta do que fazer, os estadunidenses tinham a vida estabilizada e ficavam inventando modas e cruzando informações como a vida das formigas e o uso da calça jeans ou a tecnologia dos aviões supersônicos e a vida privada das mulheres desquitadas. Bem, é claro que há exagero nisso, mas nem tanto.
A última que fiquei sabendo é bisonha e está publicada no sítio da BBC no Brasil. Segundo pesquisa realizada por cientistas, o ronco é causador de câncer. Isso mesmo, você não leu errado. Para os cientistas da Universidade de Wisconsin-Madison, se és um roncador convicto, podes procurar um oncologista, e rápido: tens cinco vezes mais chances de morrer dessa doença do que todos os outros mortais que não roncam. Cinco vezes! Alguém me sussurra que isso deve ser castigo, pois o roncador incomoda quem dorme a seu lado. Castigo, não: é praga.

Mas, você fica se perguntando, por que é que os cientistas relacionaram ronco e câncer?


É que o pessoal da Universidade de Wisconsin-Madison explica que a correlação tem sentido graças ao fato de que o suprimento inadequado de oxigênio leva a um crescimento acelerado de tumores, pois quando falta oxigênio, o organismo é estimulado a fazer crescer os vasos sanguíneos que nutrem os tumores. Sei lá, quem sabe... A pergunta que se pode fazer é se não é necessário haver um tumor para que isso ocorra. Se não houver, os vasos vão nutrir o quê? Peço desculpas aos cientistas por minha ignorância.

O fato é que mais de 1,5 mil pacientes participaram de um estudo que durou nada menos que 22 anos e focava o que os cientistas chamam de DROS (Distúrbios Respiratórios Obstrutivos do Sono) e, informa a matéria da BBC, “a forma mais comum de DROS é a apneia obstrutiva do sono, na qual a respiração é bloqueada deixando a pessoa sem ar”. O interessante é que o ronco não surge, assim, do nada, mas está associado a outros problemas na saúde, como diabetes, derrames, hipertensão e, é claro, obesidade. A coisa não parece tão simples, não é somente roncar e, pum, criar um câncer. É necessária uma gestação que inclui algumas doenças anteriores, ou não?

Obesidade é um desses males, veja. Isso me faz pensar: pobre da pessoa gorda, recentemente tem sido apontada como necessariamente insalubre e, mais grave: agora, além de inconvenientemente roncadora, ainda vai dar despesas à família ou ao sistema de saúde por conta do câncer que um dia terá. Conheço um gordo que me confidenciou o seguinte: “Se eu for levar em conta todos os males a que dizem que estou sujeito e se levar em conta o custo que esses males darão à sociedade e à minha família, deveria me matar o quanto antes. Gordos são tidos como um estorvo para todos”. Coitado. Houve o tempo em que se quase ninguém queria de bom grado amar um gordo (a não ser outro gordo), pelo menos se costumava considerá-lo um sujeito com pinta de feliz, animado, cheio de espírito (ainda mais quando o caso era uma boa refeição). Isso acabou. Feliz, ao que tudo indica, é o magro, que come pouco, dá menos despesas a quem o alimenta e ainda não manifestará nenhum câncer inesperado e caro, como todo câncer parece ser.

Mas, nem tudo é tão grave como parece. O teor terrorífico da matéria é característico do jornalismo contemporâneo. Lá no final, no espaço geralmente destinado ao famoso e pouco ouvido “outro lado” da notícia, há uma ponderação importante. O estudo foi apresentado na conferência internacional da American Thoracic Society, realizada em San Francisco, e será publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, mas não do jeito que os jornalistas da BBC publicaram. Na apresentação científica e no texto a ser publicado, outros fatores – idade, sexo, índice de massa corporal e fumo – são acrescentados como possíveis intervenientes na relação ronco/câncer. Ainda bem.

De todo modo, os cientistas que realizaram o experimento levam bastante a sério o casamento entre ronco e câncer. Segundo Javier Nieto, coordenador do trabalho, "A consistência dos indícios dos experimentos com animais e deste novo estudo epidemiológico em humanos é muito convincente". O negócio é saber se é realmente possível confiar na pesquisa e investir no diagnóstico e tratamento de DROS para prevenir e, no caso da doença instalada, aumentar a sobrevida do paciente com câncer.

O que me salva, no caso, é que, embora minha mulher diga que algumas vezes ronquei, não foram tantas assim e não foram roncos muito altos (se ela disse isso para me agradar, não sei). Isso significa que posso estar salvo de quimioterapias e outros tratamentos terríveis, além das dores e dissabores da doença. Somado a isso, sou alérgico a tudo e a nada, mas alérgico, o que um homeopata me disse ser um ótimo indício de que não morrerei de qualquer neoplasia. Tomara.

Agora, examinando minha memória, lembro de um sujeito que roncava tão alto, mas tão alto, que me chamou bastante a atenção. Fomos, um grupo de pessoas, passar um ou dois dias numa cidade chamada São Pedro da Serra, no interior do Estado do Rio de Janeiro, ali perto de Friburgo, próximo de Muri, depois da aconchegante cidade de Lumiar. Isso foi em 1985, com certeza, e havia no grupo um roncador daqueles que não roncava, trovejava. Eu e outra pessoa, um rolo meu, na época, ficamos acampados na sala da casa, enquanto dois outros casais ocupavam o quarto. Nós, na sala, tivemos muita dificuldade para dormir, pois parecia que havia um trator ligado no quarto, ou um avião a jato, sei lá. Só fiquei imaginando como dormia quem estava do lado de tão potente e estrondoso roncador. Sei quem é o sujeito e pode ter certeza de que vou ficar sabendo se ele morrer de câncer. Se isso acontecer, por favor, desconsidere todo o meu tom crítico neste texto.



PS: O diabo me sopra que, no passado, falar em “cientistas” significava falar em respeitáveis donos da verdade. Hoje, no entanto, ainda mais quando falamos de pesquisas como esta que estamos comentando, diz ele, os imaginamos tomando cerveja enquanto fazem experimentos e dando gargalhadas quando imaginam nossa cara ao ler sobre o resultado dessas pesquisas. Pode ser, se é o diabo quem diz... Tudo indica que ele conhece bem essas coisas.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Enquanto você curte e compartilha, há quem fature com isso



Até mesmo Karl Marx, mais uns milhares
de marxistas, estão no capitalistíssimo FB.
Há lugar para todos no circo do capital.
 Em março de 2009 descobri que existia um tal Facebook (FB), um sistema de relacionamentos virtuais que se assemelhava ao Orkut (que ainda era a moda na época no campo das tais “redes sociais virtuais”) e que havia sido criado, ESPECIFICAMENTE, para colher informações pessoais dos seus integrantes e revendê-las a empresas. Isso dito numa matéria jornalística, claramente.
A mecânica é simples: você se associa ao FB, expõe seus gostos, seus carinhos, memórias, parentes, amigos, preferências políticas, desportivas etc. e tudo isso será usado contra você, ou seja, será usado por empresários para melhor lhe iludir, isto é, para associar seus afetos, sentimentos e emoções a produtos, que, obviamente, não lhe darão nada a não ser gastos
Na mesma matéria, havia uma breve discussão sobre o caráter democrático de redes como o FB, com o questionamento acerca de se havia ou não espaço para críticas e debates no seio dessa rede. Lembro bem que, ao ser ouvido um bambambã do FB, o sujeito foi claro e disse, sem tirar nem pôr, que não interessava à empresa o que os seus clientes falavam, o importante seria que falassem, que se expressassem, exatamente porque, segundo a matéria, o objetivo não era ouvir reclamações ou dar espaço a um alto nível de confronto de ideias: o objetivo seria faturar, apenas isso, com a venda das informações para empresas. Certamente, pensei, o tal Zuckberg e cia sempre que se barbeiam, pela manhã, devem encher o banheiro de serragem. É muita cara de pau.
  
A mecânica é simples: você se associa ao FB, expõe seus gostos, seus carinhos, memórias, parentes, amigos, preferências políticas, desportivas etc. e tudo isso será usado contra você, ou seja, será usado por empresários para melhor lhe iludir, isto é, para associar seus afetos, sentimentos e emoções a produtos, que, obviamente, não lhe darão nada a não ser gastos. Bem, não é muito diferente do que toda e qualquer empresa faz, mas não é toda e qualquer empresa que te incentiva a se expor do jeito que o FB te incentiva, muito menos não é qualquer uma que tem acesso a fotografias e mensagens afetuosas do jeito que o FB tem.

Em outros tempos, a gente poderia (ou deveria) dizer: mas que falta de ética, que imoralidade! E poderia perguntar: mas, onde está a decência e o caráter dessa gente? Bem, isso, em outros tempos, nos tempos caretas. Agora, nos tempos pós-modernos, quando vale tudo e mais um pouco e a regra é se dar bem passando sempre por cima de alguém, isso é normalíssimo. Sem pudores desnecessários, o senhor Zuck e sua turma, incluindo os progressistas empresários do Google, que faz o mesmo que o FB, com até maior abrangência, vão embolsando seus milhõezinhos.

Eu, de minha parte, como qualquer um pode comprovar, tenho minha continha no FB. Quem sabe, você mesmo chegou até este texto pelo link que lá publiquei, veja só, pois, na verdade, mantenho o vínculo com a empresa do Zuck somente para divulgar o que escrevo neste blog e, vez por outra, comentar algo. Afinal não sou tão preconceituoso a ponto de discriminar quem quer me iludir e usa as informações que posto contra mim (perdão, chefões do FB, mas não consigo entender essa prática como favorável a minha digníssima pessoa). Como dito acima, se a regra é faturar em cima do semelhante, ou aceito os que fazem isso ou provavelmente só me relacionarei comigo (até porque não tenho outra escolha) e com minha mulher (que só fatura meu amor e retribui com mais amor), até porque mesmo meus filhos estão, ainda, numa fase em que precisam faturar em cima de mim, sob pena de não conseguirem viabilizar suas vidinhas.

Publico, abaixo, texto da Carta Maior sobre o tema, que você pode ler aqui mesmo ou acessar no link http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20184.


PS: Se você chegou a este texto via FB e ficou pensando, "mas como é democrático, como é tolerante esse FB! Permite publicar até mesmo textos que o criticam abertamente!!!", não se iluda. Como dito no texto, até mesmo a divergência é útil para Zuck e seus parceiros. Afinal, o importante na pós-modernidade é que você divirja, contanto que o faça dentro do jogo. O importante é jogar e não importa se você diverge, pois na ótica desses caras, ser diferente é escolher preto em vez de azul, escutar sertanejo em vez de mpb ou se vestir de punk em vez de careca nazista (e vice-versa e vice-versa e vice-versa). Essas diferenças, na verdade não são diferenças: são semelhanças, pois todos divergem aceitando as mesmas regras. 

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Como nossos dados pessoais enriquecem gigantes digitais


Carta Maior

Qual é o terceiro país do mundo em população e o que mais espia seus cidadãos? A resposta cabe em um território virtual: Facebook. Com seus 900 milhões de usuários registrados, se o Facebook fosse um país seria o terceiro do mundo, logo depois da China (1,34 bilhões) e da Índia (1.17 bilhões de habitantes). Esta demografia virtual faz do Facebook um território de participação voluntária no qual os usuários entregam sua intimidade com toda inocência sem ter plena consciência do quanto estão se expondo nem do gigantesco capital que os usuários estão aportando à empresa fundada por Marc Zuckerberg.

Criado há apenas oito anos, o Facebook tem um valor estimado em Bolsa de 104 bilhões de dólares. É maior que a Amazon (98 bilhões), vale quase três vezes mais que a Ford Motors (38 bilhões de dólares), mas menos que o Google (203 bilhões) e a Apple (495 bilhões).

Do mesmo modo que Google e outros gigantes da rede, Facebook deixou de ser a simpática “startup”, criada no campus de Harvard. É um predador de dados, um aspirador universal de publicidade, um autêntico serviço de inteligência que se serve de cada informação deixada pelos usuários para fazer dinheiro com ela.

Todas as cifras relacionadas ao Facebook são imperiais: com 169 milhões de usuários, os Estados Unidos contam com o maior número de membros. Em segundo lugar vem a Índia com 51 milhões, o Brasil com 45 milhões e o México com 20. Mais de 300 milhões de fotos são publicadas a cada dia no Facebook e cerca de 500 milhões de pessoas acessam a rede social utilizando dispositivos móveis. No entanto, o qualificativo de “rede social” está longe de coincidir com a realidade. Como observa Archippe Yepmou, presidente da associação Internet sem fronteiras (ISF) (www.internetsansfrontieres.com), o valor do Facebook na bolsa “repousa no abuso de nosso direito ao controle de nossos dados pessoais”.

O peso do Facebook é proporcional ao grau de intimidade que revelamos com nossas conexões. Facebook e Google se apoiam quase no mesmo modelo econômico: quanto mais se sabe sobre os gostos e inclinações dos usuários, mais dinheiro pode-se fazer com esses dados sem que o usuário tenha dado sua permissão para tanto. É neste contexto que a associação Internet sem Fronteiras propõe a criação de um e-sindicato, com o objetivo de defender os direitos dos usuários do Facebook e de outros mastodontes digitais que espiam cada um de nossos clics para convertê-los em ouro.

Antonin Moulart, membro da associação, diz que “a ideia de um sindicato eletrônico aponta para o estabelecimento de uma relação de força com a empresa do senhor Zuckerberg para que ele entenda que temos direito a decidir sobre nossas informações pessoais”. O paradoxo Facebook é imenso: tornou-se uma ferramenta de intercâmbio com alcance planetário, mas sua aparente inocência atrai adeptos que prestam voluntariamente a uma violação impensável de sua vida privada.

Archippe Yepmou revela, por exemplo, que “nossas agendas são scaneadas pelo Facebooh através do nosso telefone celular e de nosso correio eletrônico. A empresa procede também a uma identificação biométrica que permite ao Facebook reconhecer logos e rostos das fotos sem que o contribuinte tenha dado sua autorização explícita para isso. A ideia do e-sindicato quer impor um mediador entre as pessoas e esse roubo da intimidade. A solução mais simples seria não se inscrever no Facebook, mas sua necessidade, real ou imaginária, já é um fato consumado. Neste sentido, a associação Internet sem Fronteiras reconhece que “a posição monopólica do Facebook fez da empresa um espaço de socialização obrigatório para toda ou uma parte da população”. Ingressamos neste espaço virtual-social como ovelhas pacíficas enquanto o lobo estava à espreita.

Reparar o erro requer uma consciência universal do valor estratégico e comercial de nossos dados pessoais assim como de nosso direito de nos opor a que sejam comercializados. Mas essa consciência está longe, muito longe de ter sido formada. A capitalização dos dados pessoais está perfeitamente quantificada no valor do Facebook. Não são suas máquinas ou seu programa a fonte de sua riqueza, mas sim nossa intimidade. O ingresso do Facebook na bolsa inaugura outra fase perigosa: “o modelo econômico da empresa baseado na exploração comercial da vida privada vai empurrar o Facebook em outra direção ainda mais intrusiva e ameaçadora da liberdade”, diz a ISF. O Facebook é um autêntico estômago de dados cujo destino, em grande parte, desconhecemos.

O contra-poder frente o Facebook e outros sugadores de dados planetários existe: é, por enquanto, tímido, mas real. Eletronic Frontier Foundation, Internet sem Fronteiras, a muito oficial CNIL (Comissão Nacional de Informática e Liberdades, da França), o Controlador Europeu de Proteção de Dados (CEPD), o Europa versus Facebook, são alguns dos organismos oficiais ou não governamentais que discutem a maneira de construir um muro legal entre os cidadãos e empresas como Facebook ou Google, que lucram com nossa vida. Serão necessários, porém, muitos anos para que os usuários passem à ação e tomem consciência dos níveis de exposição a que estão submetidos quando, sem nenhuma garantia de privacidade, sobem uma foto, manifestam um gosto musical ou a preferência por uma ou outra marca.