sábado, 26 de maio de 2012

A vida leva o mar


Mesmo que eu lhe conte o que vivi, não há como você saber exatamente do que se trata. Você não poderá, nunca, saber da sensação que senti na beira da praia de Copacabana quando era ainda menino e meu pai me levou até a Avenida Atlântica para passear. Com certeza, não foi a primeira vez que vi o mar, mas foi, certamente, a primeira vez que soube que aquilo era o mar, que tomei consciência do que se tratava. A sensação que me ficou foi do borrifar da maresia no meu rosto, com aquele cheiro salgado inconfundível.

Recentemente, lembrei, com direito à sensação do borrifar no rosto, daquele momento. Na verdade, cá para nós, não posso nem garantir que tenha existido realmente esse momento como o lembro, mas curiosamente lembro dele, do mar, da onda quebrando, do postinho de salva-vidas, do borrifar da maresia. E era um dia nublado, não havia sol. O mar estava acinzentado.

Lembro que muito estive na beira da praia de Copacabana, bairro no qual nasci e no qual vivi por mais de 30 anos, que muitas vezes foi meu pai que me levou e que inúmeras vezes, certamente, senti o vento trazer o mar até meu rosto. Ainda mais, é preciso dizer, que até os meus dez anos, a praia de Copacabana tinha uma estreita faixa de areia separando a pista de asfalto do mar (para saber como era, é só ir até o Posto 6; lá continua bem estreita a faixa de areia). Bastava chegar na calçada (que não era “calçadão”, mas já tinha aquele desenho de ondas que caracteriza as calçadas do bairro) para estar próximo, muito próximo do mar e tomar um banho de maresia. Isso, sem contar as ressacas, que inúmeras ocasiões invadiam a pista e as portarias dos prédios da Atlântica.

Não importa se existiu, ou não, esse momento. É claro que não aconteceu exatamente como recordo. O que lembrei foi da sensação de olhar o mar, tão presente da minha vida nos mais de 30 anos vividos tão perto dele. Lembro do tempo em que saía de casa descalço, sem camisa, sem qualquer dinheiro, sem nada além de um short ou uma sunga, para passar ir à praia. Não almoçava, não lanchava, não fumava, não bebia nada. Somente ficava ali, ora no mar, no qual passava horas “pegando ondas” ou, como chamávamos, bem antigamente, "pegando jacaré", ora jogando vôlei, futebol, ou frescobol, ou ainda não fazendo nada além de olhar o mar e conversar aqueles papos toscos de adolescente.

Sou grato ao mar. Ele me ensinou que, embora nem sempre a vida venha em ondas, tem suas marés e exige essencialmente muita intuição para entendê-la. E, mais grave: exige que você saiba boiar diante de toda e qualquer circunstância, mesmo a mais negativa, sempre mantendo o sangue frio, e que nade para se locomover no turbilhão cotidiano e escapar dos predadores, que na vida em terra seca são certamente tão vorazes e sanguinários quanto os da vida marinha. Além disso, tanto no fundo do mar quanto nos cantos obscuros da vida de cada um de nós, há tantos tesouros inacessíveis que jamais serão descobertos.

Costuma-se dizer que a vida veio do mar. Certamente isso tem fundamento.

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