terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma cidade de narcisos é uma necrópole


Aristóteles disse que o homem é um animal político e isso significa dizer que é um animal da polis, da cidade, que, segundo Châtelet, Duhamel e Pisier-Kouchner, autores de um interessante livro sobre as ideias políticas, é uma organização que não se funda sobre a força bruta ou sobre prescrições divinas. A cidade seria, assim, o ambiente natural do humano, aquele no qual “pode realizar a virtude (a capacidade) inscrita em sua essência”, como referem os autores citados.


A cidade é humana, feita pelo e para o humano. É um ambiente especular, no qual nós, Narcisos que só suportamos e adoramos o que é espelho (vide Lacan e seu interessante texto sobre o tema), nos reconhecemos enquanto humanos. É no seio desse ambiente, com imagens, cores e odores que nos dizem tudo sobre nossa vida (ou sobre a vida que identificamos como nossa), que geramos aquilo que chamamos a identidade, o nosso “eu”, tudo aquilo que compreendemos como relativo a nós mesmos. E, mesmo que consideremos, como Maffesoli o faz, que não há mais identidade, mas identificações, temos que aceitar que é no ambiente citadino que toda e qualquer identificação se dá. Afinal, é na relação intersubjetiva que o humano pode se dizer humano, pode enunciar uma identidade e, historicamente, é apenas nas cidades que se pensa sobre isso da forma como estou enunciando. Falar nesses temas com um sujeito que vive numa zona rural, que teve sua formação subjetiva estabelecida em um grupo nuclear isolado do convívio com outros grupos, sem o convívio diário com o multifacetado mundo da cidade é, provavelmente, como falar um idioma estranho com ele. Não é um habitante urbano, está fora do jogo comunicativo e semiológico dos citadinos.


A cidade, como a estamos tratando aqui, foi uma invenção grega, mais propriamente ateniense. Foi dentro dela, com discussões que giram em torno de temas relativos a ela (ou ao convívio dos que vivem nela), que se formulou a filosofia ateniense, com Sócrates, Platão e Aristóteles como figuras exponenciais, bem como todo o aparato cultural, artístico e arquitetônico que até hoje encanta o mundo.


Lamentável é que a cidade foi, originalmente, o lugar de realização do humano, local de congraçamento na Paideia (um termo de difícil tradução que indica a cultura no sentido ética e moralmente constitutivo do melhor que há em nós), mas, agora, com o advento do capitalismo tardio, com sua cultura de consumo e de massa, parece cada vez mais distante desse objetivo e mesmo caminhar no sentido oposto. Por algum motivo, a sociedade humana resolveu cultivar o que há de pior em seus membros.


Não há definitivamente nada na cultura pós-moderna, como se convencionou chamar a cultura do final do século XX e início do XXI, que nos remeta a uma qualificação, à busca da melhoria das potencialidades humanas. Pelo contrário, parece haver um gozo mórbido em ser uma pessoa da pior qualidade, em enganar, trair, roubar e, não raramente, matar ou ajudar a matar pela cumplicidade. Tudo isso mascarado pelos direitos individuais do liberal e ilustrado pela fábula das abelhas, de Mandeville.


É evidente que há exceções, mas muitas dessas exceções são ilusórias. Parecem mais comprometidas com uma pura formalização da virtude do que efetivamente com a virtude em si. Em outras palavras, a virtude, como tudo na sociedade de consumo, torna-se um belo papel de embrulho a ser exposto na vitrine mais próxima. Não é importante ser bom, qualificado, virtuoso, a não ser em aparência.


E o pior é que a diversidade de aparências funciona como se as aparências diversificadas não apenas “representassem” coisas diversificadas, mas “fossem” efetivamente coisas diversificadas. Trata-se do caso de confusão entre objeto e signo, entre a coisa e a sua representação, caso no qual Narciso realmente se confunde com o espelho das águas e mergulha no lago em busca de uma imagem que lhe promete ser a coisa imaginada. Agindo assim, é claro, seu destino é a morte por afogamento, assim como o consumidor se afoga em objetos que, segundo sua fantasia, lhe significam o amor próprio.


Uma cidade de Narcisos é, assim, uma necrópole.

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