sábado, 26 de maio de 2012

Parabéns aos Stones pelos 50 anos de adolescência congelada e pelo marketing que os sustenta


Adolescência congelada ou mumificada?
 Leio que a banda de rock Rolling Stones completou cinquenta anos de carreira. Bem, isso não é nada de mais, considerando que os Stones foram a banda que mais precocemente compreendeu que o rock era um grande negócio e que, para ter sucesso nesse grande negócio, o importante era não apenas vestir a camisa, mas assumir total e irrestritamente a aparência rebelde. E isso eles fizeram como ninguém, por isso cedo ingressaram na máquina de fazer dinheiro da contracultura e nunca mais largaram a teta.
Já citei várias vezes em meus textos o epíteto, criado por Beatriz Sarlo, de “adolescente congelado” para o vocalista da banda, o boca larga Mick Jagger, um dos homens mais ricos da história do rock. É verdade. O velhinho teima em aparentar ter quinze anos, tornando-se o mais conhecido e badalado exemplar do “forever young”, lema daqueles adultos que, apesar de idade muitas vezes já avançada, ainda fazem de conta que não saíram da adolescência. Ao contrário do que o lema representava nos tempos áureos da tal “revolta juvenil”, hoje recende a debilidade mental e emocional. Sinal que a síndrome da rebeldia perene pode causar estragos indeléveis a seu portador.

No Rio de Janeiro, perto da faculdade na qual cursei Comunicação, havia um desses. Gordão, barbudão, cabeludão, com uma bela motocicleta cheia de firulas, com caveiras desenhadas no tanque de gasolina e fios de couro pendendo do guidão, ele andava, cara de mau, pela rua, exibindo suas tatuagens nos braços e sua roupa de couro. Tratava-se, difícil negar, de uma caricatura viva, dessas que se libertaram do papel e se animaram a tentar parecer o mais real possível. A bisonha figura me sugeria a compreensão de que, nestes tempos pós-modernos, você não tem mais realmente identidade e sim uma aparência de identidade que lhe é dada a escolher num catálogo de tipos estrambóticos. Aliás, quanto mais ridícula for, mais sucesso fará, o que bem demonstram os vovôs punks e todos os seus descendentes, além dos bem comportados black metal, death metal, doom metal etc. etc. etc.

Sei não, mas apesar de sempre ter sido um adepto, ora entusiasta, ora mais precavido, do carnavalesco rock e das atitudes de rebeldia que a cultura roqueira insuflou, tenho hoje sérias dúvidas a respeito da sinceridade dessa manifestação. Parece que tudo não passou de um teatro no qual os jovens, com sua característica inexperiência e imaturidade, representaram papel de palhaços no picadeiro, bem quando tentavam aparentar ser os valentes domadores que enfrentaram as feras da caretice.

O Império contra-ataca

Quem lucrou com tudo isso, quem realmente ganhou e continua a ganhar, não foram os meninos e meninas underground. Eles simplesmente serviram como ratos de laboratório de uma articulação que os autores Antonio Negri e Michael Hardt chamam de Império e que costumo adotar, pois me parece bastante útil para denominar o poder com o qual nos defrontamos hoje.


Os "maus" Stones afastaram Brian Jones,
porque ele se drogava e atrapalhava os negócios

Para Negri e Hardt, não apenas a meninada, mas toda a massa que eles preferem chamar de “Multidão”, se revoltou contra a modernidade burocrática, conta a opressão da tradição, contra a racionalidade reinante que reprimia emoções e sentimentos e contra os sisudos tempos da família “papai-sabe-tudo”, que coagia a formação de pessoas singulares. Essa revolta, porém, foi, desde muito cedo, capitalizada pelo poder político que, como nunca antes havia ocorrido, conseguiu, assim, acesso à subjetividade individual e foi mais além, conquistando os terrenos da emoção, dos sentimentos e mesmo dos sonhos mais íntimos.

Segundo os autores, formou-se, desse modo, o poder imperial, muito mais repressivo, opressivo e violento do que o anterior, tão ferrenhamente combatido pela Multidão. Tudo indica que o tiro saiu pela culatra para os jovens contraculturais. Para aceitar viver na sociedade sob jugo do Império, essa meninada teve que se conformar em ser uma caricatura, como Jagger e o “maldito” Keith Richards. Assim, confundem a imagem com a coisa e fazem de uma revolta apenas simbólica e que vai de encontro com o que dita a lógica imperial, uma imagem de revolta real e revolucionária. Ora, de real, nisso tudo, só a conformidade e o conservadorismo disfarçado de rebeldia. E de revolucionário nada há, pois o que o rebelde sempre quis foi ser amado por aquele contra o qual se rebela.

Em resumo, a meninada rebelde do underground não ganhou nada, mas como é crédula e todo mundo diz que eles mudaram o mundo, se acham vencedores, os autênticos campeões das transformações do século XX.

Parabéns, então, aos senhores Stones. Representam, mais que uma época, são símbolo da estupidez humana, que insiste em confundir, sempre, objeto e representação, e continuam a ser o parâmetro da malandragem que levou o rock tão longe: se o negócio exigia cara de mau, eles fizeram o pior que podiam e lucraram muito com isso. Tolos, realmente, foram os que acreditaram que tudo isso era sério e real, como eu. Agora, mais tolos ainda são os que continuam acreditando e vão aos shows caça-níqueis que os vovôs ainda fazem por aí.

Como nossos pais

É preciso dizer que os Stones tiveram um belo começo, com notáveis baladas e inumeráveis blues, que chupavam de excelentes figuras, como Howling Wolf. No entanto, provavelmente com a ajuda do empresário Andrew Oldham, que cuidava da imagem e dos negócios do grupo, cedo entenderam que o caminho era o rock “pesado” e belas caras de mau.

“Você deixaria sua filha namorar com um Stone?”, Oldham sugeriu a um jornalista, visando uma manchete no Melody Maker. É o marketing da rebeldia que alavancou não apenas os roqueiros dos anos 1960, mas também o punk de Malcolm McLaren, que, com espírito publicitário, criou os Sex Pistols e todo o visual que iria canalizar a revolta dos meninos e meninas contra os pais. O problema é que eles não avançaram muito e mantiveram os mesmos valores, pois, na prática, a maior parte somente fez o que os pais simbolizavam como um mau caminho. Na cabeça da pequena burguesia, liberdade é depravação e loucura, por mais incrível que isso pareça.

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