domingo, 20 de maio de 2012

O diabo adverte: há muito boas intenções na saúde pública...


Será efetivamente a violência um tema de saúde pública? Tento começar a pensar nisso, quando surgem, pairando sobre mim, duas figuras mitológicas. À minha direita, um anjo. À esquerda, um diabinho. “Claro que é”, diz a angelical e maviosa voz. “Imbecil, nem pense nisso, não se deixe enganar, é óbvio que uma coisa nada tem a ver com a outra, a não ser como mais um golpe baseado numa farsa”, soa o rouco e desagradável timbre diabólico. “E de golpes, eu bem entendo”, completa, “sempre foram minha especialidade”.

Eu, de minha parte, antes de me deter sobre o tema, me indago: por que é que o diabo sempre está à esquerda?

Mas, vamos lá. E, pedindo licença às forças do bem e do mal, pensemos no conceito de violência.

Gosto do dicionário do Houaiss. Costumo usá-lo com frequência. Ali está escrito que violência é a ação ou o efeito de violentar, de empregar força física contra alguém ou algo, fazer uma intimidação moral contra alguém, empregar crueldade e força numa ação contra algo ou alguém. No plano jurídico, torna-se o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação”.

De modo geral, a coação parece estar na raiz do conceito, ou, para alguns, mais precisamente a coerção. Num plano mais subjetivamente elevado, alguns estendem o conceito de violência para ações corriqueiras nas quais não há o reconhecimento do outro, sendo uma espécie de ataque frontal à identidade, um atentado aos direitos individuais, que vai contra o discurso democrático da sociedade que se imagina prenhe de possibilidades, é claro, e também muito justa e leal. Assim como, é mais evidente ainda, todos os seus cidadãos, aqueles que se horrorizam com a violência, mais atroz modalidade de destruição da cidadania.

No entanto, tudo indica que quando se fala de violência, se está falando é do outro, da violência do outro, nunca da nossa. Essa parece ser uma característica subjetiva do sujeito ocidental, entendendo por isso aquele ou aquela que adere às propostas de identidade que pactuou com base nos princípios subjetivos da dita civilização europeia, com suas expansões para as Américas e África incluídas. Um de seus principais apanágios é ser absoluta e completamente voltada para o próprio umbigo, eminentemente egocêntrica a ponto de sequer reconhecer qualquer alteridade a não ser a que inventa e nomeia. Trata-se a si própria como o ápice das aspirações humanas, como bem mostra Norbert Elias quando fala do processo civilizador.

Há um conceito que visa descrever um tipo de violência que não pode, muitas vezes, ser percebido claramente. Trata-se da “violência simbólica”, enunciada por Pierre Bourdieu, que remete à coerção para que o indivíduo se localize no circuito da sociabilidade e, por conseguinte, no da subjetividade, de acordo com o padrão proposto pelo discurso hegemônico ou dominante, reconhecido como um espelhamento perfeito da realidade e, primordialmente, como legítimo. É, sem contestação, uma forma de violência bem mais perniciosa do que a violência física imposta diretamente sobre outrem, simplesmente porque se afigura como quase invisível. “Será essa, também, suscetível de ação preventiva pela saúde pública?”, pergunta o diabo, riso escarninho. “Só fechando todos os jornais, incendiando as agências publicitárias e enforcando o último CEO nas tripas do último político”, sentencia.

Enquanto o anjo argumenta com belos exemplos de direitos individuais, qualidade de vida, fim de epidemias e afiança que o sistema público é eficiente o suficiente para dar conta de qualquer tema social, eu penso como o diabo gosta: a Saúde quer abarcar tudo, o mundo, transformar nossa vida numa anamnese e nossos males em diagnósticos. Sua ação discursiva é a da panaceia universal, quer se meter principalmente onde não é chamada, revirar tudo, como Foucault bem havia dito. E, como um de seus seguidores também sugeriu, quer ir além do comportamento, dos sentimentos, quer alcançar a alma, controlar o desejo, agenciá-lo.

Está no cerne de um discurso maior, o científico, aquele que Lyotard disse ter perdido o trono de grande narrativa. Mas, por outro lado, como aparentemente todos na pós-modernidade, rende homenagens incondicionais a outra narrativa portentosa, a econômica. Não é à toa que defende a intervenção na vida social e pessoal para o famoso “enfrentamento” da violência, como se esta fosse uma espécie de varíola, ou, mais contundentemente, com o argumento racional das equações numéricas das planilhas de gastos públicos. Isso significa dizer que o “enfrentamento” não existe exatamente porque você existe e é importante, muito menos porque é cidadão ou chefe de família, mas porque pode se tornar uma vítima da violência e dar trabalho e despesas. Isso significa que se você pode pagar regiamente as suas próprias despesas, é saudável, está livre do blábláblá dos agentes de saúde e, melhor ainda, pode fazer uma banana para todos os especialistas sanitaristas. Para você, é claro, SUS é só a primeira sílaba de suspense ou susto.

“Essa lógica das planilhas é extremamente violenta, um bom exemplo de violência simbólica, deselegante e grosseira, típica dos meus camaradas liberais”, explica o diabo, enquanto o anjo fala dos postos de saúde a serem construídos com a poupança de recursos, das equipes de agentes comunitários etc. que poderiam ser criadas. Exalta-se ao falar que escolas também poderiam ser construídas. “Mais entulho autoritário, aparelhos ideológicos”, blasfema, encapetado.

Eu, de minha parte, continuo na dúvida. Acredito nas boas intenções do anjo e de todos os profissionais de saúde, mas também ouço a voz diabólica me dizer: “De onde venho, estamos superlotados de boas intenções”.




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... E também deixa claro que ter preconceitos tem seu lado bom

Após o debate, ofereci um café aos contendores. O anjo se desculpou, mas estava sendo chamado de volta para mais uma missão catequizadora. O diabo, porém, disse que queria me falar em particular, mas adiantou ao anjo que não iria falar certo nome em vão, muito menos me constranger a cobiçar alguma mulher do próximo.

“Estou embatucado com uma ideia”, diz o malévolo equilibrando a xicrinha com suas patas de bode. “É o tal do ‘enfrentamento ao preconceito’ que esses intelectuaizinhos pequeno-burgueses tanto falam. Pense comigo, num simples exercício lógico”, fala, introduzindo o tema, e começa a exposição.

“Uma coisa é o conceito, que serve para pensar, não é? Outra coisa, o preconceito, que vem antes do pensamento como o próprio nome permite dizer: pré-conceito. Até aqui, não há problemas, todos concordamos”, completa.

“Mas, veja, caro mortal, que o conceito nasce necessariamente de um preconceito, a não ser que seja gerado espontaneamente, por luz divina, o que é improvável, pois tudo aqui aparece em um processo, geralmente num conflito de teses”.

Melhor não evocar certos nomes, eu disse.

“Ok, ok, mas como se pode filosofar com restrições a falar este ou aquele nome?”, ele argumenta, mas continua sua dissertação. “Todo mundo te diz: diga não ao preconceito, não tenha preconceito, denuncie o preconceito, como se ter preconceitos fosse crime hediondo. Mas, ora, se você simplesmente disser não ao preconceito, como chegar ao conceito? Você tira degraus da escada e não pode mais subir nela, não é verdade?”.

Sou obrigado a concordar.

“Dizem: não tenha preconceito! E, no mesmo movimento, matam o conceito. E pior: quando dizem para denunciar, assustam você, que passa a examinar sua consciência e sua inconsciência, vasculhando tudo para rasgar e queimar tudo o que pareça preconceito. Mas, como você julga isso? Com outro preconceito, o de que os conceitos nascem assim, por geração espontânea, da mesma forma que os carneiros nascem de camisas suadas cobertas por farinha. Absurdo e estúpido. Trata-se de um atentado à inteligência, um ataque frontal à capacidade humana de pensar!”, afirma.

“Pense da seguinte forma: o conceito nasce de um trabalho de parto no qual o preconceito tem papel fundamental. É verdade que se você fica no preconceito, você comete um aborto, mata o conceito antes que esteja maturado para vir á luz, não é? Mas, se você evitar pensar algo, porque é um criminoso preconceito, não chega nem ao básico, nem à concepção. Aí, pode ter certeza de que é um irremediável imbecil completo, pois os meio imbecis pelo menos têm lá seus preconceitos”, sentencia.

Sou obrigado a concordar com você, meu caro príncipe da escuridão, digo.

“Pior: caro mortal, o sujeito é um imbecil mais que completo, pois ainda por cima é burro, já que para não ter preconceitos se pendura um imenso e daninho preconceito. Não há salvação desse jeito”, finaliza, antes de deitar a xícara sobre a mesa e desaparecer numa nuvem de fumaça com cheiro de enxofre.

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