segunda-feira, 28 de maio de 2012

Melhor crer que daqui pra frente tudo será diferente


Não exatamente por iniciativa dos árabes,
o mundo se tornou um mercado persa, tudo se compra,
tudo se vende, o tempo todo, em todo lugar

A lógica comercial tem tomado todos os espaços subjetivos. Sua personalidade é um produto a ser exposto em uma vitrine, suas habilidades são gadgets prontos a servir quem neles se interessar e melhor puder pagar. Mesmo seus sonhos são, com certeza, filmes publicitários que servem unicamente para realizar seus desejos impossíveis. Você olha em volta e entende que, ou se enquadra na regra do comércio ou sucumbe.

Nos tempos do capitalismo tardio, cuja ênfase está na movimentação financeira e na radicalização do comércio para todas as áreas da vida, a regra é consumir tudo: sabonetes, xampus, sanduíches, bebida, paixões, ilusões, corpos e, principalmente, sonhos artificiais. O único problema é que não é possível esquecer o que significa o verbo “consumir”: consumir é destruir. Isso significa que o dilema posto na última linha do primeiro parágrafo, “ou se enquadra na regra do comércio ou sucumbe”, não existe: se você se enquadra, sucumbe do mesmo jeito, consumido. Mais uma vez percebemos que não há alternativas extremas, o melhor é procurar os caminhos mais ao meio, sempre lembrando que nem sempre o caminho do meio fica exatamente no meio.

Simpáticos profetas do apocalipse

Pode ser produtivo pensar que o que assistimos hoje pode ser efetivamente a destruição de um mundo para o surgimento de outro e o que percebemos nessa transição são, ainda, apenas as ruínas, o que nos deixa atentos e sobressaltados, desesperançosos e vulneráveis. O mundo daquilo que chamamos de modernidade vai dando lugar a algo diverso, que alguns teimam em chamar pós-modernidade, admitindo simplesmente que nosso tempo ainda não tem uma identidade própria, que não passa de um tempo de sucessão e que nada está ainda estabelecido. Pode ser.

Alvin Toffler, o da "Terceira Onda"
   
Há aproximadamente trinta anos, muito se falava de mudanças em todos os níveis. Autores como Alvin Toffler e Fritjof Capra anunciavam novos tempos em tudo ia ser diferente. Se bem me lembro, porém, esses autores enxergavam o futuro com otimismo, vislumbrando realidades de libertação para a sensibilidade, cogitando novas regras para o mundo do trabalho e, essencialmente, prevendo que a humanidade entrava num círculo virtuoso, no qual os pesadelos da rigidez do passado seriam substituídos pelos sonhos da transformação das atitudes para formar um mundo mais saudável e dinâmico. Os meninos franceses de maio de 1968 já diziam: queremos a imaginação no poder. Tudo indica que, ao menos em termos, conseguiram. Se isso é bom, é outra história.

Até agora, pelo menos na minha percepção, nada disso aconteceu efetivamente, mas há sinais, aqui e ali, de que algumas coisas previstas estão realmente em curso. Não exatamente do jeito idealizado pelos autores citados, mas, afinal, desde quando a realidade tem algum compromisso com nossas idealizações?

Entretanto, é preciso levantar a hipótese de que os autores citados, incluindo os francesinhos rebeldes e tantos outros que professaram a mesma tese, podem ter sido os profetas que anunciaram um futuro paradisíaco, quando, na verdade, o que se podia ver à frente eram nuvens negras. Quem sabe, não incluíram em suas análises um elemento básico, sem o qual se torna difícil pensar politicamente a realidade histórica: o capital, ou, aquela que considero uma de suas articulações mais perfeitas, o Império, que substitui o foco no capital enquanto acumulação de riqueza pelo do capital enquanto acumulação de poder sobre a multidão. Ao fazer isso, libera a circulação, sem peias, de dinheiro virtual. Une o útil e material ao agradável e subjetivo.

E, se é verdadeira a tese, formulada por Antonio Negri e Michael Hardt, de que vivemos hoje sob um sistema de poder muito mais autoritário e repressivo do que o anterior, então, na verdade, o tiro está saindo pela culatra, ao menos por enquanto.

Tudo é natural, de acordo com o interesse em jogo

Veja que todos falam o tempo todo na natureza, na necessidade de preservá-la e promover hábitos que contribuam para isso, que sejam sustentáveis sob o pondo de vista ecológico e da qualidade de vida humana. Da mesma forma, é verdade que muito se fala em hábitos saudáveis, em alimentação adequada e no cuidado com o corpo. Mas, também é verdade que muito se fala disso para vender produtos ou serviços, ou, no caso dos governos, para faturamento de gordas multas ambientais, que não se sabe se são efetivamente pagas. Não parecem discerníveis outros objetivos em 90% dos casos em que esse assunto é levantado. Nem mesmo nas famosas conversas de botequim, nas quais se alguém puxa esse assunto, geralmente é para indicar algum produto ou profissional de sua confiança. Isso sem falar quando a própria pessoa não está vendendo o produto “natural” ou oferecendo seus próprios serviços. Num mundo dominado pelo mercado, você precisa estar sempre cuidando dos seus interesses.

Pessoas?

Tratam como bestas, mas pelo menos chamam de pessoas

No mundo do trabalho, por seu lado, há muita conversa fiada sobre reformulações de princípios clássicos no ambiente laboral. Em vez de dizer “recursos humanos”, hoje se fala em “gestão de pessoas”; no lugar do controle do horário, hoje há empresas que permitem ao empregado fazer o próprio horário, contanto que cumpra metas estabelecidas; no lugar da antiga dedicação canina ao trabalho, o importante é desenvolver competências e conseguir cada vez mais competitividade, capacitar-se para melhor derrotar os demais; onde havia o esforço físico, o suor, em nossos tempos há a inteligência governando tudo. Suar é coisa do passado, coisa que se faz apenas nas academias de fitness (não confundir com a antiga ginástica, aquela série de exercícios arcaicos que serviam para tornar o indivíduo mais forte e cheio de disposição; o fitness tem outros objetivos, todos estéticos).

Até aí, tudo tranquilo. Só que os problemas começam quando se sabe que “gestão de pessoas”, apesar de um nome muito mais simpático do que “recursos humanos”, não traz diferenças significativas nas práticas. Quem manda, continua mandando, os empregados continuam obedecendo e contribuindo com o lucro do patrão. Por mais que não sejam mais chamados de lacaios, serviçais ou empregados, por mais que agora sejam sarcasticamente considerados “colaboradores”, continuam na mesma situação de subserviência e dependem da venda da força de trabalho, com o menor preço possível, para sobreviver, ou, melhor dizendo, para consumir, pois que a sobrevida está dada exclusivamente pela prática do consumo, já que são os objetos que nos dizem quem somos, até mesmo o papel-higiênico.

O cinismo chega ao ponto da introdução de todo um discurso baseado nas “pessoas”, que, segundo seus teóricos, não são “recursos humanos”, são “pessoas”. O fim do horário parece ser uma balela, pois, com os sempre enaltecidos recursos tecnológicos, o patrão pode achar o “colaborador” na hora que quiser. Logo, não há realmente mais horário de expediente: o dia todo é horário de expediente, inclusive o final de semana e o feriado, o mês todo, a vida toda. Você não precisa mais cumprir horário, todo o seu tempo de vida passa a ser da empresa. A única saída, num caso desses, é a rebelião ou o suicídio. Como o típico cidadão urbano não tem coragem nem para uma coisa, nem para a outra, ficamos como estamos, geralmente com um porre na mesa de um bar.

O parasita midiático

Sem diálogo, não há comunicação

Outro item a ser citado é o da proeminência daquilo que chamamos genericamente de “mídia”, os chamados meios de comunicação de massa (que negam ser de massa, pois se dizem cada vez mais setorizados, e que não são realmente de comunicação, mas de informação, pois para haver comunicação é preciso haver diálogo).

Sem dúvida, a mídia foi responsável direta pela construção deste momento histórico e por boa parte das características presentes nele, como a pouca profundidade das abordagens, o caráter supérfluo dos acontecimentos, a fluidez das identidades etc. Muniz Sodré, em uma aula na Escola de Comunicação da UFRJ, disse que entende a mídia como uma espécie de forma subjetiva parasitária que sobrevive graças àqueles nos quais se hospeda e dos quais retira sua força vital. No caso, esses hospedeiros são os cidadãos urbanos, os que lêem os jornais pela manhã e folheiam as revistas nas salas de espera.

Obcecados em saber o que acontece onde suas vistas não alcançam, principalmente na vida privada das celebridades, esses cidadãos e cidadãs saciam sua curiosidade nos programas de TV, no rádio, nas páginas dos matutinos e semanários. Não percebem, porém, que, no mesmo ato em que se informam, se alienam, pois as informações recebidas são ready made, ou sejam, vêm prontas, sem dúvidas nem incertezas, com todas as lacunas preenchidas, a não ser aquelas que poderão render sucessivas suítes (suíte é a continuação, geralmente no dia seguinte, de uma matéria jornalística) e que, via de regra, não são nada importantes para a compreensão do fato, embora os jornalistas lhe elevem a esse status.


É preciso acreditar


Como dizem os rappers, a cena é triste. No entanto, é importante crer que passamos por um momento de transição e que nada dessa pobreza pós-moderna veio para ficar. É melhor crer que daqui pra frente, tudo será diferente, por mais que isso não pareça crível.

Um comentário:

  1. Muito bem colocado Luiz, palavra apos palavra, observação após observação. Fiquei curiosa, qual sua formação?

    Abraço!

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