segunda-feira, 28 de maio de 2012

Melhor crer que daqui pra frente tudo será diferente


Não exatamente por iniciativa dos árabes,
o mundo se tornou um mercado persa, tudo se compra,
tudo se vende, o tempo todo, em todo lugar

A lógica comercial tem tomado todos os espaços subjetivos. Sua personalidade é um produto a ser exposto em uma vitrine, suas habilidades são gadgets prontos a servir quem neles se interessar e melhor puder pagar. Mesmo seus sonhos são, com certeza, filmes publicitários que servem unicamente para realizar seus desejos impossíveis. Você olha em volta e entende que, ou se enquadra na regra do comércio ou sucumbe.

Nos tempos do capitalismo tardio, cuja ênfase está na movimentação financeira e na radicalização do comércio para todas as áreas da vida, a regra é consumir tudo: sabonetes, xampus, sanduíches, bebida, paixões, ilusões, corpos e, principalmente, sonhos artificiais. O único problema é que não é possível esquecer o que significa o verbo “consumir”: consumir é destruir. Isso significa que o dilema posto na última linha do primeiro parágrafo, “ou se enquadra na regra do comércio ou sucumbe”, não existe: se você se enquadra, sucumbe do mesmo jeito, consumido. Mais uma vez percebemos que não há alternativas extremas, o melhor é procurar os caminhos mais ao meio, sempre lembrando que nem sempre o caminho do meio fica exatamente no meio.

Simpáticos profetas do apocalipse

Pode ser produtivo pensar que o que assistimos hoje pode ser efetivamente a destruição de um mundo para o surgimento de outro e o que percebemos nessa transição são, ainda, apenas as ruínas, o que nos deixa atentos e sobressaltados, desesperançosos e vulneráveis. O mundo daquilo que chamamos de modernidade vai dando lugar a algo diverso, que alguns teimam em chamar pós-modernidade, admitindo simplesmente que nosso tempo ainda não tem uma identidade própria, que não passa de um tempo de sucessão e que nada está ainda estabelecido. Pode ser.

Alvin Toffler, o da "Terceira Onda"
   
Há aproximadamente trinta anos, muito se falava de mudanças em todos os níveis. Autores como Alvin Toffler e Fritjof Capra anunciavam novos tempos em tudo ia ser diferente. Se bem me lembro, porém, esses autores enxergavam o futuro com otimismo, vislumbrando realidades de libertação para a sensibilidade, cogitando novas regras para o mundo do trabalho e, essencialmente, prevendo que a humanidade entrava num círculo virtuoso, no qual os pesadelos da rigidez do passado seriam substituídos pelos sonhos da transformação das atitudes para formar um mundo mais saudável e dinâmico. Os meninos franceses de maio de 1968 já diziam: queremos a imaginação no poder. Tudo indica que, ao menos em termos, conseguiram. Se isso é bom, é outra história.

Até agora, pelo menos na minha percepção, nada disso aconteceu efetivamente, mas há sinais, aqui e ali, de que algumas coisas previstas estão realmente em curso. Não exatamente do jeito idealizado pelos autores citados, mas, afinal, desde quando a realidade tem algum compromisso com nossas idealizações?

Entretanto, é preciso levantar a hipótese de que os autores citados, incluindo os francesinhos rebeldes e tantos outros que professaram a mesma tese, podem ter sido os profetas que anunciaram um futuro paradisíaco, quando, na verdade, o que se podia ver à frente eram nuvens negras. Quem sabe, não incluíram em suas análises um elemento básico, sem o qual se torna difícil pensar politicamente a realidade histórica: o capital, ou, aquela que considero uma de suas articulações mais perfeitas, o Império, que substitui o foco no capital enquanto acumulação de riqueza pelo do capital enquanto acumulação de poder sobre a multidão. Ao fazer isso, libera a circulação, sem peias, de dinheiro virtual. Une o útil e material ao agradável e subjetivo.

E, se é verdadeira a tese, formulada por Antonio Negri e Michael Hardt, de que vivemos hoje sob um sistema de poder muito mais autoritário e repressivo do que o anterior, então, na verdade, o tiro está saindo pela culatra, ao menos por enquanto.

Tudo é natural, de acordo com o interesse em jogo

Veja que todos falam o tempo todo na natureza, na necessidade de preservá-la e promover hábitos que contribuam para isso, que sejam sustentáveis sob o pondo de vista ecológico e da qualidade de vida humana. Da mesma forma, é verdade que muito se fala em hábitos saudáveis, em alimentação adequada e no cuidado com o corpo. Mas, também é verdade que muito se fala disso para vender produtos ou serviços, ou, no caso dos governos, para faturamento de gordas multas ambientais, que não se sabe se são efetivamente pagas. Não parecem discerníveis outros objetivos em 90% dos casos em que esse assunto é levantado. Nem mesmo nas famosas conversas de botequim, nas quais se alguém puxa esse assunto, geralmente é para indicar algum produto ou profissional de sua confiança. Isso sem falar quando a própria pessoa não está vendendo o produto “natural” ou oferecendo seus próprios serviços. Num mundo dominado pelo mercado, você precisa estar sempre cuidando dos seus interesses.

Pessoas?

Tratam como bestas, mas pelo menos chamam de pessoas

No mundo do trabalho, por seu lado, há muita conversa fiada sobre reformulações de princípios clássicos no ambiente laboral. Em vez de dizer “recursos humanos”, hoje se fala em “gestão de pessoas”; no lugar do controle do horário, hoje há empresas que permitem ao empregado fazer o próprio horário, contanto que cumpra metas estabelecidas; no lugar da antiga dedicação canina ao trabalho, o importante é desenvolver competências e conseguir cada vez mais competitividade, capacitar-se para melhor derrotar os demais; onde havia o esforço físico, o suor, em nossos tempos há a inteligência governando tudo. Suar é coisa do passado, coisa que se faz apenas nas academias de fitness (não confundir com a antiga ginástica, aquela série de exercícios arcaicos que serviam para tornar o indivíduo mais forte e cheio de disposição; o fitness tem outros objetivos, todos estéticos).

Até aí, tudo tranquilo. Só que os problemas começam quando se sabe que “gestão de pessoas”, apesar de um nome muito mais simpático do que “recursos humanos”, não traz diferenças significativas nas práticas. Quem manda, continua mandando, os empregados continuam obedecendo e contribuindo com o lucro do patrão. Por mais que não sejam mais chamados de lacaios, serviçais ou empregados, por mais que agora sejam sarcasticamente considerados “colaboradores”, continuam na mesma situação de subserviência e dependem da venda da força de trabalho, com o menor preço possível, para sobreviver, ou, melhor dizendo, para consumir, pois que a sobrevida está dada exclusivamente pela prática do consumo, já que são os objetos que nos dizem quem somos, até mesmo o papel-higiênico.

O cinismo chega ao ponto da introdução de todo um discurso baseado nas “pessoas”, que, segundo seus teóricos, não são “recursos humanos”, são “pessoas”. O fim do horário parece ser uma balela, pois, com os sempre enaltecidos recursos tecnológicos, o patrão pode achar o “colaborador” na hora que quiser. Logo, não há realmente mais horário de expediente: o dia todo é horário de expediente, inclusive o final de semana e o feriado, o mês todo, a vida toda. Você não precisa mais cumprir horário, todo o seu tempo de vida passa a ser da empresa. A única saída, num caso desses, é a rebelião ou o suicídio. Como o típico cidadão urbano não tem coragem nem para uma coisa, nem para a outra, ficamos como estamos, geralmente com um porre na mesa de um bar.

O parasita midiático

Sem diálogo, não há comunicação

Outro item a ser citado é o da proeminência daquilo que chamamos genericamente de “mídia”, os chamados meios de comunicação de massa (que negam ser de massa, pois se dizem cada vez mais setorizados, e que não são realmente de comunicação, mas de informação, pois para haver comunicação é preciso haver diálogo).

Sem dúvida, a mídia foi responsável direta pela construção deste momento histórico e por boa parte das características presentes nele, como a pouca profundidade das abordagens, o caráter supérfluo dos acontecimentos, a fluidez das identidades etc. Muniz Sodré, em uma aula na Escola de Comunicação da UFRJ, disse que entende a mídia como uma espécie de forma subjetiva parasitária que sobrevive graças àqueles nos quais se hospeda e dos quais retira sua força vital. No caso, esses hospedeiros são os cidadãos urbanos, os que lêem os jornais pela manhã e folheiam as revistas nas salas de espera.

Obcecados em saber o que acontece onde suas vistas não alcançam, principalmente na vida privada das celebridades, esses cidadãos e cidadãs saciam sua curiosidade nos programas de TV, no rádio, nas páginas dos matutinos e semanários. Não percebem, porém, que, no mesmo ato em que se informam, se alienam, pois as informações recebidas são ready made, ou sejam, vêm prontas, sem dúvidas nem incertezas, com todas as lacunas preenchidas, a não ser aquelas que poderão render sucessivas suítes (suíte é a continuação, geralmente no dia seguinte, de uma matéria jornalística) e que, via de regra, não são nada importantes para a compreensão do fato, embora os jornalistas lhe elevem a esse status.


É preciso acreditar


Como dizem os rappers, a cena é triste. No entanto, é importante crer que passamos por um momento de transição e que nada dessa pobreza pós-moderna veio para ficar. É melhor crer que daqui pra frente, tudo será diferente, por mais que isso não pareça crível.

sábado, 26 de maio de 2012

A vida leva o mar


Mesmo que eu lhe conte o que vivi, não há como você saber exatamente do que se trata. Você não poderá, nunca, saber da sensação que senti na beira da praia de Copacabana quando era ainda menino e meu pai me levou até a Avenida Atlântica para passear. Com certeza, não foi a primeira vez que vi o mar, mas foi, certamente, a primeira vez que soube que aquilo era o mar, que tomei consciência do que se tratava. A sensação que me ficou foi do borrifar da maresia no meu rosto, com aquele cheiro salgado inconfundível.

Recentemente, lembrei, com direito à sensação do borrifar no rosto, daquele momento. Na verdade, cá para nós, não posso nem garantir que tenha existido realmente esse momento como o lembro, mas curiosamente lembro dele, do mar, da onda quebrando, do postinho de salva-vidas, do borrifar da maresia. E era um dia nublado, não havia sol. O mar estava acinzentado.

Lembro que muito estive na beira da praia de Copacabana, bairro no qual nasci e no qual vivi por mais de 30 anos, que muitas vezes foi meu pai que me levou e que inúmeras vezes, certamente, senti o vento trazer o mar até meu rosto. Ainda mais, é preciso dizer, que até os meus dez anos, a praia de Copacabana tinha uma estreita faixa de areia separando a pista de asfalto do mar (para saber como era, é só ir até o Posto 6; lá continua bem estreita a faixa de areia). Bastava chegar na calçada (que não era “calçadão”, mas já tinha aquele desenho de ondas que caracteriza as calçadas do bairro) para estar próximo, muito próximo do mar e tomar um banho de maresia. Isso, sem contar as ressacas, que inúmeras ocasiões invadiam a pista e as portarias dos prédios da Atlântica.

Não importa se existiu, ou não, esse momento. É claro que não aconteceu exatamente como recordo. O que lembrei foi da sensação de olhar o mar, tão presente da minha vida nos mais de 30 anos vividos tão perto dele. Lembro do tempo em que saía de casa descalço, sem camisa, sem qualquer dinheiro, sem nada além de um short ou uma sunga, para passar ir à praia. Não almoçava, não lanchava, não fumava, não bebia nada. Somente ficava ali, ora no mar, no qual passava horas “pegando ondas” ou, como chamávamos, bem antigamente, "pegando jacaré", ora jogando vôlei, futebol, ou frescobol, ou ainda não fazendo nada além de olhar o mar e conversar aqueles papos toscos de adolescente.

Sou grato ao mar. Ele me ensinou que, embora nem sempre a vida venha em ondas, tem suas marés e exige essencialmente muita intuição para entendê-la. E, mais grave: exige que você saiba boiar diante de toda e qualquer circunstância, mesmo a mais negativa, sempre mantendo o sangue frio, e que nade para se locomover no turbilhão cotidiano e escapar dos predadores, que na vida em terra seca são certamente tão vorazes e sanguinários quanto os da vida marinha. Além disso, tanto no fundo do mar quanto nos cantos obscuros da vida de cada um de nós, há tantos tesouros inacessíveis que jamais serão descobertos.

Costuma-se dizer que a vida veio do mar. Certamente isso tem fundamento.

Parabéns aos Stones pelos 50 anos de adolescência congelada e pelo marketing que os sustenta


Adolescência congelada ou mumificada?
 Leio que a banda de rock Rolling Stones completou cinquenta anos de carreira. Bem, isso não é nada de mais, considerando que os Stones foram a banda que mais precocemente compreendeu que o rock era um grande negócio e que, para ter sucesso nesse grande negócio, o importante era não apenas vestir a camisa, mas assumir total e irrestritamente a aparência rebelde. E isso eles fizeram como ninguém, por isso cedo ingressaram na máquina de fazer dinheiro da contracultura e nunca mais largaram a teta.
Já citei várias vezes em meus textos o epíteto, criado por Beatriz Sarlo, de “adolescente congelado” para o vocalista da banda, o boca larga Mick Jagger, um dos homens mais ricos da história do rock. É verdade. O velhinho teima em aparentar ter quinze anos, tornando-se o mais conhecido e badalado exemplar do “forever young”, lema daqueles adultos que, apesar de idade muitas vezes já avançada, ainda fazem de conta que não saíram da adolescência. Ao contrário do que o lema representava nos tempos áureos da tal “revolta juvenil”, hoje recende a debilidade mental e emocional. Sinal que a síndrome da rebeldia perene pode causar estragos indeléveis a seu portador.

No Rio de Janeiro, perto da faculdade na qual cursei Comunicação, havia um desses. Gordão, barbudão, cabeludão, com uma bela motocicleta cheia de firulas, com caveiras desenhadas no tanque de gasolina e fios de couro pendendo do guidão, ele andava, cara de mau, pela rua, exibindo suas tatuagens nos braços e sua roupa de couro. Tratava-se, difícil negar, de uma caricatura viva, dessas que se libertaram do papel e se animaram a tentar parecer o mais real possível. A bisonha figura me sugeria a compreensão de que, nestes tempos pós-modernos, você não tem mais realmente identidade e sim uma aparência de identidade que lhe é dada a escolher num catálogo de tipos estrambóticos. Aliás, quanto mais ridícula for, mais sucesso fará, o que bem demonstram os vovôs punks e todos os seus descendentes, além dos bem comportados black metal, death metal, doom metal etc. etc. etc.

Sei não, mas apesar de sempre ter sido um adepto, ora entusiasta, ora mais precavido, do carnavalesco rock e das atitudes de rebeldia que a cultura roqueira insuflou, tenho hoje sérias dúvidas a respeito da sinceridade dessa manifestação. Parece que tudo não passou de um teatro no qual os jovens, com sua característica inexperiência e imaturidade, representaram papel de palhaços no picadeiro, bem quando tentavam aparentar ser os valentes domadores que enfrentaram as feras da caretice.

O Império contra-ataca

Quem lucrou com tudo isso, quem realmente ganhou e continua a ganhar, não foram os meninos e meninas underground. Eles simplesmente serviram como ratos de laboratório de uma articulação que os autores Antonio Negri e Michael Hardt chamam de Império e que costumo adotar, pois me parece bastante útil para denominar o poder com o qual nos defrontamos hoje.


Os "maus" Stones afastaram Brian Jones,
porque ele se drogava e atrapalhava os negócios

Para Negri e Hardt, não apenas a meninada, mas toda a massa que eles preferem chamar de “Multidão”, se revoltou contra a modernidade burocrática, conta a opressão da tradição, contra a racionalidade reinante que reprimia emoções e sentimentos e contra os sisudos tempos da família “papai-sabe-tudo”, que coagia a formação de pessoas singulares. Essa revolta, porém, foi, desde muito cedo, capitalizada pelo poder político que, como nunca antes havia ocorrido, conseguiu, assim, acesso à subjetividade individual e foi mais além, conquistando os terrenos da emoção, dos sentimentos e mesmo dos sonhos mais íntimos.

Segundo os autores, formou-se, desse modo, o poder imperial, muito mais repressivo, opressivo e violento do que o anterior, tão ferrenhamente combatido pela Multidão. Tudo indica que o tiro saiu pela culatra para os jovens contraculturais. Para aceitar viver na sociedade sob jugo do Império, essa meninada teve que se conformar em ser uma caricatura, como Jagger e o “maldito” Keith Richards. Assim, confundem a imagem com a coisa e fazem de uma revolta apenas simbólica e que vai de encontro com o que dita a lógica imperial, uma imagem de revolta real e revolucionária. Ora, de real, nisso tudo, só a conformidade e o conservadorismo disfarçado de rebeldia. E de revolucionário nada há, pois o que o rebelde sempre quis foi ser amado por aquele contra o qual se rebela.

Em resumo, a meninada rebelde do underground não ganhou nada, mas como é crédula e todo mundo diz que eles mudaram o mundo, se acham vencedores, os autênticos campeões das transformações do século XX.

Parabéns, então, aos senhores Stones. Representam, mais que uma época, são símbolo da estupidez humana, que insiste em confundir, sempre, objeto e representação, e continuam a ser o parâmetro da malandragem que levou o rock tão longe: se o negócio exigia cara de mau, eles fizeram o pior que podiam e lucraram muito com isso. Tolos, realmente, foram os que acreditaram que tudo isso era sério e real, como eu. Agora, mais tolos ainda são os que continuam acreditando e vão aos shows caça-níqueis que os vovôs ainda fazem por aí.

Como nossos pais

É preciso dizer que os Stones tiveram um belo começo, com notáveis baladas e inumeráveis blues, que chupavam de excelentes figuras, como Howling Wolf. No entanto, provavelmente com a ajuda do empresário Andrew Oldham, que cuidava da imagem e dos negócios do grupo, cedo entenderam que o caminho era o rock “pesado” e belas caras de mau.

“Você deixaria sua filha namorar com um Stone?”, Oldham sugeriu a um jornalista, visando uma manchete no Melody Maker. É o marketing da rebeldia que alavancou não apenas os roqueiros dos anos 1960, mas também o punk de Malcolm McLaren, que, com espírito publicitário, criou os Sex Pistols e todo o visual que iria canalizar a revolta dos meninos e meninas contra os pais. O problema é que eles não avançaram muito e mantiveram os mesmos valores, pois, na prática, a maior parte somente fez o que os pais simbolizavam como um mau caminho. Na cabeça da pequena burguesia, liberdade é depravação e loucura, por mais incrível que isso pareça.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Uma cidade de narcisos é uma necrópole


Aristóteles disse que o homem é um animal político e isso significa dizer que é um animal da polis, da cidade, que, segundo Châtelet, Duhamel e Pisier-Kouchner, autores de um interessante livro sobre as ideias políticas, é uma organização que não se funda sobre a força bruta ou sobre prescrições divinas. A cidade seria, assim, o ambiente natural do humano, aquele no qual “pode realizar a virtude (a capacidade) inscrita em sua essência”, como referem os autores citados.


A cidade é humana, feita pelo e para o humano. É um ambiente especular, no qual nós, Narcisos que só suportamos e adoramos o que é espelho (vide Lacan e seu interessante texto sobre o tema), nos reconhecemos enquanto humanos. É no seio desse ambiente, com imagens, cores e odores que nos dizem tudo sobre nossa vida (ou sobre a vida que identificamos como nossa), que geramos aquilo que chamamos a identidade, o nosso “eu”, tudo aquilo que compreendemos como relativo a nós mesmos. E, mesmo que consideremos, como Maffesoli o faz, que não há mais identidade, mas identificações, temos que aceitar que é no ambiente citadino que toda e qualquer identificação se dá. Afinal, é na relação intersubjetiva que o humano pode se dizer humano, pode enunciar uma identidade e, historicamente, é apenas nas cidades que se pensa sobre isso da forma como estou enunciando. Falar nesses temas com um sujeito que vive numa zona rural, que teve sua formação subjetiva estabelecida em um grupo nuclear isolado do convívio com outros grupos, sem o convívio diário com o multifacetado mundo da cidade é, provavelmente, como falar um idioma estranho com ele. Não é um habitante urbano, está fora do jogo comunicativo e semiológico dos citadinos.


A cidade, como a estamos tratando aqui, foi uma invenção grega, mais propriamente ateniense. Foi dentro dela, com discussões que giram em torno de temas relativos a ela (ou ao convívio dos que vivem nela), que se formulou a filosofia ateniense, com Sócrates, Platão e Aristóteles como figuras exponenciais, bem como todo o aparato cultural, artístico e arquitetônico que até hoje encanta o mundo.


Lamentável é que a cidade foi, originalmente, o lugar de realização do humano, local de congraçamento na Paideia (um termo de difícil tradução que indica a cultura no sentido ética e moralmente constitutivo do melhor que há em nós), mas, agora, com o advento do capitalismo tardio, com sua cultura de consumo e de massa, parece cada vez mais distante desse objetivo e mesmo caminhar no sentido oposto. Por algum motivo, a sociedade humana resolveu cultivar o que há de pior em seus membros.


Não há definitivamente nada na cultura pós-moderna, como se convencionou chamar a cultura do final do século XX e início do XXI, que nos remeta a uma qualificação, à busca da melhoria das potencialidades humanas. Pelo contrário, parece haver um gozo mórbido em ser uma pessoa da pior qualidade, em enganar, trair, roubar e, não raramente, matar ou ajudar a matar pela cumplicidade. Tudo isso mascarado pelos direitos individuais do liberal e ilustrado pela fábula das abelhas, de Mandeville.


É evidente que há exceções, mas muitas dessas exceções são ilusórias. Parecem mais comprometidas com uma pura formalização da virtude do que efetivamente com a virtude em si. Em outras palavras, a virtude, como tudo na sociedade de consumo, torna-se um belo papel de embrulho a ser exposto na vitrine mais próxima. Não é importante ser bom, qualificado, virtuoso, a não ser em aparência.


E o pior é que a diversidade de aparências funciona como se as aparências diversificadas não apenas “representassem” coisas diversificadas, mas “fossem” efetivamente coisas diversificadas. Trata-se do caso de confusão entre objeto e signo, entre a coisa e a sua representação, caso no qual Narciso realmente se confunde com o espelho das águas e mergulha no lago em busca de uma imagem que lhe promete ser a coisa imaginada. Agindo assim, é claro, seu destino é a morte por afogamento, assim como o consumidor se afoga em objetos que, segundo sua fantasia, lhe significam o amor próprio.


Uma cidade de Narcisos é, assim, uma necrópole.

domingo, 20 de maio de 2012

O diabo adverte: há muito boas intenções na saúde pública...


Será efetivamente a violência um tema de saúde pública? Tento começar a pensar nisso, quando surgem, pairando sobre mim, duas figuras mitológicas. À minha direita, um anjo. À esquerda, um diabinho. “Claro que é”, diz a angelical e maviosa voz. “Imbecil, nem pense nisso, não se deixe enganar, é óbvio que uma coisa nada tem a ver com a outra, a não ser como mais um golpe baseado numa farsa”, soa o rouco e desagradável timbre diabólico. “E de golpes, eu bem entendo”, completa, “sempre foram minha especialidade”.

Eu, de minha parte, antes de me deter sobre o tema, me indago: por que é que o diabo sempre está à esquerda?

Mas, vamos lá. E, pedindo licença às forças do bem e do mal, pensemos no conceito de violência.

Gosto do dicionário do Houaiss. Costumo usá-lo com frequência. Ali está escrito que violência é a ação ou o efeito de violentar, de empregar força física contra alguém ou algo, fazer uma intimidação moral contra alguém, empregar crueldade e força numa ação contra algo ou alguém. No plano jurídico, torna-se o “constrangimento físico ou moral exercido sobre alguém, para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem; coação”.

De modo geral, a coação parece estar na raiz do conceito, ou, para alguns, mais precisamente a coerção. Num plano mais subjetivamente elevado, alguns estendem o conceito de violência para ações corriqueiras nas quais não há o reconhecimento do outro, sendo uma espécie de ataque frontal à identidade, um atentado aos direitos individuais, que vai contra o discurso democrático da sociedade que se imagina prenhe de possibilidades, é claro, e também muito justa e leal. Assim como, é mais evidente ainda, todos os seus cidadãos, aqueles que se horrorizam com a violência, mais atroz modalidade de destruição da cidadania.

No entanto, tudo indica que quando se fala de violência, se está falando é do outro, da violência do outro, nunca da nossa. Essa parece ser uma característica subjetiva do sujeito ocidental, entendendo por isso aquele ou aquela que adere às propostas de identidade que pactuou com base nos princípios subjetivos da dita civilização europeia, com suas expansões para as Américas e África incluídas. Um de seus principais apanágios é ser absoluta e completamente voltada para o próprio umbigo, eminentemente egocêntrica a ponto de sequer reconhecer qualquer alteridade a não ser a que inventa e nomeia. Trata-se a si própria como o ápice das aspirações humanas, como bem mostra Norbert Elias quando fala do processo civilizador.

Há um conceito que visa descrever um tipo de violência que não pode, muitas vezes, ser percebido claramente. Trata-se da “violência simbólica”, enunciada por Pierre Bourdieu, que remete à coerção para que o indivíduo se localize no circuito da sociabilidade e, por conseguinte, no da subjetividade, de acordo com o padrão proposto pelo discurso hegemônico ou dominante, reconhecido como um espelhamento perfeito da realidade e, primordialmente, como legítimo. É, sem contestação, uma forma de violência bem mais perniciosa do que a violência física imposta diretamente sobre outrem, simplesmente porque se afigura como quase invisível. “Será essa, também, suscetível de ação preventiva pela saúde pública?”, pergunta o diabo, riso escarninho. “Só fechando todos os jornais, incendiando as agências publicitárias e enforcando o último CEO nas tripas do último político”, sentencia.

Enquanto o anjo argumenta com belos exemplos de direitos individuais, qualidade de vida, fim de epidemias e afiança que o sistema público é eficiente o suficiente para dar conta de qualquer tema social, eu penso como o diabo gosta: a Saúde quer abarcar tudo, o mundo, transformar nossa vida numa anamnese e nossos males em diagnósticos. Sua ação discursiva é a da panaceia universal, quer se meter principalmente onde não é chamada, revirar tudo, como Foucault bem havia dito. E, como um de seus seguidores também sugeriu, quer ir além do comportamento, dos sentimentos, quer alcançar a alma, controlar o desejo, agenciá-lo.

Está no cerne de um discurso maior, o científico, aquele que Lyotard disse ter perdido o trono de grande narrativa. Mas, por outro lado, como aparentemente todos na pós-modernidade, rende homenagens incondicionais a outra narrativa portentosa, a econômica. Não é à toa que defende a intervenção na vida social e pessoal para o famoso “enfrentamento” da violência, como se esta fosse uma espécie de varíola, ou, mais contundentemente, com o argumento racional das equações numéricas das planilhas de gastos públicos. Isso significa dizer que o “enfrentamento” não existe exatamente porque você existe e é importante, muito menos porque é cidadão ou chefe de família, mas porque pode se tornar uma vítima da violência e dar trabalho e despesas. Isso significa que se você pode pagar regiamente as suas próprias despesas, é saudável, está livre do blábláblá dos agentes de saúde e, melhor ainda, pode fazer uma banana para todos os especialistas sanitaristas. Para você, é claro, SUS é só a primeira sílaba de suspense ou susto.

“Essa lógica das planilhas é extremamente violenta, um bom exemplo de violência simbólica, deselegante e grosseira, típica dos meus camaradas liberais”, explica o diabo, enquanto o anjo fala dos postos de saúde a serem construídos com a poupança de recursos, das equipes de agentes comunitários etc. que poderiam ser criadas. Exalta-se ao falar que escolas também poderiam ser construídas. “Mais entulho autoritário, aparelhos ideológicos”, blasfema, encapetado.

Eu, de minha parte, continuo na dúvida. Acredito nas boas intenções do anjo e de todos os profissionais de saúde, mas também ouço a voz diabólica me dizer: “De onde venho, estamos superlotados de boas intenções”.




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... E também deixa claro que ter preconceitos tem seu lado bom

Após o debate, ofereci um café aos contendores. O anjo se desculpou, mas estava sendo chamado de volta para mais uma missão catequizadora. O diabo, porém, disse que queria me falar em particular, mas adiantou ao anjo que não iria falar certo nome em vão, muito menos me constranger a cobiçar alguma mulher do próximo.

“Estou embatucado com uma ideia”, diz o malévolo equilibrando a xicrinha com suas patas de bode. “É o tal do ‘enfrentamento ao preconceito’ que esses intelectuaizinhos pequeno-burgueses tanto falam. Pense comigo, num simples exercício lógico”, fala, introduzindo o tema, e começa a exposição.

“Uma coisa é o conceito, que serve para pensar, não é? Outra coisa, o preconceito, que vem antes do pensamento como o próprio nome permite dizer: pré-conceito. Até aqui, não há problemas, todos concordamos”, completa.

“Mas, veja, caro mortal, que o conceito nasce necessariamente de um preconceito, a não ser que seja gerado espontaneamente, por luz divina, o que é improvável, pois tudo aqui aparece em um processo, geralmente num conflito de teses”.

Melhor não evocar certos nomes, eu disse.

“Ok, ok, mas como se pode filosofar com restrições a falar este ou aquele nome?”, ele argumenta, mas continua sua dissertação. “Todo mundo te diz: diga não ao preconceito, não tenha preconceito, denuncie o preconceito, como se ter preconceitos fosse crime hediondo. Mas, ora, se você simplesmente disser não ao preconceito, como chegar ao conceito? Você tira degraus da escada e não pode mais subir nela, não é verdade?”.

Sou obrigado a concordar.

“Dizem: não tenha preconceito! E, no mesmo movimento, matam o conceito. E pior: quando dizem para denunciar, assustam você, que passa a examinar sua consciência e sua inconsciência, vasculhando tudo para rasgar e queimar tudo o que pareça preconceito. Mas, como você julga isso? Com outro preconceito, o de que os conceitos nascem assim, por geração espontânea, da mesma forma que os carneiros nascem de camisas suadas cobertas por farinha. Absurdo e estúpido. Trata-se de um atentado à inteligência, um ataque frontal à capacidade humana de pensar!”, afirma.

“Pense da seguinte forma: o conceito nasce de um trabalho de parto no qual o preconceito tem papel fundamental. É verdade que se você fica no preconceito, você comete um aborto, mata o conceito antes que esteja maturado para vir á luz, não é? Mas, se você evitar pensar algo, porque é um criminoso preconceito, não chega nem ao básico, nem à concepção. Aí, pode ter certeza de que é um irremediável imbecil completo, pois os meio imbecis pelo menos têm lá seus preconceitos”, sentencia.

Sou obrigado a concordar com você, meu caro príncipe da escuridão, digo.

“Pior: caro mortal, o sujeito é um imbecil mais que completo, pois ainda por cima é burro, já que para não ter preconceitos se pendura um imenso e daninho preconceito. Não há salvação desse jeito”, finaliza, antes de deitar a xícara sobre a mesa e desaparecer numa nuvem de fumaça com cheiro de enxofre.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Promoção de sonhos


Leve um sonho
É promoção!
Chocolate, creme
Chantilly, doce de leite.



É um deleite!



Sonhos em promoção!
Tudo o que você sempre sonhou
nunca ter sonhado.



Recheios deliciosos
Como travesseiros cremosos
Adormecidos na massa de pão de ló.


Mas, é só.
É só chegar!


Olha que os sonhos vão acabar.



Melhor correr
Amanhã
A promoção acabou
Só vão sobrar migalhas e pesadelos
Para quem ainda não sonhou.







MAS, ATENÇÃO!

Não aceitamos devoluções.

Alertamos:
os sonhos são para se sonhar acordados.


E, muito importante:
de acordo com o acordo que for acordado
entre o sonhador e o que for sonhado.



A direção