terça-feira, 10 de abril de 2012

Olhe onde pisa



Você vai ter que dar bom dia ao chão, senão ele te derruba

Imagine o chão de sua casa como uma superfície inteligente, dessas em que você toca e ela entende, como as telas de celulares e terminais de autoatendimento. Você adoraria, não é? Alguém irá lhe visitar e você mostrará, orgulhoso, o funcionamento do fantástico piso touchscreen. Se ficou babando é porque toda criança faz isso quando ganha brinquedo novo e todo caipira gosta de se gabar de ser proprietário de alguma novidade tecnológica, como carros e outras máquinas. Coisa de pobre.

Pobres, aliás, existem muitos no mundo. Certamente, numa proporção de milhões para um, se tomarmos em comparação a quantidade de ricos. E pior: os pobres, além de numerosos, se exibem sem qualquer pudor. Já os ricos, que já são poucos, se escondem, mas se escondem tão bem que ninguém sabe direito onde os achar. Falo dos ricos de verdade, não dos novos ricos. Estes são facilmente localizáveis, pois gostam de fazer alarde de suas recém conquistadas fortunas. O mesmo acontece com bandidos, pelo menos nos filmes.

Mas, meu assunto não é a pobreza ou a riqueza, mas o piso inteligente da IBM, que permite que você saiba, “em tempo real”, se sua mulher chegou em casa, se está sozinha, se levou os filhos, o Ricardão ou o Talarico, ou se, desgraça completa, levou a sogra para passar um tempo na sua casa. Nesses casos, o chão inteligente seria muito útil se pudesse eletrocutar seletivamente.
Em baixo, o chão inteligente registrando tudo

O caso é que o piso inteligente tende a permitir que você saiba tudo o que está acontecendo no local onde está instalado. Sua mãe está velhinha e caiu? O piso vai te avisar. O cachorro fez xixi no tapete? Lá está o chão caguete a denunciar essa arte canina. O chão não deixa passar nada, afinal é sobre ele que vivemos e fazemos tudo, tudo mesmo. Por isso, cuidado com o que mostra e faz sobre um chão como esse.

As novas gerações, as pessoas que estão chegando ao mundo agora, já devem estar se acostumando a essa blitz tecnológica. Essa tal tecnologia está em todo canto, fazendo tudo o que pode para que nos sintamos mais inúteis do que realmente somos. Mais um pouco e nossa musculatura servirá apenas para embelezamento estético de machos ou nem tanto. Nas mulheres, não mais serão necessários músculos. Nunca foram muito úteis no mundo feminino e mesmo os que apresentavam alguma importância estão sendo substituídos por próteses de silicone.

Aliás, as coisas andam cada vez mais artificiais por aqui. Tudo indica que os humanos ocidentais odeiam com uma intensidade inaudita o corpo e tudo aquilo que aparenta ser natural. Formas arredondadas? Fuja disso. Gravidez? Não, obrigado. Envelhecimento? Rugas? De jeito nenhum! O ciclo natural não pode seguir seu curso.

A única naturalidade que conhecemos é a artificialidade da cultura, que faz com que ajamos “naturalmente”, como autômatos individualizados. Aí, surge a “vida sem vida” de Slavoj Zizek, uma forma de viver meio defunta que faz uso de expedientes que tentam eliminar todo e qualquer risco ou consequência natural dos atos naturais. Assim, se “naturalmente” beber cerveja causaria embriaguez, criou-se a cerveja sem álcool. Você bebe, se mantém saudável e evita o vexame natural do porre. Também há o café sem cafeína, para evitar os males desse elemento componente fundamental do café e de outras bebidas. Jamais tomei café tão sem graça.

O natural é maldito, elimine-o. E a camisinha de vênus, a já popular camisinha? Trata-se, sem dúvida, do maior exemplo de vida sem vida e de empresariamento de atos naturais. É como comer bala com papel, uma merda. E nem todas as justificativas saudáveis do mundo para o uso desse invólucro emborrachado conseguirão desmentir essa verdade. Não quer pegar doença sexualmente transmissível? Selecione com quem trepa, em primeiro lugar. Se isso não acontecer, naturalmente você vai morrer, com ou sem camisinha.

Com relação à ecologia, tema obsessivamente tratado nos dias de hoje, concluo que deve haver nos humanos uma nostalgia dolente dos tempos de macaquices (ainda bem que ainda não há advogados símios, senão essa referência desairosa ao passado poderia render um processo judicial), pois se fala o tempo todo de natureza, preservação dos animais e florestas etc. É evidente que, como sempre por aqui, quando se fala muito de algo, com certeza não é à vera e, não raro, isso que é falado simplesmente não existe. Ecológico, para um bom entendedor, é meia palavra que significa “negócios”. Cada vez que se fala em evitar o corte de uma árvore, que se salva uma baleia ou tartaruga ou que o Greenpeace faz das suas midiaticamente espetaculares peripécias, pode ter certeza que alguém está ganhando com isso. E aposto que quem está faturando não fecha a torneira quando escova os dentes.

Mas, comecei falando do piso inteligente e fui mais longe, quem sabe mais que o necessário. Essas coisas inteligentes estão, verdade seja dita, me deixando irritado. Veja os produtos da Microsoft, que, a cada vez que são relançados com novo número e novas supostas vantagens, vêm piores, exatamente porque trabalham com a noção estúpida de que sabem o que você quer, certamente mais do que você mesmo. O conjunto de softwares que compõem o Office são exemplos fatídicos. Você digita algo, no word, por exemplo, formata e tudo, mas o maldito programa acha que é muito íntimo seu e vai transformando o que você fez naquilo que ele acha que você queria ter feito. Não foi à toa, penso, que um dos poucos livros que foram defenestrados da minha biblioteca foi o do suposto criador do Windows, você sabe quem. Li o primeiro capítulo e, chegou. Um lixo narcísico que não merece ocupar espaço numa estante.

De todo modo, olhe onde pisa, porque o piso inteligente pode impedir você de entrar em casa, se houver algum problema ou defeito, ou, é claro, se for programado para isso. Ao contrário do que se supõe, não se consegue segurança com toda essa tecnologia de controle. Isso funciona ao contrário e a insegurança generalizada é o resultado. Ora, o inseguro é um bom consumidor, um grande defensor da simulação de ecologia promovida pelas empresas e das políticas fascistóides de segurança pública (pois teme tudo, principalmente a natureza e a polícia e, como mostrou Anna Freud, uma das melhores formas de apaziguar um agressor é se identificar com ele). Além disso, se caracteriza por ser um cidadão respeitador das mais absurdas leis. Vive querendo segurança máxima e aceita qualquer coisa se alguém lhe oferece isso. Qualquer coisa, até mesmo viver sem viver.

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