sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Partido de Wall Street


Há uma espécie de “Partido de Wall Street” (PWS) que controlou a sociedade ocidental na maior parte do século XX e adentrou este com a mesma volúpia de poder. Domina o governo da locomotiva política, militar e econômica, os Estados Unidos da América, manda no Congresso, graças à corrupção de políticos amantes do poder do dinheiro e ansiosos por ter acesso à grande mídia, que pertence ao PWS (não é aliada, pertence a, que fique claro).

Mas não é só a mídia e os políticos venais que estariam no bolso dos banqueiros. Boa parte do esqueleto do aparelho estatal (falo do estatal, não do governamental, ou seja, servidores públicos estáveis em todos os níveis, não os prefeitos, governadores, deputados ou senadores, que são passageiros) é controlado e, hoje, existe apenas para atender direta e expressamente as necessidades e demandas do PWS.

Na verdade, todo aquele, civil, militar, cidadão, consumidor, mandatário ou mendigo, que orienta sua vida em função do valor e do poder do dinheiro, ajoelha diante do touro que orna a sede do PWS, comunga na mesma cartilha, rende homenagens e, quando possível, se estatela em decúbito ventral para acarpetar o caminho dos chefes. Não se sente como a carne que se mói para alimentar a máquina, mas como sócio, embora na sociedade em questão fique primordialmente com as contas a pagar.

O objetivo é centralizar o máximo possível o poder, projetando um fluxo de concentração da circulação do dinheiro para um duto apenas. O duto que leva o fluxo para onde interessa ao PWS, ou seja, seus cofres, até porque falo de dinheiro de verdade, não de crédito ou aquele virtual que forma a bolha financeira. O PWS não se interessa pelo dinheiro virtual, não o quer, pois sabe que de nada vale, pois não existe. O que lhe interessa é o real, o que pode ser referido ao ouro, o que tem lastro.

Da mesma forma, o mesmo interesse que o PWS demonstra pelo dinheiro, também exibe pelos recursos naturais do planeta. Por isso, não se iluda, você deve poupar energia, água, manter as cidades limpas e preservar os recursos naturais que serão herdados pelos adeptos do PWS. Sua ação ecológica é fundamental para isso. Não se esqueça que você é um sócio dos banqueiros: eles entram com o bônus, você com o ônus. E, mais, faça como eles dizem – pense globalmente, aja localmente –, mas não se iluda: eles pensam localmente e agem globalmente.

Mais, ainda: você é supérfluo, quase ecologicamente dispensável. Afinal, a lei do PWS é a de Darwin e você não vá pensar que é o mais forte de que a tal lei fala.

Muito do que escrevi acima vem de uma reflexão que tenho desenvolvido há bastante tempo e que encontra eco em algumas boas referências em outros pensadores. Um deles é David Harvey, um geógrafo marxista que vem dizendo coisas interessantes ultimamente. Uma delas diz respeito à noção de que toda a realidade pesada e injusta que permeia a vida social no ocidente não vem de ganâncias individualizadas ou abusos – embora ele mesmo reconheça que isso existe às toneladas. É mais uma formulação que se estabeleceu “por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição”. Isso torna a situação um tanto grave e revoltante: “Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo”. Ou seja, o sistema é fechado e só enxerga o próprio umbigo. Os outros, o mundo em volta, que se foda. Não há horizonte ético possível, a não ser o da razão cínica, absolutamente aética. É guerra e vale tudo.

Não sei com certeza, mas creio ter sido Benjamin Constant que comparou o comércio e a guerra. Ambos são modos diferentes de conseguir a mesma coisa: a posse do que se deseja.

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