sábado, 14 de abril de 2012

O liberalismo seria o sistema perfeito para se viver num mundo ideal, se existisse mundo ideal



Leio texto brilhante de autora liberal chamada Ayn Rand, no qual ela faz uma bela defesa do egoísmo, isto é, da preocupação com nossos próprios interesses acima da preocupação com os interesses dos demais. Em um dos trechos, a autora critica a mentalidade dos que se preocupam com pobres e deficientes numa “sociedade livre”. Como já disse, o texto é bom, os argumentos são fortes etc., mas, a começar pelo uso do termo “sociedade livre”, parece haver algo bem errado. Afinal, livre para quem?


Liberdade é o que todo liberal quer. Não há dúvida disso, por isso propugna os invioláveis e “imexíveis” direitos individuais, que devem ser compreendidos como garantia de vida individual (e egoísta) sem interveniência do poder político. Esses tais direitos seriam apolíticos, estariam fora de toda e qualquer ação de poder. Isso não impede que, volta e meia, eles intervenham no campo político.
Os pobres não existem, na verdade são seres inferiores ou vagabundos. Seus males são por culpa deles mesmos e lhes oferecer ajuda, benefícios sociais, é apenas reforçá-los. Já o liberal, é claro, é superior e muito trabalhador e apenas por isso o Estado lhe ajuda quando é necessário. E olha que, na história do liberalismo, isso tem sido frequentemente necessário
A igualdade na sociedade se estabeleceria a partir do reconhecimento do Estado da limitação de respeitar e garantir os direitos individuais, que seriam, como toda propriedade, invioláveis.

Bem, a começar por aí, é preciso perguntar quem, afinal, é garantido por esses tais direitos na tal “sociedade livre” (se é que isso existe ou é apenas uma retórica hábil dos liberais para nos iludir, nós que queremos mais justiça do que liberdade, ou que entendemos que, sem aquela, esta não presta para muita coisa). Sim, porque não são todos, obviamente, os contemplados com os direitos individuais. Se formos fundo na questão, quem sabe descobriremos que são, na verdade, muito, muito poucos, até porque a condição de indivíduo como construção de massa, legada por Felix Guattari, nos parece convincente e desmente a força do poder decisório do tal indivíduo. A maior parte de nós é total e completamente agenciada subjetivamente e só é viável pensar no espaço dos direitos individuais enquanto independentes do mundo social se o tal indivíduo puder se assumir enquanto alguém que compreende o conceito de indivíduo como uma referência de autonomia, o que não é definitivamente o caso.

Milton Friedman certamente apostaria na tartaruga
   
O liberal é um ser engraçado, para não dizer trágico. Acha, como Rand, que, embora forneça o substrato dos míticos direitos individuais, a natureza não garante segurança automática para ninguém e, assim, entende que os pobres devem ser abandonados à própria sorte e arrumar um jeito de garantir alguma segurança (em outras palavras, darwinismo social). A sociedade não deve proteger, o liberal odeia o protecionismo, a não ser quando quem o protegido é ele próprio. Trata-se do “direito individual” do “meu pirão primeiro”, do “fodam-se os outros, eu quero é me dar bem”.

Rand fica louca, possessa, com essa ideia de proteção social. “Aceitar que a ‘sociedade’ deve fazer algo pelo pobre, implica aceitar a premissa coletivista de que a vida do pobre pertence à sociedade. Essa atitude revela um mal mais profundo: o altruísmo corrói a compreensão dos conceitos de direitos e do valor da vida de um indivíduo; revela uma mente da qual se apagou a realidade de um ser humano”, afirma. Meu Deus. Como dito, bela ideia, se vivêssemos no mundo etéreo de Platão ou em algum paraíso.

Na prática, não é à sociedade que a vida do pobre pertence, mas a uma parte seleta da sociedade, que se locupleta impondo seus ditames, caprichos e propostas políticas, que não são geralmente enunciadas como políticas, mas como técnicas. O mais grave é que essa elite se sente e se posiciona para além da sociedade humana e entende que é sua dona, a razão de sua existência. Todos os demais são descartáveis e/ou inexistem. É o direito individual de usar o poder do dinheiro para obter todas as vantagens possíveis e esmagar todo aquele que não o tenha. Sim, porque esse nobre direito o pobre não tem.

O liberal se entende como uma espécie de escolhido, de ser especial. O Estado não deve proteger os pobres, mas deve proteger os bancos e a livre iniciativa aética, que é uma das maiores causadoras da pobreza e de misérias maiores. Todos sabemos onde o liberalismo nos levou, vide as duas grandes guerras do século XX, a depressão dos anos 1930 e esta mais recente, que atinge e destrói a economia da Europa. E quando se fala em destruir a economia é bom ter noção de que não é a abstração econômica a atingida, mas as pessoas, que sofrem concretamente com a destruição de suas vidas.

O liberalismo é um belo sistema, em tese. Na prática, cá para nós, é uma tragédia, um absurdo. Sua lógica se assemelha, ou tem origem, quem sabe, nos antigos eleatas, como Zenão e Parmênides, que pregavam a existência de uma realidade metafísica na qual a experiência e o saber empírico não teriam qualquer valor. Zenão, por exemplo, acreditava que, em uma corrida, se Aquiles, o herói grego da Ilíada, desse uma vantagem, ainda que pequena, a uma tartaruga, jamais a alcançaria, pois, veja só, o trajeto que andasse também o seria pela tartaruga, o que determinaria a vitória do animal. O mesmo filósofo acreditava, ainda, que uma flecha jamais chegaria a seu alvo, pois é possível dividir infinitamente o espaço a ser percorrido até o alvo. O problema é que Aquiles deixaria a tartaruga a comer poeira e as flechas, salvo se usadas por quem não sabe, costumam atingir os alvos.
O liberal se entende como uma espécie de escolhido, de ser especial. O Estado não deve proteger os pobres, mas deve proteger os bancos e a livre iniciativa aética, que é uma das maiores causadoras da pobreza e de misérias maiores
O liberal é aquele sujeito que não tem pinta de lunático, mas acha que a tartaruga ganhará a corrida e que a flecha jamais atingirá o alvo. Tudo no mundo e na sociedade contraria o que ele pensa e acredita, mas o liberal se mantém incólume, com a sua firme fé na mão invisível, na deidade do mercado, que a tudo regula, na racionalidade e nos princípios de liberdade individual. Cria um mundo absurdo, ideal, e mora nele, como se as coisas deste mundo não existissem.

Os pobres não existem, na verdade são seres inferiores ou vagabundos. Seus males são por culpa deles mesmos e lhes oferecer ajuda, benefícios sociais, é apenas reforçá-los. Já o liberal, é claro, é superior e muito trabalhador e apenas por isso o Estado lhe ajuda quando é necessário. E olha que, na história do liberalismo, isso tem sido frequentemente necessário.

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