sexta-feira, 20 de abril de 2012

O corpo, esse desconhecido torturado


"Belo" ego, não? 
Leio matéria no sítio Terra que anuncia um ovo de Colombo: “O corpo fala: desejo por certos alimentos pode ser falta de nutrientes”. A matéria deixa claro que o corpo fala conosco e que a vontade de comer algo não necessariamente é uma frescura de nossa personalidade ou um capricho da publicidade que te incita a desejos estranhos.
O corpo fala, é claro, mas o problema é que nem sempre a nossa consciência fala através do corpo. Nenhum problema imediato, pois essa nossa consciência é apenas o ponto microscópico do iceberg de nossa existência. Se dermos apenas atenção a ela, não entenderemos nada, nem do corpo, nem de qualquer outra coisa na vida. Aliás, graças ao fato de tantos entre nós darem tanta importância ao "eu" (alguns chamam de “ego”), é que os corpos andam vilipendiados sob tantas tatuagens, piercings e outros pregos e argolas com os quais se tortura o pobre corpo. Eu disse "se tortura"?, ah, desculpe, deveria ter dito "se adorna", fica mais bonitinho.

O corpo não é nosso, é preciso entender isso. Ele está, por assim dizer, emprestado para uso durante o tempo em que estamos por aqui e achar que somos donos de nosso corpo é uma ilusão perigosa. Em primeiro lugar, porque achamos que podemos fazer o que quisermos dele, inclusive crer que o podemos dominar. Mas, no final, ele sempre ganha, ou, mais precisamente, a natureza sempre ganha e voltamos a ela, desta vez sem “ego”, com um monte de terra por cima, ou no estômago de alguém, ou ainda no fundo de algum rio, conforme o rito funerário escolhido.

O corpo nos suplanta e transcende, é o que nos integra a todos e aquilo que nos lembra que somos inexoravelmente vinculados à natureza, que ela nos comanda através do corpo e jamais o oposto. No entanto, o humano cismou que deveria comandar a dita e, por incrível que pareça, acredita nisso piamente, inclusive quando se tatua ou enfia um piercing sabe lá onde. Parece claro que colocar um ferrolho no umbigo e desviar o curso de um rio, ou dinamitar uma montanha ou jogar lixo em um rio são ações que têm a mesma matriz simbólica. Todos falam da tendência arrogante do ser humano em se considerar fora da natureza e de criar, mais arrogantemente ainda, uma suposta segunda natureza, à qual costuma chamar de “cultura”.

As manifestações naturais, espontâneas do corpo têm sido, aliás, combatidas com um furor surpreendente. A gravidez é o melhor exemplo, talvez. Todos os recursos de anticoncepção e ainda os abortivos dizem que o humano não quer saber de respeitar a lógica do copulou, emprenhou. O humano quer prazer livre, mas, mais do que isso, quer mandar no corpo, quer mostrar que sua pífia personalidade é muito mais importante do que todo o planeta. Outra revolta contra a natureza, manifesta nas inúmeras intervenções estéticas, parece ser prova cabal disso.

E o mais engraçado é que vive a falar de natureza, ecologia, preservação ambiental, qualidade de vida e por aí vai. Tolo é quem acredita que essa conversa é séria.

Um comentário: