sexta-feira, 6 de abril de 2012

Nem uma mão invisível pode misturar o liberalismo e a democracia


Alguém precisa pôr um hardware desse na mão invisível
Há uma contradição fundamental entre a doutrina liberal e a democracia. Geralmente, com bom senso, seria impossível relacionar uma à outra. No entanto, estranhamente, hoje a maioria das pessoas confunde as duas, como se fossem visceralmente unidas. Tem algo errado aí, é claro que tem.

A contradição básica é simples e direta: a democracia intenta a distribuição do poder, enquanto o liberalismo almeja limitá-lo, concentrá-lo. Como se pode confundir duas vertentes com objetivos e metas tão diametralmente opostos? A resposta parece também simples e direta: nem todos confundem. Parece que os que conhecem uma coisa e outra, só o podem fazer por interesses ou má-fé. De todo modo, há que considerar que, como diz a máxima dos administradores de empresas, o impossível era impossível até que alguém foi lá e fez. Logo, isso nos faz pensar num terceiro grupo, o dos que acreditam que juntar o inconciliável é uma tarefa atraente e viável.

Na verdade, o liberalismo não admite a democracia e esta também não pode conviver com a lógica liberal. O único modelo democrático aceito pelos liberais é o da democracia representativa, sendo que, com a despolitização liberalizadora, se resume a eleições de dois em dois ou de quatro em quatro anos. Fora isso, política é anátema.

Norberto Bobbio reconhece que o liberal somente admite a democracia na sua formalidade, nunca na sua pretensão de distribuição de poder. Ou seja, da democracia, o liberal só quer a casca. Em termos mais precisos, vende a casca dizendo que é a fruta.

A partir do belo e metafísico ideário liberal, que inclui até mesmo uma mão invisível, há espaço privilegiado para o desenvolvimento de quadrilhas reais, não invisíveis, que se locupletam da completa liberdade. Cá para nós, para essa proposta metafísica ser levada a sério, fundamental seria, quando de sua instalação, se os pontos fossem zerados, ou seja, se todos partissem do mesmo ponto na competição. Como isso não é possível, não funciona. Ou melhor: funciona, mas gera, em si, mesmo uma péssima distribuição de rendas e, além disso, um câncer incurável, o banditismo econômico: bem mais safo, eficiente e letal do que o banditismo que te espeta com uma faca. E essa forma de bandidagem é vermicular ao capitalismo liberal. Mais que isso, é estrutural.

A verdade é que o que o bom liberal não conta é que se a política é suja e corrompida na sociedade liberal, isso ocorre por conta do empresariado corruptor, que obedece aos ditames da maximização do lucro e tudo faz para conseguir seus intentos. Mas, no entanto, a imprensa liberal e os tolos só enxergam os corrompidos, os políticos com mandato, como se neles estivesse o mal, como se eles se corrompessem a si próprios ou que os recursos públicos dispendidos em seus salários e manutenção de gabinetes fosse o grande problema a ser atacado. Bullshit.

E tudo acontece sob a benção do mercado, o Deus Todo Poderoso do liberalismo, ou o Diabo Todo Poderoso, não está claro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário