terça-feira, 17 de abril de 2012

Lixo alimentar na mira



O novo vilão

Alguns médicos do Reino Unido estão escolhendo novo alvo para suas críticas, eles que veem bactérias, bacilos e salmonelas em tudo. A chamada junk food, o lixo alimentar que boa parte dos habitantes urbanos consome diariamente sem muita culpa, está sendo duramente atacada. Segundo os indignados médicos, os McDonald’s e Coca-Cola, dois dignos representantes da porcalhada nada nutritiva que frequenta as mesas da pequena-burguesia urbana, deveriam ser proibidos, ou, ao menos, não estar presentes na publicidade exibida em eventos esportivos. O motivo é o fato óbvio de que o mortal que mergulhar nesse lixão composto por hambúrgueres e refrigerantes está condenado a ser um obeso, o que não é nada bom para a saúde.

A obesidade, filha dileta da sociedade de consumo, está sendo eleita como a nova inimiga número 1. Aguarde, para os próximos anos, um verdadeiro bombardeio de injúrias contra o saboroso hambúrguer e suas variantes com queijo, quando estranhamente ganha um X como prenome (x-burguer), além de bacon e ovo, com a inevitável variação “salada”. Se acompanhar batata frita, cuidado. Um médico tresloucado pode lhe arranjar o sanduíche da mão e atirá-lo no esgoto, “que é de onde jamais deveria ter saído”, ele dirá. Fumar é inaceitável, mas comer hambúrguer será, daqui a alguns poucos anos, um crime inafiançável. Haverá patrulhas, pode ter certeza.

Mas, também, há hambúrguers dispensáveis, inúteis como valor alimentar e péssimos ao paladar. A primeira vez que comi um do famosíssimo McDonald’s (quando ainda não era nada famoso por aqui, pois visitei a primeira loja dessa lanchonete no país, na América do Sul, menos de uma semana depois que foi inaugurada, na Hilário de Gouveia, em Copacabana, em 1979) fiquei decepcionado e atirei metade na lixeira. Jurei nunca mais voltar. E só descumpri essa promessa pouquíssimas vezes.

Sem exageros

O problema, o ponto ao qual os médicos devem dedicar intenso interesse, é que somente comer um tipo de comida, ainda mais um tipo gorduroso e pouco nutritivo, por mais que seja gostoso, é algo próximo do suicídio. A sociedade dos consumidores come mal, essa é a verdade. A quantidade de Coca-cola consumida é um abuso. Isso é puro açúcar com gás e, dizem, que com o acréscimo de uma certa substância pela qual muitos morrem nos bairros pobres das grandes cidades e que fazem a alegria das noites em muitos bares e festas. Aliás, os refrigerantes andam tão íntimos que há quem os chame amorosamente de “refri”.

Tomar Coca-cola é bom, não há como negar. Mas viver tomando isso é muita falta de senso e imaginação. Hambúrguer é ótimo, adoro e recomendo. Mas comer no desjejum, no almoço, no lanche e no jantar não é agradável, muito menos recomendável.
Quer ficar como ele? Beba muita Coca-cola
  
Se a Dama de Ferro estivesse viva...

A preocupação dos médicos vem de estatísticas que apontam para o assustador cenário de que, em 2030, quase metade da população britânica será obesa, gorda, balofa. Culpam a publicidade e juram estar querendo que a população não lhes dê tanto trabalho quando fazem plantões em hospitais públicos, tudo indica. Gordo no consultório tem peso, na saúde pública é um peso.

Contrariando a tendência neoliberal de deixar o Estado fora de tudo o que não diga respeito à segurança de alguns cofres, os doutores querem maior intervenção do governo sobre o cidadão, explicando o que este deve fazer para se alimentar. Certamente o país no qual o renascimento liberal teve seu esplendor não vai cair nessa. Se estivesse viva, Tatcher mandaria a mão invisível atirar esses inoportunos médicos no Canal da Mancha. Ou os deportaria para a França. Ainda mais quando querem proibir publicidade de guloseimas em volta das escolas. Trata-se de um criminoso cerceamento à livre iniciativa!, exclamaria, furibunda, a Dama de Ferro.

Ideologias exóticas

Há quem diga que esse pessoal que adora usar branco está flertando com antigas teses políticas obscenas e exóticas. Querem, veja só, que as companhias alimentícias deixem de pensar nos seus lucros e passem a dar especial atenção à saúde da população. É algo próximo a pedir a um bombeiro que incendeie um prédio. Não combina, não tem nada a ver. Os médicos comunistas parecem estar rumando à Estação Finlândia e quando se chega lá, não há mais volta. Alguém precisa lhes dizer que é perigoso. Lênin não durou muito e Trotsky ganhou uma picaretada no lombo.

A Dama de Ferro só ferrava os pobres


Para terminar, querem ainda que as empresas publiquem informações sobre o mal que seus produtos fazem ao organismo. Imagine uma pizza com um aviso do Ministério da Saúde tatuado no presunto: “Comer porcarias como esta pode lhe deixar gordo”, ou “Não coma hambúrguer perto de crianças”, ou, terror dos terrores, “Tomar Coca-cola causa impotência sexual” (com uma garrafinha brocha, é claro). E, pasme, ainda querem criar um imposto novo, o “imposto sobre a gordura”. Dizem que deu certo na Escandinávia, mas, tudo o que aquela gente loura, alta e sorridente faz parece ser certo. Até fumar maconha livremente eles podem. E, ainda assim, são magros, dizem.

 
PS: Meu filho, sempre mais bem informado do que eu, me diz que a senhora Tatcher e seu penteado B-52 continuam entre nós, embora, segundo ele, não tão lúcida quanto seria desejável. Deve ser. A realidade, então, é que a Dama de Ferro encontra-se um tanto enferrujada, mas viva. Peço sinceras desculpas à não tão prezada Margareth, mas não a perdoo por todas as besteiras neoliberais que fez quando estava à frente do governo britânico. Reagan, ao que tudo indica, o outro governante que patrocinou a ideia de que os ricos devem receber todo o apoio e os pobres devem ser penalizados por sua pobreza, já se foi. Não sinto muita falta dele, nem como ator (?), muito menos como presidente. Não sei em que papel se saiu pior...

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