sexta-feira, 20 de abril de 2012

Cigarro esquizofrenizante é piada, ou deveria ser


Nelson Rodrigues fumava e não ficou esquizofrênico, ou ficou?

De anos para cá, fumar passou a ser um ato quase criminoso. Não exagero. Seguindo a lógica relacional da hegemônica cultura estadunidense, aquela na qual a pernóstica fumaça do cigarro invade o espaço vital do não fumante, o cigarro é considerado, hoje, uma arma letal que o fumante aponta para todos os que não fumam. A novidade é que, se antes a fumaça causava apenas males respiratórios e, é claro, cânceres diversos, além de envelhecimento da pele, diabetes, impotência sexual, dentes amarelos, mau hálito etc., agora está no banco dos réus por conta de ser responsável, pasme!, por levar o fumante à esquizofrenia, estação terminal das doenças mentais.

Há coisas engraçadas, aí. Um sujeito chamado Boris Quednow, aparentemente o responsável por mais essa pesquisa certamente feita para combater o hábito de fumar, supõe que, se há relação entre uma mutação no gene TCF4 (de possível ocorrência entre fumantes, mas, só entre fumantes? A pesquisa não diz), e a esquizofrenia, muito embora jamais tenha sido comprovada a influência de genes sobre a doença.

A polêmica sobre as causas e vetores causadores da esquizofrenia está aberta e não diga para um psicanalista que há uma relação íntima e direta entre genética e isso. Aliás, essa lógica vinculante já deveria ter sido posta fora de circulação há muito. Faz parte da concepção espírita que anima boa parte dos médicos, aquela que afirma que você adoece porque uma entidade – bactéria, vírus, bacilo ou o que for possível – adentra pelo seu corpo e o toma. Você anda pela rua, alguém espirra e, pronto, lá está o caboclo gripe lhe trazendo febre e mal estar. O médico crê que a pessoa não tem nada com isso, que o romance se dá entre o “bichinho” e o corpo, que certamente não pertence a ninguém e só existe para ficar doente. No caso da genética, a maldição é maior: você já nasce doente, ou propenso a ficar.

Também não precisa exagerar. E queimar dinheiro, só louco mesmo...

Para a medicina, parece não haver chances, você perdeu. Aliás, esse é o resultado da curiosa prática das academias de medicina de treinar os médicos em cadáveres. Tornam-se profissionais ótimos para atender defuntos, mas péssimos para tratar gente viva.

Sempre gosto de lembrar das proposições de um médico chamado Danilo Perestrelo, que, se não me falha a memória, trabalhou na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ali na região do Castelo, Centro. Ele falava de “Medicina da Pessoa” e seus livros e textos deveriam ser obrigatoriamente lidos por todo estudante de Medicina. Para Perestrelo, a doença é uma abstração teórica e, na prática, não existe. O que existe, ele afirma, é o doente e só. Se o médico tratar a doença, não trata o doente, que continua doente. A lógica é simples: ninguém adoece igual e o diagnóstico tem que ser encarado como uma referência, não como um alvo para o tratamento. O adoecimento seria absoluta, completa e irremediavelmente pessoal e intransferível.

As lições de Perestrelo, que não são só dele, é claro, continuam sem ser entendidas pelos senhores de jaleco branco. Eles se mantêm tratando a doença, ignorando o doente e prescrevendo exames inúteis, além de intervenções desnecessárias. Agora vêm com essa do cigarro causar esquizofrenia, ou quase. Ora, fosse assim eu já estaria tomando haloperidol. Gosto de fumar e não prometo nunca que vou parar com o hábito. Fumo no momento em que desejo e não sou impulsionado de repente para fumar um cigarro. Eu fumo o cigarro, não o cigarro me fuma. Posso até morrer disso, assim como de qualquer outra coisa.

A causa fulcral da esquizofrenia parece estar mais relacionada à formação da identidade pautada no duplo vínculo emocional. Explico de forma simples e direta: duplo vínculo é aquela situação em que a comunicação vem atrelada a uma formulação manifesta que afirma um sentido e, ao mesmo tempo, a uma formulação não manifesta que afirma outro sentido, geralmente oposto e incongruente com o primeiro sentido. Por exemplo, a mãe diz ao filho que o ama esganando-o. Se você cria uma criança com a predominância dessa relação subjetiva, pode esperar o resultado e investir na compra de haloperidol, o clássico remédio usado para controlar os delírios. Os antigos chamavam a esquizofrenia de “demência precoce”, termo inicialmente cunhado por Kraepelin, pois invariavelmente o indivíduo apresenta sintomas conclusivos para diagnosticar a doença na adolescência e, via-de-regra, mas não sempre, o mal evolui até a modalidade catatônica, na qual o sujeito se torna algo próximo de um vegetal.

O que deve chamar a atenção ao juntar a noção do cigarro esquizofrenizante e da concepção clássica é que, levando em conta que é ainda na adolescência que se manifesta a tal “demência precoce”, para o cigarro ter alguma preponderância nesse caso é preciso que o sujeito comece a fumar bem, bem cedo. Não é raro ver adolescentes fumar, é certo, mas também é certo que nem todos ficam dementes, embora se possa dizer que a forma de vida do jovem urbano ocidental possa, muitas vezes, ser classificada como próxima à demência.

De todo modo, como dizia Nelson Rodrigues, o jovem tem todos os defeitos do adulto, com o acréscimo de um, a inexperiência. Logo, é de se esperar que as coisas melhorem com o tempo, mas, convém não ter tanta esperança, pois os adultos parecem ter, de décadas para cá, resolvido parar seu amadurecimento na adolescência. É a geração “forever young”, composta basicamente pelos adolescentes congelados como Mick Jagger e tantos outros. Bem, é possível que boa parte deles fume cigarros de tabaco, o que pode confirmar as pesquisas de Quednow.

Fumante, cuidado! Não exatamente com a esquizofrenia. Mas com os médicos e todos os leigos que, por alguma razão certamente patológica, escolheram o cigarro para vilão de todos os males. Está se formulando um novo totalitarismo, o dos saudáveis, ou supostos saudáveis. Mas, fico tranquilo, pois tive um professor que me explicou bem sobre o porquê de tanta necessidade de saúde nesta nossa sociedade ocidental: “Se falamos demais de saúde, é porque estamos doentes, muito doentes, ou nos achamos assim”. Sábias palavras.

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