sexta-feira, 20 de abril de 2012

O corpo, esse desconhecido torturado


"Belo" ego, não? 
Leio matéria no sítio Terra que anuncia um ovo de Colombo: “O corpo fala: desejo por certos alimentos pode ser falta de nutrientes”. A matéria deixa claro que o corpo fala conosco e que a vontade de comer algo não necessariamente é uma frescura de nossa personalidade ou um capricho da publicidade que te incita a desejos estranhos.
O corpo fala, é claro, mas o problema é que nem sempre a nossa consciência fala através do corpo. Nenhum problema imediato, pois essa nossa consciência é apenas o ponto microscópico do iceberg de nossa existência. Se dermos apenas atenção a ela, não entenderemos nada, nem do corpo, nem de qualquer outra coisa na vida. Aliás, graças ao fato de tantos entre nós darem tanta importância ao "eu" (alguns chamam de “ego”), é que os corpos andam vilipendiados sob tantas tatuagens, piercings e outros pregos e argolas com os quais se tortura o pobre corpo. Eu disse "se tortura"?, ah, desculpe, deveria ter dito "se adorna", fica mais bonitinho.

O corpo não é nosso, é preciso entender isso. Ele está, por assim dizer, emprestado para uso durante o tempo em que estamos por aqui e achar que somos donos de nosso corpo é uma ilusão perigosa. Em primeiro lugar, porque achamos que podemos fazer o que quisermos dele, inclusive crer que o podemos dominar. Mas, no final, ele sempre ganha, ou, mais precisamente, a natureza sempre ganha e voltamos a ela, desta vez sem “ego”, com um monte de terra por cima, ou no estômago de alguém, ou ainda no fundo de algum rio, conforme o rito funerário escolhido.

O corpo nos suplanta e transcende, é o que nos integra a todos e aquilo que nos lembra que somos inexoravelmente vinculados à natureza, que ela nos comanda através do corpo e jamais o oposto. No entanto, o humano cismou que deveria comandar a dita e, por incrível que pareça, acredita nisso piamente, inclusive quando se tatua ou enfia um piercing sabe lá onde. Parece claro que colocar um ferrolho no umbigo e desviar o curso de um rio, ou dinamitar uma montanha ou jogar lixo em um rio são ações que têm a mesma matriz simbólica. Todos falam da tendência arrogante do ser humano em se considerar fora da natureza e de criar, mais arrogantemente ainda, uma suposta segunda natureza, à qual costuma chamar de “cultura”.

As manifestações naturais, espontâneas do corpo têm sido, aliás, combatidas com um furor surpreendente. A gravidez é o melhor exemplo, talvez. Todos os recursos de anticoncepção e ainda os abortivos dizem que o humano não quer saber de respeitar a lógica do copulou, emprenhou. O humano quer prazer livre, mas, mais do que isso, quer mandar no corpo, quer mostrar que sua pífia personalidade é muito mais importante do que todo o planeta. Outra revolta contra a natureza, manifesta nas inúmeras intervenções estéticas, parece ser prova cabal disso.

E o mais engraçado é que vive a falar de natureza, ecologia, preservação ambiental, qualidade de vida e por aí vai. Tolo é quem acredita que essa conversa é séria.

Cigarro esquizofrenizante é piada, ou deveria ser


Nelson Rodrigues fumava e não ficou esquizofrênico, ou ficou?

De anos para cá, fumar passou a ser um ato quase criminoso. Não exagero. Seguindo a lógica relacional da hegemônica cultura estadunidense, aquela na qual a pernóstica fumaça do cigarro invade o espaço vital do não fumante, o cigarro é considerado, hoje, uma arma letal que o fumante aponta para todos os que não fumam. A novidade é que, se antes a fumaça causava apenas males respiratórios e, é claro, cânceres diversos, além de envelhecimento da pele, diabetes, impotência sexual, dentes amarelos, mau hálito etc., agora está no banco dos réus por conta de ser responsável, pasme!, por levar o fumante à esquizofrenia, estação terminal das doenças mentais.

Há coisas engraçadas, aí. Um sujeito chamado Boris Quednow, aparentemente o responsável por mais essa pesquisa certamente feita para combater o hábito de fumar, supõe que, se há relação entre uma mutação no gene TCF4 (de possível ocorrência entre fumantes, mas, só entre fumantes? A pesquisa não diz), e a esquizofrenia, muito embora jamais tenha sido comprovada a influência de genes sobre a doença.

A polêmica sobre as causas e vetores causadores da esquizofrenia está aberta e não diga para um psicanalista que há uma relação íntima e direta entre genética e isso. Aliás, essa lógica vinculante já deveria ter sido posta fora de circulação há muito. Faz parte da concepção espírita que anima boa parte dos médicos, aquela que afirma que você adoece porque uma entidade – bactéria, vírus, bacilo ou o que for possível – adentra pelo seu corpo e o toma. Você anda pela rua, alguém espirra e, pronto, lá está o caboclo gripe lhe trazendo febre e mal estar. O médico crê que a pessoa não tem nada com isso, que o romance se dá entre o “bichinho” e o corpo, que certamente não pertence a ninguém e só existe para ficar doente. No caso da genética, a maldição é maior: você já nasce doente, ou propenso a ficar.

Também não precisa exagerar. E queimar dinheiro, só louco mesmo...

Para a medicina, parece não haver chances, você perdeu. Aliás, esse é o resultado da curiosa prática das academias de medicina de treinar os médicos em cadáveres. Tornam-se profissionais ótimos para atender defuntos, mas péssimos para tratar gente viva.

Sempre gosto de lembrar das proposições de um médico chamado Danilo Perestrelo, que, se não me falha a memória, trabalhou na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ali na região do Castelo, Centro. Ele falava de “Medicina da Pessoa” e seus livros e textos deveriam ser obrigatoriamente lidos por todo estudante de Medicina. Para Perestrelo, a doença é uma abstração teórica e, na prática, não existe. O que existe, ele afirma, é o doente e só. Se o médico tratar a doença, não trata o doente, que continua doente. A lógica é simples: ninguém adoece igual e o diagnóstico tem que ser encarado como uma referência, não como um alvo para o tratamento. O adoecimento seria absoluta, completa e irremediavelmente pessoal e intransferível.

As lições de Perestrelo, que não são só dele, é claro, continuam sem ser entendidas pelos senhores de jaleco branco. Eles se mantêm tratando a doença, ignorando o doente e prescrevendo exames inúteis, além de intervenções desnecessárias. Agora vêm com essa do cigarro causar esquizofrenia, ou quase. Ora, fosse assim eu já estaria tomando haloperidol. Gosto de fumar e não prometo nunca que vou parar com o hábito. Fumo no momento em que desejo e não sou impulsionado de repente para fumar um cigarro. Eu fumo o cigarro, não o cigarro me fuma. Posso até morrer disso, assim como de qualquer outra coisa.

A causa fulcral da esquizofrenia parece estar mais relacionada à formação da identidade pautada no duplo vínculo emocional. Explico de forma simples e direta: duplo vínculo é aquela situação em que a comunicação vem atrelada a uma formulação manifesta que afirma um sentido e, ao mesmo tempo, a uma formulação não manifesta que afirma outro sentido, geralmente oposto e incongruente com o primeiro sentido. Por exemplo, a mãe diz ao filho que o ama esganando-o. Se você cria uma criança com a predominância dessa relação subjetiva, pode esperar o resultado e investir na compra de haloperidol, o clássico remédio usado para controlar os delírios. Os antigos chamavam a esquizofrenia de “demência precoce”, termo inicialmente cunhado por Kraepelin, pois invariavelmente o indivíduo apresenta sintomas conclusivos para diagnosticar a doença na adolescência e, via-de-regra, mas não sempre, o mal evolui até a modalidade catatônica, na qual o sujeito se torna algo próximo de um vegetal.

O que deve chamar a atenção ao juntar a noção do cigarro esquizofrenizante e da concepção clássica é que, levando em conta que é ainda na adolescência que se manifesta a tal “demência precoce”, para o cigarro ter alguma preponderância nesse caso é preciso que o sujeito comece a fumar bem, bem cedo. Não é raro ver adolescentes fumar, é certo, mas também é certo que nem todos ficam dementes, embora se possa dizer que a forma de vida do jovem urbano ocidental possa, muitas vezes, ser classificada como próxima à demência.

De todo modo, como dizia Nelson Rodrigues, o jovem tem todos os defeitos do adulto, com o acréscimo de um, a inexperiência. Logo, é de se esperar que as coisas melhorem com o tempo, mas, convém não ter tanta esperança, pois os adultos parecem ter, de décadas para cá, resolvido parar seu amadurecimento na adolescência. É a geração “forever young”, composta basicamente pelos adolescentes congelados como Mick Jagger e tantos outros. Bem, é possível que boa parte deles fume cigarros de tabaco, o que pode confirmar as pesquisas de Quednow.

Fumante, cuidado! Não exatamente com a esquizofrenia. Mas com os médicos e todos os leigos que, por alguma razão certamente patológica, escolheram o cigarro para vilão de todos os males. Está se formulando um novo totalitarismo, o dos saudáveis, ou supostos saudáveis. Mas, fico tranquilo, pois tive um professor que me explicou bem sobre o porquê de tanta necessidade de saúde nesta nossa sociedade ocidental: “Se falamos demais de saúde, é porque estamos doentes, muito doentes, ou nos achamos assim”. Sábias palavras.

Resposta ao leitor Mauricio Ferrão, que não conhece a ironia

Ferrão errou o alvo
O leitor Mauricio Ferrão chutou a bola na arquibancada no seu comentário ao texto “O liberalismo seria o sistema perfeito para se viver num mundo ideal, se existisse mundo ideal”. Ora, caro Ferrão, você conhece o recurso da ironia? Pior: certamente, você não leu o texto. Mas, mesmo assim, mesmo sem ter prestado qualquer atenção, resolveu me chamar de preconceituoso porque eu teria “chamado os pobres de vagabundos e nojentos”. Não chamei, basta ler.
Ironia, Ferrão, ironia. Sempre é hora de saber o que é isso.

Trata-se de um recurso comunicativo que se define por afirmar o contrário do que se quer dizer, com a precaução de, intencionalmente, manter uma clara distância entre o que se pensa e o que se afirma nesse determinado momento. É muito útil como instrumento de crítica e convida o leitor a uma identificação momentânea e artificial com aquilo que se está criticando. No caso, dada a sua equivocada manifestação, eu poderia escrever, ironicamente: “Bravo, Ferrão, você é muito perspicaz e entendeu perfeitamente o que eu quis dizer”.

Compreendeu agora?

terça-feira, 17 de abril de 2012

Lixo alimentar na mira



O novo vilão

Alguns médicos do Reino Unido estão escolhendo novo alvo para suas críticas, eles que veem bactérias, bacilos e salmonelas em tudo. A chamada junk food, o lixo alimentar que boa parte dos habitantes urbanos consome diariamente sem muita culpa, está sendo duramente atacada. Segundo os indignados médicos, os McDonald’s e Coca-Cola, dois dignos representantes da porcalhada nada nutritiva que frequenta as mesas da pequena-burguesia urbana, deveriam ser proibidos, ou, ao menos, não estar presentes na publicidade exibida em eventos esportivos. O motivo é o fato óbvio de que o mortal que mergulhar nesse lixão composto por hambúrgueres e refrigerantes está condenado a ser um obeso, o que não é nada bom para a saúde.

A obesidade, filha dileta da sociedade de consumo, está sendo eleita como a nova inimiga número 1. Aguarde, para os próximos anos, um verdadeiro bombardeio de injúrias contra o saboroso hambúrguer e suas variantes com queijo, quando estranhamente ganha um X como prenome (x-burguer), além de bacon e ovo, com a inevitável variação “salada”. Se acompanhar batata frita, cuidado. Um médico tresloucado pode lhe arranjar o sanduíche da mão e atirá-lo no esgoto, “que é de onde jamais deveria ter saído”, ele dirá. Fumar é inaceitável, mas comer hambúrguer será, daqui a alguns poucos anos, um crime inafiançável. Haverá patrulhas, pode ter certeza.

Mas, também, há hambúrguers dispensáveis, inúteis como valor alimentar e péssimos ao paladar. A primeira vez que comi um do famosíssimo McDonald’s (quando ainda não era nada famoso por aqui, pois visitei a primeira loja dessa lanchonete no país, na América do Sul, menos de uma semana depois que foi inaugurada, na Hilário de Gouveia, em Copacabana, em 1979) fiquei decepcionado e atirei metade na lixeira. Jurei nunca mais voltar. E só descumpri essa promessa pouquíssimas vezes.

Sem exageros

O problema, o ponto ao qual os médicos devem dedicar intenso interesse, é que somente comer um tipo de comida, ainda mais um tipo gorduroso e pouco nutritivo, por mais que seja gostoso, é algo próximo do suicídio. A sociedade dos consumidores come mal, essa é a verdade. A quantidade de Coca-cola consumida é um abuso. Isso é puro açúcar com gás e, dizem, que com o acréscimo de uma certa substância pela qual muitos morrem nos bairros pobres das grandes cidades e que fazem a alegria das noites em muitos bares e festas. Aliás, os refrigerantes andam tão íntimos que há quem os chame amorosamente de “refri”.

Tomar Coca-cola é bom, não há como negar. Mas viver tomando isso é muita falta de senso e imaginação. Hambúrguer é ótimo, adoro e recomendo. Mas comer no desjejum, no almoço, no lanche e no jantar não é agradável, muito menos recomendável.
Quer ficar como ele? Beba muita Coca-cola
  
Se a Dama de Ferro estivesse viva...

A preocupação dos médicos vem de estatísticas que apontam para o assustador cenário de que, em 2030, quase metade da população britânica será obesa, gorda, balofa. Culpam a publicidade e juram estar querendo que a população não lhes dê tanto trabalho quando fazem plantões em hospitais públicos, tudo indica. Gordo no consultório tem peso, na saúde pública é um peso.

Contrariando a tendência neoliberal de deixar o Estado fora de tudo o que não diga respeito à segurança de alguns cofres, os doutores querem maior intervenção do governo sobre o cidadão, explicando o que este deve fazer para se alimentar. Certamente o país no qual o renascimento liberal teve seu esplendor não vai cair nessa. Se estivesse viva, Tatcher mandaria a mão invisível atirar esses inoportunos médicos no Canal da Mancha. Ou os deportaria para a França. Ainda mais quando querem proibir publicidade de guloseimas em volta das escolas. Trata-se de um criminoso cerceamento à livre iniciativa!, exclamaria, furibunda, a Dama de Ferro.

Ideologias exóticas

Há quem diga que esse pessoal que adora usar branco está flertando com antigas teses políticas obscenas e exóticas. Querem, veja só, que as companhias alimentícias deixem de pensar nos seus lucros e passem a dar especial atenção à saúde da população. É algo próximo a pedir a um bombeiro que incendeie um prédio. Não combina, não tem nada a ver. Os médicos comunistas parecem estar rumando à Estação Finlândia e quando se chega lá, não há mais volta. Alguém precisa lhes dizer que é perigoso. Lênin não durou muito e Trotsky ganhou uma picaretada no lombo.

A Dama de Ferro só ferrava os pobres


Para terminar, querem ainda que as empresas publiquem informações sobre o mal que seus produtos fazem ao organismo. Imagine uma pizza com um aviso do Ministério da Saúde tatuado no presunto: “Comer porcarias como esta pode lhe deixar gordo”, ou “Não coma hambúrguer perto de crianças”, ou, terror dos terrores, “Tomar Coca-cola causa impotência sexual” (com uma garrafinha brocha, é claro). E, pasme, ainda querem criar um imposto novo, o “imposto sobre a gordura”. Dizem que deu certo na Escandinávia, mas, tudo o que aquela gente loura, alta e sorridente faz parece ser certo. Até fumar maconha livremente eles podem. E, ainda assim, são magros, dizem.

 
PS: Meu filho, sempre mais bem informado do que eu, me diz que a senhora Tatcher e seu penteado B-52 continuam entre nós, embora, segundo ele, não tão lúcida quanto seria desejável. Deve ser. A realidade, então, é que a Dama de Ferro encontra-se um tanto enferrujada, mas viva. Peço sinceras desculpas à não tão prezada Margareth, mas não a perdoo por todas as besteiras neoliberais que fez quando estava à frente do governo britânico. Reagan, ao que tudo indica, o outro governante que patrocinou a ideia de que os ricos devem receber todo o apoio e os pobres devem ser penalizados por sua pobreza, já se foi. Não sinto muita falta dele, nem como ator (?), muito menos como presidente. Não sei em que papel se saiu pior...

sábado, 14 de abril de 2012

O liberalismo seria o sistema perfeito para se viver num mundo ideal, se existisse mundo ideal



Leio texto brilhante de autora liberal chamada Ayn Rand, no qual ela faz uma bela defesa do egoísmo, isto é, da preocupação com nossos próprios interesses acima da preocupação com os interesses dos demais. Em um dos trechos, a autora critica a mentalidade dos que se preocupam com pobres e deficientes numa “sociedade livre”. Como já disse, o texto é bom, os argumentos são fortes etc., mas, a começar pelo uso do termo “sociedade livre”, parece haver algo bem errado. Afinal, livre para quem?


Liberdade é o que todo liberal quer. Não há dúvida disso, por isso propugna os invioláveis e “imexíveis” direitos individuais, que devem ser compreendidos como garantia de vida individual (e egoísta) sem interveniência do poder político. Esses tais direitos seriam apolíticos, estariam fora de toda e qualquer ação de poder. Isso não impede que, volta e meia, eles intervenham no campo político.
Os pobres não existem, na verdade são seres inferiores ou vagabundos. Seus males são por culpa deles mesmos e lhes oferecer ajuda, benefícios sociais, é apenas reforçá-los. Já o liberal, é claro, é superior e muito trabalhador e apenas por isso o Estado lhe ajuda quando é necessário. E olha que, na história do liberalismo, isso tem sido frequentemente necessário
A igualdade na sociedade se estabeleceria a partir do reconhecimento do Estado da limitação de respeitar e garantir os direitos individuais, que seriam, como toda propriedade, invioláveis.

Bem, a começar por aí, é preciso perguntar quem, afinal, é garantido por esses tais direitos na tal “sociedade livre” (se é que isso existe ou é apenas uma retórica hábil dos liberais para nos iludir, nós que queremos mais justiça do que liberdade, ou que entendemos que, sem aquela, esta não presta para muita coisa). Sim, porque não são todos, obviamente, os contemplados com os direitos individuais. Se formos fundo na questão, quem sabe descobriremos que são, na verdade, muito, muito poucos, até porque a condição de indivíduo como construção de massa, legada por Felix Guattari, nos parece convincente e desmente a força do poder decisório do tal indivíduo. A maior parte de nós é total e completamente agenciada subjetivamente e só é viável pensar no espaço dos direitos individuais enquanto independentes do mundo social se o tal indivíduo puder se assumir enquanto alguém que compreende o conceito de indivíduo como uma referência de autonomia, o que não é definitivamente o caso.

Milton Friedman certamente apostaria na tartaruga
   
O liberal é um ser engraçado, para não dizer trágico. Acha, como Rand, que, embora forneça o substrato dos míticos direitos individuais, a natureza não garante segurança automática para ninguém e, assim, entende que os pobres devem ser abandonados à própria sorte e arrumar um jeito de garantir alguma segurança (em outras palavras, darwinismo social). A sociedade não deve proteger, o liberal odeia o protecionismo, a não ser quando quem o protegido é ele próprio. Trata-se do “direito individual” do “meu pirão primeiro”, do “fodam-se os outros, eu quero é me dar bem”.

Rand fica louca, possessa, com essa ideia de proteção social. “Aceitar que a ‘sociedade’ deve fazer algo pelo pobre, implica aceitar a premissa coletivista de que a vida do pobre pertence à sociedade. Essa atitude revela um mal mais profundo: o altruísmo corrói a compreensão dos conceitos de direitos e do valor da vida de um indivíduo; revela uma mente da qual se apagou a realidade de um ser humano”, afirma. Meu Deus. Como dito, bela ideia, se vivêssemos no mundo etéreo de Platão ou em algum paraíso.

Na prática, não é à sociedade que a vida do pobre pertence, mas a uma parte seleta da sociedade, que se locupleta impondo seus ditames, caprichos e propostas políticas, que não são geralmente enunciadas como políticas, mas como técnicas. O mais grave é que essa elite se sente e se posiciona para além da sociedade humana e entende que é sua dona, a razão de sua existência. Todos os demais são descartáveis e/ou inexistem. É o direito individual de usar o poder do dinheiro para obter todas as vantagens possíveis e esmagar todo aquele que não o tenha. Sim, porque esse nobre direito o pobre não tem.

O liberal se entende como uma espécie de escolhido, de ser especial. O Estado não deve proteger os pobres, mas deve proteger os bancos e a livre iniciativa aética, que é uma das maiores causadoras da pobreza e de misérias maiores. Todos sabemos onde o liberalismo nos levou, vide as duas grandes guerras do século XX, a depressão dos anos 1930 e esta mais recente, que atinge e destrói a economia da Europa. E quando se fala em destruir a economia é bom ter noção de que não é a abstração econômica a atingida, mas as pessoas, que sofrem concretamente com a destruição de suas vidas.

O liberalismo é um belo sistema, em tese. Na prática, cá para nós, é uma tragédia, um absurdo. Sua lógica se assemelha, ou tem origem, quem sabe, nos antigos eleatas, como Zenão e Parmênides, que pregavam a existência de uma realidade metafísica na qual a experiência e o saber empírico não teriam qualquer valor. Zenão, por exemplo, acreditava que, em uma corrida, se Aquiles, o herói grego da Ilíada, desse uma vantagem, ainda que pequena, a uma tartaruga, jamais a alcançaria, pois, veja só, o trajeto que andasse também o seria pela tartaruga, o que determinaria a vitória do animal. O mesmo filósofo acreditava, ainda, que uma flecha jamais chegaria a seu alvo, pois é possível dividir infinitamente o espaço a ser percorrido até o alvo. O problema é que Aquiles deixaria a tartaruga a comer poeira e as flechas, salvo se usadas por quem não sabe, costumam atingir os alvos.
O liberal se entende como uma espécie de escolhido, de ser especial. O Estado não deve proteger os pobres, mas deve proteger os bancos e a livre iniciativa aética, que é uma das maiores causadoras da pobreza e de misérias maiores
O liberal é aquele sujeito que não tem pinta de lunático, mas acha que a tartaruga ganhará a corrida e que a flecha jamais atingirá o alvo. Tudo no mundo e na sociedade contraria o que ele pensa e acredita, mas o liberal se mantém incólume, com a sua firme fé na mão invisível, na deidade do mercado, que a tudo regula, na racionalidade e nos princípios de liberdade individual. Cria um mundo absurdo, ideal, e mora nele, como se as coisas deste mundo não existissem.

Os pobres não existem, na verdade são seres inferiores ou vagabundos. Seus males são por culpa deles mesmos e lhes oferecer ajuda, benefícios sociais, é apenas reforçá-los. Já o liberal, é claro, é superior e muito trabalhador e apenas por isso o Estado lhe ajuda quando é necessário. E olha que, na história do liberalismo, isso tem sido frequentemente necessário.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sabonetes para inglês ver


Esses sabonetes servem mesmo é para fazer bolha 
A PROTESTE – Associação de Consumidores, uma entidade que, supostamente. se propõe a ajudar o consumidor a não ser tão enganado quanto naturalmente costuma ser, reprovou quatro sabonetes bactericidas, simplesmente porque não apresentaram eficiência contra nenhum micro-organismo! Foram oito as marcas testadas, com 50% de vexame total.

Os produtos tinham que acabar com quatro bactérias: Escherichia coli (presente no intestino grosso e nas fezes humanas), Pseudomonas aeruginosa (causadora da infecção hospitalar), Serratia marcescens (que ataca o sistema urinário e respiratório) e a Staphylococcus aureus (que causa infecções na pele e pneumonia). Os reprovados sequer fizeram cosquinhas nelas. Segundo informações, as marcas são: Protex barra e líquido, Lifebuoy líquido e Dove. Já o Lifebuoy em barra mereceu menção honrosa: reduziu a quantidade de três das bactérias testadas (E.coli, P. aeruginosa e S. marcescens).

Você compra o produto, lê o rótulo etc. É claro que, se acreditar nas informações veiculadas, vai se achar limpíssimo ou limpíssima depois de lavar as mãos com os sabonetes. Protegidíssimo ou protegidíssima, desinfetadíssimo(a) e impoluto(a), em relação a essas ignominiosas ameaças invisíveis que são as bactérias. Ledo engano. O sabonete chega até mesmo a alimentar as bichinhas, que ficarão mais fortes e caçoarão de você lhe proporcionando dores diversas, elevação de temperatura e sabe-se lá mais o quê. Lavar as mãos antes da refeição? Para quê?

E os empresasários falam o tempo todo de ética. Mas, parece que a sem-vergonhice lava mais branco.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Hegel, Lacan e Deleuze: Razão, Não-todo e Aion, na defesa do Socialismo



Eis os bastiões da democracia
Um texto genial de Chrysantho Sholl Figueiredo, no blog "O Eventuário" (link no final)

A coincidência dos opostos, em Hegel, decorre do fato de que tudo procede da Razão. Ou antes, o que é bem diferente, que não há nada que não proceda da razão. Logo, uma idéia negada por uma particularidade, por exemplo a propriedade negada pelo roubo, não pode supor que o roubo é o irracional que nega o racional "propriedade". Se ambos devem proceder da Razão, logo ambos estão subordinados a ela e constituem apenas um momento particular da Razão que é histórica, historicamente construída. Assim, ambos são capturados num só momento: a famosa frase proudhoniana em seu insight hegeliano, "a propriedade é um roubo", ou seja, o roubo, como antítese da propriedade constitui sua própria verdade, a verdade da propriedade é que ela é sua antítese, o roubo.
(...) no plano político, não se trata de inserir novos institutos para o desenvolvimento da democracia (o significante-mestre do Entendimento político contemporâneo, mas articular seu próprio não-senso, trazer para ela sua própria negação: igualdade é desigualdade; tolerância é intolerância; propriedade é roubo e, finalmente Democracia é Ditadura e Totalitarismo)
Por isso é que, para Zizek, a síntese é a antítese no sentido de que, na síntese, percebe-se que a antítese é a verdade da tese e que esta última, a Tese, não é A Razão, mas apenas um momento do desenvolvimento dela (o que em si já joga pra escanteio o argumento de que Hegel seria um Metafísico ou um Idealista ensandecido que pensava que a Verdade ou a Razão fosse algo transcendental perfeitamente acabado: Não! A Razão é construída na passagem de uma concepção de Razão para outra concepção de Razão).


Por isso é que a Razão é construída pelo Espírito.

Hegel
  
Se algo é não-todo em Hegel, esse algo é a própria Razão, o que por definição, portanto, não pode ser totalitária pois, se algo é irracional numa concepção determinada de Razão, isto significa que é esta concepção em si que não é racional. Isto é precisamente o que aproxima a Razão em Hegel do Aion deleuziano: o ponto aleatório em que todas as singularidades determinadas formam uma "totalidade" ou, colocando em termos mais claros e precisos: é precisamente isto que o Aion não é, um todo, mas sim um não-todo no sentido lacaniano, daquilo que não exclui sua exceção, mas que comporta precisamente sua exceção como a surpresa que permite a abertura eterna do sistema para se desenvolver historicamente sempre como um vir-a-ser ou devenir.


Fica claro, portanto, que a razão em Hegel é não-toda se constrói a si mesma, como razão, através da atuação do Espírito.


Se o entendimento é o que nega a razão, a possibilidade, portanto, de simbolizar o Real lacaniano (que é nada mais nada menos do que a natureza em termos hegelianos) e esta possibilidade, diga-se, é a própria Razão Absoluta, como devenir, ser e nada. O que é todo em Hegel?


Se, nas palavras do próprio Hegel, o Entendimento é o poder de fixação que liga o homem ao absoluto e que fixa justamente as oposições como coisas absolutamente independentes, este é o Todo em Hegel, o masculino em Lacan, como algo que se fixa só e somente só pela exclusão daquilo que lhe nega, pela exclusão de sua exceção.


O Entendimento hegeliano, não pode ser aproximado, desta forma, da cadeia S1-S2 em Lacan?


Neste sentido, é claro que o Entendimento pode se desenvolver ao infinito, como inclusão de novos significantes S2 que se articulam somente em relação à inscrição prévia do S1, do significante-mestre. Mas o ato da Razão como "abertura do conceito" que recolhe em si o antagonismo, não é a troca do próprio S1, na medida em que seu antagonismo lhe é inerente, o próprio antagonismo que existe entre o S1 e o lugar de sua inscrição?


Mas o que queremos dizer exatamente com esta noção de troca? O processo de "travessia da fantasia" é aquele em que, identificando-se com o sintoma, o sujeito pode encarar o S1, o nome do pai que lhe constitui como sujeito, como produto de sua própria "escolha" (com a ressalva a ser feita de que as aspas nesta expressão dizem respeito ao cuidado de não entender escolha como simples livre arbítrio.)
Desenvolver a Democracia e seus institutos é negar a Razão e a ética, tanto hegeliana quanto estóica, que está ligada ao aparecimento do não-senso do Aion
A troca se dá, portanto, não quando se consegue inserir novos significantes S2 na cadeia (a mudança não é quantitativa), mas quando se consegue articular diretamente o não-senso do S1.


E este não-senso é o Aion e, portanto, a Razão. Neste sentido, no plano político, não se trata de inserir novos institutos para o desenvolvimento da democracia (o significante-mestre do Entendimento político contemporâneo, mas articular seu próprio não-senso, trazer para ela sua própria negação: igualdade é desigualdade; tolerância é intolerância; propriedade é roubo e, finalmente Democracia é Ditadura e Totalitarismo).


Desenvolver a Democracia e seus institutos é negar a Razão e a ética, tanto hegeliana quanto estóica, que está ligada ao aparecimento do não-senso do Aion.


Se a dialética comporta o momento negativo, o de desaparecimento da fixação imposta pelo entendimento e um momento positivo em que a Razão aparece como sua forma aiôntica de eterno devir, esta positivação é necessariamente a negação da Democracia (e do capitalismo que, lembramos, também pode se desenvolver ao infinito) cuja única forma posta até agora foi o Socialismo como negação da negação do capitalismo e o Comunismo como abertura não-toda da Razão política-social. (E a única forma porque, até agora, todas as alternativas de terceira via a la Anthony Giddens se mostraram ser somente uma forma colorida de capitalismo e Democracia).

http://oeventuario.blogspot.com.br/2009/06/hegel-lacan-e-deleuze-razao-nao-todo-e.html

Contra la promesa neoliberal de un mundo sin pobreza ni desempleo

El verdadero secreto del libre comercio

Por Anwar Shaikh - Página 12

El libre comercio no contribuye al desarrollo de por sí. Se necesitan políticas económicas diseñadas para promover la industria nacional a un nivel en el que sea globalmente competitiva. De lo contrario, el país terminará cubriendo su déficit con deuda.

Vivimos en un mundo caracterizado por enormes riquezas y elevados niveles de pobreza. Ese escenario se repite en la mayoría de los países. El neoliberalismo domina el mundo. Se trata de una práctica aparentemente justificada por un conjunto de supuestos que tienen su raíz en la teoría económica convencional. Los mercados están representados por estructuras sociales óptimas y autorregulables que, si se las dejara funcionar sin restricciones, permitirían atender en forma óptima las necesidades económicas, utilizar eficientemente los recursos y generar automáticamente el pleno empleo para todas las personas que deseen trabajar. Por extensión, la globalización de los mercados sería el mejor mecanismo para extender los beneficios a todo el mundo.

La teoría y práctica del neoliberalismo generaron, con razón, una importante oposición de activistas, hacedores de política y académicos. Sin embargo, el neoliberalismo continúa siendo una importante influencia en las ciencias sociales, el sentido común y en los círculos políticos. En la práctica, las naciones poderosas y las instituciones que sostienen y difunden esta agenda fueron exitosas para expandir la ley del mercado. En consecuencia, por todo el mundo persisten enormes bolsones de pobreza y profundas desigualdades y las crisis siguen estallando. Acabamos de ingresar en la primera Gran Depresión del siglo XXI.

La base del neoliberalismo reside en la teoría ortodoxa del libre comercio, cuyo argumento central es que el libre comercio competitivo beneficiará a todas las naciones. Algunos críticos señalan que hoy en día el mundo está muy lejos de exhibir las condiciones de competitividad asumidas en la teoría económica estándar del libre comercio. Señalan que, si bien las naciones ricas predican el libre comercio, cuando ellas estaban subiendo por la escalera del desarrollo utilizaron ampliamente el proteccionismo y la intervención estatal. Incluso remarcan que ahora los países ricos ni siquiera siguen al pie de la letra sus prédicas. Los defensores del neoliberalismo ya respondieron a esas acusaciones: en el pasado no existían las condiciones de mercado competitivas que son necesarias para el libre comercio, por lo tanto el pasado no sirve como comparación. Sin embargo, argumentan que, con la ayuda de los organismos internacionales, se pueden alcanzar esas condiciones en todo el mundo. Cuando esto suceda, el libre comercio funcionará como prometieron y la pobreza mundial, el desempleo y las crisis económicas desaparecerán.

El libre comercio entre naciones funciona prácticamente de la misma manera que la competencia al interior de un país: favorece al (competitivamente) fuerte sobre el débil. Es esperable que la globalización genere daños colaterales. Esto también nos dice que los países desarrollados tenían razón al advertir, cuando estaban subiendo por la escalera, que el comercio internacional irrestricto era una amenaza a sus propios planes de desarrollo. Aquello que hoy el mundo desarrollado niega tan enérgicamente, era verdad entonces: el gran poder del mercado se utiliza mejor cuando está asociado a una agenda social más amplia.

En los libros de texto de economía, las introducciones a la teoría del libre comercio comienzan con una tergiversación deliberada. Esos manuales nos piden que analicemos a dos países como si fueran individuos que participan libremente de un trueque. Los individuos, nos dicen, entregarán lo que tienen a cambio de otra cosa solamente si cada uno considera que va a ganar algo en ese proceso. Y, si sus expectativas son correctas, efectivamente ganarán. Así, el libre comercio beneficiaría a todos los que participen de él. El resto son detalles. Pero como en cualquier truco de magia, este razonamiento incluye un engaño fundamental. En un mundo capitalista, el comercio internacional está guiado por empresas. Los exportadores locales les venden a los importadores extranjeros que luego venden esos productos a sus residentes, mientras que los importadores locales compran bienes a los exportadores y después nos los venden a nosotros. La rentabilidad es lo que motiva las decisiones empresarias en cada punto de la cadena.

La teoría del libre comercio tradicional descansa en el supuesto de que en un libre mercado financiero los flujos de dinero que surgen de un déficit comercial reducirán el precio real de la moneda del país (devaluarán el valor de la moneda). Así se achicará el déficit, ya que las exportaciones serán más baratas para el resto del mundo y las importaciones más caras, hasta que en un momento el balance comercial y la balanza de pagos encuentran el equilibrio. Un superávit comercial generaría el recorrido contrario hacia el mismo resultado.

Tanto Karl Marx como Roy Harrod ofrecen un contraargumento convincente: en un mercado financiero libre, las salidas de dinero disminuyen la liquidez y elevan las tasas de interés, mientras que el ingreso de capitales baja las tasas de interés. Ninguno de estos efectos altera el balance comercial. En cambio, inducen flujos de capitales de corto plazo que conducirán al balance de pagos a un equilibrio cubriendo un déficit comercial existente con endeudamiento externo y un superávit comercial impulsando una posición de acreedor externo. Bajo un esquema de libre comercio, un país que no es suficientemente competitivo en el mercado global terminará cubriendo su persistente déficit comercial con endeudamiento externo, terminará como un deudor internacional. A la inversa, un país muy competitivo poseerá un superávit comercial y se transformará en un acreedor internacional.

Este es el verdadero secreto del libre comercio: se necesitan políticas económicas especialmente diseñadas para desarrollar la industria de un país a un nivel donde sea globalmente competitiva. Esto explica por qué los países occidentales y luego Japón, Corea del Sur y los tigres asiáticos resistieron con tanta fuerza la teoría y las políticas del libre comercio cuando estaban subiendo por la escalera. Pero también nos permite darles sentido a las verdaderas políticas que utilizaron en su proceso de desarrollo: utilizando el acceso a los mercados internacionales, el conocimiento y los recursos como parte de una agenda social más amplia. El objetivo no debe ser equilibrar la cancha, sino más bien elevar el nivel de los jugadores desventajados. En este sentido, practicar el neoliberalismo en los lugares más pobres del mundo es un deporte cruel.

Anwar Shaikh es profesor del Departamento de Economía del The New School for Social Research of New York, economista marxista de origen pakistaní, ha dedicado gran parte de su obra al análisis de las teorías económicas neoclásicas y post-keynesianas.

http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=4819
http://www.eleconomista.cubaweb.cu/2012/nro418/promesa-neoliberal.html

terça-feira, 10 de abril de 2012

Olhe onde pisa



Você vai ter que dar bom dia ao chão, senão ele te derruba

Imagine o chão de sua casa como uma superfície inteligente, dessas em que você toca e ela entende, como as telas de celulares e terminais de autoatendimento. Você adoraria, não é? Alguém irá lhe visitar e você mostrará, orgulhoso, o funcionamento do fantástico piso touchscreen. Se ficou babando é porque toda criança faz isso quando ganha brinquedo novo e todo caipira gosta de se gabar de ser proprietário de alguma novidade tecnológica, como carros e outras máquinas. Coisa de pobre.

Pobres, aliás, existem muitos no mundo. Certamente, numa proporção de milhões para um, se tomarmos em comparação a quantidade de ricos. E pior: os pobres, além de numerosos, se exibem sem qualquer pudor. Já os ricos, que já são poucos, se escondem, mas se escondem tão bem que ninguém sabe direito onde os achar. Falo dos ricos de verdade, não dos novos ricos. Estes são facilmente localizáveis, pois gostam de fazer alarde de suas recém conquistadas fortunas. O mesmo acontece com bandidos, pelo menos nos filmes.

Mas, meu assunto não é a pobreza ou a riqueza, mas o piso inteligente da IBM, que permite que você saiba, “em tempo real”, se sua mulher chegou em casa, se está sozinha, se levou os filhos, o Ricardão ou o Talarico, ou se, desgraça completa, levou a sogra para passar um tempo na sua casa. Nesses casos, o chão inteligente seria muito útil se pudesse eletrocutar seletivamente.
Em baixo, o chão inteligente registrando tudo

O caso é que o piso inteligente tende a permitir que você saiba tudo o que está acontecendo no local onde está instalado. Sua mãe está velhinha e caiu? O piso vai te avisar. O cachorro fez xixi no tapete? Lá está o chão caguete a denunciar essa arte canina. O chão não deixa passar nada, afinal é sobre ele que vivemos e fazemos tudo, tudo mesmo. Por isso, cuidado com o que mostra e faz sobre um chão como esse.

As novas gerações, as pessoas que estão chegando ao mundo agora, já devem estar se acostumando a essa blitz tecnológica. Essa tal tecnologia está em todo canto, fazendo tudo o que pode para que nos sintamos mais inúteis do que realmente somos. Mais um pouco e nossa musculatura servirá apenas para embelezamento estético de machos ou nem tanto. Nas mulheres, não mais serão necessários músculos. Nunca foram muito úteis no mundo feminino e mesmo os que apresentavam alguma importância estão sendo substituídos por próteses de silicone.

Aliás, as coisas andam cada vez mais artificiais por aqui. Tudo indica que os humanos ocidentais odeiam com uma intensidade inaudita o corpo e tudo aquilo que aparenta ser natural. Formas arredondadas? Fuja disso. Gravidez? Não, obrigado. Envelhecimento? Rugas? De jeito nenhum! O ciclo natural não pode seguir seu curso.

A única naturalidade que conhecemos é a artificialidade da cultura, que faz com que ajamos “naturalmente”, como autômatos individualizados. Aí, surge a “vida sem vida” de Slavoj Zizek, uma forma de viver meio defunta que faz uso de expedientes que tentam eliminar todo e qualquer risco ou consequência natural dos atos naturais. Assim, se “naturalmente” beber cerveja causaria embriaguez, criou-se a cerveja sem álcool. Você bebe, se mantém saudável e evita o vexame natural do porre. Também há o café sem cafeína, para evitar os males desse elemento componente fundamental do café e de outras bebidas. Jamais tomei café tão sem graça.

O natural é maldito, elimine-o. E a camisinha de vênus, a já popular camisinha? Trata-se, sem dúvida, do maior exemplo de vida sem vida e de empresariamento de atos naturais. É como comer bala com papel, uma merda. E nem todas as justificativas saudáveis do mundo para o uso desse invólucro emborrachado conseguirão desmentir essa verdade. Não quer pegar doença sexualmente transmissível? Selecione com quem trepa, em primeiro lugar. Se isso não acontecer, naturalmente você vai morrer, com ou sem camisinha.

Com relação à ecologia, tema obsessivamente tratado nos dias de hoje, concluo que deve haver nos humanos uma nostalgia dolente dos tempos de macaquices (ainda bem que ainda não há advogados símios, senão essa referência desairosa ao passado poderia render um processo judicial), pois se fala o tempo todo de natureza, preservação dos animais e florestas etc. É evidente que, como sempre por aqui, quando se fala muito de algo, com certeza não é à vera e, não raro, isso que é falado simplesmente não existe. Ecológico, para um bom entendedor, é meia palavra que significa “negócios”. Cada vez que se fala em evitar o corte de uma árvore, que se salva uma baleia ou tartaruga ou que o Greenpeace faz das suas midiaticamente espetaculares peripécias, pode ter certeza que alguém está ganhando com isso. E aposto que quem está faturando não fecha a torneira quando escova os dentes.

Mas, comecei falando do piso inteligente e fui mais longe, quem sabe mais que o necessário. Essas coisas inteligentes estão, verdade seja dita, me deixando irritado. Veja os produtos da Microsoft, que, a cada vez que são relançados com novo número e novas supostas vantagens, vêm piores, exatamente porque trabalham com a noção estúpida de que sabem o que você quer, certamente mais do que você mesmo. O conjunto de softwares que compõem o Office são exemplos fatídicos. Você digita algo, no word, por exemplo, formata e tudo, mas o maldito programa acha que é muito íntimo seu e vai transformando o que você fez naquilo que ele acha que você queria ter feito. Não foi à toa, penso, que um dos poucos livros que foram defenestrados da minha biblioteca foi o do suposto criador do Windows, você sabe quem. Li o primeiro capítulo e, chegou. Um lixo narcísico que não merece ocupar espaço numa estante.

De todo modo, olhe onde pisa, porque o piso inteligente pode impedir você de entrar em casa, se houver algum problema ou defeito, ou, é claro, se for programado para isso. Ao contrário do que se supõe, não se consegue segurança com toda essa tecnologia de controle. Isso funciona ao contrário e a insegurança generalizada é o resultado. Ora, o inseguro é um bom consumidor, um grande defensor da simulação de ecologia promovida pelas empresas e das políticas fascistóides de segurança pública (pois teme tudo, principalmente a natureza e a polícia e, como mostrou Anna Freud, uma das melhores formas de apaziguar um agressor é se identificar com ele). Além disso, se caracteriza por ser um cidadão respeitador das mais absurdas leis. Vive querendo segurança máxima e aceita qualquer coisa se alguém lhe oferece isso. Qualquer coisa, até mesmo viver sem viver.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Nem uma mão invisível pode misturar o liberalismo e a democracia


Alguém precisa pôr um hardware desse na mão invisível
Há uma contradição fundamental entre a doutrina liberal e a democracia. Geralmente, com bom senso, seria impossível relacionar uma à outra. No entanto, estranhamente, hoje a maioria das pessoas confunde as duas, como se fossem visceralmente unidas. Tem algo errado aí, é claro que tem.

A contradição básica é simples e direta: a democracia intenta a distribuição do poder, enquanto o liberalismo almeja limitá-lo, concentrá-lo. Como se pode confundir duas vertentes com objetivos e metas tão diametralmente opostos? A resposta parece também simples e direta: nem todos confundem. Parece que os que conhecem uma coisa e outra, só o podem fazer por interesses ou má-fé. De todo modo, há que considerar que, como diz a máxima dos administradores de empresas, o impossível era impossível até que alguém foi lá e fez. Logo, isso nos faz pensar num terceiro grupo, o dos que acreditam que juntar o inconciliável é uma tarefa atraente e viável.

Na verdade, o liberalismo não admite a democracia e esta também não pode conviver com a lógica liberal. O único modelo democrático aceito pelos liberais é o da democracia representativa, sendo que, com a despolitização liberalizadora, se resume a eleições de dois em dois ou de quatro em quatro anos. Fora isso, política é anátema.

Norberto Bobbio reconhece que o liberal somente admite a democracia na sua formalidade, nunca na sua pretensão de distribuição de poder. Ou seja, da democracia, o liberal só quer a casca. Em termos mais precisos, vende a casca dizendo que é a fruta.

A partir do belo e metafísico ideário liberal, que inclui até mesmo uma mão invisível, há espaço privilegiado para o desenvolvimento de quadrilhas reais, não invisíveis, que se locupletam da completa liberdade. Cá para nós, para essa proposta metafísica ser levada a sério, fundamental seria, quando de sua instalação, se os pontos fossem zerados, ou seja, se todos partissem do mesmo ponto na competição. Como isso não é possível, não funciona. Ou melhor: funciona, mas gera, em si, mesmo uma péssima distribuição de rendas e, além disso, um câncer incurável, o banditismo econômico: bem mais safo, eficiente e letal do que o banditismo que te espeta com uma faca. E essa forma de bandidagem é vermicular ao capitalismo liberal. Mais que isso, é estrutural.

A verdade é que o que o bom liberal não conta é que se a política é suja e corrompida na sociedade liberal, isso ocorre por conta do empresariado corruptor, que obedece aos ditames da maximização do lucro e tudo faz para conseguir seus intentos. Mas, no entanto, a imprensa liberal e os tolos só enxergam os corrompidos, os políticos com mandato, como se neles estivesse o mal, como se eles se corrompessem a si próprios ou que os recursos públicos dispendidos em seus salários e manutenção de gabinetes fosse o grande problema a ser atacado. Bullshit.

E tudo acontece sob a benção do mercado, o Deus Todo Poderoso do liberalismo, ou o Diabo Todo Poderoso, não está claro.

O Partido de Wall Street


Há uma espécie de “Partido de Wall Street” (PWS) que controlou a sociedade ocidental na maior parte do século XX e adentrou este com a mesma volúpia de poder. Domina o governo da locomotiva política, militar e econômica, os Estados Unidos da América, manda no Congresso, graças à corrupção de políticos amantes do poder do dinheiro e ansiosos por ter acesso à grande mídia, que pertence ao PWS (não é aliada, pertence a, que fique claro).

Mas não é só a mídia e os políticos venais que estariam no bolso dos banqueiros. Boa parte do esqueleto do aparelho estatal (falo do estatal, não do governamental, ou seja, servidores públicos estáveis em todos os níveis, não os prefeitos, governadores, deputados ou senadores, que são passageiros) é controlado e, hoje, existe apenas para atender direta e expressamente as necessidades e demandas do PWS.

Na verdade, todo aquele, civil, militar, cidadão, consumidor, mandatário ou mendigo, que orienta sua vida em função do valor e do poder do dinheiro, ajoelha diante do touro que orna a sede do PWS, comunga na mesma cartilha, rende homenagens e, quando possível, se estatela em decúbito ventral para acarpetar o caminho dos chefes. Não se sente como a carne que se mói para alimentar a máquina, mas como sócio, embora na sociedade em questão fique primordialmente com as contas a pagar.

O objetivo é centralizar o máximo possível o poder, projetando um fluxo de concentração da circulação do dinheiro para um duto apenas. O duto que leva o fluxo para onde interessa ao PWS, ou seja, seus cofres, até porque falo de dinheiro de verdade, não de crédito ou aquele virtual que forma a bolha financeira. O PWS não se interessa pelo dinheiro virtual, não o quer, pois sabe que de nada vale, pois não existe. O que lhe interessa é o real, o que pode ser referido ao ouro, o que tem lastro.

Da mesma forma, o mesmo interesse que o PWS demonstra pelo dinheiro, também exibe pelos recursos naturais do planeta. Por isso, não se iluda, você deve poupar energia, água, manter as cidades limpas e preservar os recursos naturais que serão herdados pelos adeptos do PWS. Sua ação ecológica é fundamental para isso. Não se esqueça que você é um sócio dos banqueiros: eles entram com o bônus, você com o ônus. E, mais, faça como eles dizem – pense globalmente, aja localmente –, mas não se iluda: eles pensam localmente e agem globalmente.

Mais, ainda: você é supérfluo, quase ecologicamente dispensável. Afinal, a lei do PWS é a de Darwin e você não vá pensar que é o mais forte de que a tal lei fala.

Muito do que escrevi acima vem de uma reflexão que tenho desenvolvido há bastante tempo e que encontra eco em algumas boas referências em outros pensadores. Um deles é David Harvey, um geógrafo marxista que vem dizendo coisas interessantes ultimamente. Uma delas diz respeito à noção de que toda a realidade pesada e injusta que permeia a vida social no ocidente não vem de ganâncias individualizadas ou abusos – embora ele mesmo reconheça que isso existe às toneladas. É mais uma formulação que se estabeleceu “por meio da vontade coletiva de uma classe capitalista instigada pelas leis coercivas da competição”. Isso torna a situação um tanto grave e revoltante: “Se meu grupo de pressão gasta menos do que o seu, então receberei menos favores. Se esse departamento gasta para atender às necessidades das pessoas, então se torna menos competitivo”. Ou seja, o sistema é fechado e só enxerga o próprio umbigo. Os outros, o mundo em volta, que se foda. Não há horizonte ético possível, a não ser o da razão cínica, absolutamente aética. É guerra e vale tudo.

Não sei com certeza, mas creio ter sido Benjamin Constant que comparou o comércio e a guerra. Ambos são modos diferentes de conseguir a mesma coisa: a posse do que se deseja.

domingo, 1 de abril de 2012

Os míticos direitos humanos



Rousseau

O liberalismo estabelece sua base ideológica fundamental ao inventar os direitos humanos. Esses tais direitos, como se sabe, estão relacionados à natureza humana e, assim, são de importância prévia a todo e qualquer arranjo social. Jean-Jacques Rousseau estabeleceu a existência desse estágio prévio à socialização, uma espécie de reino dourado que o humano abandona ao se associar, quando passa a corromper e ser corrompido. Os primeiros pensadores liberais, como Rousseau e John Locke, trabalhavam com esse vácuo de socialização, no qual o homem seria essencialmente bom e que a sociedade deveria respeitar e conservar livre de sanções e pressões.

Esse arranjo ideológico tem seu fundamento na resistência ao poder absolutista do rei, que deveria se limitar apenas ao lado “civilizado” do ser humano, deixando livre aqueles aspectos naturais que há nele. Se pensarmos que o poder real era absoluto, soberano sobre a vida e a morte de cada súdito, bem se pode entender que foi bem engenhoso o arranjo, conseguindo estabelecer, paulatinamente, uma pressão no sentido de limitar essa força que pairava acima do bem e do mal. Isso indica que todo o conjunto de discursos que tinham como alvo a liberação do homem eram, no fim das contas, falas que propugnavam uma nova forma de ordenação social, adotando um novo modelo que ficou conhecido como burguês.
Os direitos humanos se fundam em uma proposição de elevação do indivíduo a uma espécie de deidade relacionada àquela idade mítica do congraçamento natural, quando todos seriam iguais, absoluta e completamente iguais, com as mesmas potencialidades e irmanados pela liberdade em relação a intervenções reais ou estatais
Se o poder real passa a ter limites, fala-se, então, de um pacto estabelecido entre o rei e o súdito, que, a partir de então, não dedica mais vida e morte ao soberano. Ele tem, assim, autonomia e o pacto se funda na troca na qual o súdito presta obediência ao poder real e, em troca disso, recebe proteção e segurança. A obediência, porém, não é mais irrestrita. Fica estabelecida, desse modo, a sociedade política, livre de despotismo, qualquer que seja (ao menos assim se enuncia e define). É disso que se fala quando o assunto é contrato social, negociação, pactuação etc. Ou é disso que se pretende falar.

Locke

A doutrina dos direitos humanos está vinculada ao que se convencionou chamar de jusnaturalismo, ou justiça natural. Curiosamente, essa corrente trabalha com a noção de um contratualismo, ou seja, uma doutrina que compreende as relações sociais como moderadas e mediadas por um contrato entre as partes. A sociedade seria, assim, um meio do humano viabilizar satisfação, um veículo a nosso serviço para consigamos a realização de nossa humanidade mais profunda, a alcançada pela noção de direitos humanos, direitos fundamentais etc. Para que esse meio seja efetivado em sua ação, se estabelece um pacto entre o indivíduo e a sociedade política. Esta cobra esforços no sentido de sua manutenção ordeira e aquele cobra que esta lhe garanta a vida, lhe abra caminhos para sua realização pessoal, não atrapalhe a sua felicidade e lhe assegure liberdade em relação aos irrestritos poderes do rei ou do Estado.
No arranjo social liberal, restam os robôs naturalizados e o potencial humano, no fim das contas, só se realiza ao não se realizar: deve permanecer oculto, silencioso, agindo nas sombras da vida privada
O Estado deve estar a serviço do indivíduo, não o contrário. O Estado existe para promover o progresso humano, não o oposto. Nobres ideias, nobres palavras, bela proposta. Os direitos humanos se fundam em uma proposição de elevação do indivíduo a uma espécie de deidade relacionada àquela idade mítica do congraçamento natural, quando todos seriam iguais, absoluta e completamente iguais, com as mesmas potencialidades e irmanados pela liberdade em relação a intervenções reais ou estatais. Todo indivíduo traria em si uma espécie de pan, a deidade campestre. De certo modo, a diferença fundamental entre o liberalismo e a democracia está vinculada ao que fazer com esse exuberante deus. O democrata quer levá-lo à agora; o liberal quer protegê-lo dela, como se pode depreender da diferenciação proposta por Benjamin Constant.

Para Constant, na democracia o sujeito concebia a liberdade como a sua possibilidade de participar dos destinos da comunidade, enquanto que no liberalismo o indivíduo rei a entendia como a possibilidade de permanecer oculto e anônimo, ou até mesmo em oposição, frente ao estatal e ao comunitário. Liberdade positiva e liberdade negativa, respectivamente.

O homem estava decifrado, era um autômato a serviço da natureza mítica, que lhe ditava o desejo pela vida, liberdade, segurança e felicidade, pressupostos fundamentais que o poder estatal deveria não apenas evitar tocar, deveria valorizar e promover. Afinal, as leis relativas ao direito à vida, liberdade, segurança e felicidade não são ditadas pela vontade humana, estão para além dela, veja só. Na verdade, os direitos humanos não são humanos, estão distantes disso. São elementos de um discurso mitológico, no qual o homem, ser eminentemente social, está fora.

No arranjo social liberal, restam os robôs naturalizados e o potencial humano, no fim das contas, só se realiza ao não se realizar: deve permanecer oculto, silencioso, agindo nas sombras da vida privada. Vícios privados, benefícios públicos, reza a cartilha dos liberais. Ordem das máscaras, caricatura de uma sociedade humana, na qual tudo é especular e o dito é sempre o não dito.